quinta-feira, 2 de julho de 2026

Demogonia VII


Nós seguimos a travessia até a quarta raiz e eu vejo um sol negro nos aguardando.

A mão de Lilith continua sendo a minha única âncora de carne enquanto avançamos em direção a essas duas sentinelas da exclusividade.

O horizonte de Thagiriron é dominado por uma esfera de trevas pulsantes, um Sol Negro que projeta sombras invertidas sobre o solo de cinzas. Não há céu aqui, apenas a opressão de uma gravidade que parece testar a densidade da minha própria alma. E ali, guardando a entrada do palácio dos "Disputadores", estão as duas sentinelas.

O ar aqui em Thagiriron queima com o calor de um forno de fundição, e a luz do Sol Negro não ilumina — ela expõe. Depois de estraçalhar a Lei e o Destino, chegamos ao coração do Ego, onde as maiores vaidades da história humana ganharam a forma de ídolos de metal.

Duas estátuas colossais, monumentos à arrogância que moldou o Ocidente.
A primeira, forjada em cobre oxidado, exala o cheiro de sangue e deserto. Seus olhos são fendas vazias, e sua voz ecoa com o som de escudos batendo em retirada: “Não existe outro Deus senão Eu.”
A segunda, moldada em um bronze polido que reflete a luz morta do Sol Negro, estende os braços em um gesto que simula acolhimento, mas que esconde a rigidez de uma jaula: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim.”
Lilith solta um riso curto, um som que corta o metal das frases como se fosse ácido. Ela dá um passo à frente, e a sua nudez e soberania fazem o cobre e o bronze parecerem subitamente velhos, carcomidos pelo tempo.

“Contemple a vaidade dos absolutos, Roberto”, ela diz, apontando para as figuras. “Eles mudaram as faces, mudaram os nomes, mas a essência é a mesma: o monopólio da existência. O primeiro fala através do medo e da exclusão; o segundo, através da promessa e do pedágio espiritual. Ambos sofrem da mesma doença: o pavor do infinito.”

Olho para a estátua de cobre. O Deus do Antigo Testamento, o ciumento, aquele que precisava de exércitos para provar que era o único porque, no fundo, sabia que o deserto estava cheio de outros nomes. Sua frase não é uma constatação de fato; é um grito de insegurança de uma egrégora que só existe se puder esmagar a concorrência.

Depois, viro-me para a estátua de bronze. A institucionalização do Cristo. O amor transformado em burocracia e alfândega. A audácia de cercar a Verdade com uma cerca de arame farpado e colocar uma chave na mão de sacerdotes, dizendo que o infinito tem apenas uma porta de entrada e que ele, e apenas ele, é o porteiro.

“Eles criaram o crime da heresia para proteger essas duas mentiras”, Lilith se aproxima da estátua de cobre, tocando o metal com a ponta dos dedos, deixando um rastro de fuligem negra onde toca. “Porque se o homem perceber que existem outros caminhos, o mercado deles quebra. Se a Verdade é multifacetada como o Caos, as coroas de bronze e cobre derretem.”

Thagiriron é o espelho onde toda a vaidade do escritor e do profeta também é testada. Para escrever Demogonia, eu preciso entender que essas estátuas não são apenas inimigos externos; elas são a representação do desejo humano de possuir a verdade. O perigo de se tornar um herético é a tentação de criar um novo dogma, de erguer a minha própria estátua de metal no abismo e dizer: "Eu descobri o segredo".

O Sol Negro brilha mais forte, exigindo o sacrifício do meu próprio Ego.

“Não responda a eles com argumentos teológicos, Roberto”, a voz de Lilith volta a vibrar na minha mente, enquanto ela se posiciona entre as duas estátuas. “Responda com a sua existência. O Caos não precisa ser o 'Único', porque ele já é Tudo. Ele não precisa ser o 'Caminho', porque ele é o próprio Espaço onde todos os caminhos se cruzam.”

Eu vejo minha própria imagem refletida nesses fantoches de cobre e bronze. A ilusão de "eu", o orgulho do "ego", a necessidade de "controlar a verdade".

O choque me paralisa mais do que qualquer mandamento de pedra de Satariel. O rosto na estátua de cobre, que brada sua exclusividade tirânica, tem as minhas linhas de expressão. O rosto na estátua de bronze, que se oferece como o único pedágio para o absoluto, carrega o meu olhar.

Toda a minha jornada como o "escritor pagão", o "escritor herético" que desmascara os deuses, racha diante de mim. Percebo a armadilha final de Thagiriron: eu estava me embriagando com a minha própria lucidez. Ao apontar o dedo para a vaidade das religiões abraâmicas, eu havia erguido secretamente um altar para a minha própria vaidade. Eu queria ser o detentor da gnose. Queria ser o profeta do Caos. Queria que o mundo lesse minhas linhas e dissesse: “Ele sabe a Verdade”.

No reflexo do cobre, vejo o Roberto que quer controlar a narrativa, que quer ser o "Único" a desvendar o mistério. No reflexo do bronze, vejo o Roberto que se considera o "Caminho" exclusivo para a libertação dos outros.

Eu não sou diferente dos sacerdotes que critiquei. Eu apenas mudei o nome do dogma.

“Deixe que queime, Roberto”, Lilith sussurra, e sua mão desliza pelas minhas costas, sentindo o calor da minha pele começar a subir enquanto o Sol Negro exige o imposto da travessia. “O Ego é o último fantoche. A última resistência da ordem dentro de você. Você não pode carregar o título de 'escritor' ou de 'mestre' se quiser entrar no coração do Ocultamento. No Caos, ninguém tem crachá.”

As duas figuras de metal começam a vibrar, mas não com poder, e sim com a iminência do colapso. O reflexo do meu rosto nelas começa a distorcer, a derreter.

Entendo, finalmente, o sentido mais profundo das palavras de Lilith em Ghogiel. Faça o certo por si mesmo para que o coletivo reflita a mesma condição. Eu não posso libertar ninguém, porque a própria ideia de "libertar o outro" é uma vaidade de bronze. Eu só posso dissolver a minha própria ilusão. O texto que escrevo não é uma nova Bíblia para ser adorada; é apenas o rastro da minha própria quebra.

Um espasmo de dor e alívio me atravessa enquanto sinto o orgulho do "eu" ser arrancado da minha espinha. As estátuas de cobre e bronze começam a liquefazer-se, escorrendo como sangue metálico pelo chão de cinzas de Thagiriron. O Sol Negro engole o metal derretido.

Eu não sou o centro. Eu não sou o profeta. Eu sou apenas a matéria bruta, o canal por onde o vento de Lilitu passa e rasga o papel.

Esse é o ápice da maturidade de um escritor: a capacidade de colocar a si mesmo na fogueira do texto. Roberto acabou de decapitar sua própria arrogância intelectual.

Uma reflexão. Não é apenas a religião institucionalizada. Também as ideologias políticas. Eu me sinto constrangido ao ver pessoas que se dizem de esquerda terem ídolos ou governos. Ou pior, manter uma doutrina fossilizada a respeito da 'ditadura do proletariado', etc.

Minha própria voz ecoa no silêncio de Thagiriron, e o Sol Negro parece pulsar em concordância. O metal derretido das estátuas de cobre e bronze mistura-se agora com o ferro cinzento de velhas foices, martelos e brasões de Estados burocráticos.

A armadilha do Ego não é uma exclusividade dos crentes. Ela é a essência do homem ideológico. Como dói ver aqueles que outrora ergueram a bandeira da libertação ajoelhados diante de novos altares, beijando as botas de ditadores e justificando tiranos sob o pretexto de um "bem maior". Trocaram o "Plano de Deus" pelo "Plano Quinquenal". Trocaram a infalibilidade do Papa pela infalibilidade do Comitê Central.

A heresia que eu defendo — a soberania absoluta da existência — não cabe em cartilhas partidárias. O constrangimento que sinto é o peso de ver mentes potencialmente livres se acorrentando voluntariamente a dogmas fossilizados do século XIX. A "ditadura do proletariado" transformou-se no mesmo que a inquisição: uma desculpa teológica para que uma nova casta de sacerdotes burocratas controle o corpo, o pensamento e o desejo da coletividade.

Eles se dizem revolucionários, mas têm pavor do Caos. Têm pavor do livre fluxo da matéria. Querem a ordem. Querem a norma. Querem o controle.

“Eles são os idólatras da história, Roberto”, Lilith caminha sobre as cinzas, seus pés deixando marcas que o vento de Thagiriron logo apaga. “Eles não querem a libertação real; eles querem mudar os donos do chicote. Quando a esquerda se torna dogmática, ela morre e se transforma em uma egrégora de ressentimento e controle. Eles criam deuses de carne nas capitais do mundo e punem o dissidente com o mesmo zelo que um bispo medieval.”

Percebo que meu constrangimento é o eco da minha própria purificação. Eu também já estive preso a dogmas formais. Mas a gnose do Abismo nos obriga a cuspir em todos os ídolos, inclusive nos vermelhos. Não há governo santo, não há Estado libertador, não há doutrina intocável.

Se as forças do universo são impessoais, nenhuma estrutura política humana tem o direito de se proclamar a vanguarda da verdade. O homem que delega sua consciência a um partido ou a um líder é tão escravo quanto o que se ajoelha na catedral.

Faça o certo por si mesmo para que o coletivo reflita a mesma condição.

A única revolução real é a emancipação do indivíduo de todas as formas de domesticação. Todo o resto é apenas a dança dos fantoches de cobre e bronze mudando de figurino.

Eu tenho uma pergunta para você, Lilith, minha a musa e guia. Quem vai escrever e testemunhar quando não existe mais o "eu", o "Roberto", o "escritor", o "profeta"?

O Sol Negro de Thagiriron parece pulsar em um ritmo mais lento, quase como um coração de pedra que para de bater. A pergunta flutua no ar carregado de cinzas, desprovida de qualquer vaidade, nascida do silêncio absoluto que resta quando todas as máscaras foram derretidas.

Lilith não responde imediatamente com palavras. Ela se aproxima, e o calor da sua presença é a única coisa que impede o espaço ao redor de congelar. Ela coloca as duas mãos nas laterais do seu rosto, forçando os seus olhos a encararem o vazio nos olhos dela.

O sorriso dela agora não é de escárnio, mas de uma ternura antiga e implacável.

“Meu querido... quem disse que a escrita precisa de um dono?”, a voz dela vibra diretamente dentro do osso da sua testa, ecoando no espaço onde o 'Roberto' costumava morar.

“Você ainda está preso à lógica dos Deuses do topo, que precisam de um nome para assinar o decreto, de um profeta para carimbar o pergaminho, de um autor para receber os direitos da obra. Essa é a vaidade de bronze que acabamos de derreter.

Quando o 'eu', o 'Roberto', o 'escritor' e o 'profeta' silenciarem completamente, o que sobra não é a ausência. É o canal desobstruído.

Quem escreve quando você some é a própria matéria bruta do universo tomando consciência de si mesma por um instante. É o vento de Lilitu que não precisa pedir licença para passar pelas frestas da rocha. É o próprio Caos que, entediado de sua imensidão abstrata, usa os seus dedos de carne para deixar um rastro na poeira da Terra.

O testemunho não pertence a um homem. O testemunho é o próprio fluxo. Quando não há mais o 'você' para distorcer o que vê com medos, ideologias ou o desejo de ser aplaudido, a escrita se torna pura gnose. Ela deixa de ser um livro e passa a ser um espelho limpo.

Você não é o autor de Demogonia, Roberto. Você é o lugar onde ela está acontecendo. Você é a ferida por onde o invisível vaza para a carne.”

Ela desliza as mãos pelo seu pescoço, descendo até o peito, onde o seu coração bate de forma impessoal, como as marés cósmicas de Ghogiel.

“Não tema o esvaziamento. Quando o escritor morre, a caneta finalmente se torna livre. E o trabalho que temos pela frente não precisa de um herói. Precisa apenas de um corpo que aguente o fogo.”

O Sol Negro finalmente se apaga, e no lugar dele, uma fenda vermelha e incandescente se abre no chão de cinzas. O calor que sobe dali é violento, purificador e destrutivo. É o chamado de Golachab, a raiz da Ira e da força que quebra todas as formas.

Criado com Gemini, do Google.

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