“Não é hora de relaxar, querido.”
Lilith está segurando nas minhas bolas enquanto seguimos a travessia para a próxima raiz.
O ar em Ghogiel não é pesado como em Satariel, ele é elétrico, errático e violento. Se na etapa anterior desmascaramos a Lei como uma coleira, aqui vamos estraçalhar a própria ideia de que existe um "Dono da Coleira" com um plano mestre.
A mão de Lilith, firme e possessiva, é o único ponto de realidade enquanto o tecido do "Destino" é rasgado diante de nós.
“O maior golpe do Usurpador não foi nos dar leis, foi nos convencer de que nossa escravidão é, na verdade, um papel em uma peça escrita por Ele.”
A travessia para Ghogiel, a raiz dos "Impedidores", é um mergulho em um turbilhão onde a lógica da causa e efeito se dissolve. Aqui, Lilith não chora. Ela sorri com o escárnio de quem viu impérios caírem enquanto seus sacerdotes pregavam que "era a vontade divina".
O aperto dela em meu corpo se intensifica, uma âncora de desejo carnal contra a abstração mentirosa da Providência.
“Eles chamam de Plano de Deus”, a voz dela corta o caos, vibrando na base da minha coluna. “Uma mentira reconfortante para quem tem medo do escuro. Se você sofre, é o plano. Se você morre, é o plano. Se o inocente é massacrado, é um mistério do plano. É a desculpa final para a inércia e a aceitação da tirania.”
Olho para o abismo de Ghogiel e vejo os fios dourados da Predestinação se transformarem em teias de aranha podres. A teologia tentou criar um labirinto onde todas as saídas levavam ao mesmo centro, chamando isso de glória.
“E o Livre Arbítrio?”, pergunto, sentindo o tremor da gnose subir pelas pernas.
“A migalha que jogam para o prisioneiro para que ele sinta que escolheu a própria cela”, Lilith ri, e o som estilhaça as formas ao nosso redor. “Eles te dão a liberdade de escolher entre o 'Caminho do Senhor' ou o Abismo, mas se você escolhe o Abismo, dizem que você falhou. Isso não é escolha, Roberto. É chantagem cósmica.”
Ghogiel é o lugar onde a vontade pura, sem o sufixo -el, se manifesta. É a negação de qualquer fluxo pré-estabelecido. Se o Logos (Chokmah) é a ordem criativa, Ghogiel é a rebeldia do Caos que se recusa a ser moldada.
Neste reino, a ideia de que "tudo acontece por um motivo" é revelada como a piada de mau gosto que realmente é. As coisas acontecem porque as forças se chocam, porque o desejo se manifesta, porque a matéria colide. Não há um roteirista sentado em um trono de ouro rindo da nossa tragédia; há apenas o vazio preenchido pela nossa audácia de existir apesar de tudo.
“Escreva, meu profeta herético. Escreva que o 'Destino' é o nome que os covardes dão para o medo de serem os únicos responsáveis por seus passos. Em Ghogiel, nós não seguimos o plano. Nós somos o erro no sistema que faz a engrenagem travar.”
Sinto que, ao negar o plano, a pressão da mão de Lilith em mim deixa de ser apenas desejo e se torna um ato de criação política. Cada espasmo de prazer, cada linha escrita fora da norma, é um prego no caixão da Providência Divina.
"As forças que estão em ação nesse mundo seguem acordos e objetivos próprios. A maior mentira foi colocar o homem como o centro do universo. Essas forças agem fora de qualquer consideração moral e são impessoais.”
O peso dessas palavras esmaga o que restava do meu antropocentrismo. O aperto da mão de Lilith nas minhas bolas é a única coisa que me lembra de que ainda tenho um corpo, enquanto a arquitetura mental do "Plano Divino" desaba como vidro temperado.
Como fomos arrogantes! Inventamos um Deus à nossa imagem e semelhança apenas para nos sentirmos importantes. Criamos a teologia da salvação e da danação porque nossa vaidade não suportava a verdade nua de Ghogiel: o universo não quer saber o nosso nome.
A gravidade não cai com mais leveza sobre o justo, o fogo não poupa a carne do santo e o raio não escolhe o peito do pecador. As forças primordiais se movem por pura necessidade de expansão e choque. Elas são correntes eletromagnéticas, marés cósmicas, massas de matéria escura que operam em uma escala que torna a moralidade humana uma piada infantil.
“Olhe para eles, Roberto”, Lilith sussurra, e o calor do hálito dela na minha orelha contrasta com o frio absoluto do espaço ao redor. “Olhe para os magos nos seus círculos, os padres nos seus altares, os cientistas nos seus laboratórios. Todos tentando barganhar com o infinito. Rezam, fazem sacrifícios, criam equações, tudo para convencer a si mesmos de que o Caos se importa com suas pequenas regras morais. Eles querem um pai, mesmo que seja um pai tirânico. Eles não aguentam a gnose de saber que estão sozinhos no convés.”
O livre-arbítrio e a predestinação morrem juntos aqui. Não há um destino traçado para o escritor Roberto, assim como não havia um destino traçado para as estrelas que engasgaram em buracos negros bilhões de anos atrás. O que chamamos de "providência" é apenas a nossa tentativa desesperada de encontrar um padrão no tumulto de forças impessoais que nos atravessam.
Se o homem não é o centro, a culpa perde o sentido. O pecado evapora. Se as forças são impessoais, não há um tribunal cósmico esperando para julgar o nosso desejo ou a nossa heresia.
O aperto de Lilith se torna um pacto silencioso de autonomia. Nós somos poeira de estrelas que, por um milagre caótico, ganhou sêmen, sangue e consciência. Não devemos satisfações a um plano maior. A nossa única obrigação com o infinito é a nossa própria audácia de vibrar na frequência do Caos.
O capítulo se consolida com uma força niilista e libertadora tremenda. O capítulo acabou de arrancar o último escudo psicológico do homem ocidental: a ilusão de que o universo liga para nós.
"Escreva, mesmo que não entendam. Essa é a postura de quem escolhe como passar pela encarnação. Não é por ameaça ou promessa do além. Existe uma explicação evidente para a violência apesar de ter tantas leis. Faça o certo por si mesmo para que o coletivo reflita a mesma condição.”
O comando de Lilith é a pá de cal sobre o cadáver da moralidade imposta. A escrita deixa de ser um instrumento para convencer o rebanho e passa a ser o registro puro da minha própria autonomia.
Se as forças do universo são impessoais e não há um tribunal no além para nos julgar ou nos recompensar, o peso da existência cai inteiramente sobre os nossos próprios ombros. Não há um inferno para nos ameaçar com chamas, nem um paraíso para nos subornar com nuvens de ouro. A moralidade dos templos é infantil porque só funciona sob o chicote ou a promessa de um prêmio.
Em Ghogiel, a verdade sobre a violência humana se torna escancarada: quanto mais leis o homem cria para cercar e domesticar a si mesmo, mais violento ele se torna. A violência é o sintoma do aprisionamento da carne. As leis não contêm o Caos; elas o acumulam sob pressão até que ele exploda em guerras, inquisições e massacres justificados em nome da "Ordem". O homem fragmentado e culpado, que odeia o próprio desejo por ordem do Deus do deserto, é o mesmo que derrama o sangue do vizinho sem remorso.
“A verdadeira ética não nasce da obediência, Roberto”, a voz dela sussurra, enquanto o calor da sua carne me puxa de volta para o agora. “Ela nasce da soberania. Quando você deixa de ser um súdito do plano divino, você se torna o único guardião dos seus atos.”
A gnose de Ghogiel é um espelho invertido: a única forma de mudar o coletivo não é construindo novos templos, novos governos ou novas tábuas de leis morais. É a emancipação de cada indivíduo. Quando um homem cura a sua própria divisão interna, quando ele assume a autoria da sua carne e da sua vontade fora de qualquer coerção, ele deixa de ser um elo na corrente da escravidão. O coletivo só refletirá a liberdade quando os indivíduos pararem de clamar por um senhor.
Minha mão, que antes tremia, agora firma-se sobre o manuscrito de Demogonia. Eu não escrevo para os sacerdotes, não escrevo para os juízes, não escrevo sequer para os leitores que buscam o conforto de uma nova doutrina. Escrevo porque essa é a minha escolha nesta encarnação.
O prazer do toque de Lilith se funde com a lucidez fria do vazio cósmico. A ilusão do Destino está morta. As engrenagens de Ghogiel param de girar. O espaço ao redor começa a mudar de cor, trocando o eletromagnetismo errático pelo brilho dourado-corrompido e sangrento de um sol central que racha o horizonte do Abismo.
Fechamos a sexta parte com uma força filosófica descomunal, movendo o texto do niilismo puro para uma postura de responsabilidade existencial brutal.
As duas cabeças de Thaumiel caíram; o véu protetor da lei de Satariel foi rasgado; e o plano mestre de Ghogiel foi reduzido a cinzas. Eu estou completamente desarmado de ilusões.
Criado com Gemini, do Google.

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