quinta-feira, 21 de março de 2024

Igrejas lavam dinheiro do tráfico

O Primeiro Comando da Capital (PCC), um dos maiores grupos criminosos da América do Sul, tem sido identificado como uma entidade que movimenta bilhões de reais anualmente. Estima-se que sua receita anual chegue a cerca de R$ 5 bilhões.

Para mascarar suas transações financeiras, oriundas do tráfico de drogas, roubos e outras atividades criminosas, a facção adota uma série de estratégias, incluindo o uso de comércios legítimos, criptomoedas e, surpreendentemente, até mesmo igrejas evangélicas.

As autoridades policiais e o Ministério Público têm intensificado esforços para interromper as fontes de financiamento do PCC. O grande desafio enfrentado pelas autoridades é rastrear o fluxo de dinheiro ilícito que entra em instituições religiosas sob a forma de doações aparentemente legítimas, apenas para ser convertido novamente em ativos ilegais, como drogas e armas.

A relação entre o PCC e igrejas evangélicas se tornou tão entrelaçada que o Ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), alertou para a existência do que ele chamou de “narcomilícia evangélica” no Brasil – essa expressão reflete a profunda ligação entre o crime organizado e certos setores da comunidade religiosa.

Para o promotor de justiça Fábio Bechara, um dos principais desafios enfrentados pelo PCC é a utilização do dinheiro em espécie gerado por suas atividades criminosas.

As igrejas, neste contexto, desempenham um papel fundamental, fornecendo uma maneira de “lavar” o dinheiro sujo, transformando-o em ativos que parecem legais. Essa prática torna ainda mais difícil para as autoridades rastrearem e interromperem as atividades financeiras do grupo criminoso.

“A igreja tem a situação que envolve a liquidez gerada pelo dinheiro em espécie. O dinheiro em espécie, ele é uma forma de você romper esse nexo, esse vínculo da origem com o destino dessa história”, disse Fábio Bechara.

Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/como-o-pcc-fatura-bilhoes-com-igrejas-evangelicas/

Globo é Bolsonaro de sapatênis

Embora visualmente sejam muito diferentes, a Globo e Bolsonaro têm em comum pontos vitais em relação à economia, aos direitos trabalhistas e ao espectro políticos. As diferenças são mais de comportamento, mais superficiais que de fundo. A tal ponto que não é absurdo afirmar que a Globo é Bolsonaro de sapatênis.

Vamos lá:

Ambos são a favor do livre mercado, da independência do Banco Central, das privatizações de todas as empresas.

Ambos são contra a presença do estado na economia; contra os governos de esquerda em qualquer país.


Acham que a legislação trabalhista atrapalha o empresário.

Ambos são americanófilos e defensores intransigentes do estado de Israel, mesmo diante dos crimes cometidos agora em Gaza.

Ambos andaram de braços dados com a ditadura civil-militar de 1964.

Ambos acham que o agro é pop, o agro é tudo.

Ambos têm dupla moral. Quanto a Bolsonaro, nem é preciso dar exemplos, tantos que são. Mas a Globo não. A Globo, por exemplo, sempre criticou e ainda critica os banqueiros do bicho. Não apenas como contraventores envolvidos em outros crimes mais graves, mas por serem vindos de outra classe social.

Sendo assim, como justificar então a venda do triplex da Avenida Atlântica, em Copacabana, que pertencia a Roberto Marinho ao bicheiro e presidente da Beija-Flor Anísio Abraão David?

Como separar o dinheiro sujo de sangue dos homicídios (também denunciados em editorial por O Globo) do usado para comprar o triplex do fundador da Rede Globo?

Outro caso aconteceu em outubro de 2010, quando da assinatura de um convênio entre o governo do estado do Rio e a Fundação Roberto Marinho para a criação do Museu do Amanhã.

A Fundação entrou com o bolso e o governador da época, Sergio Cabral, com R$ 24 milhões, verba que deveria ser usada para prevenção de enchentes, desviada do Fundo Estadual de Conservação Ambiental (Fecam), da Secretaria do Ambiente, para o Museu.

O dinheiro não foi usado pela Secretaria do Ambiente e dois meses depois, no início de janeiro de 2011, ocorreu a Tragédia da Região Serrana, segundo o Portal G1 (da própria Globo), "maior tragédia climática da história do país. Segundo a Polícia Civil, 470 corpos já foram identificados pelo IML, num total de 511 mortos".

Por último, outro denominador comum: ambos são contra Lula e o PT. 

Embora a Globo faça oposição a Bolsonaro, sua oposição é ao político, não a grande parte de suas ideias.

Fonte: https://revistaforum.com.br/opiniao/2024/3/2/globo-bolsonaro-de-sapatnis-tantas-as-semelhanas-entre-os-dois-155007.html

Nota: o autor não explica o motivo do uso do termo sapatênis. Esse termo é muito utilizado para identificar uma determinada classe social, mas acaba sendo um preconceito. Torna-se tão absurdo quanto falar em esquerda caviar.

quarta-feira, 20 de março de 2024

Ilegal e inconstitucional

Na terça-feira (12), a Comissão de Legislação e Justiça da Câmara de Belo Horizonte aprovou o uso da Bíblia como material paradidático nas escolas públicas da capital mineira. Isso significa que o livro poderá ser utilizado como auxílio nas aulas do ensino municipal.

O projeto ainda será analisado pela Comissão de Direitos Humanos antes de seguir para votação no plenário. De acordo com o texto, as “histórias bíblicas” deverão contribuir para os projetos escolares em áreas como história, literatura, ensino religioso, artes, filosofia e outras atividades pedagógicas complementares relevantes.

A vereadora Flávia Borja, autora da proposta, argumenta que a Bíblia poderia ser usada nas escolas públicas, respeitando a opção dos alunos que preferirem não participar das aulas que envolvam o livro.

O relator do projeto na comissão, Sérgio Fernando (PL), destacou que não há irregularidades no projeto com base na Constituição e na legislação municipal. Segundo ele, a regulamentação sobre o uso de recursos paradidáticos visa melhorar a qualidade do ensino nas escolas municipais e complementar o sistema de ensino estabelecido pela União.

Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/a-biblia-pode-vir-a-ser-adotada-como-material-de-apoio-nas-escolas-de-bh-entenda/

Inteligência artificial no pornô

Interessante como o DCM, um jornal supostamente progressista, parece ter uma preocupação com a pornografia.

Citando:

Nos últimos 25 anos, o cenário do entretenimento adulto foi moldado por plataformas como Pornhub e OnlyFans. Agora, uma nova mudança está no horizonte: o uso de inteligência artificial (IA) para criar imagens e vídeos realistas.

Segundo o The New York Times, proprietários de sites estão desenvolvendo modelos de IA personalizados, que utilizam um vasto repositório de conteúdo adulto para gerar pornografia sob demanda. No entanto, essa evolução levanta questões éticas e legais, especialmente em relação à compensação dos artistas, consentimento e potencial para abusos.

Atualmente, não existem leis federais nos Estados Unidos para proteger as vítimas de deepfakes não consensuais, o que abre espaço para o uso indevido da tecnologia. Apesar dos desafios, o setor pornográfico está sempre em busca de inovações, sendo um dos primeiros a adotar novas tecnologias ao longo dos anos.

Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/como-a-industria-pode-usar-inteligencia-artificial-para-acabar-com-estrelas-porno/

Nota: isso vai suscitar muita polêmica e controvérsia. Nossa civilização ainda está sob um sistema regido pela repressão e opressão sexual. Nossa civilização ainda sofre com os dogmas cristãos que coloca o mundo, a natureza, o corpo, o desejo, o prazer e o sexo como algo maligno. Mesmo depois de Freud e Kinsey, nós ainda não sabemos lidar com nossas impulsões, instintos e libidos. A representação ou recriação de uma pessoa real por IA mexe com direitos autorais, de privacidade e intimidade. Mas e quanto a imagens de pessoas fictícias? Isso, aliado ao uso de andróides, pode acabar com as restrições e proibições?
Se isso puder melhorar, mesmo que dentro de alguma regulamentação, vai ser um alívio. Chega de gente (conservadores, fundamentalistas cristãos, radfems) querendo proibir a pornografia e a prostituição.

terça-feira, 19 de março de 2024

Melhor do que o original

Homem de duas caras Bolsonaro sempre foi: diz uma coisa pela manhã e desmente tudo à tarde, zombando da população.

Foi assim nos seus quatro anos no exercício da presidência do Brasil.

A Reuters, fundada no Reino Unido em 1851, reconhecida como a maior agência de notícias do mundo, resolveu trabalhar com o tema das duas caras do falastrão. E o resultado ficou melhor que o esperado.

Num vídeo divulgado neste domingo em seu canal no YouTube, 17, a agência utilizou imagens de um sósia do capitão interagindo com seus seguidores. A ideia é ilustrar a matéria. O sósia aparece nos primeiros 14 segundos.

A reportagem critica as declarações feitas por Bolsonaro durante o evento de lançamento da pré-candidatura do deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ) à Prefeitura do Rio de Janeiro, ocorrido no sábado, 16.

Bolsonaro declarou não sentir temor de ser julgado pelas acusações de seu alegado envolvimento em uma tentativa de “golpe de Estado” articulada após as eleições de 2022.

A Reuters ressaltou que as declarações foram feitas “um dia após uma investigação policial revelar que Bolsonaro tentou cooptar os chefes militares do país para o golpe”.

A agência se refere a Bolsonaro como “líder de extrema direita”, destacando que ele está inelegível por “abusar de seu poder como presidente” e “criticar repetidamente o sistema eleitoral do país”.

Seguidores do ex-presidente foram às redes para criticar a peça criativa.

Até o momento, o vídeo possui mais de mil visualizações no canal da agência de notícias no YouTube, com mais de 3 milhões de inscritos.

Fonte, citado parcialmente: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/reuters-usa-sosia-de-bolsonaro-em-materia-e-fica-melhor-que-o-original/

Nota: no humor estilo Planeta Diário ou TV Pirata, a Reuters mostra o que é humor. A Jovem Klan, digo, Jovem Pan, deveria seguir o exemplo. Isso é, se ainda existir.😏🤭

Biblioteca no terreiro

O llè Okowoò Asé Ya Lomin'Osà - Egbé Òmórisá Sangó inaugurará neste sábado (16) a Biblioteca Adalgiza Lima da Silva. O espaço cultural será voltado para produções sobre religiões de matriz africana, especialmente candomblé, mas também contará com amplo acervo da história e cultura da população negra. O evento é aberto ao público e será realizado no bairro Jardim Universitário, em Cuiabá, a partir das 9h.

A biblioteca consolida o projeto político- cultural da comunidade religiosa, que atua na luta contra o racismo religioso na capital mato-grossense há 14 anos. Para o babalorixá João Bosco Ty Sangó, a inauguração é um marco não só para as religiões de matriz africana. Isso porque o espaço possibilitará o acesso a leituras sobre as lutas e conquistas da população negra para toda a sociedade.

"Desde a fundação do ilè em 2010, buscamos não sermos apenas um espaço de culto aos Orixás. Por meio da Associação Cultural Ébano Brasil, braço civil do nosso ilè, fomentamos debates sobre a importância do povo preto na formação social, cultural, econômica e religiosa da nação brasileira", afirmou o babalorixá.

"Em rodas de conversa, debates e projetos buscamos a compreensibilidade e importância de uma educação antirracista e decolonial. Compreendemos que o território de um ilè asè deve ter essa função. Para além do contexto religioso, também deve ser um espaço de aquilombamento e debates que visem a formação de mentalidades críticas e engajadas em ações antirracistas", completou.

A biblioteca homenageia a ativista cuiabana Adalgiza Lima, que fomentou importantes mobilizações por meio do Grupo de União e Consciência Negra (Grucon) e no Movimento de Inteligência Negra. Engajada, incentivou que os filhos - dentre eles o babalorixá alcançassem a autonomia e lutassem por uma sociedade mais justa por meio da educação.

Com a inauguração do espaço, as pessoas interessadas no acervo poderão acessar a biblioteca de forma gratuita de segundas- feiras as sextas-feiras das 19h30 às 21h30, enquanto que aos sábados o funcionamento se dará das 7h às 13h.

Fonte: https://www.folhamax.com/cultura/casa-de-candomble-inaugura-biblioteca-em-mt/430807

segunda-feira, 18 de março de 2024

A ameaça da extrema direita

“[Em] 2024 temos agora eleições municipais. Vamos caprichar no voto, em especial, para vereadores.” A fala de Jair Bolsonaro mostra aquela que deve ser uma das prioridades da extrema direita e do campo conservador no próximo pleito. Onde não for possível disputar com chances a prefeitura, eleger o máximo possível de candidatos à Câmara Municipal.

A estratégia de ocupar os Legislativos pelo país tem sido posta em prática há tempos, mas tomou corpo e se tornou visível em 2018, quando o segmento conseguiu expressivas bancadas na Câmara e no Senado com a onda bolsonarista, então no seu auge. Muitos achavam que se tratava de um fenômeno pontual, mas as eleições de 2022 indicaram o contrário.

Ainda que o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenha vencido o primeiro turno, com mais de 5% de diferença sobre Bolsonaro, equivalente a mais de 6 milhões de votos, a vantagem não refletiu, por exemplo, na eleição do Senado. Com 27 vagas em jogo, 14 foram conquistadas ou por bolsonaristas de primeira ordem, como Damares Alves e o então vice-presidente Hamilton Mourão, ou por políticos de direita que colaram sua imagem à do líder extremista. Na Câmara, o PL também conseguiu fazer a maior bancada.

E o caminho para chegar ao Congresso Nacional muitas vezes se inicia na vereança, que pode ser um trampolim até direto, como foi o caso do ex-vereador de Belo Horizonte e influencer Nikolas Ferreira (PL-MG), que conquistou a maior votação individual para a Câmara dos Deputados no país e agora já projeta uma candidatura à prefeitura da capital mineira. O youtuber e também deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO) foi outro que se elegeu em função de um pleito municipal. Foi candidato pela primeira vez a prefeito de Goiânia em 2020, obtendo na ocasião 8% dos votos válidos, para dois anos depois chegar à Câmara dos Deputados como o segundo parlamentar mais votado do estado.

Os dois estavam no palanque de Bolsonaro na manifestação da Paulista, no domingo (25). Além da pauta e da influência nas redes sociais, ambos são um exemplo da importância que as eleições de 2024 têm não somente para a disputa em si, mas para o futuro próximo, no pleito nacional.

Após os resultados das eleições municipais de 2020, muitas análises apontavam que o bolsonarismo havia sido derrotado. Afinal, a maioria das disputas das prefeituras têm como pauta principal as questões locais e, mesmo em grandes metrópoles, é difícil “nacionalizar” o embate.

Já nas eleições para a Câmara Municipal, diversos fatores se misturam. As lideranças locais são historicamente importantes influenciadores na decisão do voto, tanto que muitos candidatos conseguem calcular sua base de votação fechando alianças e acordos com personagens relevantes em determinadas áreas. Essa dinâmica não passou incólume pelo advento das redes sociais, mas ainda resiste em boa parte do país. Instituições que têm capilaridade tendem a se sair bem quando traçam estratégias para angariar apoios aos nomes que lançam.

Não à toa, o segmento conservador, em especial aquele ligado a igrejas neopentecostais e também a correntes católicas mais conservadoras, se preocupou em 2023 em promover a ocupação dos conselhos tutelares nas cidades, considerados importantes espaços para o surgimento de possíveis candidatos a vereador. A esquerda se mobilizou, mas tardiamente, embora tenha obtido importantes vitórias, de certa forma, contendo o que seria um desastre ainda maior.

Uma vez eleitos, os candidatos extremistas conseguem aparecer ainda mais para o seu público no cumprimento dos mandatos. Desde homenagens, concessão de títulos, nomes de rua, moções de repúdio até proposição de projetos tidos como “polêmicos” e mesmo francamente inconstitucionais, aproveitam todo espaço para reafirmar seu ideário perante sua base, buscando novos eleitores com perfil similar. Tudo serve como palco, inclusive para discursos que nada tem a ver com a realidade local, com as falas tendo o alcance amplificado nas redes sociais, onde tal segmento político está mais estruturado que o campo progressista ao menos desde 2014.

Com um protagonismo maior que o usual em outros atos do tipo, o teor religioso marcou a manifestação da Paulista. Ainda que a maioria dos presentes tenha se declarado católica, de acordo com pesquisa feita pelo Monitor do Debate Político no Meio Digital, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, as mensagens ali transmitidas, em especial a da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que legitimou textualmente a mistura de religião e política, devem circular nas redes sociais para mobilizar um público engajado e que já esteve a serviço de candidatos ligados a denominações religiosas em outras eleições. “Por um bom tempo fomos negligentes ao ponto de dizer que não poderiam misturar política com religião. E o mal tomou e o mal ocupou o espaço. Chegou o momento, agora, da libertação”, convocou Michelle.

Em 2020, Durante mais de um mês, a Agência Pública realizou uma reportagem após ter recebido relatos sobre campanhas dentro de igrejas e templos de todo o Brasil. A prática é irregular, já que a Lei 9.504/97 prevê que é “vedada a veiculação de propaganda de qualquer natureza” nestes locais. Um dos exemplos citados era de uma distribuição de propaganda impressa no Templo de Salomão, da igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), no bairro do Brás, na capital paulista, feita no próprio domingo em que seria realizado o primeiro turno da disputa municipal. A repórter Mariama Correia recebeu um santinho do candidato a vereador André Santos, do Republicanos, junto com o candidato a prefeito Celso Russomanno, da mesma legenda.

A propaganda, obviamente, não se limita aos panfletos entregues, circulando nos grupos de redes sociais dos integrantes da igreja. Russomanno não foi ao segundo turno, mas André Santos se reelegeu, obtendo 41.584 votos e entrando na lista dos dez mais votados. Em disputas pelo Executivo, muitas vezes candidatos com propostas e defesas de ideias mais radicais afastam o eleitor médio, mas, no caso do Legislativo, não é necessário convencer a maioria, e sim um contingente importante, coeso e mobilizado não necessariamente em torno da figura do político, mas dos valores que ele representa. Como a porcentagem de votos válidos na disputa da Câmara de Vereadores é geralmente maior do que na corrida pela prefeitura (em São Paulo, brancos, nulos e abstenções chegaram a quase 50% em 2020), cada voto pesa ainda mais e a capilaridade e influência de algumas denominações evangélicas se torna mais determinante.

“O crescimento do neopentecostalismo no Brasil tem sido caracterizado por um afastamento do pentecostalismo tradicional, com ênfase na rejeição de hábitos considerados mundanos e no estabelecimento de novas crenças, práticas e rituais. As bases do neopentecostalismo residem na teologia da Prosperidade e da Dominação, que enfatizam a busca por riqueza material como reflexo das bênçãos de Deus. Isso tem tido um impacto significativo na sociedade brasileira, incluindo o envolvimento das igrejas neopentecostais em eleições políticas e seu apoio ao populismo reacionário”, explicam os pesquisadores André Mendes Pini, Fábio Rodrigo Ferreira Nobre e Maria Eduarda Angeiras de Menezes, da Universidade Estadual da Paraíba, no artigo “O Neopentecostalismo no Brasil e a convergência com a ultradireita no populismo reacionário de Jair Bolsonaro”.

As duas teologias citadas, da Prosperidade e a do Domínio/Dominação influenciam direta e indiretamente na visão do fiel. A primeira atribui, por exemplo, o progresso material de uma pessoa e ele mesmo ou a Deus. Ou seja, na avaliação dessa pessoa a criação de um ambiente econômico favorável por parte de um governo ou a promoção de políticas públicas não entra na conta, ainda mais se partir de uma legenda tida como não alinhada. Já a segunda, ao estabelecer que existe uma luta entre o bem e o mal, uma guerra espiritual em curso, justifica a ocupação de espaços como a política, como defendeu Michelle Bolsonaro.

Uma vez nos parlamentos e tendo ainda mais microfones à disposição, políticos ligados a estas igrejas e outros que não são, mas que comungam da mesma ideologia, tendem a travar a chamada “guerra cultural”, criando inimigos imaginários como a ameaça do comunismo, a ficção da ideologia de gênero, e combatendo qualquer avanço em termos de política de drogas, legalização do aborto, direitos LGBTQIA+, além de interferirem no funcionamento das escolas, cerceando a autonomia dos professores e os assediando em suas atividades.

Embora seja possível encontrar parlamentares combativos na esquerda que travam o combate contra pautas obscurantistas, além de serem em diversas ocasiões minoria diante do silêncio cúmplice ou da adesão ruidosa do chamado “centro político” ao extremismo de direita, a postura é geralmente defensiva. Candidatos ao Executivo ou ocupantes atuais também têm receio de partir para o embate mais direto, buscando preservar os possíveis votos do segmento.

Isso promove um círculo vicioso no qual os ideais defendidos por este grupo se consolidam não só entre eles, extrapolando também para o restante da sociedade. O que vai ajudar a eleger, em nível parlamentar, novos defensores dos mesmos princípios.

Se governos têm dificuldades, em virtude de um cenário que ainda é adverso para as pautas progressistas, partidos e entidades da sociedade civil poderiam assumir uma luta com caráter mais propositivo, estimulando debates que saiam do lugar comum que, certamente, não vão promover uma mudança imediata, mas apontar para um horizonte em que ideias “fora da caixa” possam cativar não quem está irresoluto, mas aqueles que têm possibilidade de participar.

Alguns exemplos de que mudanças na opinião pública são possíveis podem ser observados, por exemplo, nos Estados Unidos. Segundo pesquisa do Instituto Gallup, nunca houve um apoio tão grande da população legalização da maconha no país: são 70% dos entrevistados favoráveis, de acordo com levantamento feito em novembro do ano passado. Em 1969, quando o o instituto fez o questionamento pela primeira vez, eram somente 12% que apoiavam a legalização. O apoio ultrapassou 50% pela primeira vez em 2013 e, hoje, o índice aponta maioria favorável mesmo entre aqueles que se denominam conservadores (52%), como entre os republicanos (55%).

No mesmo sentido, mesmo um ano após a Suprema Corte dos EUA ter decidido que o aborto não era um direito constitucional, a maioria dos estadunidenses (64%) segue apoiando a legalização da interrupção voluntária da gravidez, conforme pesquisa da AP-Norc de julho de 2023.

Ainda que os cenários e os momentos históricos sejam distintos, a defesa de valores humanitários e a proposição e discussão de pautas progressistas devem ser tema nestas e em futuras eleições, mas não apenas nesses períodos. Além disso, no Brasil, é preciso enfrentar questões fundamentais como a profunda desigualdade histórica, que se manifesta em níveis distintos, e a precarização do trabalho, por exemplo. São diversas bandeiras que poderiam oferecer um horizonte possível e que trariam ao campo da esquerda e ao próprio governo federal o poder de agenda, ainda hoje em parte nas mãos do bolsonarismo. Como disse o escritor uruguaio Eduardo Galeano, por conta da primeira vitória nacional da esquerda em seu país, em 2014, “tem um pecado que não tem redenção, que não merece perdão. É o pecado contra a esperança”. Passou da hora de voltarmos a cultivá-la.

Fonte: https://outraspalavras.net/crise-brasileira/a-ameca-da-extrema-direita-nas-eleicoes-de-2024/