segunda-feira, 7 de março de 2022

Nossa Senhora Amy Winehouse

Vejo muita gente sinceramente consternada com a morte de Amy Winehouse. Isso me parece bom e justo. Por outro lado, vejo algumas pessoas debochando da cantora por causa das drogas, do álcool, por causa da paixão obsessiva pelo namorado, transformado em marido secretamente, e por aí vai.
Não consigo evitar a ideia de que as pessoas que se refastelam em críticas, deboches e piadas sobre a cantora (nenhuma delas, porém, reconhecida por algum brilhantismo ou genialidade) alimentam sua própria ilusão de grandeza ou nobreza através do tripúdio sobre alguém, de fato especial, como Amy Winehouse.
Quando vejo os documentários sobre ela (isso é o mais perto a que posso chegar - ainda que muito distante - de sua realidade), penso que Amy era muito mais desprendida do que a maioria dos considerados "santos". Com todo o dinheiro que ganhou, nunca realmente se deslumbrou com isso. Nunca posou de riquinha. Nunca pretendeu ditar moda para ninguém. Nunca disse a ninguém o que deveriam fazer ou deixar de fazer. Ela apenas viveu como quis: cantado, sofrendo de amor, cantando o sofrimento desse amor, e se anestesiando com as drogas e o álcool para suportar a dor de viver essa dor.
Amy já tinha dito que queria morrer jovem. E morreu.
Tem gente que fica chocada, mas o que é a vida, senão nascimento, morte e alguma diversão no intervalo? Quando a dor se torna insuportável, para quê continuar vivendo? Talvez essa tenha sido a mais corajosa conclusão a que Amy Winehouse tenha chegado. E talvez seja por isso que tantos procuram se distanciar dela por meio da crítica e do deboche: Têm medo de que a loucura que lhe atribuem esteja coberta de razão. Eles têm medo da vertigem. Têm medo de se sentirem compelidos a pular também; saltar para o nada.
Isso, a meu ver, torna essas pessoas ainda mais miseravelmente desesperadas. Amy não demonstrava desespero. Sofrimento, sim. Desespero, não. Já esses santarrões do moralismo falido, alimentado pela ânsia de viver pra sempre, revelam em cada coisa que dizem um desespero nauseante.
Então, antes de falar de Amy Winehouse e outros românticos como ela, pense no que suas palavras sobre ela vão, na verdade, revelar sobre você mesmo.
E como eu disse no Twitter:
"Se deus existisse, seria realmente muito sacana. Levar a #Amywinehouse e deixar #SilasMalafaia, #Magnomalta, #Joseserra, #Edirmacedo... PQP!"
Aí, vem esses crentes querendo validar a falácia de suas crenças com o realismo da morte. Querem esquentar a falta de vida de suas vidas com a frieza da morte na vida dos outros. Sinceramente, Amy Winehouse nunca fez mal a ninguém, enriqueceu o patrimônio cultural da humanidade com sua voz e composições, conquistou amigos sem prometer nada mundo afora. Enquanto, isso esses pregadores da morte que condenam tudo na vida, prejudicam bilhões de pessoas pelo mundo todo com suas doutrinas pútridas de pecado, juízo e castigo eterno. E se pensam que suas promessas de graça, salvação e paraíso eterno contribuem para a felicidade da humanidade, enganam-se. Basta olhar para a própria vida desses coitados: mera negação, mesmo quando afirmam alguma coisa, esta é - em última instância - a morte.
Por isso, mais vale uma Amy Winehouse que viveu intensamente e morreu aos 27 anos sem prejudicar ninguém do que um Papa como João Paulo II que viveu até os 85 anos de idade, reforçando o preconceito, a homofobia, encobrindo a pedofilia no clero, enriquecendo a igreja ainda mais com a canonização recordista de santos, entre outras coisas. Isso para não mencionar Edir Macedo, Silas Malafaia, George Bush, Sadam Hussein, cada um produzindo desgraças a seu próprio modo. E todos eles, muito religiosos. ;)
Pieguismo religioso não me impressiona. O talento e a autenticidade de Amy Winehouse, sim.
O que não significa que eu considere o álcool ou as drogas como hábitos aconselháveis. Prefiro ser saudável, mas isso não me torna melhor do que ninguém. Pelo contrário, alguns usuários de drogas são melhores do que eu e a maior parte da humanidade juntos. Isso, porque não são bons graças às drogas, mas apesar delas.
Enquanto isso, a maioria de nós vai passar pela vida sem deixar rastros, esquecidos por nunca termos feito outra coisa que não consumir - o que até aos porcos no chiqueiro não exige nenhum esforço ou talento.
Genialidade, brilhantismo, inovação nos diversos campos de conhecimento humano, isso é fantástico! Transformar a realidade para melhor, isso é tremendo! E isso não pode ser feito por quem é mero expectador e crítico da vida alheia.
Amy, adoraria que você pudesse me ouvir. Se pudesse, eu diria:
Thanks for singing, dear! Keep on, sweetheart!
Fonte: Fora do Armário. Original perdido.
Nota [de pesar] da casa: A Amy viveu [e morreu] exatamente por que teve a coragem e as bolas [peitos? };)] de viver a vida dela nos termos que ela se fixou.
Infelizmente para nós, que não ouviremos [exceto em homenagens ou obras póstumas] mais sua voz e sua música. Infelizmente para seus fãs homens, que nunca mais poderão fantasiar em "fazer música" com ela.
Mas eu prefiro uma Amy Winehouse, bêbada, maravilhosa, do que um milhão de Anders Behring. Eu prefiro ouvir um espetáculo de uma Amy Winehouse do que ter que aguentar o discurso doutrinário totalitarista de um Joseph Ratzinger. Eu prefiro perder-me em silenciosa adoração a uma Amy Winehouse do que a um milhão de Cristos. Repostado. Texto originalmente publicado em 24/07/2011, resgatado com o Wayback Machine.

sábado, 5 de março de 2022

O revisionismo histórico da Igreja

Não é de hoje, mas desde a Idade Moderna a Igreja e seus acólitos tem feito um verdadeiro revisionismo histórico para explicar, justificar, encobrir ou negar os inúmeros crimes cometidos em nome do Deus Cristão.
O exemplo mais recente foi a reação contra o filme "Ágora" onde se conta [nos moldes da sétima arte, ou seja, não espere exatidão histórica] a história de Hipátia e de seu assassinato e a destruição do Serapeu de Alexandria e de sua biblioteca.
Vejamos a reação [traduzida no blog Sentir com a Igreja]:

"Acabei de ver o novo filme Ágora , que é uma recontagem da história de Hipátia, a brilhante mulher filósofa de Alexandria que foi morta, supostamente, por uma multidão de "cristãos", no ano 415."
"[...]de fato Hipátia foi  uma filósofa e de fato foi morta por uma multidão em 415, mas praticamente tudo o mais sobre a história que Gibbon, Sagan e Amenabar dizem é falso.
A biblioteca de Alexandria foi queimada até o chão, não por uma turba cristã no século V, mas pelas tropas de Júlio César, cerca de quarenta anos antes de Jesus nascer."

FATO HISTÓRICO:
"Esta teoria está hoje abandonada. Na altura em que César mandou incendiar os navios do porto, terão ardido simplesmente mercadorias, armazéns, e pacotes de livros que estavam no cais para serem transportados para Roma.
A Biblioteca e o Museu terão sido realmente incendiados, juntamente com o Bruquion, em 273 da era cristã, na época do imperador Aureliano, durante a guerra com a princesa Zenóbia. Depois deste acontecimento, a biblioteca foi reconstruída num Museu mais uma vez renovado.
Em 642 d.C., data em que os árabes ocuparam a cidade, não é possível dizer se a Biblioteca e o Museu ainda existiam na sua forma clássica. Pensa-se que terá sido nesta época que os livros da biblioteca terão sido destruídos."

"Um templo ao deus Serápis, chamado Sarapião, foi construído no local da antiga biblioteca (e pode ter havido alguns pergaminhos nele no século V), e foi este edifício que foi destruído por um grupo de cristãos enfurecidos na época de Hipátia, em resposta às contaminações pagãs de casas de culto cristão."

FATO HISTÓRICO:
"O reinado de Teodósio marca o auge de um processo de transformação do Cristianismo, que efetivamente se torna a religião oficial do estado. Em 391, atendendo pedido do então Patriarca de Alexandria, Teófilo, ele autorizou a destruição do Templo de Serápis[...]"
"Em 391 d.C., o famoso templo de Serápis (ornamentado com mármores, ouro e alabastro de primeira qualidade) que também possuía uma biblioteca, foi destruído a mando do Patriarca cristão Teófilo que dirigiu um ataque aos templos pagãos. Todo o bairro onde se situava o templo, Rhaotis, foi então incendiado."
Ou seja, o templo de Serápis e demais templos pagãos estavam em seu lugar de origem. Os templos invasores e estrangeiros eram os dos cristãos.

"Não só havia cristãos nas aulas de Hipátia, não só havia bispos cristãos entre seu círculo de amigos, mas havia também teólogos cristãos - Agostinho, Ambrósio e Orígenes, só para citar os mais proeminentes -  e eles eram entusiastas defensores do neo-platonismo."
Fontes, por favor? A existência de "amigos cristãos" não explica nem desculpa a violência. Aliás, onde estavam estes "amigos"? Cristãos são amigos da onça. Curiosamente os cristãos chegam a negar que o neoplatonismo influenciou a filosofia doutrinária da Igreja, quando os lembro que o neoplatonismo era pagão. O que me faz lembrar da constante atenção seletiva com que os cristãos que aqui comentam, sempre se valendo de autores, livros e textos escandalosamente pró-Igreja.
Caros diletos e eventuais leitores, lamento, mas este blog e seu autor dará preferência a autores, livros e textos, se não pró-pagão, ao menos que sejam pró-verdade.
Fontes perdidas. Repostado. Texto originalmente publicado em 29/07/2011, resgatado com o Wayback Machine.

sexta-feira, 4 de março de 2022

A Marcha da Homofobia

Temas como legalização da maconha e criminalização da homofobia também pautaram evento, que levou ao menos 1 milhão às ruas em SP.
Autor: Ricardo Galhardo, iG São Paulo.
A 19ª edição da Marcha para Jesus, uma das maiores manifestações religiosas do planeta, se transformou em um ato de afronta ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ameaças aos políticos por parte de lideranças evangélicas. Apesar dos esforços dos organizadores para restringir o enfoque a temas religiosos, assuntos como a união civil de pessoas do mesmo sexo, homofobia e legalização da maconha acabaram dominando os discursos de alguns líderes religiosos.
"A marcha não deixa de ser um ato político", resumiu o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), ligado a Igreja Universal do Reino de Deus. O discurso mais radical foi do pastor Silas Malafaia. Com palavreado vulgar, usando termos como "otário" e "lixo moral", Malafaia atacou duramente a decisão do STF de legalizar a união estável entre pessoas do mesmo sexo. "O STF rasgou a Constituição que, no artigo 226, parágrafo 3º, diz claramente que união estável é entre um homem do gênero masculino e uma mulher do gênero feminino. União homossexual uma vírgula", disse o pastor.
Na sequência, Malafaia passou a atacar a decisão do STF de liberar as marchas da maconha no Brasil.
"Amanhã se alguém quiser fazer uma marcha em favor da pedofilia, do crack ou da cocaína vai poder fazer. Nós, em nome de Deus, dizemos não."
A multidão, estimada pela Polícia Militar em 1 milhão de pessoas - e pelos organizadores em 5 milhões -  foi ao delírio e respondeu com gritos de "não, não" com os braços levantados para o céu.
Malafaia ameaçou orientar seus fiéis a não votarem em parlamentares que defendem o Projeto de Lei 122/2006, que criminaliza a homofobia no País. "Ninguém aqui vai pagar de otário, de crente, não. Se for contra a família não vai ter o nosso voto", ameaçou.
O pastor defendeu a desobediência por parte de pastores caso o PL 122 seja aprovado. "Eles querem aprovar uma lei para dizer que a Bíblia é um livro homofóbico e botar uma mordaça em nossa boca. Se aprovarem o PL 122 no mesmo dia, na mesma hora, tudo quando é pastor vai pregar contra a prática homossexual. Quero ver onde vai ter cadeia para botar tanto pastor."
'Lixo moral'
Malafaia classificou como "lixo moral" as pessoas que questionam a interferência das igrejas em assuntos do governo e, embora tenha dito que não tem objetivo de instaurar um estado evangélico no Brasil, "os países mais práticos e as democracias mais evoluídas do mundo tem origem no protestantismo".
Já Crivella adotou um tom mais ameno em relação aos direitos civis dos homossexuais, mas foi duro em relação ao STF que, segundo ele, está agindo politicamente e se imiscuindo em temas que dizem respeito ao Legislativo. "O Congresso tem que se levantar contra o ativismo político do STF. Só o Congresso pode detê-los", afirmou o senador.
A contrariedade maior de Crivella é em relação ao ministro Ayres Brito. "Fui o relator do processo de aprovação do Ayres Britto no Senado e na época alguns colegas me alertaram que ele tem pretensões políticas mas não dei ouvidos. Ele foi candidato a deputado pelo PT de Sergipe e não foi eleito. Agora quer se vingar do povo sergipano e levar na mão grande", acusou. Segundo ele, o Congresso trabalha em um projeto de lei que contemple tanto os direitos civis gays quanto os dos pastores evangélicos de pregarem contra a prática homossexual. "O que não pode é querer fazer na marra. Aí desencadeia reações radicais como a que vimos agora a pouco", disse ele, em referência a Malafaia.
O apóstolo Estevam Hernandes, da Igreja Renascer, organizador da marcha, reafirmou o caráter estritamente religioso do evento e disse que manifestações como as de Malafaia e Crivela são opiniões pessoais. Apesar disso, admitiu ser contra o "casamento gay" e a liberação da maconha. Questionado por um repórter sobre o qual fator pesa mais na desagregação da família, o homossexualismo ou o crime de evasão de divisas, pelo qual foi condenado a pena de 140 dias de prisão nos EUA, o apóstolo mudou de assunto.
'A serviço de satanás'
Entre os milhares de pessoas que participaram da marcha, os temas polêmicos também foram os assuntos principais. A reportagem do iG abordou um grupo de oito jovens que veio de Cidade Adhemar para a marcha e perguntou quais as opiniões deles sobre direitos homossexuais, homofobia, aborto e legalização da maconha. Com visual moderno, estilo emo, todos disseram ser contra a união civil de pessoas do mesmo sexo, aborto e legalização das drogas e defenderam os pastores que consideram o homossexualismo uma prática pecaminosa.
"Quem defende o homossexualismo e a maconha está aqui a serviço de Satanás", disse o auxiliar de informática Natanael da Silva Santos, de 19 anos, que foi à marcha usando calça apertada, cinto de taxinhas e a tradicional franja emo. Enquanto a reportagem entrevistava os jovens, a aposentada Jovelina das Cruzes, de 68 anos, ouviu a conversa e fez uma intervenção. "Vocês estão falando sobre o que não conhecem. Meu sobrinho é gay e é um rapaz maravilhoso. Ótimo filho, muito educado, muito honesto e estudioso. Já o meu filho é machão e vive batendo na esposa, não respeita ninguém, não para no emprego."
Quando Jovelina virava as costas para continuar a marcha Natanael, que não se deu por vencido, fez uma observação. "Cuidado, tia. Se o pastor escuta a senhora falando uma coisa dessas ele não deixa mais a senhora entrar na igreja". E Jovelina respondeu. "Igreja é o que não falta por aí. Se me impedirem de ir em uma, vou em outra. Não tem problema."
Fonte: Tosabendo. Original perdido. Repostado. Texto originalmente publicado em 24/06/2011, resgatado com o Wayback Machine.

quinta-feira, 3 de março de 2022

Amor ao próximo: princípio humano

O termo amor, dentro de uma cultura fetichista e individualista como a nossa, perdeu muito seu sentido milenar para tornar-se sinônimo de posse, auto-realização, carência, valor individual, entre outros termos similares. Neste ano de 2011, a Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo definiu como tema "Amai-vos uns aos outros: Basta de homofobia".
O site A Capa, em 8 de fevereiro, fez uma entrevista com alguns ativistas do movimento LGBT para saber deles a opinião sobre este tema. As críticas sustentam-se numa simplificação própria do senso comum, principalmente na confusão que fazem sobre Estado Laico. Mesmo as defesas compartilham com as críticas uma confusão determinante: achar que o tema se refere exclusivamente ao cristianismo.
A primeira confusão é a compreensão do amor como um conceito fundado no Romantismo - Escola Literária do Século XIX. Esta, baseada nas teorias iluministas e do idealismo alemão, delimita o conceito de amor à individualidade. Johhan Gottlieb Fichte, representante desse idealismo, defende o eu absoluto como busca da liberdade e da felicidade. O eu fichtiano é ato puro, pura atividade - só é na medida em que age e porque age. Este eu abstrato e formal faz com que nada apareça com um valor próprio, mas apenas com o que seja conferido pela subjetividade do eu. O amor Romântico constrói-se nessa perspectiva, fundando a individualidade, cujo conceito pauta nossa cultura capitalista. Este amor romântico nada tem que ver com a proposta do tema, pois amar uns aos outros não consiste de uma avaliação subjetiva do eu que se opera socialmente, mas num elemento determinante de coexistência comunitária. O amor, no tema da Parada, pressupõe respeito, tolerância, amizade, bondade, paciência, longanimidade e principalmente concórdia - conceitos fundamentais para uma vida saudável em sociedade.
A segunda confusão é quanto ao que se entende por Estado Laico. Laicidade não significa ausência de discussões religiosas, não significa a falta de direito à livre manifestação da fé por um determinado grupo social. Significa que as leis do Estado não deve ter nenhuma orientação religiosa e também não deve privilegiar nenhuma religião, mas ser Estado para todas as pessoas. A Parada de São Paulo e a Associação que a organiza é movimento social e, portanto, pode dialogar com as culturas populares, inclusive ressignificando seus conceitos como parece ser a proposta do tema de 2011. Embora deva ser um instrumento de luta pela garantia da laicidade, essa luta pode ser feita a partir do diálogo com os valores religiosos, acentuando suas contradições e dialogando a partir deles com o intuito de contribuir para uma reflexão que orienta a opinião pública à defesa dos Direitos Humanos.
Por último, e não menos importante, a maior das confusões comungada por defensores e críticos deste tema é achar que o mesmo se refere unicamente à religião cristã. O amor ao próximo é uma determinante comum que norteia diversas religiões. Podemos ver no Mahabharata, o Bramanismo afirmar como suma de dever: "não faça aos outros nada que poderia causar-lhe dor se feito a você"; No Samyutta Nikaya, o Budismo observa que: "um estado que não seja agradável ou um deleite para mim, como eu poderia causá-lo sobre os outros?"; no Mencius VII, o Confucionismo aconselha: "Tente o seu melhor para tratar os outros como você gostaria de ser tratado, e você vai achar que este é o caminho mais curto para a benevolência"; Silo, humanista argentino, afirma: "Nossa moral se baseia neste princípio: Trate os demais como querem que te tratem"; A mesma orientação encontra-se no Zoroastrismo, em seu Dadistan-i-Dinik: "Aquela natureza só é boa quando não faz ao outro aquilo que não é boa para ela própria". 
Poderíamos citar outras religiões, mas com essas vemos que, apesar de palavras diferentes, o princípio é o mesmo: Amai-vos uns aos outros, tendo como prerrogativa do amor, o respeito, o não querer e não praticar contra o outro aquilo que se feito a nós resultaria como ruim. Desse modo: por mais que nos venham à mente as palavras de Cristo, transcritas por João no capítulo 15 versículo 12, um pouco mais de conhecimento e leitura pode nos remeter também às religiões anteriores e posteriores ao cristianismo, fazendo-nos superar e romper a associação entre fé e religião e entre amor e casamento. Ou como diria Machado de Assis: "Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor. O Diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e amor com casamento".

Dário Neto é diácono da Igreja da Comunidade Metropolitana de São Paulo (ICM) e membro do Conselho Municipal de Atenção à Diversidade Sexual da cidade de São Paulo.
O artigo foi publicado originalmente pelo site A Capa, em 17 de fevereiro de 2011, e está reproduzido aqui com a devida autorização do autor.

Fonte: APOGLBT-SP. Original perdido. Repostado. Texto originalmente publicado em 25/06/2011, resgatado com o Wayback Machine.

quarta-feira, 2 de março de 2022

Fundamentalistas querem apedrejar

Qual o papel da igreja na vida de LGBT religiosos? Foi a partir desta pergunta que o diácono da Igreja da Comunidade Metropolitana de São Paulo, Dario Neto, e o pastor da Comunidade Betel/ICM RJ e da Igreja Presbiteriana da Praia de Botafogo, Márcio Retamero, apontaram os rumos desta delicada relação. O tema "Estado e Religião" fez parte do 9º. Ciclo de Debates, atividade dividida em três mesas de debates, ocorrida no dia 11 de junho (sábado), na Câmara Municipal de São Paulo.
Dario fez uma reflexão sobre a distorção inerente à vivência cristã e ao individualismo capitalista, em prejuízo dos valores comunitários. "As angústias individuais levadas ao ambiente religioso não são entendidas pelo que são, sintomas da ausência de uma vivência comunitária sã", afirmou. Para ele, a vivência cristã num ambiente de competitividade capitalista forja uma relação doentia entre os indivíduos, na medida em que algo só lhes diz respeito se lhes beneficia com lucro.
A partir desta reflexão, não são apenas os LGBT que se confrontam com essa vivência difícil na igreja, mas os heterossexuais também experimentam a exclusão e a subordinação para ter direito à salvação. "Para LGBT é pior, pois a sexualidade está estampada no corpo homossexual, tornando-nos alvos prediletos da exclusão", diz Dario. É preciso reprimir a própria sexualidade para comungar, mas "quando resolve romper, não faz isso para ressignificar sua espiritualidade, mas para negar tudo que viveu".
Dario mostrou que é muito comum a trajetória em que homossexuais acabam negando a igreja para viver sua homossexualidade, criando uma lacuna espiritual que é preenchida, muitas vezes, nos cultos afrobrasileiros como umbanda e candomblé. "O problema é levar para a diversidade politeísta do candomblé a lógica cristã maniqueísta, que entende a pomba gira como uma possessão demoníaca, distorcendo os signos daquela vivência religiosa", alerta Dario.
"Um ex-gay é sempre evangélico fundamentalista, nunca ateu", provoca Dario. Ele mostra que muitos voltam "ex-gays" para a igreja evangélica carregando esse discurso preconceituoso e racista contra o candomblé. Estes casos também são minoritários, mas freqüentes entre homossexuais que retornam à igreja. São pessoas que acabam se casando, tendo filhos, e abandonando-os ou envolvendo-os em sofrimento depois, em meio à descoberta de que o milagre da cura homossexual não ocorre.
Para Dario, as igrejas inclusivas são o espaço de ressignificação da religiosidade a partir do desafio de superação da moralidade vigente nas igrejas, não apenas contra a homossexualidade. "Tornam-se espaços do amar ao outro como a si mesmo, que é a chave do cristianismo, e o estabelecimento de uma relação ética e não moral entre os indivíduos", analisou.
Os últimos apedrejados
Após esta reflexão, o reverendo Retamero contou de sua experiência na igreja inclusiva e suas impressões sobre o que observa nas igrejas tradicionais. Ele observa que a exclusão da igreja se dá sempre em relação à populações mais vulneráveis como judeus, negros, mulheres e homossexuais. Ele relembrou o caso do pastor Marcos Feliciano, deputado paulista que escreveu nas redes sociais que a África é maldita porque os negros são os filhos de Caim. "O pensamento religioso contamina a percepção da realidade com sua cosmogonia", disse o pastor.
Para o pastor, os LGBT são a "última Geni", referindo-se à personagem da canção de Chico Buarque, que a sociedade elegeu para jogar pedra. Da mesma forma que a Bíblia pode ser usada para naturalizar a homofobia, pode justificar o rascimo, o antisemitismo e a misoginia. "No entanto, porque não se levantam esses pastores e deputados para defender o direito à livre expressão contra negros, mulheres e judeus?", desmascarou. Para o reverendo, a resposta mais contundente contra emenda ao PLC 122/2006, que criminaliza a homofobia, veio da comunidade judaica, que recusa qualquer flexibilização dos crimes de calúnia e difamação, preconceito e discriminação étnica, sexual ou racial.
A resposta judaica revela inclusive, que a bancada religiosa não está lá para defender seus direitos, mas para "assaltar o poder", em sua opinião. "O crescimento desta população e de sua influência moral se dá em progressão geométrica", alertou.
O pastor contou que as igrejas inclusivas surgem num contexto de luta política e social, e não apenas LGBT, uma desconstrução de praticamente todos os valores religiosos tradicionais. "O movimento não admite isso, mas a ICM tem sido a linha de frente do combate ao fundamentalismo religioso", declarou o reverendo Retamero, elogiando a "coragem imensa e o senso crítico e de oportunidade" do tema da Parada deste ano: "Amai-vos uns aos outros: Basta de Homofobia!".
"O discurso fundamentalista encontra eco, o nosso não!", lamentou o pastor, explicando que esse discurso é apelativo e performático, nunca neutro, mas demanda uma tomada de atitude do indivíduo. "O discurso da laicidade do estado precisa encontrar uma base de mobilização, por isso acredito na importância da ressignificação que a Parada de São Paulo faz do amai-vos uns aos outros."
O pastor contou casos de famílias que o procuram em busca de apoio espiritual diante do suicídio ou assassinato de seus filhos homossexuais. "Queremos trazer dignidade de novo a essas pessoas tão massacradas pelo discurso de ódio dos fundamentalistas", propôs. Para ele, seu trabalho é desmascarar a "proteção à família" que esses homens pregam. "Que família é essa que eles estão protegendo?", questionou, citando as famílias que recorrem destruídas a seu amparo, após sucumbirem ao discurso excludente de seus pastores. "O que fazem com essas pessoas é um abuso bíblico, um verdadeiro estupro fundamentalista", atacou.
Para ele, os LGBT têm direito a uma prática de fé e sua igreja se propõe a uma nova reforma protestante. "E eles estão ouvindo o nosso discurso, diante do cansaço e do medo que as pessoas estão tendo do fundamentalismo e do projeto de poder de suas igrejas." Para ele, essa é a hora de discutir o fundamentalismo, já que não apenas as classes D e E estão aderindo a isso, mas também as classes médias, segundo pesquisa do Iser publicada por Regina Novaes.
Retamero conclui dizendo de sua opinião sobre o PLC 122/2006. Para ele, trata-se de um projeto natimorto, que só foi buscar dialogar com os religiosos e fundamentalistas quando já havia sido completamente derrotado na sociedade. Em sua opinião, deve virar um arremedo de projeto, tratando como homofobia apenas a agressão física e não a verbal.
Fonte: APOGLBT-SP. Orignal perdido. Repostado. Texto originalmente publicado em 25/06/2011, resgatado com o Wayback Machine.

terça-feira, 1 de março de 2022

O que eu aprendi na crise da Ucrânia

O noticiário que tem dominado o mundo é a invasão da Rússia na Ucrânia. Curiosamente, eu não vi tal reação da comunidade internacional quando os EUA invadiu o Iraque.
O pessoal que é de direita, conservador [a maioria cristã, alguns fundamentalistas], são desavergonhadamente americanófilos, vão explicar e justificar que foi necessário para "combater o extremismo islâmico".
Ora, então deviam aceitar a explicação e justificação que a Rússia dá para invadir a Ucrânia: "para combater o neonazismo". Se fosse esse o caso, ele deveria invadir Belarus. A invasão da Rússia na Ucrânia não pode ser considerado uma reedição do Pogrom, senão as ações de Israel contra a Palestina seriam uma reedição do Apartheid. Evidente que, quando se fala em política internacional, nada é tão simples assim. Há tempos que o muro de Berlim caiu, só gente muito obsoleta ou mal-intencionada ainda reduz as análises políticas para os moldes da Guerra Fria. Também não é pela possível presença da OTAN caso a Ucrânia se torne membro. Putin quer ter o controle do gasoduto. Gasoduto do qual a Europa depende. Dinheiro é o maior motivo para todas as guerras.
Então algo me chama a atenção, afinal, eu tenho algumas postagens falando do paganismo eslavo.
O brasão de armas da Ucrânia e sua origem. Aliás, a origem da Ucrânia, por si mesma.
Mas vamos por partes.
O brasão tem origem na dinastia ruríkida. A Mesma dinastia que deu origem à Rússia.
Um grupo de pessoas de diversas etnias e origens pediram para Vladmir, o Grande, aceitar ser o rei do que foi chamado de Rússia de Kiev. Rus, em seu idioma original, pode tanto se referir à população quanto ao território.
Essa é a história de praticamente todos os países da Europa: povos de etnias e origens distintas, se misturando, se conflagrando, até surgir os países da Era Moderna, onde foi formulado o conceito de nação, de nacionalidade, de pátria, de nacionalismo e de patriotismo e, infelizmente, fornece as bases da xenofobia e do racismo tão estimados pela extrema direita e tragicamente por grupos do Paganismo Moderno.
O brasão tem suas origens no paganismo eslavo, mais precisamente, no símbolo atribuído a Perun, o Deus do Trovão, um dos Deuses do panteão eslavo, sendo Rod o Deus supremo [daí o motivo de chamarem de Rodnovaria o Paganismo Moderno Eslavo].
Rodnovaria pode ser considerada uma crença nativa e sua extensão percorre o centro, o leste e o norte da Europa. Quando o Cristianismo foi imposto pela Igreja Bizantina, depois mantido pela Igreja Ortodoxa, a crença nativa foi sincretizada ou assimilada no folclore eslavo, algo que sobreviveu ao domínio da União Soviética, que adotou o Secularismo [Estado Laico] como norma [separação entre religião e estado, alguns chegaram a considerar como sendo um "estado ateu", mas isso não foi mandatório]. Com a dissolução da URSS, em 1990 apareceram os primeiros grupos e movimentos que proclamaram  o início da reconstrução cultural da crença nativa eslava [Rodnovaria]. Portanto, agendas e ideais políticos da Era Moderna, como o nacionalismo, o patriotismo e o etnicismo, que fomentam o racismo e a xenofobia, acabaram sendo adotados como sendo parte dessa "crença nativa". A mesma loucura que sofre o Caturo.
Alguns se baseiam no Livro de Veles, embora a Prosa de Edda seja utilizada.
Consultado o Wikipédia, eu achei algumas vertentes: teologia anastasiana, teologia bajovita, teologia ivanovista, teologia kandybaite, teologia levashovita, teologia védica de peterburgo, teologia silenkoita, teologia vseyasvetnik e teologia ynglist.
Não coincidentemente, a região de Dunbass onde se concentra os separatistas pró-Rússia é uma região onde tem muitos grupos de Rodnovaria. Triste, mas conflitos fratricidas entre irmãos não é novidade na Europa, nem na Idade Média, nem na Antiguidade. Que os Deuses Antigos e os Ancestrais nos ajudem.

Basta de homofobia

No próximo domingo (26/06/11) São Paulo se tornará palco de mais um episódio da guerra religiosa travada entre os homossexuais e as Igrejas. O lema da 15ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, considerada uma das maiores do mundo, já começa a render polêmica. A relação entre religião e preconceito apimenta o tema deste ano: "Amai-vos uns aos outros: basta de homofobia"! Pela primeira vez, o evento se apropria de uma citação bíblica – e contará com representantes de grupos religiosos desfilando na Avenida Paulista (religiosos das igrejas Anglicana, Católica e Presbiteriana, além do Candomblé, Umbanda e Judaísmo confirmaram presença, segundo a organização). Um dos carros trará como tema: "Nem os santos te protegem". O carro adornado com releitura de imagens de santos protagonizará crítica efetiva e pertinente ao veto do uso da camisinha, proposto por determinadas Igrejas. Durante uma coletiva de lançamento do tema da parada gay desse ano, a carta preparada pela organização do evento explicou a apropriação da citação bíblica, típica do universo cristão: "Respeitosamente nos apropriamos dela para pedir fim à guerra travada entre religião e direitos humanos", dizia o manifesto.

Recentemente o admirável Congresso Nacional utilizou o veto à distribuição do denominado kit anti-homofobia como moeda de troca para a obtenção de apoio ao digníssimo Antônio Palocci, então ministro-Chefe da Casa Civil. Em nome de preservá-lo da prestação pública de sua contabilidade pessoal, a bancada evangélica contentou-se com a retirada de circulação do referido kit destinado aos alunos e educadores das escolas públicas. Votos de cidadãos que representam o Estado que os elegeu postos a serviço de interesses particulares e preconceituosos. Para esse grupo, vitória das vitórias, sobretudo se se considera o cenário desfavorável anterior, desenhado pelo reconhecimento de direitos dos casais homoafetivos que vivem união estável. Mais um capítulo desse embate crescente ao longo dos últimos anos.

Subjaz a todas essas notícias a crise de referenciais e a confusão dos espíritos que paira sobre a sociedade. Tal crise nutre-se, de um lado, pelo saudosismo da posse da verdade e da palavra última (Igrejas e instituições); de outro, pela experiência da liberdade proporcionada pelo enfraquecimento das estruturas estáveis da moralidade de outrora a assegurar a realidade. O conflito hermenêutico em questão traduz no campo da afetividade/sexualidade, crise que perpassa a política, o Estado, as religiões e escoa pelas diversas dimensões da vida social.

A feiticeira de toda essa selva pode ser classificada como a vontade de poder das Instituições a insistir legitimar ordem vigente para todos e violentar as liberdades dos indivíduos. Gustavo Botandini, filósofo italiano, sustenta que a Igreja quando minoria, fala de liberdade; quando maioria, advoga a verdade. A verdade em jogo não quer ser apenas mera normatividade direcionada aos fiéis "ad intra". Exercita a vocação violenta ao impor seus próprios princípios aos não fiéis e fiéis de outras denominações "ad extra". Cabe a pergunta: o que há de evangélico em pressionar o Estado a fim de se proibir nacionalmente o casamento gay, a criminalização da homofobia...? A feiticeira revela sua face mais perversa no ataque constante àqueles que já lutam e sofrem cotidianamente exclusão, intolerância e marginalização. Reconhece-se como evangélica a atitude missionária de se anunciar a mensagem cristã a todos os povos e apresentar-lhes horizonte de sentido. Na mesma perspectiva, catequizar e instruir os convertidos. À luz das reprováveis violências já praticadas ao longo da História, há de imperar a máxima do respeito às diferenças. Modelar e impor padrões comportamentais, por vezes não vividos por parcela significativa dos próprios representantes das Igrejas, soa bastante hipócrita e anti-evangélico. Talvez um dos carros da parada gay do próximo domingo pudesse explorar a metáfora bíblica dos sepulcros caiados. Ironias à parte, a guerra santa sofrida pelas minorias GLBT inspira paradas como as do próximo domingo, comprometidas não com o ataque aos dogmas das Igrejas (problema de seus adeptos), mas com a defesa dos direitos humanos.  

Os meios de comunicação manipulam as informações e propagam os germes do acirramento dos ânimos entre as partes. Não possibilitam a existência de uma vida mais autêntica, provida de transparência e propícia à discussão pró-ativa. Antes confundem mediante o simulacro de imagens distorcidas e ruídos desafinados. Festival de luzes, cores e formas a ludibriar os sujeitos sociais. Os feitiços dos meios de comunicação propagam-se com voracidade: ocultamento e ou distorção de temas primordiais, difusão da racionalidade do consumo, legitimação de egoísmos e individualismos... Na interatividade da leitura, compete ao leitor ampliar essa vasta lista.

A imagem do guarda-roupa apresenta grande ambiguidade. Negativamente, remete ao aprisionamento dos desejos e da identidade, evoca sufocamento e escuridão. Metáfora pejorativa sobre a atitude de se assumir as pulsões sexuais e "sair do armário". Entretanto, há de se ir além dessa simples representação, já desgastada e carente de sentido, e na acuidade perceber a imagem do guarda-roupa sob ocular positiva. Enquanto tal, o guarda-roupa expressa apelo à criatividade, abertura às diferenças, possibilidade de conquista da autonomia. Representa, como intuído da obra de C. S. Lewis, o convite a se passar à outra margem. As portas do guarda-roupa pós-moderno conduzem a novos mundos e abrem-se a um sem fim de possibilidades tolhidas anteriormente pelo império arbitrário da verdade objetiva. Traduzem-se no horizonte possível de exercício da relacionalidade e da convivência pacífica. Portas talhadas pela escuta da filosofia hermenêutica e da crítica à interpretação única da realidade, bem como da verdade já dada e esgotada historicamente de uma vez por todas. Guarda-roupa a abrigar diversidade de estilos, modelagens, tendências e muito mais propício à coexistência do múltiplo. Para alguns críticos, pobre pecador relativista; para outros, via possível de integração das diferenças e convivialidade no respeito ao uso da autonomia e da liberdade pessoal do sujeito.

Para além da feiticeira e do guarda-roupa, ruge o leão da vitalidade, do dinamismo e do vigor da concretização da instauração de ordem existencial mais humana e fraterna. O desafio de vislumbrar os raios do Sol a incidir sobre a juba do leão permanece tarefa atual e mundo possível. Forte não pela proclamação do unívoco e incontestável, mas pela abertura dialógica e acolhedora das mudanças históricas em curso. O leão se nos apresenta tanto mais cristão e autêntico, quanto mais liberto do império metafísico da verdade, for capaz de interpelar o sujeito a aventurar-se pelas brechas do guarda-roupa, criticamente se posicionar perante os decretos da feiticeira e se tornar capaz de eleger conscientemente suas opções fundamentais de vida.

Autor: Omar Lucas Perrout Fortes de Sales, doutorando em Teologia Sistemática na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, Belo Horizonte, MG.
Fonte: IHU. Original perdido. Repostado. Texto originalmente publicado em 25/06/2011, recuperado com o Wayback Machine.