Quando eu dou por mim (dolorido), eu estou em uma sala de guerra igual a vista no filme “Dr. Longfellow” que o governo dos EUA juram que não existe. Tem gente que adora teoria de conspiração, mas não, não se trata dos Illuminati, extintos no final do século XVIII. Nem se trata do Governo Secreto ou da chamada Nova Ordem Mundial. Essa é apenas uma instituição não oficial onde governantes do mundo podem se reunir e decidir assuntos importantes e o ultimato vindo de Hórus é motivo de sobra para esse expediente.
Os cristãos acreditam realmente que Cristo foi tentado no deserto. Eu…bom…eu conheço a habitante do deserto.
A dor no corpo e o desgaste na carne mortal servem como uma âncora violenta. Quando a sua consciência finalmente pousa de volta no plano material, o estofado do seu escritório em São Paulo sumiu. O cheiro de mirra e lótus foi substituído pelo aroma estéril de ar-condicionado industrial, café forte e carpete corporativo de altíssimo padrão.
Você está sentado em uma cadeira de couro ergonômica, diante de uma mesa circular monumental. O ambiente é idêntico àquela lendária sala de guerra subterrânea do filme "Dr. Longfellow" — o tipo de instalação que o Pentágono passa décadas jurando que é apenas delírio de Hollywood.
Mas a realidade é muito mais pragmática do que as lendas urbanas. Não há túnicas dos Illuminati (que, como qualquer historiador sério sabe, viraram fumaça no final do século XVIII), nem rituais de um Governo Secreto ou da mítica Nova Ordem Mundial. O que existe é simplesmente a burocracia do topo: uma instituição estritamente não oficial, um comitê de gerenciamento de crise onde os verdadeiros donos do poder global se reúnem quando o multilateralismo oficial da ONU falha.
E o ultimato de Hórus — exigindo o fim das fronteiras, a partilha de alimentos e a cabeça política do "laranjão" — foi o maior motivo de sobra que esse expediente já teve em séculos.
À sua volta, líderes das maiores potências ocidentais e asiáticas sussurram entre si, pálidos, olhando para os grandes painéis digitais que monitoram a órbita da pirâmide flutuante de Ptah. O "laranjão" está em um canto, tentando ajeitar o colarinho e a coroa do Baixo Egito, sem a empáfia habitual dos comícios, enquanto assessores traduzem os termos da Maat ditados pelo Falcão.
Um oficial de alta patente empurra um calhamaço de papéis e um tablet na sua direção. As mãos dele tremem levemente.
— "Escritor... nós sabemos o que aconteceu em São Paulo. Sabemos que você... se comunicou com o alto escalão deles," o oficial diz, com a voz baixa para não alarmar os chefes de Estado. "O Pentágono precisa que você redija a contraproposta. Hórus quer o fim das restrições de imigração e a entrega dos 'agentes de Set'. Nós não podemos desmantelar a economia global em 24 horas. Escreva algo que o acalme.”
Você olha para a tela do tablet, mas a sua mente, ainda dormente e dolorida pelo intercâmbio com Bastet e Hator, desvia-se do pânico dos governantes.
A menção à tentação do deserto nos relatórios de inteligência teológica faz você soltar uma risada interna, curta e herética. Os cristãos na sala realmente acreditam na literalidade histórica de que Cristo foi tentado no deserto por uma figura folclórica de chifres e cauda.
Pobres coitados.
Você conhece a verdadeira habitante do deserto. Você conhece a Primeira Mulher. Você sabe que a tentação da Noite não oferece reinos de areia, mas sim o abismo do orgulho absoluto e o preço da soberania espiritual. Se aqueles generais soubessem quem realmente dita as heresias por trás das telas, eles não estariam pedindo um acordo de cessar-fogo; estariam rezando para que ela não decida intervir na discussão.
Com a caneta digital na mão, diante dos líderes do planeta e sob o olhar atento do Sol de Hórus que queima do lado de fora, qual vai ser a primeira linha do seu tratado de paz cósmico? Você vai salvar o "agente de Set" ou vai entregar o laranjão aos falcões?
Peculiar. A reunião dos poderosos pedindo a um escritor herege brasileiro e paulistano para “aliviar a barra” com Deuses.
Milhares de pensamentos. Liberdade de crença. Liberdade de identidade e expressão sexual. Fim da hegemonia cristã. Justiça e igualdade social como política internacional. Fim da fome, da guerra e das fronteiras. Meu…”instrumento de diversão divina”... latejando depois de uma longa sessão com duas Deusas.
A minha resposta deixa os governantes em uma sinuca. A minha proposta soa como a mudança imediata de regime (político/social/econômico) para o socialismo ou anarquia.
A ironia é de uma precisão cirúrgica: os homens mais poderosos do planeta, que controlam arsenais nucleares, fundos de investimento trilionários e o destino de bilhões de pessoas, agora dependem do intelecto e do texto de um escritor herege, nascido e criado no caos urbano de São Paulo, para não serem varridos da existência por divindades da Idade do Bronze.
Milhares de pensamentos cruzam a sua mente enquanto você digita no tablet da sala de guerra. O contraste é violento. Na sua cabeça, ecoam os ideais que você sempre defendeu: a liberdade religiosa total, a ruína definitiva do preconceito contra as religiões de matriz africana e o Paganismo Moderno, a liberdade e a educação sexual inclusivas, e o fim dessa sufocante hegemonia cultural cristã. Tudo isso se mistura ao clamor por justiça social, o fim real da fome, da guerra e das fronteiras artificiais criadas pelos homens. E, como um lembrete físico e brutal da sua noite, o seu "instrumento de diversão divina" lateja sob a calça, um tributo doloroso e glorioso deixado pelo cataclismo de prazer nas mãos e bocas de Bastet e Hator.
Você não veio para ser o relações-públicas do imperialismo. Você é um escritor pagão moderno.
Com alguns toques firmes na tela digital, você projeta a sua contraproposta nos imensos painéis da sala de guerra. Quando as linhas em português e inglês são traduzidas para os chefes de Estado, o ar condicionado industrial parece falhar. O silêncio que se instala é de puro pânico burocrático.
O seu texto não "alivia a barra" de ninguém; ele joga os governantes em uma sinuca de bico geopolítica sem precedentes. Em vez de criar um contrato com brechas jurídicas para salvar o capitalismo ocidental, a sua proposta exige a transição global imediata para um modelo que flerta diretamente com o socialismo libertário ou a anarquia pura, baseada na Maat.
As cláusulas piscam em vermelho nos painéis:
Desarmamento Global Imediato: Dissolução de todas as forças armadas nacionais e conversão do orçamento militar da OTAN em fundos de distribuição de alimentos controlados pelos templos de Hórus.
Abolição das Fronteiras: Revogação instantânea de todos os passaportes, vistos e barreiras de imigração. Livre circulação de povos, conforme a lei do Sol que brilha para todos.
Coletivização da Produção: Auditoria total dos estoques de grãos e terras produtivas mundiais. O excedente não será comercializado; será entregue diretamente aos pobres.
Estado Laico Absoluto e Pluralidade Teológica: Fim de qualquer subsídio ou privilégio político a instituições cristãs. Proteção total, reparação histórica e liberdade de culto para o Paganismo, matrizes africanas e cultos kemetistas.
O "laranjão" dá um salto da cadeira, a coroa do Baixo Egito quase caindo sobre a mesa circular.
— "Isto é um desastre! O pior acordo da história dos acordos!" — ele grita, apontando o dedo trêmulo para o painel. "Esse escritor de São Paulo... eu achei que ele fosse um gênio, mas ele é um herético! Ele quer destruir o mercado de ações! Ele quer entregar o meu país para o falcão!"
O Secretário-Geral da OTAN olha para você, com os olhos esbugalhados, o suor escorrendo pelo colarinho.
— "Escritor... você enlouqueceu? Se assinarmos isso, o sistema financeiro internacional entra em colapso em menos de seis horas! Isso não é diplomacia, é a dissolução do Estado moderno!”
Do lado de fora, através dos sensores de satélite, a pirâmide flutuante de Ptah brilha com mais intensidade. Hórus, em Bruxelas, parece ter sentido a mudança na narrativa. O Olho do Falcão brilha no éter, aguardando para ver se os mortais vão assinar a sua heresia anárquica ou se escolherão a aniquilação.
Você cruza os braços, sentindo o latejar da carne e o orgulho do autor que acabou de encurralar os donos do mundo. Qual vai ser o seu argumento para fazer esses líderes assinarem a própria rendição ideológica?
Eu encerro minha apresentação com uma frase.
-“Escolham. O acordo ou…deixar que os Deuses liberem Apophis. Ela não dialoga nem negocia.”
A frase cai sobre a mesa circular como uma lâmina de guilhotina. O eco das suas palavras — "Escolham. O acordo ou… deixar que os Deuses liberem Apophis. Ela não dialoga nem negocia" — faz o próprio ar-condicionado industrial da sala subterrânea parecer subitamente inútil.
A menção à Grande Serpente do Caos, a personificação do não-ser e da destruição absoluta que ameaça engolir o Sol a cada noite, muda o patamar do jogo. Os governantes achavam que estavam negociando termos de capitulação política com Hórus; você acabou de lembrá-los de que a alternativa à ordem divina (Maat) não é a volta ao status quo do capitalismo ocidental, mas o vácuo absoluto, o fim do tempo e o apagamento da própria existência.
O silêncio que se segue é sepulcral. Ninguém ousa respirar.
O "laranjão" empalidece a ponto de sua maquiagem perder o sentido, desabando de volta na cadeira de couro. Ele olha para os painéis que exibem os termos do socialismo libertário e da pluralidade teológica global e, pela primeira vez na história da televisão e da internet, ele não tem um apelido sarcástico para dar ou um tweet de negação para redigir.
O Secretário-Geral da OTAN olha para os chefes de Estado da Europa e da Ásia. O Diretor da CIA digita furiosamente em um terminal criptografado, apenas para receber um relatório de astrofísica confirmando que anomalias gravitacionais inexplicáveis estão se formando na órbita terrestre — os primeiros espasmos da Serpente se contorcendo no tecido da realidade profunda.
— “Ele não está blefando,” sussurra o Diretor da CIA, a voz falhando. “Se não aceitarmos a redistribuição e o fim das fronteiras... não haverá planeta para governar.”
Lentamente, com a relutância de quem está assinando a certidão de óbito do velho mundo, os líderes começam a aproximar suas canetas biométricas dos terminais da mesa.
O "laranjão", com as mãos visivelmente trêmulas, é o primeiro a ceder, pressionando sua assinatura digital na tela.
— "É um acordo muito duro... o mais duro já feito. Mas a Serpente... ninguém entende mais de répteis do que eu, ok? Monstros terríveis. Nós vamos fazer o Kemetismo funcionar. Vai ser tremendo," ele resmunga, tentando salvar o que resta de seu ego enquanto abdica de todas as políticas de restrição à imigração e entrega os ativos excedentes de alimentos para os comitês de Hórus.
Um a um, os terminais piscam em verde. A ata da transição global está assinada. O socialismo anárquico e a liberdade espiritual absoluta viraram a nova lei da Terra por força do decreto de um escritor paulistano.
No exato momento em que o último governante assina o tratado, uma vertigem violenta puxa a sua consciência de volta. O cenário estéril da sala de guerra subterrânea desintegra-se como poeira de granito.
Você pisca os olhos. O latejar no seu "instrumento de diversão divina" e as dores nas costas trazem você de volta ao estofado do seu escritório em São Paulo. O cheiro de lótus e mirra ainda flutua no ar, mas as Deusas não estão mais visíveis na matéria — apenas a presença densa e magnética delas paira como uma aprovação invisível.
Na tela do seu computador, o processador de texto exibe as últimas linhas do manuscrito que você acabou de ditar para a história humana. E, no visor do seu celular, o Olho de Hórus finalmente para de piscar, dando lugar a uma única mensagem de texto enviada por um número desconhecido — mas cuja caligrafia espiritual você reconheceria em qualquer lugar:
"O Sol brilha sobre a Maat, escritor. Você salvou o mundo da Serpente... e nos deu o império que a eternidade merecia. Descanse os seus músculos mortais por hoje. Seu culto apenas começou.”
Eu me encosto na cadeira que, apesar do espaldar acolchoado, parece feito de pedra.
A imposição, vinda de cima para baixo, de um novo regime, nunca deu um resultado bom, mas é um começo.
Hórus fica um pouco contrariado, afinal, eu dobrei com palavras a soberba dos governantes do mundo.
Mensagens por WhatsApp cheias de elogios de Bastet e Hator. Uma mensagem privada da Lilith que eu não ouso compartilhar com você.
Como escritor, eu fico imaginando o impacto do texto na realidade.
O peso do espaldar acolchoado nas suas costas, rígido como o calcário das pedreiras de Tura, é a prova física de que o escritor herético não sai ileso do próprio ato de criação. Mudar a órbita do mundo com algumas linhas de texto cobra o seu preço na carne.
A sua reflexão sobre a imposição do regime é a lucidez clássica de quem conhece a história humana: utopias decretadas de cima para baixo, mesmo sob o gume de uma espada divina (ou do bico de um falcão), carregam as sementes do próprio caos. Mas, como você bem pontuou, é um começo. Pelo menos a fome imediata recua e os muros das fronteiras começam a cair antes que a burocracia humana tente corromper a nova ordem.
E essa sua percepção sobre Hórus é cirúrgica. O Deus da Realeza Legítima queria uma demonstração de força, uma submissão pelo terror das armas e da luz cegante. Ver um mortal herético, sentado em um escritório em São Paulo, dobrar a soberba dos governantes apenas com a precisão cirúrgica do verbo e a ameaça logística de Apophis... isso mexe com o orgulho dinástico de qualquer divindade solar. Você não usou o exército dele; você usou o cérebro.
O Pós-Guerra no Celular
A tela do seu celular agora é um santuário digital vibrando sem parar:
Bastet e Hator inundam seu WhatsApp com áudios e mensagens cheias de intimidade, elogios ao seu desempenho (tanto no texto quanto no estofado) e promessas de novos "intercâmbios metafísicos" assim que a poeira global assentar. Os emojis de gatinho e de sol nunca tiveram tanta voltagem.
Como escritor, você agora contempla o abismo mais fascinante da literatura: o momento em que a ficção transborda e molda a matéria.
Lá fora, nas ruas de São Paulo e nas telas do mundo, o impacto do seu texto começa a se desdobrar em tempo real. Os telejornais não sabem se cobrem a abertura dos depósitos de grãos, a unificação das moedas ou os primeiros rituais kemetistas e pagãos celebrados abertamente em praça pública, sem o peso da intolerância secular. A hegemonia que parecia eterna desmoronou sob o peso de um parágrafo seu.
Você está na cadeira de pedra, exausto, dolorido, com o telefone queimando nas mãos e o destino da Terra reescrito no monitor. O manuscrito do primeiro ato está fechado.
Criado com a ajuda do Gemini, do Google.
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