terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Muitos caminhos, muitos destinos.

Um velho ditado de autoria desconhecida fala que todos os caminhos levam a Roma. Isso na época em que Roma era a capital do Império Romano e assim como o centro é referência em São Paulo para o deslocamento de um bairro a outro, Roma era o centro de referência para as viagens entre as colônias romanas.
Mas Roma não foi sempre o centro do Império Romano nem sempre todos os caminhos levavam a ela. Constantinopla tornou-se o centro do Império na época de Constantino e as viagens de Colombo ‘descobriram’ outros caminhos, outros povos, outros continentes.
O mesmo ocorreu com as ideologias políticas e as doutrinas religiosas. Até a década de 60 do século XX, o mundo ainda estava dividido em Capitalistas e Comunistas, entre Católicos e Protestantes. Então ocorreu um despertar da consciência humana que começou a buscar por formas alternativas, novas respostas, pois as ideologias políticas e religiosas existentes não estavam mais respondendo às ânsias de nossa espécie. Uma verdadeira revolução cultural ocorreu e graças a isso foi possível o resgate dos antigos cultos pagãos, nos moldes da época, surgindo o movimento do Neo-Paganismo. Dentro desse movimento, na década de 70, nos EUA, a Wica se espalhou de forma espantosa, graças aos livros de George Gardner, Raymond Buckland, Scott Cunningham e Silver Starhawk.

Muitos grupos surgiram e usaram o nome de Wicca para se identificarem, mas tendo um foco mais voltado ao feminismo, dando origem às tradições diânicas, quando estes grupos não tinham um evidente interesse comercial, como as muitas 'tradições' ecléticas. Surgiram do dia para a noite bruxos e bruxas, sacerdotes e sacerdotisas, muitos inventando uma linhagem de família de bruxas ou inventando parentes que foram bruxos. A Wicca se tornou nos EUA uma religião de massas e vertentes mais 'progressistas' surgiram para afirmar uma 'evolução' da Wicca, muitas vezes desrespeitando os conceitos mais básicos da Wicca enquanto religião.
Como não é para estranhar, a Wicca chegou no Brasil vindo dessa Wicca Siliconada Americana, por isso que pretensos bruxos e sacerdotes lutam contra a tradição, a linhagem, a ancestralidade e a iniciação. No Brasil, grupos de neo-paganismo genérico fundaram suas tradições sem quaisquer bases ou princípios e tem aventado um certo universalismo que não existe na Wicca. A Wicca Brasileira se tornou uma Wicca esquizofrênica, inventando tradições pela leitura de livros ou simplesmente da vaidade de seus líderes em estabelecer seu culto à personalidade pessoal.
Quando as visões tradicionais tentam avisar aos interessados sobre os princípios básicos da Wicca, todo o discurso dos pretensos bruxos e sacerdotes gira em torno do discurso da autoridade ou da apelação à maioria. Para eles, os tradicionais são radicais, elitistas e tentam confundir a opinião pública nos equiparando com os padres e pastores. Isso é um discurso absurdo, mas é necessário entender porque as pessoas buscam tanto uma liberdade religiosa que acabam transformando isso em liberalidade.
O Cristianismo teve sua primeira crise quando houve o cisma entre as Igrejas do Ocidente e do Oriente, dando origem aos dois principais grupos do Cristianismo: o Católico e o Ortodoxo. A segunda crise veio com o Movimento Protestante que, por si só, deu origem aos demais grupos do Cristianismo. Junto com essa crise institucional houve a Renascença e a Colonização, a Igreja perdeu sua autoridade e seu monopólio. Somando isto aos movimentos da Revolução Francesa e a luta pela independência nas colônias, ocorreram as condições necessárias para o reaparecimento do Ocultismo, dos cultos das bruxas e de ordens iniciáticas.
Os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade foram assimilados por ocultistas, novas estruturas religiosas surgiram tentando resgatar os antigos cultos originários da Europa, sendo imitado nas colônias que se tornaram independentes. Todo esse aspecto ideológico foi assimilado pelos grupos americanos que se interessaram pela Wicca e essa ideologia de liberdade a qualquer custo foi trazido para a Wicca Brasileira.
Então eu defendo os princípios da Wicca Tradicional, não porque só existe um único caminho, como ainda o Vaticano diz, mas porque uma religião deve ter alguns princípios e bases. A Wicca é uma religião flexivel, natural, viva e humana, possui diferenças e vertentes, mas certos discursos de pretensos bruxos e sacerdotes sustentam princípios particulares como se fossem universais, usam de quaisquer meios para iludir a opinião pública de que aquilo que defendem é esposado por 'personalidades pagãs' (apelação à autoridade) ou é o que a maioria dos bruxos wiccanos praticam (apelo à maioria), omitindo os princípios e as bases, ocultando as diferentes opiniões e práticas.
Muitos são os caminhos e, portanto, muitos são os destinos. Há tempos que os caminhos deixaram de levar à Roma e na Wicca não existe autoridade central. O caminho que se escolhe só passa a ter sentido quando somos nós a nos adaptarmos a ele e não o contrário. Querer transformar fantasias do ego em espiritualidade é um engano, um desperdício. Todos são livres para escolher e seguir um caminho, desde que não chame esse caminho de algo que isto não é. Evidentemente isso é algo muito dificil para as pessoas e muito mais aos pretensos bruxos e sacerdotes, mais interessados em si mesmos do que na Arte.
Nós seguimos muitos caminhos pela vida, nem todos são sagrados. Um caminho ou um peregrino que faz alarde em busca de reconhecimento e aplauso do público se torna uma armadilha do ego. Um caminho pode ser sagrado, mas isso não torna sagrado quem perambula nele.

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