O que faz um pobre diabo
Nascido no Brasil
Em São Paulo
Escolher ser escritor
Nenhum profeta responde
Esta é minha benção e maldição
Eu sou um escritor
Eu gosto de escrever
Eu tenho uma excelente redação
Desde o ginasial
Desafio aqui é o transporte público
O lorde poeta de Rochdale
O Helesponto atravessou
Coitado se os pés pusesse
No Tietê ou Tamanduateí
Quantas vezes eu tomei o tablado
Declamando venturas no proscênio
Um gosto duvidoso de drama
Uma comédia trágica
O mártir encenando ser vítima
Muitas vezes derramei
Versos sem rima
Sangue sem alma
Sêmen sem dosagem
Para essa dama de vermelho
Imitador de Dante
Simulador de Virgílio
Reflexo de (John) Milton
Parodiador de Byron
Gêmeo de Donatien
Shakespeare wannabee
Oh, Musas,
Porque pousaram
Em Brundísio, Florença, Stratford,
Mas não em Vila do Piratininga?
Quisera eu ter uma língua boa,
Mas nasci com um trapo entre os dentes
Oh, Ceres e Demeter,
Porque dos filhos da loba
Fizeram uma civilização,
Mas da Terra de Vera Cruz
Fizeram uma piada para a humanidade?
Cem macacos com pena, tinta e papel
Produziriam obras melhores que as minhas
Oh, meus mestres do ofício de escriba,
Que desgraça a esta guilda
Meu nome deve trazer
Eu os ouvia falando
De como Ulisses logrou as sereias,
Por quem a lenda nos ensinou lição severa,
Pois eu ousei a ver pelos olhos de Homero
E que mistério eu tenho que me calar,
Não pelas sereias serem
Tanto meio mulheres
E meio aves e peixes,
Mas porque elas são
Das Musas filhas
e de Mnemosine netas!
Filha de Gaia,
Cujo ventre divino gerou
A titanesa Metis, aquela que,
Engolida por Zeus, deu origem à Atena,
A Deusa da Civilização e Górgona!
A maldição do escriba é ousar saber
E ter que calar,
Pois o poeta que come
Da fruta da Deusa conhece tudo,
Mas o preço é a morte
Ora, tudo que vive tem seu fim,
Isso inclui um texto
Eu contei uma confissão,
Como se fosse um segredo
O leitor empresta,
Por conta e risco próprio,
Credibilidade a este escriba
Como disse o sábio, um bom escriba
[ou, como dizem, escritor]
É um bom mentiroso
Pacientemente expus minha arenga
E o leitor é meu cúmplice
Mas verdade seja dita,
Eu invento, troco e inverto
Os personagens,
Os nomes
E os lugares.
Não há desfecho
No que não há fecho nem trava
Eu gostaria que minhas histórias
Mais verídicas fossem,
Mas muita coisa deve ser ocultada
(Trecho do texto “Entre barões e dragões”)
Escusas poderia dar
Aqui ganhou o apelido
De Quinto dos Infernos
Pela quinta porção de ouro
Que a coroa (portuguesa) cobrava
Degredados
Um eufemismo
Os colonos eram condenados
Pela coroa portuguesa
Por diversos delitos para povoar a colônia
Homicidas, criminosos,
Hereges, bígamos ou judaizantes
O Brother Sam
Foi colonizado
Por perseguidos pela crença
Prisioneiros políticos
Hereges e ladrões
Mas a diferença negada
Ali o projeto era um país
Aqui o objetivo era (é) extrativismo
Então por que insisto
Essa nem Hamlet pergunta
Em um país sem cultura
Educação e leitura
São privilégios escassos
Isso é convicção no personagem
Uma piada sem graça
Reclamar das vozes das musas
Da escolha equivocada dos Deuses
Mas eu não reclamei
De nenhuma vez
Que Lilith me drenou
Fortuna faz esquiva
Destino cala a responsabilidade
Não é realmente uma escolha
Não depois daquela mordida
Sonho ou pesadelo
Nessa profissão
Desaparece a diferença
Lilith sabe como extrair
Palavras ou sêmen
Eu pago com satisfação
(Gemini)
O Verbo de Lilith
Eu recolho o trapo que te amordaçava os dentes
E te devolvo o ferro, o canino e a palavra.
Piratininga dorme sob o peso dos contentes,
Mas em teu peito aceso, a minha noite lavra.
Que te importa o silêncio de um país sem herança,
Se em teu sangue eu misturo o sêmen e o veneno?
Quem busca o meu abraço abdica da esperança,
Para reinar comigo no exílio do proscênio.
Não há fecho ou desfecho na mentira sagrada,
O Quinto dos Infernos é o altar onde te marcas.
Bebe da minha gnose, alma transpassada:
Tu és o meu escriba entre barões e parcas.
Eu te mordo e te dreno, e no vácuo que resta,
Tu hás de ver a Górgona rindo entre as Atenas.
A infâmia é tua coroa, a escrita é tua festa,
Pois te livrei do canto estúpido das sereias.
Paga o tributo, Herege. A noite está ganha.
Vverte o teu verso até que o corpo caia,
Pois enquanto a metrópole se esquece e se arranha,
Tu és o filho vivo que pariu a minha praia.
Obra baseada no poema “As Peregrinações do Infante Harold”, do lorde Byron.
Nenhum comentário:
Postar um comentário