quarta-feira, 3 de março de 2021

Religião não é inimiga da ciência

Observe qualquer debate na mídia e verá que a ciência e a religião estão, e sempre estiveram, em desacordo. A ciência trata de fatos baseados em evidências, a religião trata de crenças baseadas na fé.

Mas repetir declarações incessantemente na mídia não as torna verdadeiras. Os emaranhados reais da tradição religiosa e do desenvolvimento da ciência são muito mais interessantes do que o conflito superficial comum hoje - e muito mais importantes. E repensar como vemos a relação entre ciência e religião pode ajudar a dar ao pensamento científico o apoio público mais amplo de que ele precisa.

Ciência histórica ligada à religião

A história do pensamento científico está intimamente ligada à do pensamento religioso e com muito mais continuidade do que descontinuidade. O antigo filósofo grego Aristóteles estabeleceu efetivamente o modelo ocidental para estudar o mundo natural no século 4 aC. A maioria de seus trabalhos científicos extremamente influentes foram perdidos para a Europa após o colapso do Império Romano, mas foram desenvolvidos por pensadores árabes muçulmanos como Ibn Sina (Avicena) e Ibn Rushd (Averróis) de cerca de 900 DC a 1300 DC. As primeiras figuras islâmicas foram responsáveis ​​por um progresso muito rápido em  vários campos científicos , notadamente matemática, medicina e estudo da luz (óptica).

Quando Aristóteles foi reintroduzido na Europa no século 12, seu trabalho científico teve uma grande influência sobre os estudiosos medievais, que eram invariavelmente pensadores dentro de uma igreja, sinagoga ou mesquita. Um exemplo chave é o teólogo de Oxford do século 13 e mais tarde bispo de Lincoln, Robert Grosseteste, que também foi um dos primeiros cientistas pioneiros. Ele apresentou uma visão de como podemos obter novos conhecimentos do universo, o surgimento das primeiras noções de experimento e até mesmo uma teoria do “big bang” do cosmos e um conceito de  múltiplos universos .

No entanto, por trás do trabalho de Grosseteste está uma filosofia da natureza muito mais profunda e em desenvolvimento. Em um comentário sobre a Posteria Analytics de Aristóteles,  ele descreve  uma propensão exclusivamente humana que ele chama (em latim) de “sollertia”. Com isso ele quer dizer uma espécie de habilidade intensa e perceptiva de olhar além da superfície do mundo material para sua estrutura interna.

Ciência, vendo além dos outros

Isso é notavelmente semelhante à nossa abordagem da ciência hoje. Isaac Newton descreveu sua ciência como “ ver além dos outros ”. Para Grosseteste, nossa sollertia vem, por sua vez, de ser criada à imagem de Deus. É uma tarefa teologicamente motivada que contribui para a realização do ser humano.

Quando o filósofo do século 16 Francis Bacon defendeu uma nova abordagem experimental para a ciência, ele se baseou explicitamente nessas motivações teológicas. Como argumenta o historiador da ciência  Peter Harrison , os pioneiros científicos que seguiram Bacon, como Newton e o químico Robert Boyle, viam sua tarefa como trabalhar com os dons de Deus dos sentidos e da mente para recuperar um conhecimento perdido da natureza.

Levar esta lição de história a sério nos ajuda a ver  quão antigo é  o sistema de raízes da ciência. Insistir que a ciência é um avanço puramente moderno não ajuda no importante processo de embutir o pensamento científico em nossa cultura mais ampla. Forçar as pessoas a separar a ciência da religião em um extremo leva a negações prejudiciais da ciência se as comunidades de fé não puderem integrar as duas.

Fonte: https://www.ancient-origins.net/human-origins-science/religion-science-009507

terça-feira, 2 de março de 2021

As Virtudes Romanas

A primazia sobre as Virtudes antecede ao Cristianismo. A verdadeira origem das virtudes vem da Roma Antiga.
Eu cito a lista das virtudes romanas:

"Virtudes Pessoais

Estas são as qualidades de vida as quais todos os cidadãos (e, idealmente, todos os outros também) deveriam aspirar. Elas são o coração da Via Romana — a Maneira Romana — e acredita-se que foram estas qualidades que deram à República Romana a força moral necessária para conquistar e civilizar o mundo. Hoje, elas são a base para que possamos medir nosso comportamento, para então melhor entendê-las e praticá-las na nossa vida cotidiana.

Auctoritas: "Autoridade Espiritual". O senso da função social de alguém, construída através de experiência, Pietas e Industria.

Comitas: "Humor". Boas maneiras, cortesia, amizade, abertura aos outros.

Clementia: "Mercê". Suavidade e gentileza.

Dignitas: "Dignidade". Um senso de auto-estima, orgulho próprio.

Firmitas: "Tenacidade". Força de mente, a habilidade de defender uma proposta.

Frugalitas: "Frugalness". Economia e simplicidade de ser, sem entretanto ser miserável.

Gravitas: "Gravidade". Um senso da importância de um assunto; responsabilidade, seriedade e determinação.

Honestas: "Respeito". A imagem que se apresenta como um membro respeitável de uma sociedade.

Humanitas: "Humanidade". Refinamento, civilidade; aprender, e possuir cultura.

Industria: "Industriousness". Trabalho duro.

Pietas: "Submissão". Mais que a piedade religiosa, um respeito pela ordem natural social, política e religiosamente. Inclui as idéias de patriotismo e devoção, e outras.

Prudentia: "Prudência". Previsão, sabedoria e discrição pessoal.

Salubritas: "Saúde". Saúde e limpeza.

Severitas: "Severidade". Gravidade, auto-controle

Veritas: "Verdade". Honestidade em relação aos outros.

Virtudes Públicas

Além das virtudes pessoais, que eram aspiradas por indivíduos, a cultura romana também defendia virtudes em comum que deveriam ser compartilhadas por toda a sociedade. Perceba que algumas das virtudes as quais os indivíduos deveriam aspirar também são virtudes públicas, a serem seguidas pela sociedade como um todo. Estas virtudes eram às vezes expressas cunhadas nas moedas; desta forma, sua mensagem seria compartilhada por todo o mundo clássico. Em diversos casos, as virtudes eram personificadas em divindades.

Abundantia: "Abundância, Plenitude". O ideal de haver comida e prosperidade suficientes para todos os segmentos da sociedade.

Aequitas: "Igualdade". Justiça e igualdade tanto dentro do governo como entre as pessoas.

Bonus Eventus: "Boa sorte". Lembrança de importantes acontecimentos positivos.

Clementia: "Clemência". Mercê, mostrada às outras nações.

Concordia: "Concórdia". Harmonia entre o povo romano, e também entre Roma e as outras nações.

Felicitas: "Felicidade, Prosperidade". Uma celebração dos melhores aspectos da sociedade romana.

Fides: "Confiança". Boa-fé em todos os atos comerciais e governamentais.

Fortuna: "Fortuna, Sorte". Um agradecimento aos acontecimentos positivos.

Genius: "Espírito de Roma". Agradecimento ao espírito combinado de Roma, e de suas pessoas.

Hilaritas: "Alegria, jovialidade". Expressão dos momentos felizes.

Justica: "Justiça". Como expressa por leis e governos sensatos e com bom-senso.

Laetitia: "Contentamento, felicidade". Celebração do agradecimento, geralmente pela solução de crises.

Liberalitas: "Liberalidade". Dar generosamente.

Libertas: "Liberdade". Uma virtude a que tem sido aspirada por todas as culturas.

Nobilitas: "Nobreza". Ações nobres dentro de uma esfera pública.

Ops: "Riqueza". Reconhecimento da prosperidade do mundo romano.

Patientia: "Paciência". A habilidade necessária em momentos de tempestade e crise.

Pax: "Paz". Uma celebração de paz dentro da sociedade e entre as nações.

Pietas: "Piedade". As pessoas prestando honra aos deuses.

Providentia: "Providência". A habilidade da sociedade Romana em sobreviver a desafios e manifestar um grande destino.

Pudicita: "Modéstia". Uma expressão pública contra a acusação de "corrupção moral" da Roma Antiga.

Salus: "Saúde". Preocupação com o bem-estar e a saúde públicos.

Securitas: "Segurança". Trazida pela paz e por um governo eficiente

Spes: "Esperança". Especialmente em tempos de dificuldade.

Uberitas: "Fertilidade". Particularmente em relação à agricultura.

Virtus: "Coragem". Especialmente dos líderes da sociedade e do governo". [http://www.novaroma.org/via_romana/virtues.html.pt]

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Os mártires pagãos

Qualquer pessoa que tenha sido educada no mundo Ocidental está familiarizada com as “terríveis perseguições” sofridas por um número incontável de cristãos nos primeiros três séculos do Império Romano.

Em 1632, o cardeal Ginetti encarregou padre Girolamo Bruni, da Congregação de São Felipe Néri, de realizar uma investigação para apurar o número exato de cristãos martirizados na Antiga Roma. O padre emérito executou a tarefa com diligência e o resultado foi espetacular: 64 milhões de mártires! Um valor simplesmente absurdo se formos considerar que no Império havia apenas 50 milhões de habitantes, entretanto esse número foi oficializado pela Igreja católica aos 10 de abril de 1668.

Além disso, de acordo com a tradição, os primeiros cristãos eram mansos e inocentes e, invariavelmente, enfrentavam os leões com surpreendente letícia, sustentada por uma fé firme e inabalável. Ao contrário, os opressores pagãos eram covardes, pervertidos, viciosos, brutais e impiedosos, chegando a matar os honestos cristãos sem razão, a não ser por puro sadismo. Os textos de apologética afirmam que a estirpe dos cristãos só conseguiu sobreviver à extinção total se escondendo -geração após geração- nas catacumbas (que na verdade eram simples cemitérios afastados), igual toupeiras. Esses senhores, porém, esquecem de explicar que, na verdade, as perseguições foram raras e intervaladas por longos periódos de calmaria total, tanto que o cristianismo cresceu sem parar e espalhandou-se em todas as províncias do Império.

Há algo de estranho e esquisito na história contada pela Igreja, algo que contrasta com o espírito de tolerância mostrado pelos Romanos em relação a todos os cultos do Império. O famoso historiador britânico Edward Gibbon escreveu, no século XVIII, que esse espírito encontrava respaldo na atitude romana para com os Judeus pois, “de acordo com as máximas da tolerância universal, os Romanos protegiam uma superstição que desprezavam“. Não havia, portanto, um motivo plausível para que os cristãos não fossem tolerados como os Judeus. Entretanto, diversamente de todas as outras religiões da época que conseguiam conviver em harmonia entre si, os cristãos parecem ter provocado uma grande hostilidade tornando-se notavelmente impopulares.

Tácito, por volta de 110 d.C., escreveu que eles eram “notoriamente depravados“. Suetônio (70-160 d.C.) registrou que o imperador Cláudio os expulsou de Roma por causar distúrbios contínuos. Até alguns líderes cristãos, como Cipriano, bispo de Cartago, afirmaram que os cristãos mereciam o tratamento que estavam recebendo. Objetivamente os cristãos costumavam se estranhar da realidade social da época proclamando que todas as outras divindades eram falsas e que deviam ser abatidas. Além de recusar o serviço militar e a participação às festas religiosas e civis, consideravam Roma a capital mundial do vício, digna de ser destruída com fogo e enxofre: “Caiu, caiu a grande Babilônia, e se tornou morada de demônios, e coito de todo o espírito imundo, e coito de toda ave imunda e aborrecível” (Apocalipse, 18:2). Sabe-se de soldados que, depois de terem se convertido desertaram do exército, como no caso de Teodoro de Amásia que, além de trair, botou fogo no templo de Cibele e, por isso, foi devidamente justiçado como incendiário. A Igreja o proclamou santo e mártir.

Hoje sabemos que as perseguições aos cristãos foram modestas, intermitentes, limitadas geograficamente e jamais desencadeadas por motivos eminentemente religiosos. As autoridades procediam com extrema cautela e, nas poucas cidades onde se pensava que os cristãos representassem uma ameaça, apenas alguns dos suspeitos foram presos, mas nem todos foram indiciados. Dos acusados, somente uma fração foi condenada, sendo a grande maioria dos apenados presa ou exilada, e muitos acabaram se beneficiando de anistias. As penas capitais foram realmente poucas, tanto que o apologista cristão Orígenes (185-253 d.C.) afirmou que o número de mártires “é pequeno e fácil de ser calculado”. Os rescritos imperiais sempre recomendavam que os magistrados agissem com moderação evitando de acatar as acusações anônimas e averiguando se as acusações tivessem fundamento. O bispo Eusébio de Cesaréia (265-339 d.C.) relata numerosos casos de cristãos se recusando de responder às perguntas do juiz, de dizer seus nomes ou inventando nomes falsos tirados do Antigo Testamento. Fontes históricas independentes narram que os cristãos mais fanáticos suplicavam as autoridades para que os martirizassem enquanto que os próprios magistrados imploravam que esses desvairados tivessem pena de si mesmos e desistissem de suas loucuras. De alguma forma, as Autoridades romanas agiam com a finalidade de proteger os cristãos do fanatismo popular e, em 177 d.C., os soldados salvaram a comunidade cristã de Lion que estava prestes a ser linchada pela população enfurecida.

A Igreja, além de ter manipulado e até inventado a biografia dos mártires (veja por exemplo o caso da inexistente Catarina de Alexandria), utilizou o martírio como prova da veracidade da Revelação alegando que jamais um fiel teria enfrentado as torturas e a morte se a sua religião não tivesse sido a única verdadeira. Se os cristãos conseguiram aguentar a dor e os suplícios era porque eles eram amparados por uma prodigiosa força sobrehumana advinda do Espírito Santo. Mas se esse raciocínio for verdadeiro para o Cristianismo, então deve valer também para qualquer outra fé, inclusive para o Paganismo. Efetivamente, deixando de lado o caso de Hipácia, virgem pagã martirizada em Alexandria do Egito aos 8 de Março de 415 d.C. -cuja história tornou-se popular graças o filme “Alexandria” (2009) dirigido por Alejandro Amenábar e interpretado por Rachel Weisz– ninguém jamais ouviu falar nas inúmeras pessoas que sofreram o martírio por não terem largado a sua fé nas antigas divindades pagãs. Nas escolas, nas universidade e nos livros de história, nada se fala a respeito desses outros mártires: eles simplesmente sumiram sem deixar rasto, assim como –caso a Alemanha nazista tivesse vencido a guerra- nada se saberia hoje do holocausto de milhões de Judeus.

Objetivamente têm razão aqueles que dizem que o Cristianismo dividiu em duas partes a história da Humanidade. De fato, antes havia tolerância, saber, arte, filosofia e beleza. Depois veio o terror totalitário que, com seu cortejo de ignorância e de medo, enturvou o mundo por mais de quinze séculos seguidos. Ninguém está querendo culpar Jesus por essa catástrofe, afinal ele foi um homem sábio, idealista, imbuído de patriotismo e de espírito inovador da religião israelita. O primeiro responsável foi Paulo de Tarso que, sem sequer ter conhecido Cristo, desnaturou a mensagem de Jesus inventando uma nova religião profundamente intolerante. A que segue é uma lista, necessariamente parcial, das principais perseguições e/ou atos de violência perpetrados pelos cristãos desde o início da nossa Era até o fim do Império Romano do Ocidente. Como a cronologia é relativa a anos da Era Vulgar, a notação d.C., sendo redundante, é omitida.

Ano 54. Paulo de Tarso ataca pela primeira vez o culto de Ártemis (Diana) de Éfeso, cujos sacerdotes e sacerdotisas tinham a obrigação de praticar a castidade. Quando, uns séculos depois, vieram as persecuções contra os adeptos de Diana, cerca de 30.000 gregos foram crucificados devido eles terem se recusados de abjurar o culto à deusa.

Ano 250. A seita gnóstica de Saturnino, devota de Cristo e fautora da ascese, da meditação e da pudicícia, é perseguida e exterminada pelos cristãos dogmáticos.

Ano 301. Um pregador de nome Gregório, durante uma calamidade natural e explorando a superstição do rei da Armênia Trídates III consegue convertê-lo. O rei ordena o massacre dos sacerdotes pagãos e a transformação em igrejas dos templos das antigas divindades greco-romanas. Todas as bibliotecas armênias, fundadas por soberanos helenísticos, são queimadas por serem “cofres de conhecimento demoníaco“.

Ano 315. Inicia a perseguição aos seguidores das divindades clássicas. Em Dídimos, atual Turquia, por ordem do general romano Materno Cinégio –por sua vez incitado pelos monges locais, é saqueado o oráculo de Apolo e os sacerdotes torturados até a morte. Os pagãos do sagrado Monte Atos são detidos sob a falsa acusação de traição e justiçados; todos os templos pagãos do local são destruídos.

Ano 330. O imperador Constantino I pilha os tesouros e as estátuas dos templos pagãos da Grécia para decorar Constantinopla, a nova capital do Império. Enquanto isso, os cristãos saqueiam e ateiam fogo no santuário do deus celto-romano Apolo de Bayeux onde os sacerdotes são linchados. Nenhum apologista cristão censura esse Imperador por ele ter mandado assassinar a esposa e o filho.

Ano 334. Um decreto imperial ordena o fechamento de todos os templos pagãos. Alguns deles são profanados e transformadas em bordéis por desprezo à religião pagã. Muitos sacerdotes são executados. Importantes bibliotecas em várias cidades do império são queimadas.

Ano 335. O imperador Constantino I saqueia vários templos pagãos na Ásia Menor e na Palestina e ordena a execução por crucificação de “todos os magos e adivinhos“. Destarte, todos os “oráculos e os acusados de magia” são crucificados como culpados pela má colheita daquele ano. Os livros de geometria são proibidos por serem considerados textos de magia. Sópatro de Apameia, filósofo neoplatônico defensor do paganismo e da filosofia é martirizado. Esse ano marca o começo da caça às bruxas que vai continuar na Europa até a última queima no século XVIII na França.

Ano 341. O novo imperador Constâncio persegue “todos os adivinhos e os helênicos [os pagãos]”. Muitos são aprisionados e justiçados. Todos os templos são fechados. Dois anos depois um novo decreto institue a pena de morte para os idólatras.

Ano 357. A deusa Vênus, também chamada de Luxfero, ou seja, “portadora de luz”, torna-se Lúcifer; Astarte, também chamada de Astarote, torna-se um demônio; a deusa Fortuna Mammona torna-se Mamon, o diabo mencionado nos Evangelhos. Centenas de toneladas de estátuas gregas e romanas de valor e beleza incomparáveis são jogadas nas fornalhas e transformadas em cal. Assim perde-se boa parte do patrimônio artístico da Humanidade. Também o estudo dos astros é proibido.

Ano 359. Na cidade de Citópolis, na Palestina, os cristãos organizam o primeiro entre muitos campos de concentração para a tortura e execução dos pagãos presos em qualquer parte do Império. O historiador Amiano Marcelino escreve: “Dos lugares mais remotos do Império arrastaram incontáveis cidadãos de todas as idades e classes sociais, acorrentados, e muitos deles morreram no caminho ou nas prisões locais. Quem conseguiu sobreviver, acabou em Citópolis, uma cidade remota na Palestina, onde eles colocaram os instrumentos de tortura e execuções”. Um cronista pagão escreve: “Se nós estamos vivos, então é a própria vida que está morta”.

Ano 364. O imperador comilão Joviano manda queimar a famosa biblioteca de Antioquia e, aos 11 de setembro, ordena a pena de morte para todos os pagãos que praticam o antigo culto dos deuses ancestrais ou a adivinhação. Com três decretos sucessivos determina o confisco das propriedades dos templos pagãos, punindo com a pena capital aqueles que se dedicam aos rituais pagãos, mesmo que sejam dentro de casa. Poucas semanas depois Joviano falece de morte súbita provocada, parece, por uma violenta indigestão mas, para os cristãos, dessa vez não se trata de um castigo divino.

Ano 370. O imperador Valente ordena uma tremenda perseguição contra os pagãos em toda a parte oriental do império. Em Antáquia, entre muitos outros pagãos, são executados o ex-governador Fidustius, e os sacerdotes Hilarius e Patricius enquanto milhares de inocentes são torturados ou mortos por terem simplesmente se recusado de abjurar o culto tradicional. Numerosos livros são queimados nas praças das cidades do Império do Oriente. Todos os amigos do falecido imperador Juliano (Orebasius, Sallustius, Pegasius, etc.) são perseguidos. O filósofo Simónides é queimado vivo e o filósofo Máximus é decapitado.

Ano 372. O imperador Valente ordena ao governador da Ásia, Fisto, que extermine todos os gentios e destrua suas obras. Inúmeras pessoas apavoradas começam a queimar suas livrarias para escapar do perigo. Quem tem a coragem de resistir é entregue aos carrascos. As delações são muitas, o clima é de terror. É inventado o termo pagão (de pagus = vilarejo) como forma de desprezo aos gentios. São Martino completa a destruição dos templos da Galácia e até as representações teatrais são proibidas. Valente enfrenta os Godos na batalha de Adrianópolis (378) onde, não querendo, por soberba, esperar a ajuda do imperador do Ocidente Graciano, é derrotado e morto pelos bárbaros. A perseguição é suspensa: os cristãos choram, mas os pagãos agradecem aos deuses.

Ano 380. Em 27 de fevereiro, um édito do imperador Teodósio I proclama ser o cristianismo a única religião de Roma, e proíbe todas as outras. Ele declara que os pagão são “repugnantes, hereges, estúpidos e cegos“. O bispo Ambrósio de Milão está autorizado a destruir todos os templos dos gentios. Em Constantinopla o templo de Afrodite é transformado em bordel e os de Hélio e Ártemis em estábulos. Apesar desse monstro pior que Nero haver ordenado o massacre de 7.000 habitantes de Salonica, os bajuladores cristãos da época o glorificam com o apelido “Grande”.

Ano 388. Os monges ateiam fogo numa sinagoga a Raqqa e aterrorizam as aldeias da Síria. Outros patrulham as cidades do Alto Egito em busca de ídolos. Na África do Norte os monges, armados com porretes chamados de “Israel”, varrem o interior em busca de inimigos. Hordas de eremitas fanáticos vindos do deserto invadem as cidades do Oriente Médio e do Egito, destruindo estátuas, altares, bibliotecas e templos, e linchando os pagãos. O Patriarca de Alexandria Teófilo incita as massas cristãs levando-as a realizar grandes perseguições contra os gentios e à destruição do Serapeu de Alexandria, a maior biblioteca da Antiguidade (a cena é mostrada no filme de Amenábar). Todos os sacerdotes da Galácia são degolados.

Ano 392. O imperador Teodósio I proíbe todos os rituais não-cristãos e ordena uma nova perseguição em larga escala contra os pagãos. Os Mistérios da Samotrácia são proibidos e os sacerdotes pagãos são assassinados. Em Chipre, o bispo Epifânio manda destruir quase todos os templos da ilha e exterminar milhares de pagãos. Os Mistérios locais da deusa Afrodite são censurados.

Ano 395. Dois novos decretos geram ulteriores perseguições contra os pagãos. Rufino, o eunuco primeiro-ministro do imperador Flávio Arcádio, dirige suas hordas de Godos cristianizados, liderados por Alarico, na Grécia. Estimulados por monges cristãos, esses bárbaros saqueiam e queimam muitas cidades, abatem ou escravizam incontáveis pagãos helênicos e derrocam os antigos templos. Queimam o Santuário de Elêusis com dentro os seus sacerdotes. Enquanto isso, o imperador ordena que o culto ao paganismo seja considerado ato de alta traição.

No ano 398, o IV Concílio de Cartago proibe a todos, inclusive aos bispos cristãos, a leitura dos textos pagãos: inúmeros livros são incinerados em públicas fogueiras, exatamente como na Alemanha nazista em 1933. Todo o saber da Antiguidade é banido.

Ano 401. Em Cartago, a população cristã lincha os pagãos e destrói templos e estátuas. Também em Gaza o bispo São Porfírio ordena que seus seguidores linchem os pagãos e derrubem os nove templos ainda ativos na cidade. O XV Concílio de Calcedônia ordena a excomunhão daqueles cristãos que mantenham boas relações com seus parentes pagãos. Os piores inquisidores são proclamados santos.

Ano 408. Por decreto imperial fica proibida a posse de qualquer escultura pagã. São punidos aqueles juízes que mostrem piedade para os pagãos. Em 409 é decretada a pena de morte para os astrólogos que também são todos astrônomos, como a famosa matemática Hipácia de Alexandria.

Ano 415. A filósofa neoplatônica Hipácia é agredida por um grupo de monges parabolanos às ordens de São Cirilo. Essa eminente cientista, virgem e mártir, é esfolada viva e suas carnes ainda palpitantes são queimada na fogueira. Quem atesta esse crime é o historiador cristão Sócrates Escolástico. Contemporaneamente, na África do Norte, os sacerdotes pagãos são crucificados ou queimados vivos. Em Constantinopla, o governador Anatolius e outros pagãos são condenados a serem devorados pelos leões, mas como as feras não os atacam, eles são crucificados. Estranhamente ninguém clama ao milagre e ninguém se converte quando os animais não os abocanham, como supostamente acontecia com os mártires cristãos.

Ano 416. Os inquisidores exterminam os últimos pagãos da Bitínia e, no final do ano, são despedidos todos os funcionários públicos que não se convertem ao cristianismo.
No Ano 423 o imperador Teodósio II proclama que a religião dos pagãos é “o culto do demônio”: aqueles que ainda a seguem ficam passíveis de cárcere e de tortura. Os monges parabolanos martirizam Hipácia de Alexandria.

Ano 435. Em 14 de novembro, um novo édito do imperador Teodósio II ordena a pena de morte para os cristãos dissidentes e os pagãos do Império. Nessa altura, havia poucas conversões, porque as pessoas tolerantes tinham horror a tanta crueldade e a maioria das conversões era falsa, realizada apenas para salvar a vida. Três anos depois, os pagãos, considerados responsáveis por uma epidemia de peste, são novamente perseguidos.

Ano 440 até 450. Um enésimo edito imperial manda que todos os livros não cristãos sejam queimados. Também a arte é banida, a não ser que seja usada como instrumento para divulgar a fé cristã.

Ano 457 até 491. Ocorrem perseguições esporádicas contra os pagãos na parte oriental do Império. Entre os executados estão o doutor Jacobus e o filósofo Géssio. Severiano, Heréstio, Zósimo, Isidoro e outros são torturados e encarcerados. O pregador cristão Conon e seus seguidores exterminam os derradeiros pagãos da ilha de Imbros. Os últimos adoradores de Zeus são executados em Chipre.

Termina aqui a lista, muito resumida, dos crimes cometidos pela Igreja cristã no Império Romano cuja parte Ocidental, a partir de 476, cessa de existir. Naturalmente as perseguições continuam na parte Oriental, também conhecida como Império Bizantino onde a antiga religião é ainda praticada clandestinamente por muitas pessoas. O panorama de devastação é sempre o mesmo, caracterizado pela destruição de templos, estátuas, monumentos, livros, bibliotecas, etc. Infelizmente até os modernos livros de História narram que o Império Romano acabou por causa das invasões barbáricas e isso é verdade no que diz respeito ao lado político dessa antiga instituição política. No entanto, o aniquilamento de uma imensa cultura milenar começou bem antes das invasões e foi perpetrado pelos próprios cristãos. Se, a partir de agora, na Europa ocidental as perseguições se dirigem contra os “hereges”, no mundo bizantino as vítimas continuam sendo principalmente os pagãos.

Em 528 o imperador Justiniano (casado com uma ex prostituta insaciável e lasciva) suprime a Academia, a antiga Escola Filosófica de Atenas onde havia ensinado Platão. Terminam para sempre os Jogos Olímpicos e todos os suspeitos de praticar “a bruxaria, a adivinhação, a magia e a idolatria” são executados mediante o fogo, a crucificação ou o desmembramento com garras de aço. Tido em suma consideração pelos cristãos, esse ambiciosíssimo Imperador fundou o seu poder sobre o massacre de 35.000 homens, mulheres e crianças que manifestavam pacificamente no hipódromo de Costantinopla durante a Revolta de Nika. Uma figura bem diferente dos antigos imperadores pagãos e, em particular, do mite e tolerante Julião (331-363) que Voltaire retrata com essas palavras: “Sóbrio, casto, altruísta, valoroso e clemente”.

Enquanto a Igreja cristã foi preseguida nunca deixou de solicitar tolerância e liberdade religiosa, mas não apenas conquistou o apoio dos imperadores tornou-se intolerante e perseguidora chegando a usar a violência mais brutal para aniquiliar não apenas os pagãos, mas também os cristãos tidos como heréticos. Os crimes mais repugnantes foram justificados com base em versículos do Antigo Testamento como, por exemplo, “Matai velhos, mancebos e virgens, criancinhas e mulheres, até exterminá-los” (Ezequiel 9:6). Quanto às conversões forçadas, a base doutrinal foi encontrada no próprio Evangelho onde diz: “E disse o Senhor aos servos: Sai pelos caminhos e valados, e força-os a entrar, para que a minha casa se encha” (Lucas 14:23).

Como resultado, a populaça cristã foi deixada livre e até estimulada a atacar e destruir sinagogas e templos com a certeza de pilhagem e de impunidade. Espiões disfarçados de pagãos foram designados para denunciar aqueles que não simpatizavam com a causa cristã. Falsas testemunhas foram apresentadas e aceitas sem problemas pelos tribunais partidários sendo, as confissões, extraídas com a ajuda da tortura. Jovens e idosos foram induzidos a denunciar seus amigos e familiares, assim como aconteceria no regime nazista alemão ou na Rússia de Stalin. Inúmeros inocentes foram executados e os mais sortudos apenas encarcerados ou exilados. Em algumas províncias, presos, exilados e fugitivos da intolerância cristã chegaram a totalizar mais da metade da população. As propriedades foram confiscadas, a Igreja começou a ficar imensamente rica e senhora absoluta dos corpos, das mentes e das almas de milhões e milhões de pessoas.

Moral da história: é a supressão violenta do paganismo no mundo Mediterrâneo que determina, muito mais que os eventos políticos, o fim duma esplendorosa cultura milenar conhecida com o nome de Antiguidade. A partir daquele momento a Europa regride sob todos os aspectos e começa aquela fase que os historiadores chamam de Idade Média ou, também, de Idade das Trevas.

Fonte: https://principedaliberdade.wordpress.com/2018/05/31/os-martires-na-antiga-roma/

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Cultura Andina

Eu parei de escrever nesse blog em 25/06/2016 e voltei quase cinco anos depois. Muita coisa aconteceu nesse período, eu passei por uma péssima experiência, mas não irei comentar sobre isso.

Eu vou focar em divulgar o Paganismo, a Bruxaria e a Wicca. O que eu irei abordar, hoje, fez parte de minha viagem para o Chile em outubro de 2018.

Ali eu pude ter contato direto com a cultura, a religião e o povo original da América Latina. Em 23 de janeiro de 2016 eu escrevi um texto sobre a “roda do ano latina”. Foi com surpresa e satisfação que eu encontrei no Chile a Chakana [a “cruz andina”]:


“Chacana, Chakana: (n) (1) Escadas; escada. A Cruz andina, ou Inca , cruz que reflete os três mundos (Hanaqpacha – superior , Kaypacha – face da terra , Ukhupacha – inferior e interior), com um disco central representando o Hatun Inti (O Divino Sol Central).  A representação inca da constelação Cruzeiro do Sul descrito como poder simbólico para ponte entre o céu e a terra. Uma cruz, especificamente a cruz andina.; um símbolo da simetria divina e equilíbrio”. [Inca Glossary]

“A cosmovisão andina, a imagem que a cultura tem do mundo e das pessoas está muito ligada à cosmografia, que é a descrição do cosmos e neste caso para o céu do hemisfério sul; o eixo visual e simbólico é marcado pela constelação do Cruzeiro do Sul, chamado Chakana. [snip]

No universo andino existem mundos simultâneos, paralelos e interligados, que reconhecem a vida e a comunicação entre as entidades naturais e espirituais. A visão é baseada em cosmologia, que é a fase da explicação mitológica do mundo, e estão organizados como a base da sintaxe do pensamento. [snip]

A Chakana é a representação de um conceito com vários níveis de complexidade de acordo com a sua utilização. É o nome da constelação do Cruzeiro do Sul, resume a cosmo visão andina e é um conceito ligado a estações astronômicas. É considerada a ponte ou a escada que permitiu que os povos andinos mantivessem seus cosmos latentes de ligação, um anagrama de símbolos, definindo em si a filosofia de vida, a ciência, a cultura andina. Para essa cultura haveria dois espaços sagrados que se opõem uns aos outros: primeiro vertical, dividido ao meio (macho e metade fêmea), segundo horizontal, dividido em seres celestiais e seres terrestres e subterrâneos”. [Portal Terra Base]

Eu pude conhecer também o povo Mapuche e sua Cosmovisão:

“A terra caracteriza e dá sentido existencial aos mapuche, fazendo parte desde seu etnônimo (gente da terra) até a espécie de seus sobrenomes, geralmente toponímias do lugar em que historicamente vivem (ou viviam) as diferentes linhagens de parentesco.

Os Mapuche usam a ideia de mapu para designar a Terra, compreendida enquanto seus territórios tradicionais, contudo não somente no simples plano material. A ideia de mapu não faz “só uma referência ao tangível, ao material, senão que possui uma dimensão espacial que permite situar todas as dimensões da vida no universo. Ou seja, possui também uma dimensão transcendente” (PAILLAL, 2006, p. 31). O conceito de Mapu alude assim a um espaço tanto físico como metafísico, onde as forças do bem e do mal se complementam e interagem.

O universo cosmogônico Mapuche possuiria duas dimensões: uma vertical e outra horizontal. A primeira faz referência a uma série de plataformas que estariam superpostas no espaço, possuindo certa hierarquia, sendo as superiores relacionadas ao bem e as inferiores ao mal. A mapu, estaria em um grau intermediário, espaço de intersecção, lugar onde o bem e o mal permeiam sincronicamente.

Em relação à dimensão horizontal, estas plataformas seriam todas quadradas e de igual tamanho. Geograficamente, esta plataforma que é a mapu, está orientada segundo os quatro pontos cardeais, tomando como referência o leste, materializado pela cordilheira dos Andes, direção sagrada e positiva de onde nasce o sol, matriz da presente concepção espacial.

A ideia do mundo quadrado, sendo os vértices os pontos cardeais é representada no kultrun, um dos instrumentos musicais mais importantes da cultura Mapuche, utilizado tradicionalmente em rituais xamânicos. “O kultrun é o resumo do conjunto da criação que a machi utiliza para seus serviços como símbolo e expressão do poder” (PIUTRÍN, 1985, p. 121). É justamente no centro deste quadrado, o centro do universo, que as comunidades Mapuche localizam sua morada. Este ponto é demarcado fisicamente no terreno por meio do nillatúe, um monumento antropomórfico de madeira colocado em um campo aberto na comunidade Mapuche, sendo um espaço sagrado onde se celebram de tempo em tempo rituais de fertilidade (nillatún).

Cabe ressaltar dois pontos fundamentais da cosmovisão Mapuche. O primeiro é o caráter animista desta cultura, ou seja, a ideia de que todos os elementos da natureza são vivos, conscientes e possuem ânima (espécie de energia, o qual os Mapuche chamam de newén). Assim, por exemplo, uma planta medicinal possui em sua essência um determinado newén; sendo justamente este, incorporado por aquele que ingere a planta, o responsável pela cura do enfermo. O segundo aspecto importante é o da reciprocidade, ideia fundamental no “Kimün Mapuche” (sabedoria Mapuche), na qual pauta-se a ideia do equilíbrio das relações, fundamental a sua perpetuidade”. [https://pt.wikipedia.org/wiki/Mapuches]

Aqui vale a pena anotar o simbolismo do kultrun:



“O kultrun ou cultrún representa na visão de mundo Mapuche metade do universo ou o mundo em sua forma semiesférica; Os quatro pontos cardeais são representados no patch, que são os poderes onipotentes de Ngnechen, dominador do universo, que são representados por duas linhas como uma cruz e suas extremidades se ramificam em mais três linhas, representando as pernas do choique (avestruz) ; Dentro das salas que são divididas pelas linhas descritas acima, as quatro estações do ano são desenhadas.

Desde os tempos antigos, o conhecimento sobre a natureza se reflete neste instrumento sagrado. Nele você pode ver o que existia como uma linha que divide geográfica e naturalmente esta nação-nação, a Cordilheira dos Andes, marcando seus extremos: Pikun (Norte) e Willi (Sul); Outra linha imaginária que corta transversalmente é aquela que representa a trajetória do sol, Puel (Leste) e Gulu (Oeste). Desta forma, o conhecimento dos pontos cardeais é evidenciado.

Também pode ser visto nas salas em que se divide o Kultrun das diferentes estações do ano:

Pukem (inverno): É o momento em que o Xufken Mapu renova sua fertilidade através da chuva e da claridade do Antu (Sol), pois é aqui que os dias começam a se alongar. Com os diferentes elementos que usarão posteriormente para trabalhar na próxima etapa.

Pewü (primavera): é o segundo estágio, pu kvuzaw (empregos) começam a se desenvolver . É quando as famílias se preparam para sair do inverno. Além disso, é produzido o lxofij We Coyin (broto da planta). O lof organiza o uso produtivo dos espaços para superar as más condições do Xufken Mapu (solo), degradado pelos reduzidos e sobrecarregados.

Walüng (verão): época de colheita. Aqui o pugejipun começa a acontecer . Cada comunidade faz isso em datas diferentes, mas sempre em apoio a kvyen (lua cheia). A celebração do gejipun é a oportunidade de fortalecer sua identidade como povo. As autoridades originais ( Lonko, Pijan kuse, Werken ) guiam cada pombal . O Weupife (historiador) recria a memória. O gvlam (conselho) que é transmitido permite recuperar a dignidade e o futuro.

Rimu (outono): É aqui que a família se prepara para o retorno aos seus espaços de inverno. Os frutos da colheita são armazenados, é também a época do Xafkintu (troca), uma época de muito frio onde a vida familiar é compartilhada de forma mais intensa e permite a prática intensiva da educação mapuche, ou seja, a transmissão do kimvn (conhecimento). , através do epew (história), mvxam (conversa), picikece jogos ( gvjiw Polton, awar kuzem ) que eles compartilham com os idosos”. [Pueblos Originarios – traduzido pelo Google Tradutor]

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Sobre a Resistência Pagã

Na página do Pagan Square, na seção de Culture Blogs, Steven Posh escreve um artigo intitulado “Where Were the Pagan Gods During the Christian Centuries?”

A resposta que ele mesmo dá segue assim:

“Here we have the answer. The gods have never deserted us. Though their groves and temples were thrown down and their worship overthrown, they have never failed in their faithfulness to us, nor ceased to do their sacred Work on which our lives depend.

Through all our centuries of faithlessness, they have waited, waited for us, their people, to return.

No, the Old Gods never left us; it is we who left Them”.

Ele cita o mito chamado Láchplesis, uma mitologia da Letônia que, juntamente com as mitologias da Lituânia e da Prússia, faz parte do Paganismo Moderno Báltico.

Steven Posh dá um resumo do mito:

“The Bearslayer is a fine, romping tale of love, friendship, and treachery, filled with monsters, evil enchantresses, and magicians. Characters include the Bearslayer's true love, daughter of Fate the beautiful Laimdota, his best friend the hero Koknesis, and Kangars, the traitorous pagan priest who seeks to betray his people to the Christians.

The Bearslayer rallies the people and fights the good fight, protecting Latvia from enslavement for many years, but in the end he himself is betrayed.

Through the treachery of Kangars, the renegade pagan priest, the Black Knight learns the secret of the Bearslayer's strength: his furry bear's ears.

In a sword fight, he lops off both ears. As they grapple, locked together, they topple from a cliff into the waters of the mighty Daugava, and are never seen again.

So begins Latvia's 700 years of enslavement to a foreign people and a foreign creed”.

Eu estudei bastante a História Antiga e a História do Cristianismo. Eu li o livro “Paganismo e Cristianismo” de Jocelyn Nigel Hillgarth. Eu li “O Livro Negro do Cristianismo” de Laura Malucelli, Jacopo Fo e Sergio Tomat. Recentemente, eu li “Assim na Terra Como no Céu”, de Mário Jorge da Motta Bastos que mudou bastante a forma como eu encarava o processo de supressão das religiões antigas pelo Cristianismo após esta tornar-se a única religião oficial do Império Romano. O livro indica fontes históricas demonstrando que o Cristianismo encontrou resistência, especialmente no meio rural, algo que é parcialmente explicado no livro “Bruxaria e História”, de Carlos Roberto Figueiredo Nogueira e no livro “O Imaginário da Magia”, de Francisco Bethencourt.

Conclui-se, então, que existiu resistência contra a imposição do Cristianismo. Com o surgimento do Paganismo Moderno e de grupos de reconstrução cultural, diversos países europeus buscaram resgatar suas raízes, suas origens e suas religiões originais. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o advento da Contracultura tornou-se o caldeirão de onde surgiram inúmeras espiritualidades alternativas, no movimento chamado de Nova Era, tornando-se extremamente fértil para o Paganismo Moderno e a Wicca.

Rapidamente, o Mercado tratou de transformar essas religiões em mais um produto comercializado, com revistas e cursos sobre a Wicca. Palco ideal para farsantes, vigaristas e falsários onde alguns, por meios misteriosos, até conseguiram obter o treinamento e iniciação formais em uma tradição wiccana. Eu passei vários anos tentando esclarecer o público sobre os princípios e valores da Wicca Tradicional, sem sucesso. O Cristianismo não sobreviveu depois da mutação feita por Paulo de Tarso. Se a Wicca vai sobreviver, é problema dos wiccanos. Eu sigo resistindo, pelos Deuses Antigos e por meus Ancestrais.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Reflexão sobre os Frost

Gavin e Yvonne Frost fundaram a Church of Wicca, posteriormente conhecida também pela atuação de sua escola, em 1968. O casal tornou-se conhecido pela divulgação da Wicca por meio de cursos por correspondência e pela publicação de livros, entre eles *The Witch’s Bible*, de 1972.

A controvérsia envolvendo os Frost ganhou destaque em determinados círculos pagãos norte-americanos, especialmente em razão de críticas a passagens de seus escritos e de episódios posteriores relacionados à participação do casal em encontros pagãos. Em 2007, A. J. Drew anunciou um ritual no qual teria sacrificado simbolicamente, em efígie, os Frost. O episódio é relacionado às discussões que envolveram o Florida Pagan Gathering e às manifestações críticas de T. Thorn Coyle, retomadas em 2014, quando os Frost voltaram a participar do evento.

Essa cronologia merece ser examinada a partir das fontes originais. Para além dos acontecimentos específicos, porém, existe uma questão que considero importante discutir: como comunidades religiosas devem lidar com sexualidade, consentimento, idade e responsabilidade institucional?

## O consentimento e as regras de conduta

Uma comparação interessante pode ser encontrada no Satanismo de LaVey, particularmente nas chamadas *Eleven Satanic Rules of the Earth*, entre as quais está a seguinte orientação:

“Do not make sexual advances unless you are given the mating signal”.

Em tradução livre: não faça investidas sexuais sem receber um sinal de interesse.

Mas o que significa esse “sinal de acasalamento”?

Na explicação publicada pela Church of Satan em suas perguntas frequentes sobre sexualidade e gênero, a expressão é apresentada como uma referência a manifestações adultas que podem indicar interesse sexual.

A regra procura estabelecer um limite para a abordagem sexual. Entretanto, reconhecer um possível sinal de atração não é o mesmo que obter consentimento para uma interação específica. Tampouco resolve questões relativas à idade, à vulnerabilidade, à coerção ou à desigualdade de poder entre as pessoas envolvidas.

A própria Church of Satan, em seu material sobre jovens e Satanismo, afirma que os jovens devem dedicar tempo à exploração de seus talentos, ao conhecimento do mundo e ao contato com diferentes filosofias e culturas, para que possam exercer sua liberdade de escolha de maneira consciente.

É uma orientação que valoriza a autonomia intelectual. Ainda assim, cabe perguntar: o que significa ser jovem nesse contexto? Quais são os limites dessa autonomia e quais responsabilidades cabem aos adultos e às instituições religiosas?

Não basta defender a liberdade de escolha. É necessário também compreender as condições em que uma escolha pode ser considerada livre e estabelecer limites claros para proteger quem se encontra em situação de vulnerabilidade.

## A cultura do consentimento nas comunidades pagãs

Em 15 de setembro de 2016, Yvonne Aburrow publicou, no blogue *Dowsing from Divinity*, um texto sobre os Frost. Ao discutir a cultura do consentimento, ela mencionou um código de conduta pagão que recomendava atenção ao contato físico indesejado e à atenção sexual ou pessoal não solicitada.

Entre as orientações citadas estavam a necessidade de respeitar o desconforto de alguém diante de abraços e beijos e a proibição de abordagens pessoais indesejadas.

São princípios importantes. Entretanto, a ausência de uma referência à idade naquele trecho específico não permite concluir que o documento completo ignorasse a proteção de crianças e adolescentes. Para avaliar essa questão, seria necessário examinar o código integralmente.

O consentimento não deve ser tratado como uma formalidade burocrática, mas como parte de uma cultura de respeito aos limites individuais. Isso inclui reconhecer que a ausência de uma recusa explícita não significa necessariamente concordância e que relações de autoridade podem dificultar a manifestação livre de uma pessoa.

Esse cuidado é particularmente importante em comunidades religiosas, nas quais sacerdotes, sacerdotisas, dirigentes e instrutores podem exercer influência espiritual, emocional e social sobre seus integrantes.

## Ritos de iniciação e passagem

Não pretendo reproduzir aqui a passagem controversa do livro dos Frost que motivou parte das críticas. O texto pode ser consultado por quem desejar examinar a questão diretamente. O que apresento a seguir é a minha interpretação, e não uma afirmação definitiva sobre as intenções dos autores.

Pelo que compreendo, a primeira parte do procedimento parece corresponder a uma forma de proteção e iniciação, descrita como uma espécie de batismo. A segunda parte parece aproximar-se de um ritual de passagem, no qual a pessoa interessada, depois de orientação e preparação, seria reconhecida como adulta e integrante plena do coven.

Essa interpretação, contudo, precisa ser confrontada com o texto original e com o contexto em que foi escrito.

A questão fundamental é distinguir o significado simbólico de um rito de suas consequências práticas. Uma comunidade pode reconhecer ritualmente a passagem de alguém para uma nova etapa de sua vida religiosa, mas isso não significa que o rito determine automaticamente sua maturidade psicológica, sua capacidade legal ou sua aptidão para qualquer atividade.

Os ritos de passagem são conhecidos em numerosas sociedades e podem marcar transformações individuais e coletivas. O antropólogo Arnold van Gennep identificou três momentos recorrentes nesses ritos: separação, margem ou liminaridade e agregação.

Essas etapas ajudam a compreender cerimônias que assinalam mudanças de posição social, pertencimento ou responsabilidade.

No mundo ocidental, podemos citar o *bar mitzvah* e o *bat mitzvah*, que marcam a assunção de responsabilidades religiosas na tradição judaica, e as festas de debutante, que simbolizam, em determinados contextos sociais, a entrada em uma nova etapa da vida.

São exemplos distintos, com histórias e significados próprios. O que eles demonstram é que as sociedades utilizam cerimônias para representar mudanças na condição social dos indivíduos.

Não demonstram, porém, que todas as formas de reconhecimento ritual sejam equivalentes ou que a passagem simbólica para a vida adulta resolva questões de capacidade legal e consentimento.

## A infância e a construção histórica das normas sociais

A infância, a adolescência e a vida adulta não são compreendidas da mesma maneira em todas as épocas e sociedades. As expectativas relativas à educação, à responsabilidade familiar, ao casamento e à autonomia individual sofreram mudanças ao longo da história.

Philippe Ariès teve um papel importante no desenvolvimento da história social da infância ao investigar as transformações na maneira como as sociedades europeias compreendiam as crianças e a vida familiar. Suas interpretações, entretanto, foram posteriormente discutidas e revistas por outros historiadores.

Não é correto afirmar que a infância tenha sido simplesmente inventada na modernidade. Crianças existiram em todas as épocas, e diferentes sociedades reconheceram, de maneiras variadas, suas necessidades e particularidades. O que mudou historicamente foram as formas de compreender, representar e organizar essa etapa da vida.

Também seria simplista atribuir a Jean-Jacques Rousseau a criação da ideia de infância como período de inocência e ingenuidade, ou afirmar que Sigmund Freud e Alfred Kinsey simplesmente eliminaram essa concepção.

Rousseau influenciou profundamente as ideias modernas sobre educação e desenvolvimento infantil. Freud, por sua vez, elaborou uma teoria da sexualidade infantil que provocou controvérsias, enquanto Kinsey desenvolveu pesquisas sobre o comportamento sexual humano. Suas abordagens, contudo, eram diferentes, e a história desses debates não pode ser reduzida a uma sequência simples de descoberta e confirmação.

É importante distinguir a curiosidade corporal e o desenvolvimento sexual infantil da sexualidade adulta. Reconhecer que crianças podem apresentar curiosidade sobre o corpo não significa atribuir-lhes a mesma capacidade de compreensão, autonomia e consentimento de um adulto.

Da mesma forma, conhecer as práticas matrimoniais de sociedades antigas não significa considerá-las adequadas para os padrões contemporâneos. As normas históricas variaram enormemente, e a existência de uma prática em determinado período não constitui justificativa para reproduzi-la.

O estudo da história serve para compreender as transformações das sociedades, e não para transformar todo costume antigo em modelo de comportamento atual.

## A Wicca, a inclusão e a liberdade sexual

Desde sua expansão pública, a Wicca passou por transformações em suas práticas, interpretações e formas de organização. A diversidade entre suas tradições é considerável, e não existe uma única experiência wiccana que represente todos os seus praticantes.

Quando estudei a religião por meio do fórum Amber and Jett, encontrei uma preocupação explícita em esclarecer que a Wicca não precisava ser homofóbica nem transfóbica. Conheço sacerdotes e sacerdotisas homossexuais e transgênero, e não vejo razão para presumir que meus Deuses ou meus Ancestrais tenham qualquer problema com essas pessoas por causa de sua orientação sexual ou identidade de gênero.

A inclusão de pessoas LGBTQIA+ nas comunidades pagãs é algo que considero positivo. A religião não precisa reproduzir preconceitos sociais para preservar sua identidade espiritual.

Existe uma máxima frequentemente utilizada em determinados círculos pagãos: “não subtraia, mas adicione”. Entendo essa ideia como um convite a ampliar possibilidades, acolher experiências e permitir que uma tradição continue se desenvolvendo.

Entretanto, ampliar a liberdade não significa abandonar a responsabilidade. Uma comunidade pode defender a diversidade sexual, questionar a repressão moral e reconhecer a legitimidade do prazer sem deixar de estabelecer limites claros contra o assédio, a coerção e o abuso de autoridade.

Também considero necessário questionar a ideia de que toda preocupação com sexualidade seja necessariamente fruto de uma neurose ou paranoia moderna.

Há situações em que o corpo e o desejo são submetidos a controles morais excessivos, mas há também preocupações legítimas com segurança, autonomia e proteção. Não podemos tratar essas questões como se fossem a mesma coisa.

A crítica à repressão sexual não exige que abandonemos o cuidado com as pessoas.

## Educação sexual, diversidade e responsabilidade

A sexualidade humana envolve dimensões corporais, afetivas, sociais e culturais. A curiosidade sobre o próprio corpo e as relações humanas não desaparece simplesmente porque uma sociedade prefere não discutir o assunto.

A ausência de educação sexual adequada à idade não afeta apenas pessoas LGBTQIA+. Pode prejudicar pessoas de diferentes orientações sexuais e identidades de gênero, dificultando o reconhecimento de limites, a compreensão do consentimento e a busca por informações confiáveis.

Para pessoas LGBTQIA+, uma educação que pressupõe exclusivamente a heterossexualidade pode criar dificuldades adicionais, ao deixar de abordar experiências e necessidades específicas.

Educação sexual não significa incentivar crianças e adolescentes a iniciar a vida sexual. Significa oferecer informações apropriadas ao desenvolvimento, ensinar sobre privacidade e limites corporais, ajudar a reconhecer situações inadequadas e criar condições para que possam procurar adultos de confiança quando necessário.

Se consideramos o sexo uma dimensão sagrada da experiência humana, essa compreensão deve vir acompanhada de responsabilidade. O caráter sagrado atribuído à sexualidade não pode servir de justificativa para ultrapassar os limites de outra pessoa nem para dispensar regras de proteção.

Os adultos têm a responsabilidade de orientar as novas gerações, respeitando suas etapas de desenvolvimento e garantindo que a educação não seja substituída pelo silêncio, pelo medo ou pela vergonha.

## Conclusão: liberdade religiosa exige responsabilidade

A questão que motivou esta reflexão continua pertinente, especialmente diante da expansão e da diversificação das comunidades pagãs.

Covens wiccanos, grupos de Paganismo Moderno e outras comunidades religiosas precisam estabelecer regras claras para a participação em encontros e cerimônias. Essas regras devem considerar a natureza da atividade, a presença de crianças e adolescentes, a participação de familiares, a privacidade dos envolvidos e os limites das relações entre dirigentes e integrantes.

É necessário distinguir cerimônias públicas de práticas reservadas, definir previamente quais atividades são apropriadas para cada público e assegurar que todos conheçam as regras de conduta.

Quando houver crianças e adolescentes, a proteção deve ser explícita. Não se pode presumir que uma comunidade seja segura apenas porque se apresenta como espiritual, inclusiva ou comprometida com a liberdade individual.

Também é importante que os procedimentos de denúncia sejam claros, que as pessoas possam comunicar desconfortos sem medo de retaliação e que alegações de abuso sejam tratadas com seriedade, sem que a reputação de dirigentes ou a preservação da imagem do grupo prevaleçam sobre a segurança dos envolvidos.

Não precisamos escolher entre liberdade religiosa e proteção das pessoas. Tampouco precisamos aceitar a repressão sexual como condição para estabelecer limites.

Uma comunidade pode valorizar o corpo, o desejo, o prazer, a diversidade e a liberdade espiritual, reconhecendo simultaneamente que a autonomia não elimina as responsabilidades individuais e coletivas.

A verdadeira maturidade de uma tradição não está em conservar todas as práticas do passado nem em abandonar tudo o que provoca desconforto no presente. Está em examinar criticamente suas práticas, compreender seus significados e estabelecer princípios que permitam a convivência entre liberdade, dignidade, consentimento e responsabilidade.

Analisado e corrigido com ChatGPT.

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Abalou o céu e a terra

A sexualidade era fundamental para a vida na antiga Mesopotâmia, uma área do Antigo Oriente Próximo frequentemente descrita como o berço da civilização ocidental, correspondendo aproximadamente ao atual Iraque, Kuwait e partes da Síria, Irã e Turquia. Não era assim apenas para os humanos comuns, mas também para reis e até divindades.

Divindades da Mesopotâmia compartilharam muitas experiências humanas, com deuses se casando, procriando e compartilhando lares e deveres familiares. No entanto, quando o amor dá errado, as consequências podem ser terríveis tanto no céu quanto na terra.

Os estudiosos observaram as semelhanças entre a "máquina de casamento" divina encontrada em obras literárias antigas e o namoro histórico de mortais, embora seja difícil separar os dois, mais notoriamente nos chamados "casamentos sagrados", que viram reis da Mesopotâmia se casando com divindades .

Sexo divino.

Os deuses, sendo imortais e geralmente de status superior aos humanos, não precisavam estritamente de relações sexuais para a manutenção da população, mas os aspectos práticos da questão parecem ter feito pouco para conter seu entusiasmo.

As relações sexuais entre as divindades mesopotâmicas inspiraram uma rica variedade de narrativas. Isso inclui mitos sumérios como Enlil e Ninlil e Enki e Ninhursag , onde as complicadas interações sexuais entre divindades envolviam trapaça, engano e disfarce.

Em ambos os mitos, uma divindade masculina adota um disfarce e, em seguida, tenta obter acesso sexual à divindade feminina - ou evitar a perseguição de seu amante. No primeiro, a deusa Ninlil segue seu amante Enlil até o Mundo Inferior e troca favores sexuais por informações sobre o paradeiro de Enlil. A provisão de uma falsa identidade nesses mitos é usada para circunavegar as expectativas da sociedade em relação ao sexo e à fidelidade.

A traição sexual poderia significar a ruína não apenas para amantes errantes, mas para toda a sociedade . Quando a Rainha do Mundo Inferior, Ereshkigal, é abandonada por seu amante, Nergal, ela ameaça ressuscitar o morto a menos que ele seja devolvido a ela, aludindo ao seu direito à saciedade sexual.

A deusa Ishtar faz a mesma ameaça diante de uma rejeição romântica do rei de Uruk na Epopéia de Gilgamesh. É interessante notar que tanto Ishtar quanto Ereshkigal, que são irmãs, usam uma das ameaças mais potentes à sua disposição para tratar de assuntos do coração.

Os enredos desses mitos destacam o potencial do engano para criar alienação entre os amantes durante o namoro. O curso nada tranquilo do amor nesses mitos e seu complexo uso de imagens literárias têm atraído comparações acadêmicas com as obras de Shakespeare .

Poesia de amor.

Antigos autores da poesia de amor suméria, retratando as façanhas de casais divinos, mostram uma riqueza de conhecimentos práticos sobre os estágios da excitação sexual feminina. Alguns estudiosos acreditam que essa poesia pode ter historicamente um propósito educacional: ensinar jovens amantes inexperientes na antiga Mesopotâmia sobre o intercurso. Também foi sugerido que os textos tinham propósitos religiosos, ou possivelmente potência mágica .

Vários textos escrevem sobre o namoro de um casal divino, Inanna (o equivalente semítico de Ishtar) e seu amante, a divindade pastor Dumuzi. A proximidade dos amantes é mostrada por meio de uma combinação sofisticada de poesia e imagens sensuais - talvez fornecendo um exemplo edificante para os indicados de Bad Sex in Fiction deste ano .

Em um dos poemas, os elementos da excitação da amante são catalogados, desde o aumento da lubrificação de sua vulva até o “tremor” de seu clímax. O parceiro masculino é apresentado deliciando-se com a forma física da parceira e falando gentilmente com ela. A perspectiva feminina sobre o ato sexual é enfatizada nos textos por meio da descrição das fantasias eróticas da deusa. Essas fantasias fazem parte dos preparativos da deusa para sua união e talvez contribuam para sua satisfação sexual.

Os genitais femininos e masculinos podiam ser celebrados na poesia, a presença de pêlos púbicos escuros na vulva da deusa é poeticamente descrita através do simbolismo de um bando de patos em um campo bem regado ou uma porta estreita emoldurada em lápis-lazúli preto brilhante.
A representação dos órgãos genitais também pode ter cumprido uma função religiosa: os inventários dos templos revelaram modelos votivos de triângulos púbicos, alguns feitos de argila ou bronze. Ofertas votivas em forma de vulva foram encontradas na cidade de Assur antes de 1000 aC.

Deusa feliz, reino feliz.


O sexo divino não era exclusivo dos deuses, mas também podia envolver o rei humano. Poucos tópicos da Mesopotâmia cativaram tanto a imaginação quanto o conceito de casamento sagrado. Nessa tradição, o rei histórico da Mesopotâmia seria casado com a deusa do amor, Ishtar. Há evidências literárias de tais casamentos desde o início da Mesopotâmia, antes de 2300 aC, e o conceito perseverou em períodos muito posteriores.

A relação entre reis históricos e divindades da Mesopotâmia foi considerada crucial para o sucesso da continuação da ordem terrestre e cósmica. Para o monarca da Mesopotâmia, então, o relacionamento sexual com a deusa do amor provavelmente envolvia certa pressão para agir.

Alguns estudiosos sugeriram que esses casamentos envolviam uma expressão física entre o rei e outra pessoa (como uma sacerdotisa) incorporando a deusa. A visão geral agora é que se houvesse uma encenação física de um ritual sagrado de casamento, ele teria sido conduzido em um nível simbólico e não carnal, com o rei talvez compartilhando sua cama com uma estátua da divindade.
Imagens agrícolas eram freqüentemente usadas para descrever a união da deusa e do rei. O mel, por exemplo, é descrito como doce como a boca e a vulva da deusa.
Uma canção de amor da cidade de Ur entre 2100 e 2000 aC é dedicada a Shu-Shin, o rei, e a Ishtar:
- No quarto gotejando mel, vamos desfrutar continuamente de seu fascínio, a coisa doce. Rapaz, deixe-me fazer as coisas mais doces para você. Minha querida querida, deixe-me trazer mel para você.
O sexo nesta poesia de amor é descrito como uma atividade prazerosa que intensifica os sentimentos amorosos de intimidade. Essa sensação de maior proximidade foi considerada para trazer alegria ao coração da deusa, resultando em boa sorte e abundância para toda a comunidade - talvez demonstrando uma versão mesopotâmica do ditado “esposa feliz, vida feliz”.
A apresentação diversa do sexo divino cria um mistério em torno das causas da ênfase cultural na cópula cósmica. Embora a apresentação do sexo divino e do casamento na antiga Mesopotâmia provavelmente servisse a vários propósitos, alguns elementos das relações íntimas entre deuses mostram alguma influência nas uniões mortais.

Embora a desonestidade entre amantes pudesse levar à alienação, as interações sexuais positivas traziam inúmeros benefícios, incluindo maior intimidade e felicidade duradoura.

Fonte: https://www.ancient-origins.net/history-ancient-traditions/ancient-mesopotamia-sex-among-gods-shook-heaven-and-earth-009950

Traduzido com o Google Tradutor.