sábado, 4 de julho de 2026

Cantos do Infame Herege

O que faz um pobre diabo 
Nascido no Brasil 
Em São Paulo 
Escolher ser escritor 
Nenhum profeta responde 

Esta é minha benção e maldição
Eu sou um escritor
Eu gosto de escrever
Eu tenho uma excelente redação
Desde o ginasial

Desafio aqui é o transporte público
O lorde poeta de Rochdale 
O Helesponto atravessou
Coitado se os pés pusesse
No Tietê ou Tamanduateí

Quantas vezes eu tomei o tablado 
Declamando venturas no proscênio
Um gosto duvidoso de drama 
Uma comédia trágica 
O mártir encenando ser vítima 

Muitas vezes derramei 
Versos sem rima 
Sangue sem alma 
Sêmen sem dosagem 
Para essa dama de vermelho 

Imitador de Dante
Simulador de Virgílio 
Reflexo de (John) Milton
Parodiador de Byron 
Gêmeo de Donatien 
Shakespeare wannabee 

Oh, Musas,
Porque pousaram
Em Brundísio, Florença, Stratford, 
Mas não em Vila do Piratininga?
Quisera eu ter uma língua boa,
Mas nasci com um trapo entre os dentes
Oh, Ceres e Demeter,
Porque dos filhos da loba
Fizeram uma civilização,
Mas da Terra de Vera Cruz
Fizeram uma piada para a humanidade?
Cem macacos com pena, tinta e papel 
Produziriam obras melhores que as minhas

Oh, meus mestres do ofício de escriba, 
Que desgraça a esta guilda
Meu nome deve trazer
Eu os ouvia falando 
De como Ulisses logrou as sereias,
Por quem a lenda nos ensinou lição severa, 
Pois eu ousei a ver pelos olhos de Homero 
E que mistério eu tenho que me calar,
Não pelas sereias serem 
Tanto meio mulheres 
E meio aves e peixes,
Mas porque elas são 
Das Musas filhas
e de Mnemosine netas!
Filha de Gaia, 
Cujo ventre divino gerou
A titanesa Metis, aquela que,
Engolida por Zeus, deu origem à Atena,
A Deusa da Civilização e Górgona!
A maldição do escriba é ousar saber
E ter que calar,
Pois o poeta que come
Da fruta da Deusa conhece tudo,
Mas o preço é a morte

Ora, tudo que vive tem seu fim,
Isso inclui um texto
Eu contei uma confissão,
Como se fosse um segredo
O leitor empresta,
Por conta e risco próprio,
Credibilidade a este escriba
Como disse o sábio, um bom escriba
[ou, como dizem, escritor]
É um bom mentiroso
Pacientemente expus minha arenga
E o leitor é meu cúmplice
Mas verdade seja dita,
Eu invento, troco e inverto
Os personagens,
Os nomes
E os lugares.
Não há desfecho
No que não há fecho nem trava
Eu gostaria que minhas histórias
Mais verídicas fossem,
Mas muita coisa deve ser ocultada

(Trecho do texto “Entre barões e dragões”)

Escusas poderia dar
Aqui ganhou o apelido 
De Quinto dos Infernos
Pela quinta porção de ouro 
Que a coroa (portuguesa) cobrava

Degredados
Um eufemismo 
Os colonos eram condenados
Pela coroa portuguesa 
Por diversos delitos para povoar a colônia
Homicidas, criminosos,
Hereges, bígamos ou judaizantes

O Brother Sam
Foi colonizado 
Por perseguidos pela crença 
Prisioneiros políticos 
Hereges e ladrões 
Mas a diferença negada 
Ali o projeto era um país 
Aqui o objetivo era (é) extrativismo 

Então por que insisto
Essa nem Hamlet pergunta 
Em um país sem cultura 
Educação e leitura 
São privilégios escassos
Isso é convicção no personagem 
Uma piada sem graça 
Reclamar das vozes das musas 
Da escolha equivocada dos Deuses 
Mas eu não reclamei 
De nenhuma vez
Que Lilith me drenou 

Fortuna faz esquiva
Destino cala a responsabilidade 
Não é realmente uma escolha 
Não depois daquela mordida 
Sonho ou pesadelo 
Nessa profissão 
Desaparece a diferença 
Lilith sabe como extrair 
Palavras ou sêmen 
Eu pago com satisfação 

(Gemini)

O Verbo de Lilith

Eu recolho o trapo que te amordaçava os dentes
E te devolvo o ferro, o canino e a palavra.
Piratininga dorme sob o peso dos contentes,
Mas em teu peito aceso, a minha noite lavra.

Que te importa o silêncio de um país sem herança,
Se em teu sangue eu misturo o sêmen e o veneno?
Quem busca o meu abraço abdica da esperança,
Para reinar comigo no exílio do proscênio.

Não há fecho ou desfecho na mentira sagrada,
O Quinto dos Infernos é o altar onde te marcas.
Bebe da minha gnose, alma transpassada:
Tu és o meu escriba entre barões e parcas.

Eu te mordo e te dreno, e no vácuo que resta,
Tu hás de ver a Górgona rindo entre as Atenas.
A infâmia é tua coroa, a escrita é tua festa,
Pois te livrei do canto estúpido das sereias.

Paga o tributo, Herege. A noite está ganha.
Vverte o teu verso até que o corpo caia,
Pois enquanto a metrópole se esquece e se arranha,
Tu és o filho vivo que pariu a minha praia.

Obra baseada no poema “As Peregrinações do Infante Harold”, do lorde Byron.

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