terça-feira, 3 de novembro de 2026

Jumentos do Malafaia

https://www.brasil247.com/brasil/malafaia-chama-filhos-de-jair-bolsonaro-de-jumentos-apos-carta-golpista-de-flavio/. 

Jumentos são todos os quase 60 milhões de brasileiros que votaram no fujão. 😏🤭 Escreva uma crônica em tom de humor e sarcasmo.

A jumentada nacional e o coice da realidade
Uma crônica sobre a política brasileira, a família Bolsonaro e a curiosa dificuldade de reconhecer um erro depois de votar nele.

Há momentos em que a política brasileira parece uma novela mexicana escrita por um roteirista que perdeu a sanidade, bebeu três garrafas de cachaça e decidiu que o público ainda não estava suficientemente confuso.

O episódio da vez envolve Silas Malafaia, os filhos de Jair Bolsonaro e uma carta de Flávio que provocou uma reação tão pouco fraterna do pastor que até os animais de quatro patas devem ter se sentido injustiçados. Segundo a notícia, Malafaia chamou os filhos do ex-presidente de “jumentos”.

Ora, ora! Que injustiça com os jumentos!

O pobre animal trabalha, carrega peso, atravessa terrenos difíceis e, mesmo sem diploma de ciência política, geralmente sabe distinguir uma estrada de um precipício. Já na política brasileira, há quem disponha de redes sociais, assessores, microfones, palanques e uma quantidade industrial de convicções, mas continue marchando alegremente na direção do barranco.

E ainda se ofenda quando alguém aponta o abismo.

Mas minha preocupação vai além dos filhos do capitão. Afinal, eles são personagens profissionais desse circo, com direito a camarim, holofotes e uma plateia permanentemente disposta a aplaudir. O problema é o respeitável público.

Porque, se vamos falar de jumentos na política, precisamos conversar sobre os eleitores que transformaram o bolsonarismo em religião, identidade e, em alguns casos, substituto para o próprio pensamento crítico.

O voto de cabresto com Wi-Fi
Confesso que a declaração de Malafaia me deixou diante de um dilema filosófico. Quando um aliado histórico da família Bolsonaro começa a chamar os próprios aliados de jumentos, estamos diante de uma crise de consciência ou apenas de uma disputa para ver quem fica com a sela?

A carta de Flávio, na qual ele se apresentou como o “verdadeiro presidente eleito”, apesar da derrota eleitoral, precisou ser alterada depois da repercussão. As acusações de fraude continuaram sem provas, e a expressão presidencial acabou substituída por “líder do Brasil”.

É uma evolução extraordinária da comunicação política: o sujeito perde a eleição, viaja para os Estados Unidos e, de repente, descobre que pode resolver a derrota mudando o título do próprio cargo.

Se a moda pega, teremos um país inteiro governado por autoproclamados.

O candidato derrotado vira presidente eleito; o conspiracionista vira defensor da democracia; o golpista vira perseguido; e o sujeito que embarca para o exterior passa a ser apresentado como um estrategista internacional.

Só falta o porteiro do prédio anunciar que é o verdadeiro síndico eleito porque não reconhece a ata da assembleia.

Mas voltemos aos jumentos.

Minha provocação é a seguinte: se os filhos são jumentos, o que dizer dos adultos que passaram anos defendendo a família como se ela fosse uma mistura de dinastia imperial com franquia celestial?

Gente que brigou com parentes, rompeu amizades, espalhou teorias conspiratórias, desconfiou das urnas e tratou qualquer crítica ao seu mito político como uma ofensa pessoal. Tudo isso para, no final, assistir ao próprio ídolo político tropeçar naquilo que seus adversários já apontavam havia anos.

E agora vem um aliado importante, alguém que esteve ao lado do bolsonarismo, e resolve distribuir coices verbais dentro do próprio estábulo.

Que espetáculo!

É quase possível ouvir o relincho coletivo da indignação: “Como assim? Nós defendemos essa gente durante tanto tempo! Nós acreditamos em tudo! Nós repetimos os discursos! Nós compartilhamos os vídeos! Nós chamamos todo mundo de comunista! E agora vocês nos dizem que fizemos papel de bobos?”

Não, meus caros. Ninguém está dizendo que vocês fizeram papel de bobos.

Estamos apenas perguntando se vocês já terminaram de fazer.

A democracia não é um curral
É importante esclarecer uma coisa: votar em determinado candidato não transforma automaticamente ninguém em burro. Democracias são feitas de pessoas com opiniões, interesses e expectativas diferentes. Muita gente vota por razões econômicas, religiosas, sociais ou simplesmente porque considera uma alternativa melhor que a outra.

O problema começa quando o voto deixa de ser uma escolha política e vira uma autorização para desligar o cérebro.

Quando o candidato está certo mesmo quando erra, quando a mentira é aceita desde que favoreça o grupo, quando a derrota eleitoral só pode ser explicada por fraude e quando as instituições são respeitáveis apenas enquanto produzem resultados convenientes, já não estamos falando de simples preferência política.

Estamos falando de submissão a um projeto de poder.

E isso vale para qualquer político, de qualquer partido. A diferença é que certos grupos conseguiram transformar a fidelidade ao líder em uma modalidade de esporte radical: quanto mais absurda a declaração, mais apaixonada a defesa.

O sujeito anuncia uma barbaridade pela manhã, seus seguidores passam o dia justificando a barbaridade e, à noite, ele muda o discurso. Os seguidores, então, justificam a mudança com a mesma convicção com que defenderam a declaração anterior.

É o milagre da coerência reversível!

A opinião muda, a realidade muda de nome, os fatos são empurrados para debaixo do tapete e ninguém precisa pedir desculpas. Basta publicar uma nova versão do comunicado.

Se isso não é uma fábrica de malabarismo intelectual, não sei o que seria.

E os quase 60 milhões?
Aqui chegamos à parte que realmente me interessa.

Os milhões de brasileiros que apoiaram Bolsonaro não formam uma massa homogênea. Nem todos pensam da mesma maneira, nem todos apoiam todas as atitudes da família e nem todos merecem ser colocados no mesmo saco.

Mas quem continua defendendo aventuras golpistas, acusações sem provas e a ideia de que seu candidato deve prevalecer mesmo contra o resultado das urnas precisa responder por suas próprias escolhas.

Não adianta terceirizar a responsabilidade para o pastor, para o deputado, para o influenciador ou para o grupo de WhatsApp.

O eleitor não é um animal conduzido eternamente pelo cabresto. É um cidadão adulto, com direitos políticos e, portanto, também com responsabilidade pelo uso que faz deles.

Se alguém passou anos exigindo que os adversários respeitassem a democracia, mas agora aceita que seu próprio candidato se proclame vencedor sem respaldo eleitoral, talvez esteja na hora de fazer uma pequena revisão de consciência.

Não precisa nem contratar um filósofo. Um espelho resolve.

E, se o espelho começar a fazer perguntas inconvenientes, não adianta acusá-lo de perseguição ideológica.

Uma sugestão para o futuro
Proponho que o Brasil crie uma nova categoria de premiação política: o Prêmio Cabresto de Ouro, destinado aos cidadãos que conseguem defender duas ideias contraditórias no mesmo dia sem apresentar qualquer sinal de constrangimento.

A cerimônia seria realizada em Brasília, com transmissão ao vivo e distribuição gratuita de capim para os convidados.

O troféu teria o formato de uma urna eletrônica, porque até os símbolos da democracia merecem participar da piada.

Silas Malafaia poderia ser convidado para entregar o prêmio, desde que concordasse previamente com o resultado. Flávio Bolsonaro poderia discursar por videoconferência, diretamente dos Estados Unidos, apresentando-se como o verdadeiro vencedor da premiação.

E os eleitores mais entusiasmados poderiam comparecer com camisetas estampadas com a frase: “Eu não sou jumento. Jumento é quem discorda de mim”.

Seria um sucesso absoluto.

Naturalmente, alguns participantes reclamariam da premiação, alegando perseguição política. Outros exigiriam recontagem dos votos. Um terceiro grupo afirmaria que o prêmio havia sido roubado pelo sistema.

E, se o resultado continuasse desfavorável, alguém certamente escreveria uma carta.

Dessa vez, porém, sugiro que revisem o texto antes de divulgá-lo.

Nunca se sabe quando o próximo coice virá de dentro do próprio estábulo.

Moral da história: jumentos são animais respeitáveis, que não merecem ser usados como insulto para seres humanos. Já a estupidez política é outra história: não depende de espécie, pedigree, religião ou partido. Depende da disposição de uma pessoa para continuar acreditando numa mentira mesmo depois que a realidade lhe dá uma bofetada.

E, convenhamos, depois de tantas bofetadas, insistir em oferecer a outra face ao mesmo político não é exatamente uma demonstração de inteligência.

É uma relação abusiva com o voto.

E o pior é que, nessa relação, quem paga a conta somos todos nós.


Criado com ChatGPT.

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