segunda-feira, 25 de maio de 2015

Apuleio e seu contexto histórico

As fontes que encontramos referentes ao século II são numerosas e riquíssimas.

Neste trabalho, as fontes literárias a respeito das religiões do período serão utilizadas em conjunto com as informações provenientes de monumentos e outros artefatos. Tais fontes devem ser olhadas a partir do contexto histórico em que foram produzidas. Com relação às fontes literárias, particularmente, devemos considerar a tríplice questão da autoria, texto e público alvo, dentro do contexto em que foram produzidas.

As obras literárias não devem ser vistas como fontes descritivas de uma realidade exata, mas sim, obra de um determinado escritor, nem sempre preocupado com a fidelidade na descrição dos fatos. Por outro lado, o escritor não fica alheio a seu período histórico, sendo, então, a literatura fruto de seu contexto social. Enquanto documento histórico, resgata a sociedade antiga, em termos de depoimentos e informações verbais. Assim, o escritor em questão, Apuleio, revela-nos infinitas possibilidades de interpretações e de elementos a respeito da sociedade romana do século II que descreve.

Conhecemos pouco a respeito da vida de Apuleio, embora podemos encontrar traços dela nas obras que deixou, sobretudo na Apologia, Florida e Metamorfoses. Em Apologia, Apuleio revela ter como origem uma província romana na África, provavelmente Madaura, próxima a Numídia. Teria nascido por volta de 125, de família aristocrática, fato que lhe possibilitou inúmeras viagens e uma boa educação. Em sua formação, teria estudado retórica e gramática em Cartago; em Atenas, conheceu a filosofia, se aprofundou no platonismo; e em Roma, teria estudado direito. Portanto, Apuleio era um grande conhecedor das ciências de sua época, dedicando-se também aos conhecimentos religiosos, adquiridos em suas viagens pelo Ocidente e Oriente. A obra De deo Socratis, expõe a teoria neoplatôncia de Apuleio. Em De platone et eius dogmate, Apuleio apresenta um resumo dos cursos de filosofia que freqüentou na época de estudante em Atenas. Em De mundo, trata dos problemas da constituição do universo.

A Apologia, obra retórica, contém informações de extrema importância para o estudo de sua biografia, a auto-defesa da acusação que recebeu por práticas mágicas. Este episódio teria início quando em uma de suas viagens hospedou-se na casa de um amigo, talvez em Trípoli, na África. Acabou casando-se com a mãe desse amigo, a viúva rica Pudentila. Tempos depois, Apuleio foi acusado pela família, de ter usado de magia para seduzi-la e que o teria feito visando sua fortuna. Isso foi um problema para Apuleio, pois a lei local equiparava as práticas mágicas ao envenenamento, e o crime era punido com a morte. Como advogado e bom retórico, Apuleio defendeu-se nos julgamentos, que teriam ocorrido entre os anos de 148 e 161; seus argumentos constituem o eixo central da sua obra Apologia. Apuleio convenceu seus acusadores de que não se utilizou da magia para o casamento, por outro lado, não os convenceu que não praticava a magia, devido ao grande conhecimento que demonstrou sobre o assunto.

Além de proporcionar a reconstituição da vida de Apuleio, a Apologia, também fornece elementos para a interpretação de Metamorfoses. Esta obra teria sido escrita por volta dos anos 160 e 170, sendo assim, posterior à Apologia, e encontramos nela a presença marcante de seus conhecimentos a respeito da magia e da religião de mistério. Agenor Ribeiro Viana apresenta em sua dissertação de mestrado um trecho da Apologia (Apologia, 55) onde Apuleio comprova sua experiência, de acordo com a tradução do pesquisador, “fui iniciado na Grécia em muitos ritos sagrados. Certos sinais e símbolos de tais ritos me foram ensinados pelos sacerdotes e eu os conservo com zelo. Eu, como disse, aprendi cultos de todo gênero e muitíssimos ritos e várias cerimônias pelo desejo de conhecer a verdade e por devoção aos deuses”. Neste contexto, José Carlos Fenández Corte argumenta que Apuleio constrói na Apologia uma imagem de si mesmo, cuidando de falar de sua educação, cultura e erudição, utilizando o humor. Exatamente por este motivo, acredita que o protagonista da obra Metamorfoses pode ser identificado com Apuleio. As Metamorfoses constituem um complexo conjunto de aventuras, envolvendo significativamente as religiões do século II, que teriam sido absorvidas por Apuleio ao longo de suas viagens. A importância da obra, enquanto fonte histórica, está na apresentação da visão de um provinciano da camada alta da sociedade romana sobre as diversas práticas religiosas do Império Romano de seu tempo. Com relação ao título da obra, esta encontra-se no plural. Acredita-se que o título remete-se às diversas transformações que aparecem na narrativa, sobretudo de humanos que se transformam em animais. Por outro lado, a transformação de Lúcio também pode significar duas etapas: Lúcio-asno e asno-Lúcio.

Há ainda outra interpretação, quando considera-se como uma metamorfose a passagem de Lúcio, com todas as suas características, para um novo Lúcio, agora iniciado na religião isíaca. Logo no início da obra, Apuleio explica que sua história se passa nas cidades de Hípata, Corinto e Concréias, todas na Grécia, mas a obra aparenta ser escrita fora destaslocalidades, talvez na própria Roma, não somente por ser escrita em latim, mas principalmente pelos ambientes apresentados. Inserindo Apuleio em seu contexto histórico, Ettore Paratore o considera um “filho de seu século”. O autor teria vivido durante a época dos Antoninos, compreendendo os imperadores Trajano, Adriano, Antonino Pio, Marco Aurélio e Cômodo, entre os anos de 98 e 192. Não cabe aqui a descrição de toda a política, economia e cultura que compreendia o período, porém, devemos pensar o século II como uma época de ouro, em que encontramos um florescimento econômico a partir de um incentivo ao comércio marítimo e a um poder fortemente exercido pelos imperadores que auto-denominavam-se deuses, por outro lado, encontramos poucos investimentos militares e a incapacidade de combater as migrações bárbaras que se iniciavam. No governo de Adriano, sob o qual se dá a formação cultural de Apuleio, temos uma unificação já praticamente estabelecida no espaço Mediterrânico, ou seja, um Império já formado. A tarefa mais difícil para o imperador era manter e fortalecer este Império. A política adotada por Adriano foi a de governar de forma pacífica e conquistar a confiança de todos aqueles que pertenciam ao Império. Para isso, Adriano conheceu pessoalmente diversas localidades do Império, aceitando e respeitando as diferentes culturas e, sobretudo, cultuando os deuses. Esta tática do imperador uniu ainda mais o Império, possibilitando uma maior circulação de culturas, portanto de religiosidades pelo Império.

A partir do século II, o Império Romano já havia adquirido muitas influências da religiosidade estrangeira, sobretudo helenística. De acordo com Paratore, em seu extenso trabalho sobre a História da literatura latina, a cultura, a língua e a mentalidade grega eram predominantes no Império Romano no período de Apuleio. O governo de Adriano é classificado como um “renascimento helênico”, a literatura latina procurava imitar um “modelo de incomparável beleza e originalidade”, que era o modelo grego. É neste contexto que Apuleio é considerado como um personagem literário de sua época, deixando que a filosofia e a religião helênica, e por sua extensão helenística, influenciasse sua obra. Segundo Paratore, “(...) [Apuleio] soube trazer para primeiro plano o palpitar místico obscuro que agitava a alma daquela época turva de transição, na qual os grandes valores políticos e morais da tradição oscilavam e em que as plebes orientais, possivelmente infiltradas na Grécia e Roma, traziam mensagens cada vez mais fascinantes de palingenese religiosa (...)”. Complementando essa idéia, encontramos em Francisco Lisi a descrição da época de Apuleio como um período de sincretismo entre a filosofia grega e as religiões de mistérios orientais, características muito evidentes nas Metamorfoses. A literatura do século II é designada pelos pesquisadores como pertencente à época de prata romana. Segundo E.E. Sikes, no artigo Latin literature of the silver age, esta época inicia-se no período pós-augusteo, momento em que a literatura e a filosofia grega continuaram a influenciar a cultura romana, no entanto, duas mudanças são destacadas pelo autor: a romanização das províncias e a não continuidade dos escritores de estilo republicano.

Neste período de mudanças políticas, que levam às mudanças culturais, surge a sátira latina, com o objetivo de ironizar a sociedade da época. Este gênero literário combina diversos fatores de cunho político, econômico, ético, religioso, ideológico entre outros, que compõem, em conjunto, o amplo contexto que explica e justifica o produto literário final. Zélia de Almeida Cardoso denomina o período de Apuleio como pós-clássico, que se inicia por volta de 68 d.C. e termina no século V. Neste período, encontramos autores que foram influenciados pelas fases anteriores, constituídas por influências helenísticas e com uma literatura a serviço da oratória e da política, em conjunto com o declínio da literatura pagã e a ascensão do cristianismo.

Com relação à religião, há na literatura romana a presença de uma religião nacional paralelamente a uma religiosidade grega, novamente como fruto da helenização, especificamente denominada por Ernst Bickel como uma “reabsorvição da cultura helenística pela literatura romana”. Esta presença marcante das crenças religiosas na literatura é o que encontramos em toda a obra Metamorfoses, expostas de diversas maneiras. Além da literatura destacada, é importante compreender a posição que os imperadores assumiam com relação à introdução de práticas culturais estrangeiras, sobretudo do culto isíaco. Percebemos a introdução do culto da deusa Ísis ainda no período republicano, quando não foi visto sob um olhar positivo, em alguns momentos, pelo Senado. Por outro lado, no período imperial, encontramos a simpatia de muitos imperadores pela deusa, muitas vezes por interesses políticos. Otávio Augusto, com a política da pax deorum apenas facilitou a difusão dos cultos isíacos; Tibério (14-37) utilizou a cultura egípcia a seu favor, associando sua imagem a Sarápis e talvez tenha mandado construir um dos templos de Ísis. Calígula (37-41) teria sido um iniciado nos mistérios, construído o templo da deusa no Campus Martius e inserido o festival em honra à deusa no calendário romano. No Império de Cláudio (41-54), o culto de Ísis apenas foi tolerado, embora tenha associado sua imagem a Osíris, como regrador da sociedade. No período de Nero (54-68), difundiu-se a filosofia Alexandrina e com esta a religião isíaca. Sob o governo dos flavianos, com Galba (68-69), Vespasiano (69-79), Tito (79-81), Domiciano (81-96) e Nerva (96-98) o Império passou por diversas dificuldades econômicas e políticas, neste momento, os imperadores continuaram a identificar sua forma de reinar com as divindades Ísis e Sarápis, no interesse político de manter a semelhança com os Faraós, com seu poder de cunho divino.

No período dos Antoninos, o Império Romano floresceu economicamente e foi possível manter de forma pacífica as províncias. O imperador Trajano (98-117) teria conhecido o Egito e cultuado seus deuses, chegando a ser representado em arcos com as divindades Ísis e Hórus. Sob o império de Adriano (117-138), Apuleio estaria formulando seu pensamento religioso e filosófico, influenciado pela política do imperador da pax deorum. Adriano foi atraído pela religião egípcia, tocado sobretudo pelos aspectos de mistérios. Teria encorajado a expansão da religião egípcia, já sob uma forma helenizada, após passar alguns meses no território egípcio. Adriano também teria construído e reconstruído templos isíacos e cunhado moedas com imagens da deusa, que continuaram com significativa circulação nos reinados posteriores.

O culto da deusa Ísis, em particular, oferecia atrativos a alguns imperadores romanos por estar relacionado, em sua origem, à legitimação do poder do governador. O imperador Adriano, de acordo com Anthony Birley, teria proporcionado a expansão do culto isíaco pela cultura romana em conjunto com a divulgação do culto do imperador, tendo o próprio Adriano identificado sua imagem aos faraós egípcios.

Uma relação interessante entre a deusa Ísis e o poder em Roma foi sugerido por J. Z. Smith, proporcionando uma melhor compreensão de certas características dos imperadores do século II. Na mentalidade egípcia, Ísis estava associada à agricultura, maternidade, ordem social, civilização e códigos morais, como aparecia em seu mito. Desta forma, como geradora do salvador Hórus, era a protetora dos faraós, auxiliando o governo, proporcionando a ordem social e o bem-estar da população. Se por um lado o culto da deusa beneficiava a legitimação do poder real, por outro, libertava a população de um poder tirano, ao passo que a deusa era vista como mãe, não cabendo as noções de tirania. Isso foi interessante no momento em que fora apropriado pelo poder real, quando sua autoridade passa a ser interpretada pela população como divina e as regras formuladas teriam inspiração semelhante. Os faraós eram vistos como aqueles que promoviam a paz e a justiça, não eram menos salvadores e benfeitores que os deuses.

Os imperadores romanos, ainda de acordo com Smith, teriam se apropriado desta imagem, assim a união entre divindade e autoridade significava um poder real soberano e perfeito, diferente de uma tirania e aceito pela população. Outro aspecto importante, destacado por Smith, é a relação entre a autoridade e a população, colocada em paralelo com a relação entre divindade e devoto. O iniciado e a divindade estabelecem um relacionamento de troca, quando o devoto cultua a deusa e recebe benefícios materiais e espirituais. O mesmo ocorreria entre o imperador e a população, quando o primeiro oferece um bem-estar para a sociedade, exigindo respeito e obediência em troca. Estes relacionamentos são saudáveis, beneficiando ambos os lados, não se identificando com uma ação tirânica. Se por um lado o interesse do imperador Adriano pelo culto de Ísis e Sarápis era claramente político, por outro, Takács considera que o interesse também era por questões intelectuais. Alexandria oferecia um leque de pensamentos científicos e filosóficos para entender os mecanismos do mundo, elementos que atraíam a atenção do imperador que, conseqüentemente, interessou-se pela ligação destes pensamentos com os mistérios de Ísis e Sarápis. Isso gerou uma possível iniciação do próprio Adriano e uma expansão do culto, até mesmo com a cunhagem de moedas com imagens isíacas e a identificação do imperador e sua esposa com o casal de divindades. O sucessor de Adriano, Antonino Pio (138-161) não demonstrou o mesmo interesse pela cultura egípcia. As moedas que cunhou, associando Ísis a sua esposa, demonstra uma representação fora de um contexto religioso, talvez seja somente uma continuidade da política adotada pelos imperadores anteriores.

No período dos Antoninos, como podemos notar, há um maior encontro de culturas, quando as influências gregas chegaram até os romanos e outras localidades, ao mesmo tempo em que a cultura das localidades africanas também estão indo ao encontro à cultura romana. Este fato encontra-se expresso na literatura latina do século II, classificada por Ernst Bickel como um estilo novo, africitas. A novidade teria como maior expoente Apuleio, dado que em suas obras pode-se encontrar elementos da literatura grega e romana, em conjunto com as questões religiosas do oriente, as quais já eram conhecidas no mundo greco-romano. A literatura teria sido elaborada pelo autor que possuía um significativo conhecimento da cultura das diversas localidades do Império Romano e respirou as práticas religiosas e a filosofia que se expandiam pelo Império no século II, tudo isso com o apoio das autoridades que se apropriaram das formas do culto da deusa Ísis.

Autora: Vanessa Auxiliadora Fantacussi.

Obra: O Culto da Deusa Ísis entre os Romanos no século II – Representações nas Metamorfoses de Apuleio – Capítulo II pg. 42.

Fonte: UNESP

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