sábado, 14 de julho de 2007

Razão e Raciocínio

A leitura e o trabalho de comentar a obra do Alfredo foi interessante e proveitosa porque mexeu com meu baú de memórias e me fez rever meus conceitos e preconceitos. Agora que eu estou ‘do outro lado’ desse mundo ateu e sou mais um ‘iludido’, eu vejo como exageramos quando criticamos nossos vizinhos. Não parece nada ‘lógico’, mas é exatamente isto. Cada um em seu quintal falando dos defeitos dos outros e não percebendo esses mesmos defeitos em nossa casa. Em uma esquina, temos as muitas casas dos Cristãos e lá também vociferam que eles sabem e tem a verdade e fora daquele cercado só existe mentira e engano. Em outra esquina, temos as muitas casas dos Ateus que também adoram pechar todos os demais de burros e ignorantes. Nos verdes prados sagrados dos Pagãos, não poderia ser diferente, temos que lutar contra os Cristãos, os Islâmicos, os Judeus e os Ateus. Existem lutas até entre nós, pois o ser humano sempre interpretará um texto da forma que lhe convém e opiniões adversas sempre serão tomadas como ofensas pessoais.
O que é então afinal a razão e o raciocínio? Aqui eu tentarei explicar o lado dos processos mentais e psicológicos que produzem o raciocínio e conduzem a razão que concede ao que se fala ou a quem o diz esse atributo de verdade tão desejado e propalado.
O raciocínio é uma característica natural de nossa espécie que pode ser encontrada alguns sinais em outras, mas a nossa produz uma manifestação maior e mais extensa da presença desse raciocínio. Este processo mental não opera de forma constante e igual para todos os indivíduos, pode ser extremamente desenvolvido em alguns e totalmente prejudicado em outros. Mesmo um louco internado no hospício raciocina e, dentro de sua loucura, há lógica em seu pensamento. Mesmo um indivíduo considerado como gênio dentro de um campo irá soar como louco para pessoas comuns. O meio termo é um campo extenso e cinza, chamado de senso comum, permeado pela mediocridade, vulgaridade, banalidade e ingenuidade. Raros indivíduos conseguem pensar além destes pequenos círculos de conhecimento humano, destes conjuntos limitados que compõe a cultura popular, mas isto não concede a estes qualquer privilégio, a informação e o raciocínio estão a disposição de todos.
Quando uma pessoa consegue usar plenamente o raciocínio, ele ou ela conquista uma espécie de iluminação, se os ateus me perdoam o termo místico, que lhe permite um vislumbre mais amplo do conjunto dos conhecimentos humanos e consegue ter opiniões mais abrangentes, uma perspectiva mais extensa da realidade, muito embora esteja longe de chegar à Verdade. Mas não nos enganemos, não há uma Verdade, toda verdade depende da existência de outras verdades, comprovações, comparações e fundamentações.
Para produzirmos esse processo mental chamado raciocínio é fundamental procurar várias fontes de informações e recursos para compararmos estas informações. Ao realizar esse processo, é importante evitar certos erros na metodologia:
Generalização: partir de informações básicas sobre algum assunto e os toma como regra para tudo que se refere a tal assunto.
Simplificação: partir de preconceitos próprios para analisar um assunto, sem buscar informações ou dados que embasem o argumento oferecido.
Reducionismo: partir de informações truncadas ou incompletas para juntar ou aglutinar em um mesmo conceito assuntos díspares.
Hiperbolismo: partir de dados subjetivos, infundados ou incomprovados para sustentar um argumento visivelmente tendencioso.
Superficialismo: partir de opiniões ou dados obtidos pelos métodos acima para produzir uma visão desprovida de conhecimento sobre o assunto, mas dando a esta visão o caráter de veracidade.
Em contraparte, devem ser estimulados:
Comparação: buscar diversas fontes de informação para conferir e certificar os dados e as opiniões obtidos.
Inversão: tomar um dado ou opinião e verificar se seu inverso é verídico ou se por na posição da pessoa criticada.
Ampliação: esmiuçar dados e opiniões para que nos detalhes possam ser percebidos os erros de raciocínio.
Contextualização: colocar todo dado ou opinião em seu devido campo ou época ou cultura.
Contrastação: ouvir opiniões contrárias ou controversas para testar todas as possibilidades e visões sobre o assunto.
Qualquer um munido de recursos consegue desenvolver um raciocínio, mas isto não é suficiente para se ter razão. A razão é algo que se conquista com o raciocínio bem elaborado, através de um argumento consistente e coerente uma pessoa demonstra que tem razão sobre determinado assunto ou questão específica colocada em debate em um diálogo. Aqui começa a parte mais interessante e dinâmica do ser humano que é o enfrentamento de visões e o choque de opiniões. Neste embate de mentes, não é o importante vencer, mas que prevaleça o bom senso, que é a somatória dos conhecimentos humanos. Não é quem melhor argumenta quem se sobrepõe em um debate, mas o conhecimento adquirido e melhor utilizado. A razão é como a verdade, não existe solitária, mas solidamente fundamentada pelo conhecimento que outros puderam comprovar e demonstrar ao longo do tempo. Não é a inteligência nem a velocidade de associar idéias que fazem o raciocínio, essas qualidades são o presente dos Deuses para nós, na esperança que façamos bom uso delas. Nós nos orgulhamos em nos considerar mais evoluídos por nossa inteligência, mas a única diferença que temos com os demais seres vivos é que nós somos mais barulhentos.

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