domingo, 26 de abril de 2015

As escamas do dragão

“São Jorge não é Ogum. E, sim, São Jorge é considerado um dos maiores inimigos do Paganismo. São Jorge é o INIMIGO DO PAGANISMO. O Dragão eliminado com a lança do santo é o maior símbolo do extermínio de nossos ancestrais e da luta instaurada contra os cultos Pagãos no passado pelo Cristianismo.
É chegada a hora de darmos mais atenção ao Dragão do que ao santo.
Que o fogo do Dragão elimine para sempre o ranço judaico-cristão que se apodera do coração dos pseudo-pagãos e os liberte verdadeiramente para sempre!”

Toda essa histeria por causa de São Jorge. O mais engraçado é que isto foi dito por uma celebridade pagã que endossa a idéia da Teosofia que todos os Deuses são o Deus, todas as Deusas são a Deusa. Muda-se o discurso quando se é conveniente. Não somos muito diferentes dos cristãos e de outras religiões monoteístas. Mas o texto tem uma mensagem que podemos refletir.

São Jorge não é Ogum, não é Marte, não é Ares. Cada entidade e Deus tem uma identidade e personalidade própria. Assim como cada Deusa tem sua identidade e personalidade própria. Isis, Ishtar, Inanna, Diana, Ártemis, Afrodite não são a Deusa da Wicca.

Outro aspecto que escapa ao sacerdote autor destas palavras. São Jorge é inimigo do Paganismo por que matou o dragão? Isso não coaduna com o Paganismo. Existem diversos mitos antigos onde um dragão é morto por um Deus. O Deus toma o trono de um Deus ou Deusa mais antigo, o dragão é o mais devotado e amoroso servo de uma ordem mais antiga. Então todos nós, pagãos modernos, estamos adorando Deuses que são inimigos do Paganismo? Ou há algo mais que podemos entender nos mitos antigos?

Assistindo alguns filmes e animes recentes, apareceu a noção de que o Diabo não é mau e que Deus não é bom, a escuridão não é necessariamente maligna e a luz não é intrinsecamente benéfica. Eu encontrei um site com textos que me ajudaram a repensar nessa possibilidade. A idéia é simples: a história é contada pelos vencedores. Fica fácil para um ditador se passar por amigo do povo, enquanto o usurpador utiliza a máquina de propaganda para difamar, caluniar e injuriar o vilão. Nem nisso o Cristianismo foi original. Os mitos clássicos adquiriram uma supremacia social, política e religiosa pela supressão, proibição, repressão e assimilação de cultos mais antigos.

Ainda assim, os cultos antigos sobreviveram, mostrando que nenhum poder, por mais opressivo que seja, é absoluto. O escravo africano manteve sua crença disfarçada utilizando santos católicos. A bruxa européia fez o mesmo. Religiões majoritárias alcançaram o poder por que a doutrina assimilou o folclore ou pessoas simples conquistaram espaço pelo sincretismo. No mundo moderno é impossível determinar onde começa um e termina outro. Querer separar as crenças, torná-las mais “puras” é um puritanismo impossível.

O que o pagão moderno é se perguntar “e se”. São Jorge é uma versão cristã da jornada do herói. E se a jornada do herói é a do dragão? E se a jornada do dragão seja ser sacrificado? E se sem a morte do dragão não poderíamos vencer a dominação do usurpador e lutar para recuperar nossas raízes, nossas origens, nossa liberdade? Sem as escamas do dragão, nós não poderemos andar pelo Caminho dos Bosques Sagrados. Para nós, pagãos, o dragão é o cristo.

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