Gavin e Yvonne Frost fundaram a Church of Wicca, posteriormente conhecida também pela atuação de sua escola, em 1968. O casal tornou-se conhecido pela divulgação da Wicca por meio de cursos por correspondência e pela publicação de livros, entre eles *The Witch’s Bible*, de 1972.
A controvérsia envolvendo os Frost ganhou destaque em determinados círculos pagãos norte-americanos, especialmente em razão de críticas a passagens de seus escritos e de episódios posteriores relacionados à participação do casal em encontros pagãos. Em 2007, A. J. Drew anunciou um ritual no qual teria sacrificado simbolicamente, em efígie, os Frost. O episódio é relacionado às discussões que envolveram o Florida Pagan Gathering e às manifestações críticas de T. Thorn Coyle, retomadas em 2014, quando os Frost voltaram a participar do evento.
Essa cronologia merece ser examinada a partir das fontes originais. Para além dos acontecimentos específicos, porém, existe uma questão que considero importante discutir: como comunidades religiosas devem lidar com sexualidade, consentimento, idade e responsabilidade institucional?
## O consentimento e as regras de conduta
Uma comparação interessante pode ser encontrada no Satanismo de LaVey, particularmente nas chamadas *Eleven Satanic Rules of the Earth*, entre as quais está a seguinte orientação:
“Do not make sexual advances unless you are given the mating signal”.
Em tradução livre: não faça investidas sexuais sem receber um sinal de interesse.
Mas o que significa esse “sinal de acasalamento”?
Na explicação publicada pela Church of Satan em suas perguntas frequentes sobre sexualidade e gênero, a expressão é apresentada como uma referência a manifestações adultas que podem indicar interesse sexual.
A regra procura estabelecer um limite para a abordagem sexual. Entretanto, reconhecer um possível sinal de atração não é o mesmo que obter consentimento para uma interação específica. Tampouco resolve questões relativas à idade, à vulnerabilidade, à coerção ou à desigualdade de poder entre as pessoas envolvidas.
A própria Church of Satan, em seu material sobre jovens e Satanismo, afirma que os jovens devem dedicar tempo à exploração de seus talentos, ao conhecimento do mundo e ao contato com diferentes filosofias e culturas, para que possam exercer sua liberdade de escolha de maneira consciente.
É uma orientação que valoriza a autonomia intelectual. Ainda assim, cabe perguntar: o que significa ser jovem nesse contexto? Quais são os limites dessa autonomia e quais responsabilidades cabem aos adultos e às instituições religiosas?
Não basta defender a liberdade de escolha. É necessário também compreender as condições em que uma escolha pode ser considerada livre e estabelecer limites claros para proteger quem se encontra em situação de vulnerabilidade.
## A cultura do consentimento nas comunidades pagãs
Em 15 de setembro de 2016, Yvonne Aburrow publicou, no blogue *Dowsing from Divinity*, um texto sobre os Frost. Ao discutir a cultura do consentimento, ela mencionou um código de conduta pagão que recomendava atenção ao contato físico indesejado e à atenção sexual ou pessoal não solicitada.
Entre as orientações citadas estavam a necessidade de respeitar o desconforto de alguém diante de abraços e beijos e a proibição de abordagens pessoais indesejadas.
São princípios importantes. Entretanto, a ausência de uma referência à idade naquele trecho específico não permite concluir que o documento completo ignorasse a proteção de crianças e adolescentes. Para avaliar essa questão, seria necessário examinar o código integralmente.
O consentimento não deve ser tratado como uma formalidade burocrática, mas como parte de uma cultura de respeito aos limites individuais. Isso inclui reconhecer que a ausência de uma recusa explícita não significa necessariamente concordância e que relações de autoridade podem dificultar a manifestação livre de uma pessoa.
Esse cuidado é particularmente importante em comunidades religiosas, nas quais sacerdotes, sacerdotisas, dirigentes e instrutores podem exercer influência espiritual, emocional e social sobre seus integrantes.
## Ritos de iniciação e passagem
Não pretendo reproduzir aqui a passagem controversa do livro dos Frost que motivou parte das críticas. O texto pode ser consultado por quem desejar examinar a questão diretamente. O que apresento a seguir é a minha interpretação, e não uma afirmação definitiva sobre as intenções dos autores.
Pelo que compreendo, a primeira parte do procedimento parece corresponder a uma forma de proteção e iniciação, descrita como uma espécie de batismo. A segunda parte parece aproximar-se de um ritual de passagem, no qual a pessoa interessada, depois de orientação e preparação, seria reconhecida como adulta e integrante plena do coven.
Essa interpretação, contudo, precisa ser confrontada com o texto original e com o contexto em que foi escrito.
A questão fundamental é distinguir o significado simbólico de um rito de suas consequências práticas. Uma comunidade pode reconhecer ritualmente a passagem de alguém para uma nova etapa de sua vida religiosa, mas isso não significa que o rito determine automaticamente sua maturidade psicológica, sua capacidade legal ou sua aptidão para qualquer atividade.
Os ritos de passagem são conhecidos em numerosas sociedades e podem marcar transformações individuais e coletivas. O antropólogo Arnold van Gennep identificou três momentos recorrentes nesses ritos: separação, margem ou liminaridade e agregação.
Essas etapas ajudam a compreender cerimônias que assinalam mudanças de posição social, pertencimento ou responsabilidade.
No mundo ocidental, podemos citar o *bar mitzvah* e o *bat mitzvah*, que marcam a assunção de responsabilidades religiosas na tradição judaica, e as festas de debutante, que simbolizam, em determinados contextos sociais, a entrada em uma nova etapa da vida.
São exemplos distintos, com histórias e significados próprios. O que eles demonstram é que as sociedades utilizam cerimônias para representar mudanças na condição social dos indivíduos.
Não demonstram, porém, que todas as formas de reconhecimento ritual sejam equivalentes ou que a passagem simbólica para a vida adulta resolva questões de capacidade legal e consentimento.
## A infância e a construção histórica das normas sociais
A infância, a adolescência e a vida adulta não são compreendidas da mesma maneira em todas as épocas e sociedades. As expectativas relativas à educação, à responsabilidade familiar, ao casamento e à autonomia individual sofreram mudanças ao longo da história.
Philippe Ariès teve um papel importante no desenvolvimento da história social da infância ao investigar as transformações na maneira como as sociedades europeias compreendiam as crianças e a vida familiar. Suas interpretações, entretanto, foram posteriormente discutidas e revistas por outros historiadores.
Não é correto afirmar que a infância tenha sido simplesmente inventada na modernidade. Crianças existiram em todas as épocas, e diferentes sociedades reconheceram, de maneiras variadas, suas necessidades e particularidades. O que mudou historicamente foram as formas de compreender, representar e organizar essa etapa da vida.
Também seria simplista atribuir a Jean-Jacques Rousseau a criação da ideia de infância como período de inocência e ingenuidade, ou afirmar que Sigmund Freud e Alfred Kinsey simplesmente eliminaram essa concepção.
Rousseau influenciou profundamente as ideias modernas sobre educação e desenvolvimento infantil. Freud, por sua vez, elaborou uma teoria da sexualidade infantil que provocou controvérsias, enquanto Kinsey desenvolveu pesquisas sobre o comportamento sexual humano. Suas abordagens, contudo, eram diferentes, e a história desses debates não pode ser reduzida a uma sequência simples de descoberta e confirmação.
É importante distinguir a curiosidade corporal e o desenvolvimento sexual infantil da sexualidade adulta. Reconhecer que crianças podem apresentar curiosidade sobre o corpo não significa atribuir-lhes a mesma capacidade de compreensão, autonomia e consentimento de um adulto.
Da mesma forma, conhecer as práticas matrimoniais de sociedades antigas não significa considerá-las adequadas para os padrões contemporâneos. As normas históricas variaram enormemente, e a existência de uma prática em determinado período não constitui justificativa para reproduzi-la.
O estudo da história serve para compreender as transformações das sociedades, e não para transformar todo costume antigo em modelo de comportamento atual.
## A Wicca, a inclusão e a liberdade sexual
Desde sua expansão pública, a Wicca passou por transformações em suas práticas, interpretações e formas de organização. A diversidade entre suas tradições é considerável, e não existe uma única experiência wiccana que represente todos os seus praticantes.
Quando estudei a religião por meio do fórum Amber and Jett, encontrei uma preocupação explícita em esclarecer que a Wicca não precisava ser homofóbica nem transfóbica. Conheço sacerdotes e sacerdotisas homossexuais e transgênero, e não vejo razão para presumir que meus Deuses ou meus Ancestrais tenham qualquer problema com essas pessoas por causa de sua orientação sexual ou identidade de gênero.
A inclusão de pessoas LGBTQIA+ nas comunidades pagãs é algo que considero positivo. A religião não precisa reproduzir preconceitos sociais para preservar sua identidade espiritual.
Existe uma máxima frequentemente utilizada em determinados círculos pagãos: “não subtraia, mas adicione”. Entendo essa ideia como um convite a ampliar possibilidades, acolher experiências e permitir que uma tradição continue se desenvolvendo.
Entretanto, ampliar a liberdade não significa abandonar a responsabilidade. Uma comunidade pode defender a diversidade sexual, questionar a repressão moral e reconhecer a legitimidade do prazer sem deixar de estabelecer limites claros contra o assédio, a coerção e o abuso de autoridade.
Também considero necessário questionar a ideia de que toda preocupação com sexualidade seja necessariamente fruto de uma neurose ou paranoia moderna.
Há situações em que o corpo e o desejo são submetidos a controles morais excessivos, mas há também preocupações legítimas com segurança, autonomia e proteção. Não podemos tratar essas questões como se fossem a mesma coisa.
A crítica à repressão sexual não exige que abandonemos o cuidado com as pessoas.
## Educação sexual, diversidade e responsabilidade
A sexualidade humana envolve dimensões corporais, afetivas, sociais e culturais. A curiosidade sobre o próprio corpo e as relações humanas não desaparece simplesmente porque uma sociedade prefere não discutir o assunto.
A ausência de educação sexual adequada à idade não afeta apenas pessoas LGBTQIA+. Pode prejudicar pessoas de diferentes orientações sexuais e identidades de gênero, dificultando o reconhecimento de limites, a compreensão do consentimento e a busca por informações confiáveis.
Para pessoas LGBTQIA+, uma educação que pressupõe exclusivamente a heterossexualidade pode criar dificuldades adicionais, ao deixar de abordar experiências e necessidades específicas.
Educação sexual não significa incentivar crianças e adolescentes a iniciar a vida sexual. Significa oferecer informações apropriadas ao desenvolvimento, ensinar sobre privacidade e limites corporais, ajudar a reconhecer situações inadequadas e criar condições para que possam procurar adultos de confiança quando necessário.
Se consideramos o sexo uma dimensão sagrada da experiência humana, essa compreensão deve vir acompanhada de responsabilidade. O caráter sagrado atribuído à sexualidade não pode servir de justificativa para ultrapassar os limites de outra pessoa nem para dispensar regras de proteção.
Os adultos têm a responsabilidade de orientar as novas gerações, respeitando suas etapas de desenvolvimento e garantindo que a educação não seja substituída pelo silêncio, pelo medo ou pela vergonha.
## Conclusão: liberdade religiosa exige responsabilidade
A questão que motivou esta reflexão continua pertinente, especialmente diante da expansão e da diversificação das comunidades pagãs.
Covens wiccanos, grupos de Paganismo Moderno e outras comunidades religiosas precisam estabelecer regras claras para a participação em encontros e cerimônias. Essas regras devem considerar a natureza da atividade, a presença de crianças e adolescentes, a participação de familiares, a privacidade dos envolvidos e os limites das relações entre dirigentes e integrantes.
É necessário distinguir cerimônias públicas de práticas reservadas, definir previamente quais atividades são apropriadas para cada público e assegurar que todos conheçam as regras de conduta.
Quando houver crianças e adolescentes, a proteção deve ser explícita. Não se pode presumir que uma comunidade seja segura apenas porque se apresenta como espiritual, inclusiva ou comprometida com a liberdade individual.
Também é importante que os procedimentos de denúncia sejam claros, que as pessoas possam comunicar desconfortos sem medo de retaliação e que alegações de abuso sejam tratadas com seriedade, sem que a reputação de dirigentes ou a preservação da imagem do grupo prevaleçam sobre a segurança dos envolvidos.
Não precisamos escolher entre liberdade religiosa e proteção das pessoas. Tampouco precisamos aceitar a repressão sexual como condição para estabelecer limites.
Uma comunidade pode valorizar o corpo, o desejo, o prazer, a diversidade e a liberdade espiritual, reconhecendo simultaneamente que a autonomia não elimina as responsabilidades individuais e coletivas.
A verdadeira maturidade de uma tradição não está em conservar todas as práticas do passado nem em abandonar tudo o que provoca desconforto no presente. Está em examinar criticamente suas práticas, compreender seus significados e estabelecer princípios que permitam a convivência entre liberdade, dignidade, consentimento e responsabilidade.
Analisado e corrigido com ChatGPT.
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