interseccionalidade é um conceito das ciências sociais que se dedica a analisar como diferentes marcadores sociais atravessam a vida de grupos minorizados. A partir dessa perspectiva, é possível compreender que a sociedade é estruturada por múltiplos sistemas de opressão, como os de raça ou etnia, classe social, capacidade física e território, que se articulam e se sobrepõem, revelando a inseparabilidade entre racismo, sexismo e estruturas patriarcais na produção de desigualdades.
Publicado em 1989, o artigo “Desmarginalizando a intersecção de raça e sexo: uma crítica feminista negra da doutrina antidiscriminação, teoria feminista e política antirracista”, da pesquisadora norte-americana Kimberlé Crenshaw, é considerado um marco na formulação do conceito de interseccionalidade. O texto é um dos primeiros a empregar o termo “intersecção” para explicar como diferentes formas de discriminação atuam de maneira combinada. O racismo, o patriarcalismo e a opressão de classe são sistemas distintos, mas que frequentemente se articulam, formando interseções complexas nas quais dois ou mais eixos de desigualdade se cruzam simultaneamente.
A autora parte de um processo judicial movido por mulheres negras contra a General Motors, acusada de práticas discriminatórias. A ação foi rejeitada sob o argumento de que a empresa empregava homens negros e mulheres brancas, o que afastaria a caracterização de racismo ou sexismo. A decisão ignorou, no entanto, que homens negros estavam concentrados na linha de produção, enquanto mulheres brancas ocupavam cargos administrativos. Para Crenshaw, o caso evidencia a impossibilidade de analisar opressões de forma isolada, sem considerar seus cruzamentos.
Ferramenta metodológica
No Brasil, Carla Akotirene argumenta em seu livro que, embora o artigo de Kimberlé Crenshaw seja fundamental para a consolidação do conceito, análises semelhantes já vinham sendo desenvolvidas por diferentes autoras e movimentos, especialmente por mulheres do Sul Global. Entre os exemplos citados está Lélia Gonzalez, que em Racismo e sexismo na cultura brasileira (1984) formula o conceito de amefricanidade e destaca o papel do colonialismo, elemento presente nas análises que hoje se reconhecem como interseccionais, ainda que o termo não fosse utilizado à época.
Outras autoras também passaram a contribuir para o desenvolvimento da teoria da interseccionalidade. Entre as pesquisadoras e pensadoras mais conhecidas mundialmente estão Audre Lorde, bell hooks, Patricia Hill Collins, Avtar Brah e Angela Davis.
No livro lançado em 2018 pela coleção Feminismos Plurais, Akotirene apresenta uma revisão teórica da interseccionalidade, abordando sua origem, suas diferentes abordagens analíticas e as críticas ao uso do conceito de maneira distanciada de sua proposta inicial, mas como aporte metodológico. Diz:
“A interseccionalidade pode ajudar a enxergarmos as opressões e combatê-las, reconhecendo que algumas opressões são mais dolorosas. E que às vezes somos oprimidos, mas às vezes somos opressores”
Embora tenha sido mais aplicada às experiências sociais das mulheres, o conceito ampliou seu alcance. Hoje, é utilizado por diferentes movimentos antirracistas, feministas e organizações de Direitos Humanos, incorporando outros marcadores sociais invisíveis nas estruturas que sustentam preconceitos e violências.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/o-que-e-interseccionalidade/
Nenhum comentário:
Postar um comentário