quinta-feira, 2 de julho de 2026

Kemet é passado I

Um homem louco disse que “os Deuses eram astronautas”. Isso é uma simplificação grosseira. O termo foi cunhado aqui na Terra quando começou a exploração espacial. Ou seja, seres vivos atingem um grau de cultura e tecnologia que torna possível a construção de veículos espaciais. Nisso Daniken falhou, porque Deuses não são seres vivos e dispensam a tecnologia.

Mas o pânico foi geral quando as pessoas viram nos céus aquela pirâmide flutuando tranquilamente no ar. Céticos tentavam negar a presença massiva, mas todas as emissoras de tevê estavam transmitindo. O objeto deslizou entre nuvens por sobre o Cairo, mas não pousou em nenhum lugar no Egito. O objeto estacionou - se podemos dizer assim - ao lado do obelisco em Washington, capital dos EUA.

Uma adaptação necessária aos quadrinhos de Enki Bilal, que colocou os Deuses do Egito Antigo “negociando” com o presidente francês, em uma França fascista. Ainda que o fascismo e o nazismo estejam ressurgindo na Europa, as notícias apontam para os EUA como o centro desse regime mundial extremista.

Quando a pirâmide abriu uma comporta e uma superfície deslizou até o chão como se fosse uma escada de desembarque, os norte-americanos enviaram um cônsul. Seria um desastre se o laranjão Trump fosse pessoalmente receber esses visitantes eternos.

Duas figuras desceram. Um era um enorme chacal humanóide e outra era uma linda gata humanóide. O corpo (pelo?) dos dois eram negros. No aconchego do meu lar, eu dou risada sozinho, pensando nesses que se dizem pagãos modernos e ficam falando em raça e estirpe.

O cônsul americano avança, o suor frio estragando o corte do seu terno de alta costura, estendendo uma mão trêmula em direção à rampa de desembarque. Anúbis permanece estático ao lado dela, os olhos fixos no horizonte como uma estátua de obsidiana viva, exalando o aroma de mirra e linho de tumba.

Bastet dá um passo à frente. Suas garras de ébano brilham levemente sob o sol de Washington. Ela ignora a mão estendida, olha para o obelisco — uma cópia pálida e roubada do passado — e depois fita o diplomata.

Sua voz não reverbera como um trovão; ela desliza diretamente para dentro da mente do homem, macia como veludo, mas afiada como uma lâmina de silício:

— "Vocês ergueram este pilar imitando a luz de Rá, mas governam a partir da sombra do medo. Viemos ver o que o tempo fez com o que sobrou de nós em vocês. Mas o que encontramos? Um império que se finge de eterno, governado por bufões que temem o próprio reflexo no espelho.

Onde está o ouro do espírito? Onde está a beleza que justifica a existência de uma civilização? Vocês acumulam ferro, papel e ódio, e chamam isso de poder.

Diga ao seu líder de pele pintada e cabelos de palha seca: nós não viemos negociar com os seus decretos humanos. Viemos recolher o que nos pertence por direito — e a nossa contagem começa pelo peso do coração de cada um de vocês na balança.”

Ela dá as costas ao cônsul com a indiferença natural de quem sabe que o mundo dos homens é apenas um novelo de lã prestes a ser desfeito entre suas patas.

Taciturno, Anúbis tem um arrepio ao pensar que teria que pesar esses corações em sua balança, diante de Maat. Curioso, olha para o topo de um edifício do governo e vê o símbolo da águia. Peculiar. Os governantes do mundo atual se apropriam e usam os mesmos símbolos de impérios extintos.

-”Irmã…eu terei mesmo que medir esses corações?”

-”Sim, Anúbis. Todos têm que ter o coração pesado antes de ir ao Duat.”

-”Mas…irmã…são bárbaros…adoram outro Deus que não tem qualquer relação com as origens deles…”

-”Você sabe muito bem que o Usurpador não tem tanto poder. Nós vamos começar a “limpeza” aqui e, depois, onde era Kemet, agora chamada de Egito.”

Anúbis olha para os humanos que olham tudo de longe. Quantas pessoas! Vindo de todas as partes de Gaia! E o laranjão falando em expulsar os imigrantes!

-”Como os humanos chegaram nesse ponto de confusão mental, minha irmã? Querem expulsar os imigrantes, como se essa nação não tivesse sido construída por imigrantes. Adoram um Deus estranho e importado, esquecendo os Deuses dos ancestrais deles.”

Bastet olha para a águia esculpida no topo do edifício do governo, um sorriso felino e amargo desenhando-se em seu focinho negro. Ela se aproxima de Anúbis, o roçar de sua pelagem escura contra a dele trazendo um sutil aroma de lótus e sol, contrastando com o frio aroma de eternidade que o irmão exala.

— "Ah, meu irmão de faces de chacal...", a voz dela ecoa na mente de Anúbis, suave como a seda que envolve os mortos. "Eles sempre adoraram o reflexo, nunca a luz. A águia que eles ostentam ali não passa de uma carcaça empalhada do falcão de Hórus, desprovida de voo e de espírito. Eles roubam os símbolos de Roma, que roubou os da Grécia, que por sua vez se ajoelhou diante de nós na Alexandria. É a reciclagem da vaidade humana.”

Ela caminha até a borda da rampa, olhando a multidão que se comprime atrás das barreiras de isolamento. O pânico e o fascínio misturam-se no ar como poeira em dia de tempestade.

— "Você me pergunta como chegaram a essa confusão mental?", ela continua, estreitando os olhos dourados na direção dos agentes de segurança e dos políticos que tremem em seus ternos escuros. "Eles esqueceram o solo que pisam. Gaia deu a eles o mundo inteiro para caminhar, mas eles criaram linhas imaginárias na terra e as chamam de fronteiras. Este próprio lugar onde estamos... ergueram-no sobre o sangue dos povos da floresta, usaram as mãos acorrentadas dos filhos de Núbia para carregar as pedras, acolheram os famintos de além-mar e, agora, o líder de pele pintada quer trancar os portões. Eles têm medo do próprio sangue que os compõe.”

Ela solta um som que lembra um riso contido, mas afiado.

— "E quanto ao Deus deles... o Usurpador que prega o deserto e a culpa... eles o importaram porque é mais fácil adorar um senhor invisível que promete o paraíso em troca de obediência do que encarar os Deuses que exigem deles a Maat — o equilíbrio, a justiça, a verdade. Eles preferem a mentira confortável da salvação ao peso real de suas próprias escolhas."

Ela toca o ombro de Anúbis com uma pata firme, cujas garras se retraem por um instante em um gesto de solene cumplicidade.

— "Não tema o cansaço da balança, Anúbis. Sim, eles são bárbaros, e sim, os corações deles estarão carregados com o chumbo da hipocrisia, do preconceito e do esquecimento. Mas a pena de Maat não flutua de acordo com a teologia deles. Ela mede o peso real do que fizeram com a vida que receberam. Se o coração deles for mais pesado que uma pluma de avestruz, você sabe muito bem o destino que os aguarda. Deixe que Ammit se banqueteie com a vaidade deste império. A limpeza começou, e Kemet voltará a respirar, mesmo que primeiro tenhamos que varrer as cinzas deste circo.”

Anúbis lembra. Ele sempre lembra. Se acha Hades muito rigoroso, é porque não conhece Anúbis. Na época de Amenófis III e Ramsés II, já se falava dos Shasu de Yhw. O nome de um local e de um Deus das fundições de cobre. Um dente muitos dos Elohim. Um dentre muitos dos panteões divinos. Ao menos os Annunaki tinham inteligência e diplomacia.

Ele poderia protestar diretamente com Rá, ou Ísis (Aset). Mas sua irmã Ísis tem um trauma com seres humanos. Para fazer sua Pax, os Romanos distorceram seus rituais e identidade. Hórus só jogaria o sol na direção da terra. Hator causaria comoção se aparecesse com seus enormes…atributos. Thoth ficaria confuso se perguntassem para ele se ele era o mestre garça, do Kung Fu Panda. Bes seria o mais adequado para lidar com esses bárbaros.

Enquanto Anúbis fica resmungando, Bastet ajusta seu espelho na forma de um disco solar. E procura pela assinatura energética distinta. Um escritor brasileiro. Um paulista. O rabo dela fica agitado quando fica nesse seu pequeno parceiro que digita essas palavras.

-“Que delícia. Um devoto da lua negra escrevendo sobre mim.”

E o meio das pernas dela fica úmido.

Bastet afasta o disco solar com um movimento fluido, os olhos dourados dilatados pelo vislumbre. Na vastidão do tecido temporal e geográfico, focar em uma mente específica na megalópole sul-americana é um deleite que ela não pretendia esconder do irmão taciturno.

— "Você resmunga demais sobre a burocracia do pós-morte, Anúbis," ela diz, a cauda chicoteando o ar com uma cadência sensual e perigosa. "Enquanto você se perde no labirinto dos registros dos Shasu e nas feridas antigas de Aset, eu prefiro saborear o presente. Olhe para ele.”

Ela aponta com uma garra longa na direção do éter, onde a assinatura energética do escritor arde em tons de púrpura e prata.

— "Um herege. Um pagão que não se curva ao consenso cinzento do mundo deles. Ele nos desenha com a mente enquanto o resto dos mortais nos filma com pedaços de vidro e plástico. Ele entende a carne, o sangue e o mistério.”

O calor que emana dela não é o calor destrutivo do deserto de Sekhmet, mas o fogo controlado da noite, a umidade fértil que precede a criação e o êxtase. Para Bastet, a adoração nunca foi uma questão de templos de pedra ou sacrifícios de rebanhos; sempre foi sobre o calafrio na espinha, a entrega dos sentidos e a coragem de cruzar o limiar do proibido. Saber que, sob a égide da Lua Negra, um mortal traduz a presença dela em palavras cruas e magnéticas é o tipo de oferenda que faz suas pupilas dominarem o dourado de seus olhos.

Anúbis desvia o olhar da águia de pedra, fitando a irmã com sua severidade habitual, embora a ponta de suas orelhas de chacal se mova, captando a vibração intensa que emana dela.

— "Você sempre se distrai com os poetas e os loucos, Bastet," o Senhor da Terra Sagrada murmura, a voz áspera como a areia movida pelo vento. "Esquece que o tempo deles é um sopro."

— "E que sopro delicioso," ela retruca, a voz descendo a um sussurro felino, quase um ronrono que reverbera na espinha do próprio escritor, do outro lado do oceano. "Eles queimam rápido, meu irmão. Por isso o gosto é mais intenso. Deixe que os cônsules tremam e que os generais limpem suas armas. Meu interesse já cruzou o Atlântico.”

Por inveja ou ciúmes, Anúbis contorce o focinho divino.

-“Por Tefnut. Não está pensando em ter contato com…isso? Relações entre Deuses e homens sempre resultaram em tragédia!”

Bastet lembra de cada semideus e herói. De inúmeros “Filhos de Deus” que existiram e vão existir. Nem nisso a “nova religião” (para esses Deuses, o Cristianismo é uma crença nova) é original. Provavelmente é a única crença que, prometendo a salvação, tem empurrado os seres humanos para a aniquilação. Bastet faz Anúbis relaxar com facilidade manuseando o…cetro…dele.

-“Hush, hush. Não seja assim, irmão. Gregos e Acadianos falam de…relações…porque precisavam explicar a linhagem. E o Cristo é tão vítima dessa Igreja quanto a humanidade.”

O toque de Bastet no cetro de Anúbis não é apenas um gesto de intimidade divina; é uma transmissão de energia pura, o calor da vida que suaviza o rigor gélido do Senhor do Duat. O focinho de chacal relaxa, embora ele ainda solte um suspiro profundo que cheira a incenso esquecido.

— "Eles sempre precisam de linhagens para justificar seus tronos," Bastet sussurra, os olhos fixos na pulsação púrpura que vem do hemisfério sul. "Os reis se diziam nossos filhos para que ninguém ousasse contestar suas coroas de ouro. Mas este escritor... ele não busca um trono de terra. Ele busca o abismo da própria alma.”

Ela se vira levemente, o corpo sinuoso captando a luz do sol americano que parece pálido diante da presença dos dois.

— "Você tem razão sobre o Nazareno, meu irmão," ela continua, com uma nota de genuína melancolia na voz veludada. "Aquele jovem judeu falou de amor e de se libertar das amarras do templo, e o que fizeram? Pregaram-no na madeira, roubaram seu nome e criaram a maior máquina de opressão e culpa que esta Terra já viu. Transformaram o sangue dele em moeda e o corpo dele em um tribunal. O Usurpador não é o Cristo; o Usurpador é o medo que os homens têm da própria liberdade.”

Ela volta a olhar para o disco solar, onde as palavras do paulista continuam a se materializar no éter. A umidade e o calor de seu próprio corpo divino são a resposta imediata a essa heresia poética.

— "As tragédias de que você fala, Anúbis, só acontecem quando os homens tentam possuir um Deus, ou quando os Deuses tentam governar os homens. Mas eu não quero governá-lo. E ele é inteligente demais para tentar me prender em uma gaiola.”

Bastet lambe os lábios, saboreando a distância que, para os imortais, não passa de um passo de dança.

— "Eu sou a Lua Negra que ele evoca. Sou o espasmo criativo na calada da noite. Deixe que Washington tente entender nossa pirâmide. Eu vou me concentrar em quem realmente sabe o que fazer com uma Deusa quando ela arranha a porta da percepção.”

Bastet só precisa piscar um olho para sumir e deixar Anúbis “na mão”, se é que me entende. Bastet vê o escritor concentrado, debruçado em cima de uma folha, escrevendo. A impressão que ela tem assim que se materializa naquele santuário é o cheiro que está impregnado no escritor.

-“Então os boatos sobre esse escritor e a Mulher Original…são verdadeiros.”

Bastet quer sentir essa sensação da “pequena morte”. Um mortal com tal…reputação…isso é muito raro.

O ar do santuário paulista se adensa em um segundo. O aroma de mirra e o calor elétrico de Washington desaparecem, substituídos pelo silêncio magnético da noite e pelo perfume denso que impregna cada centímetro daquele quarto. Não é um cheiro comum. É o rastro inconfundível de Lilith — a Mulher Original, a primeira a preferir o exílio e a noite à submissão do jardim. É o aroma de terra fértil, sangue antigo e a rebeldia que deu origem ao próprio desejo.

Bastet materializa-se nas sombras, a silhueta felina e perfeitamente negra moldando-se à penumbra do ambiente. Seus olhos dourados brilham ao fixarem-se nas costas do escritor, que continua debruçado sobre o papel, a caneta deslizando com a urgência de quem traduz o invisível.

A Deusa do Deleite solta um ronrono baixo, uma vibração que reverbera diretamente no peito do homem e faz o ar do quarto oscilar.

— "Então os boatos sobre este escritor e a Primeira Mãe são verdadeiros..." — a voz dela desce como um sussurro de seda preta na nuca dele. — "Você caminha com a soberana do abismo e ainda assim tem a audácia de invocar a Lua Negra egípcia para o seu leito de palavras.”

Ela se aproxima sem ruído, a pele (ou pelagem) negra absorvendo a pouca luz do santuário. A umidade entre as pernas da Deusa pulsa em sincronia com o ritmo da escrita dele. Na eternidade dos Deuses, o conceito humano de fidelidade é uma linha frágil; o que atrai Bastet é a intensidade do fogo que queima em quem foi tocado pela Mulher Original. Se ele sobreviveu e prosperou sob o manto de Lilith, ele conhece os segredos da carne e da transcendência. Ele conhece o limiar onde a dor e o êxtase se fundem.

Bastet estende uma mão de garras longas e recolhidas, tocando levemente o ombro do escritor. O calor da Deusa é imediato, um contraste gritante com o magnetismo sombrio que Lilith costuma deixar como marca.

— "Quero ver se a sua reputação faz jus ao perfume que você carrega, mortal," ela sussurra, deslizando os dedos pelo pescoço dele, forçando-o sutilmente a largar a caneta. — "Deixe a pirâmide e Washington para trás. Mostre-me como um herético celebra a pequena morte sob os olhos da Senhora do Êxtase.”

Esse seu pequeno parceiro está atrapalhado. Tentando esconder um pôster hentai da Felícia (Darkstalker). Ou o calendário com um gato pendurado em um arame e a frase “eu amo gatos”. Também um pouco encabulado com velhos conceitos de lealdade e fidelidade. Os Deuses tem uma vida sexual que escandalizaria até os maiores libertinos.

-“Eu realmente estou curiosa, escritor herege. Como consegue satisfazer Aquela que se diz insaciável?”

Minhas mãos tremem quando Bastet pressiona seus seios em meu peito. Lentamente, desliza as mãos pelo meu tórax. Até chegar em uma parte endurecida da minha anatomia.

-“Quanta devoção…impressionante…”

O riso de Bastet é um som musical, desprovido de qualquer julgamento mortal, ecoando pelo quarto enquanto ela nota seus vãos esforços para esconder os artefatos de sua devoção felina pop. Ela lança um olhar felino e divertido para o pôster da Felícia e depois para o calendário clichê.

— "Não se encabule, meu escritor," ela ronrona, os olhos dourados semicerrados, brilhando com o puro prazer da provocação. "A estética dos mortais muda, mas a obsessão com a nossa graça permanece a mesma. E quanto à fidelidade... que conceito eminentemente humano e limitante. Os Deuses não pertencem a ninguém, e aqueles que tocam o Divino entendem que o amor e o desejo são como o sol: não perdem a luz por iluminar mais de um templo.”

A pressão dos seios dela contra o seu peito envia uma onda de calor elétrico direto para a sua espinha. O contraste entre a maciez da pele dela e a força sobrenatural que emana de cada músculo do corpo da Deusa é inebriante. Quando as mãos de ébano dela deslizam pelo seu tórax, descendo com uma lentidão torturante até encontrarem a prova física e rígida da sua reação, o ronrono dela vibra contra a sua pele, fazendo seus dentes latejarem de antecipação.

— "Quanta devoção... impressionante..." ela murmura, fechando os dedos longos com uma firmeza precisa, testando o calor e a pulsação do seu desejo.

Ela inclina a cabeça para o lado, o focinho humanóide e elegante roçando a curva do seu pescoço, onde o perfume de Lilith ainda reside como uma nota de fundo persistente. Bastet inspira profundamente o aroma da Mulher Original misturado ao seu próprio suor.

— "Você ainda não respondeu à minha pergunta, herético," ela sussurra, a ponta de sua língua quente e levemente áspera deixando um rastro de fogo na sua clavícula. "Como um homem de carne e osso satisfaz a Insaciável? Será através da mesma entrega absoluta que estou sentindo pulsar aqui na minha mão? Mostre-me. Quero sentir o peso desse coração que desafia a balança de Anúbis e prefere queimar no altar da noite.”


Esse desafio seria difícil até para Heracles/Hércules. Como saciar a Senhora do Deleite, a filha favorita de Rá? Minhas mãos não conseguem mais escrever, estão muito ocupadas explorando aquelas curvas divinas. O ronronar dela fica mais intenso quando minhas mãos ficam cheias com seus seios.

O som que escapa da garganta de Bastet é puro êxtase ancestral, um ronronar tão profundo e vibrante que faz as janelas do quarto vibrarem na calada da noite paulista. Quando suas mãos se enchem com o peso firme e quente de seus seios, a Deusa arqueia as costas com a flexibilidade sobrenatural de sua linhagem, entregando-se ao toque do mortal com a mesma naturalidade com que a noite acolhe as sombras.

— "Heracles era força bruta e músculos cansados," ela sussurra, os olhos dourados dilatando-se até quase cobrirem a íris, fixos nos seus. "O que sacia a filha de Rá não é o vigor dos guerreiros, mas a audácia dos que sabem adorar com as mãos, com a boca e com a mente. Você não me vence pelo cansaço, herético... você me ganha pela entrega.”

Com um movimento fluido e ágil, ela se acomoda sobre o seu colo, a umidade divina de seu corpo deixando um rastro ardente através do tecido de suas roupas. O contraste entre a textura exótica de sua pele e o calor magnético que ela emana transforma o quarto em um templo improvisado, isolado do resto do mundo, de Washington e das pirâmides flutuantes.

Suas garras se retraem completamente enquanto ela segura o seu rosto, forçando-o a olhar diretamente para o abismo dourado de seus olhos.

— "Esqueça o papel, esqueça a caneta," ela ronrona, a respiração quente e perfumada com notas de mirra e desejo misturando-se à sua. "Sua escrita agora será feita na minha pele. Mostre-me o ritmo desse seu culto sob a Lua Negra.”

Esse seu pequeno parceiro não tem certeza do que está fazendo. Bastet é uma Deusa, mas também é mulher…ou algo parecido. Meus beijos começam pelo pescoço até o busto. Bastet solta um miado quando sente meus lábios e língua se entretendo em seus seios.

-“Muito bom, escritor herege. Continue.”

Eu sinto o calor e a umidade corporal de Bastet aumentando conforme eu vou descendo até a virilha dela.


O ambiente do santuário paulista parece se descolar do tempo e do espaço. Fora dali, o mundo pode estar assistindo ao impasse político em Washington sob a sombra da pirâmide flutuante, mas dentro daquelas quatro paredes, a única realidade que pulsa é o encontro entre o mito e o herético.

À medida que seus lábios e língua descem pelo contorno do busto dela, o miado que escapa de Bastet é uma mistura de surpresa e puro deleite felino. Para uma divindade acostumada a preces distantes e oferendas estáticas de incenso, o calor direto, úmido e reverente da boca de um mortal é uma forma de adoração infinitamente mais potente.

— "Você sabe exatamente o que está fazendo, herético..." ela murmura, a voz ligeiramente trêmula pela primeira vez, as mãos de ébano espalmando-se contra os seus ombros para se apoiar enquanto o corpo dela reage ao seu ritmo.

O calor que emana da virilha da Deusa é quase palpável, um magnetismo tropical que contrasta com a noite fria da metrópole. Quando você se aproxima do centro do culto dela, a umidade sagrada e o perfume de lótus e mistério se intensificam, como a própria essência da noite se condensando. Bastet abre ligeiramente as pernas, os olhos dourados fixos no teto enquanto ela se entrega à sensação da pequena morte, saboreando cada segundo da audácia de seu pequeno parceiro.

-“Ah…Grande Mãe…”

Bastet consegue gemer as palavras conforme segura meu rosto contra o Santo dos Santos dela. Faz muito tempo…séculos…milênios…que ninguém lambe ali. Bastet estremece, arrepia e profere antigos hinos de fertilidade e fecundidade.

-“Por Tefnut…onde aprendeu essa feitiçaria, mortal?”

Bastet custa acreditar que um mero mortal a está conduzindo para o orgasmo.

O quarto em São Paulo deixa de pertencer à Terra; o ar se satura com o aroma denso de linho sagrado, mirra e a eletricidade de uma tempestade no deserto. Quando seus lábios e língua encontram o centro do culto de Bastet, a Deusa do Deleite perde a compostura imperial. Seus dedos, com as garras perfeitamente recolhidas para não feri-lo, enterram-se nos seus cabelos, guiando o ritmo da sua boca com uma urgência que ela própria não prevera.

O gemido que escapa dela — "Ah... Grande Mãe..." — ecoa não apenas nas paredes do santuário, mas nas frestas do próprio tempo. Há milênios os homens haviam esquecido como tocar o divino através do êxtase puro, trocando o prazer pela culpa e a carne pelo dogma.

A pele negra de Bastet estremece, os músculos longos e flexíveis de suas pernas se contraindo ao redor dos seus ombros enquanto ela arrepia da cabeça à ponta da cauda. Palavras em egípcio antigo, hinos esquecidos que faziam o rio Nilo transbordar e fertilizar a terra preta de Kemet, escapam de seus lábios em arquejos ritmados. É a linguagem da própria criação se manifestando no quarto de um escritor paulista.

— "Por Tefnut... onde aprendeu essa feitiçaria, mortal?" — ela arqueja, a voz densa, os olhos dourados completamente tomados pelas pupilas dilatadas, brilhando na penumbra.

Ela custa a acreditar que a carne mortal possa conter tamanha intuição, tamanha precisão na adoração. O calor que emana dela atinge o ápice, a umidade sagrada inundando seus sentidos enquanto o corpo da Deusa entra no espasmo divino da pequena morte. Bastet se curva inteira, o peito subindo e descendo rapidamente, entregando-se ao orgasmo que reverbera como um trovão silencioso pelas dimensões, provando que, no altar da noite, o herético sabe exatamente como saciar os Deuses eternos.

Criado com a ajuda do Gemini, do Google.

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