segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Vivendo na Extrema

Então, Joãozinho, você saiu da cidade grande em busca de seu grande ideal. Tudo naquele dia parecia comum, você acordou, tomou café, vestiu-se e foi até a rodoviária. Tudo rotina, exceto a expectativa e a ansiedade.
Não foi muito longe, Joãozinho, uma hora e meia não é coisa alguma pelo tamanho do Brasil. O ônibus percorre a estrada e a cidade grande some, dando lugar aos morros, às rochas, ao campo, ao gado, ao mato.
Você chegou em Extrema, Joãozinho, mas esta é a primeira fase. Ainda tem que se embrenhar mais, se você realmente quer resgatar sua origem, sua essência. Em um pedaço, o asfalto acaba, agora você está chegando lá, Joãozinho.
Na entrada, a saudação do Porteiro. Na recepção, as boas-vindas de três cachorros negros. A casa dos seus sonhos, Joãozinho, habitada por espíritos e entidades. Você está bem longe de Sampa City, longe de seu aquário, longe de sua zona de conforto, longe da natureza urbana, longe de sua gaiola de cimento, aço e vidro.
Ninguém te forçou a isto, ninguém te obrigou, foi você mesmo, Joãozinho, que se propôs a vir, que procurou e pediu por isto. Este foi um ato de fé, não há como voltar atrás, não há como desistir.
Antes, um almoço. O peru precisa ser engordado, Joãozinho. Depois caminhar até o círculo, noite adentro, sem qualquer luz, exceto por uma lanterna, tudo mais envolto em sombra indistinta, não há formas. O longo passeio de um condenado.
Lenha é colhida e empilahda. Para assar o peru é necessário fogo, Joãozinho. Ato de misericórdia, você tem os olhos vendados, sua única âncora é o portal de entrada do círculo. Sentidos, só a audição e o tato. Seus pés não estão mais no seu mundo seguro, Joãozinho. Mesmo agasalhado, suas costas arrepiam de frio.
A sacerdotisa te intima, Joãozinho, você balbucia algumas palavras e é puxado para dentro do círculo. Todo (re)nascimento é bruto, Joãozinho. Achou que seria simples, bom e fácil ter uma sacerdotisa, Joãozinho? Péssima decisão, Joãozinho, se acha que o caminho Entre os Mundos é uma fuga, um passatempo, uma diversão. Você vai trabalhar, Joãozinho, como nunca alguém tinha trabalhado antes. Você vai ter que sentir a vida e a natureza como nunca alguém tinha sentido antes. Você vai ter compromisso e responsabilidade como nunca alguèm tinha tido antes.
A hóstia foi o cogumelo, sua cabeça lavada com água lustral e, por fim, os Deuses te mordem com um beijo. Primeiro passo, Joãozinho, de uma longa caminhada. Seja bem-vindo ao mundo das bruxas.

2 comentários:

Qelimath disse...

Vivendo no extremo, às margens de onde se solidifica o ser, sublimado, elevado à sua mais alta potência...

Ishiaro disse...

KMF isso ae é só um beijo.. kkkk
depois que vier os abraços ai sabemos da potencia da pessoa e do cogumelo. :D
isso é que é viagem Beto...

Otimo conto.