sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Imagens e símbolos

Foi há muito tempo atrás quando eu li o livro de Roberto Sicuteri, “Lilith, a Lua Negra”. O livro foi publicado em 1998 [Editora Paz e Terra] e admito que me ajudou em minha jornada de volta para minha verdadeira casa, família e origem.

O livro é uma releitura do mito na linha de Carl Gustav Jung e Joseph Campbell. Mas mesmo assim se restringe essa análise nos limites da mitologia judaico-cristã. A referência que é usada no livro [Criaturas do deserto se encontrarão com hienas, e bodes selvagens balirão uns para os outros; ali também descansarão as criaturas noturnas e acharão para si locais de descanso - Isaías 34:14] foi “corrigida” [censurada/omitida] nas constantes revisões que os padres/pastores cristãos fazem em seu “texto sagrado”.

A capa do livro contém a figura de um ser antropomorfo, uma figura feminina alada, nua, portando uma coroa na cabeça (chifres), bastão e círculo em ambas as mãos, em pé sobre dois leões e ladeado por duas corujas. O interessante, na minha jornada, foi a busca pelo conceito original, pelo mito original, saber qual personagem está efetivamente representada no “Relevo de Burney” [https://en.wikipedia.org/wiki/Burney_Relief].

A interpretação sobre quem esta figura representa ainda é debatida, podendo ser Ereshkigal, Ishtar ou Lilitu [nome original, sumério, de Lilith].

A simbologia desse relevo possui diversos conceitos:

A figura encontra-se em pé sobre dois leões como símbolo de poder e soberania [leões são associados à majestade], podendo igualmente indicar essa figura como uma “mestra dos animais”, identificando seu domínio sobre a Fauna, senão sobre a própria natureza.

As “corujas” que a ladeiam assemelham ter outra função, parecem vigilantes. A coruja é um símbolo associado à Deusa Atena, mas aqui, a simbologia remete à natureza noturna da coruja. As formas das corujas, especialmente suas penas, aparentam serem “capas”, talvez disfarces e as cabeças podem muito bem serem máscaras. A semelhança das pernas das “corujas” com as pernas da figura sugerem algum tipo de identidade ou natureza comum.

A nudez, ao contrário do que o mundo ocidental interpreta [dominado pela teologia judaico-cristã que vê qualquer coisa associada ao corpo, ao desejo, ao prazer e ao sexo como algo errado, ruim e pecaminoso], aqui representa o estado de liberdade incondicional da figura, “ela” não conhece restrição, limite ou fronteira, representação reforçada pela presença de asas.

O bastão e o círculo que “ela” segura em ambas as mãos são símbolos muito frequentes na arte da mesopotâmia, usados como símbolos de poder e majestade. O círculo pode significar os limites do mundo, senão o mundo por si mesmo. O bastão é um símbolo associado à majestade até os dias de hoje. Então “ela” segura o mundo inteiro nas mãos e reina absoluta.

Aparentemente o artista, ao representar essa Deusa, não achou suficiente adornar repetidamente o quanto “ela” é poderosa e regente do mundo. A figura porta uma “coroa” que, olhando bem, é constituída de uma fileira de chifres. Igualmente presentes na arte da mesopotâmia, chifres são constantemente parte da representação dos Deuses, como símbolos de força, poder, supremacia, vitalidade e sexualidade. A título de comparação, o unicórnio é considerado uma criatura de poderes mágicos e possui um único chifre. Os Deuses contemporâneos dessa Deusa eram representados com dois chifres. Então se pode supor o tamanho do poder que “ela” tem pela quantidade de chifres em sua têmpora.

Lendo os mitos de Ishtar [e Inanna], além de sua completa falta de prurido em suas relações sexuais, ela sabe demonstrar seu outro lado. Quando Ishtar [Inanna] fica zangada ou entra em combate com os Deuses [seus pais, irmãos e filhos], o seu apetite na batalha é igual ao seu apetite na cama, ela somente para com o massacre quando seus [lindos] tornozelos estão cobertos de sangue.

Ainda enigmática, “ela” está bem longe de ser completamente compreendida pelos pagãos modernos, especialmente os seguidores da “religião da Deusa”, que frequentemente negam o aspecto sexual da Deusa enquanto Prostituta Sagrada e escondem seu terrível Lado Negro enquanto Destruidora.

Seja quem for “ela”, seja bem-vinda, Regina Mundi, na minha vida.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

O mito das tábuas

“E deu a Moisés (quando acabou de falar com ele no monte Sinai) as duas tábuas do testemunho, tábuas de pedra, escritas pelo dedo de Deus”. [Êxodo 31:18]

“Então disse o SENHOR a Moisés: Lavra duas tábuas de pedra, como as primeiras; e eu escreverei nas tábuas as mesmas palavras que estavam nas primeiras tábuas, que tu quebraste”. [Êxodo 34:1]

“According to the Hebrew Bible, the Tablets of the Law as they are widely known in English, or Tablets of Stone, Stone Tablets, or Tablets of Testimony ... were the two pieces of stone inscribed with the Ten Commandments when Moses ascended biblical Mount Sinai as written in the Book of Exodus”.[https://en.wikipedia.org/wiki/Tablets_of_Stone]

Não deve ser novidade ao leitor que a Mitologia Judaica não é original, o povo Hebreu assimilou ou copiou muito de seus vizinhos e a mitologia foi fortemente modificada depois da influência que a Cultura Judaica adquiriu após o domínio Assírio, Babilônico e Persa.

A Cultura dos Acadianos (Babilônicos) tem um forte componente, a Mitologia Babilônica possui origens semelhantes da Cultura Suméria. Dentro do grupo da Mitologia Mesopotâmica pode-se apontar o Mito das Tábuas do Destino e do Poder.

“In Mesopotamian mythology, the Tablet of Destinies ... was envisaged as a clay tablet inscribed with cuneiform writing, also impressed with cylinder seals, which, as a permanent legal document, conferred upon the god Enlil his supreme authority as ruler of the universe.

In the Sumerian poem Ninurta and the Turtle it is the god Enki, rather than Enlil, who holds the tablet. Both this poem and the Akkadian Anzû poem share concern of the theft of the tablet by the bird Imdugud (Sumerian) or Anzû (Akkadian). Supposedly, whoever possessed the tablet ruled the universe. In the Babylonian Enuma Elish, Tiamat bestows this tablet on Kingu and gives him command of her army. Marduk, the chosen champion of the gods, then fights and destroys Tiamat and her army. Marduk reclaims the Tablet of Destinies for himself, thereby strengthening his rule among the gods”.[https://en.wikipedia.org/wiki/Tablet_of_Destinies_(mythic_item)]

Vamos tentar organizar os mitos. Originalmente, as Tábuas do Destino pertencem a Tiamat, uma entidade primordial, representada na forma de uma serpente, ou dragão, consorte de Abzu/Apsu, ambos associados às Águas Primordiais [Caos]. Esses Deuses Primordiais procriavam profusamente e tiveram descendentes. Houve uma contenda entre esses Deuses, os novos quiseram tomar o poder dos antigos, dando origem às inúmeras mitologias de Deuses, semideuses e heróis que matam uma serpente ou um dragão, simbolizando o fim de uma era e o início de outra. A Mitologia Judaico-Cristã sobre a Tentação de Adão, no Jardim do Éden, pela Serpente, constitui um reflexo gritante.

Na Mitologia Suméria, as Tábuas do Destino eram chamadas de ME e a posse delas concedia ao seu portador (ou portadora) poder absoluto.

“In Sumerian mythology, a ME is one of the decrees of the divine that is foundational to those social institutions, religious practices, technologies, behaviors, mores, and human conditions that make civilization, as the Sumerians understood it, possible. They are fundamental to the Sumerian understanding of the relationship between humanity and the gods”.[https://en.wikipedia.org/wiki/Me_(mythology)]

A posse das tábuas é tão importante que a Mitologia Suméria tenta “explicar” a transmissão dos ME de Enki para Inanna. A “desculpa” esfarrapada é que Inanna embebedou Enki ou o seduziu. Os mitos antigos constituem um problema sério para a civilização ocidental dita culta, porque mostra entidades poderosas, mas promíscuas, sem limites, nem tabus. Os mitos antigos estão repletos de histórias de Deuses procriando com suas mães, irmãs, filhas, sobrinhas e netas. Constitui um embaraço para as “religiões da Deusa” que costumam ignorar a importância do casamento sagrado, o hierogamos, como bem atesta James Fraser, no livro “O Ramo Dourado”.

O poder de Inanna é tão temível quanto sua contraparte mais conhecida, Ishtar, cujo culto dominou o Oriente Médio por séculos, seguido pelo culto de Astarte e, mais tarde, o culto de Aset (Isis), disseminado pelo mundo conhecido graças ao domínio romano (que fizeram uma procissão para a Deusa Cibele). Um embaraço enorme para a leitura provinciana dos mitos antigos pelos pagãos modernos e esse conceito de uma Grande Deusa, repleta de compaixão, omitindo a Face Negra dessa Grande Deusa, expressa sem prurido em Inanna e Ishtar. Fica impossível de encaixar Inanna e Ishtar nessa teologia caiada, sem espaço para Deusas violentas, agressivas e sanguinárias, como Kali que engole seres vivos por inteiro.

A Mitologia Suméria fica confusa. As Tábuas do Destino ora estão em posse de Enlil, ora estão na posse de Enki. Pela árvore da família desses Deuses, Enki é descendente de Tiamat, mas ele envia Marduk, que combate e vence Kingu, o escolhido de Tiamat (a quem foi conferido as tábuas). Ecos desse embate mítico são vistos no combate de Zeus contra Thyphon, Apolo contra Python e na iconografia do monoteísmo abraãmico da “luta final” entre Deus e o Diabo.

O padrão, se eu posso dizer assim, é a troca de poder entre Deuses Antigos e novos Deuses que, ao tomar o poder, suprimem e demonizam os Deuses que os antecederam. Essa usurpação do poder, entretanto, não é pacificamente aceita. Da mesma forma como aparecem Deuses, semideuses e heróis que vão aparecer para “manter a ordem”, inúmeros espíritos, entidades, frequentemente identificadas como “representantes do Mal”, tentam devolver a coroa a quem de direito.

“The story of our poem, briefly sketched, runs as follows: Once upon a time there was a huluppu-tree, perhaps a willow; it was planted on the banks of the Euphrates; it was nurtured by the waters of the Euphrates. But the South Wind tore at it, root and crown, while the Euphrates flooded it with its waters. Inanna, queen of heaven, walking by, took the tree in her hand and brought it to Erech, the seat of her main sanctuary, and planted it in her holy garden. There she tended it most carefully. For when the tree grew big, she planned to make of its wood a chair for herself and a couch.

Years passed, the tree matured and grew big. But Inanna found herself unable to cut down the tree. For at its base the snake "who knows no charm" had built its nest. In its crown, the Zu-bird--a mythological creature which at times wrought mischief--had placed its young. In the middle Lilith, the maid of desolation, had built her house. And so poor Inanna, the light-hearted and ever joyful maid, shed bitter tears. And as the dawn broke and her brother, the sun-god Utu, arose from his sleeping chamber, she repeated to him tearfully all that had befallen her huluppu-tree”. [https://www.sacred-texts.com/ane/sum/sum07.htm]

A cultura ocidental não seria a mesma se seus meios de comunicação (sobretudo o cinema) não reforçassem e confirmassem esse conceito maniqueísta típico das religiões monoteístas. Filmes de terror dão uma boa amostra disso. A representação de personagens identificados com o “Mal” está associada à noite, à morte, aos feitiços, às maldições. Criou-se, inclusive, uma demonologia, com direito à hierarquia e relações de força e poder que podem ser manipuladas por fórmulas tal como são descritas nos famigerados “grimórios”. Estas criaturas e entidades não são nossas inimigas, elas estão simplesmente lutando para devolver a coroa a quem de direito. O verdadeiro inimigo, além de nós mesmos, é o Deus Usurpador, aqui no ocidente, chamado de Deus, a saber, o conceito Cristão de Deus.

Talvez esteja na hora de revisitarmos e reinterpretarmos a cena da Serpente no Éden. A legítima representante e herdeira dos Deuses Antigos não quer a ruína e destruição da Humanidade. A Serpente [ou Lúcifer] quer libertar a Humanidade de seu cativeiro. Afinal, por que Deus [o Bíblico] se sentiu tão ameaçado quando a Humanidade adquiriu o Conhecimento? Será que ali não está um mito antigo que foi distorcido pelas religiões dominantes? Será que ali não há uma cena de Iniciação dentro de um Culto de Mistério? Uma Iniciação que nos reconduziria à nossa verdadeira origem e propósito, como filhos e filhas dos Deuses.

Assim seja, assim é, assim será.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

O sexo na Idade Antiga

Os povos da Antiguidade eram consideravelmente permissivos em relação ao sexo — principalmente os helênicos. Ainda hoje existem preconceitos e tabus ligados à prática sexual, no entanto, isso parecia ser menos presente nas sociedades antigas.

Documentos desse período, que data desde 4000 a.C. ao século 5 d.C., revelam alguns fatos curiosos sobre as pessoas que viviam nessa época e como elas se relacionavam umas com as outras, ainda mais de forma íntima. As evidências também são importantes para mostrar como as sociedades grega, romana e egípcia lidavam com essas questões.

Em Roma, o sexo era tão incentivado que existiam leis que puniam tanto o celibato quanto pessoas que não tivessem filhos. Os casais com mais herdeiros, porém, eram privilegiados perante as autoridades romanas. Eles também chegaram a estudar mais afundo o corpo humano, tendo noção de algumas infecções sexualmente transmissíveis (IST), como a gonorreia, analisada pelo médico e filósofo romano Cláudio Galeno no século 2.

A prostituição também era regulamentada na região. As mulheres pagavam impostos, tinham a profissão registrada e quase sempre eram encontradas em baixo de arcos arquitetônicos nas cidades. Uma curiosidade é que a palavra “fornicação” vem da expressão em latim “fornice”, que designava arco.

Em relação à legislação, Roma tinha penas de morte para casos de adultério, somente se cometido pela esposa, incesto e ainda sexo entre uma mulher livre e um escravo. Em outro caso, quem fizesse sexo anal teria suas propriedades apreendidas.

O sexo era retratado em inúmeras pinturas, mosaicos e objetos comuns como lamparinas e até mesmo em moedas. Alguns historiadores acreditam que essas moedas, que mostravam uma posição sexual em uma face e um número na outra, eram fichas de bordel, e os números seriam responsáveis por hierarquizar as maneiras com que se realizava a ação.

Na Grécia, a relação com o sexo não era muito diferente. Nos dois lugares, a monogamia era quase que a regra entre os casais, por isso mesmo que os greco-romanos descobriram a necessidade do divórcio, o que passou a ser estabelecido nas leis oficiais. Outra característica em comum entre os dois lugares era a normalidade com que se tratava a masturbação, sendo considerada natural entre todas as pessoas.

Ainda em território grego, a homossexualidade era comum. Existiam lendas sobre a origem da sexualidade, especificamente no que diz respeito à relação entre homens adultos e jovens. Acreditava-se que Orfeu, poeta e músico da mitologia grega, apaixonou-se por um adolescente depois da morte de sua mulher. Uma lenda ainda trazia o romance entre Tamíris e Jacinto para falar sobre a homossexualidade.

Fonte: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/almanaque/historia-como-pessoas-lidavam-com-o-sexo-na-idade-antiga.phtml

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

A pessoa "genderbread"

Eu havia traduzido na extinta Sociedade Zvezda um texto intitulado "The Genderbread Person", por causa do desafio de traduzir o termo e o conceito para o português. Em um rápido esforço de reconstrução, o termo "genderbread person" nos remete ao termo "gingerbread man", uma lenda que envolve um biscoito que ganha vida. O embrólio é mais difícil do que parece, pois a "tradução" para "ginger bread" é "pão de mel", o que perde a presença do gengibre, no original, ginger, na tradução.

O autor, Sam Killerman, descreve a pessoa "genderbread" dentro dos seguintes espectros: identidade de gênero, expressão de gênero, sexo anatômico, orientação sexual e preferência sexual.
Considerando que vivemos em um país extremamente conservador, dominado pela heteronormatividade cisgênera e influenciado pela trans/homofobia patrocinadas pelo televangelismo, eu creio ser interessante e importante citar esse artigo escrito pelo Sam:

"O gênero é uma construção social.

Mesmo se você adotar a postura determinista biológica mais extrema  (que muitas pessoas do "gênero não é uma construção social" adotam), você não pode negar o seguinte:

O que significa ser uma “mulher” ou “homem” muda com o tempo (muitas vezes dentro do período de uma geração - pergunte a seus avós se você não acredita em mim).

Além disso, agora, os traços associados a cada um desses papéis são diferentes em diferentes partes do mundo (assista a uma sitcom de outro país se você não acredita em mim).

Se nossa compreensão de gênero muda mais rápido do que nossa biologia poderia evoluir, e atualmente existe em muitas formas ao redor do mundo refletindo diferenças culturais, ela é construída socialmente. Fim da discussão. Isso é o que essas duas palavras, combinadas,  significam.

E o gênero é real.

Só porque algo é uma construção social não significa que não seja real (apesar de muitos colegas da “construção social” dizerem isso).

O famoso exemplo: dinheiro. Ninguém argumentaria que existe algum valor inerente ao papel; em vez disso, aceitamos a ideia de que é valioso. O dinheiro é uma construção social e é muito, muito real. É vida ou morte real (tente viver sem ele se você não acredita em mim). Idem para gênero.

O gênero é uma das poucas maneiras pelas quais ainda permitimos (na verdade,  encorajamos) a discriminação e a segregação sistêmica com base na identidade. É uma das maneiras fundamentais pelas quais somos ensinados a ver o mundo, e o mundo é ensinado a nos ver. Está infundido em nossos nomes e em como falamos sobre os outros.

Agora, é  baseado na biologia? Influenciado por? Completamente desvinculado de? Esse é um argumento diferente, e não podemos chegar até que paremos de confundi-lo com este".

Fonte: https://www.itspronouncedmetrosexual.com/2018/09/yes-gender-is-a-social-construction-no-that-doesnt-mean-its-not-real/
Traduzido com Google Tradutor.

Eu convido ao eventual e caro leitor a vasculhar esse blog em busca de artigos onde eu exploro os conceitos de sexo, gênero, identidade, orientação e preferência sexual. Eu tive a felicidade e a oportunidade, enquanto escrevia textos para a Sociedade Zvezda, de pesquisar e explorar as pessoas transgênero, eu aceitei o desafio, eu escrevi contos com pessoas transgênero e eu cheguei a me apaixonar por uma pessoa transgênero.

Esse é o assunto que suscita muitas reflexões, sobretudo quando eu aposto que, com o avanço da tecnologia, da medicina e do uso das impressoras 3D, será uma questão de quando órgãos serão reconstruídos, senão pessoas inteiras, algo que foi candidamente chamado de transhumanismo, mas eu penso que o termo é enganoso, pois aquilo que virá a ser considerado "humano" extrapolará e assimilará outros termos, como robô, ciborgue e androide.

Essa relação de amor e ódio entre humanos e "máquinas" está bem presente nos filmes. Mas mesmo assim nós buscamos fazer com que a tecnologia aproxime os robôs cada vez mais ao que é "ser humano". Inclusive quanto ao sexo e isso vai causar um overload nos cérebros dos conservadores e puritanos.

Dignos de nota são os filmes "Metrópolis" (1927), "Blade Runner" (1982), "Ghost in the Shell" (anime de 1995) e "Ex Machina" (2015). Desses exemplos, eu vou destacar o anime e a personagem "major Motoko Kusanagi". Fica inevitável ressaltar a espiritualidade inerente contida no anime, pois o "corpo cibernético" é comparado à uma "concha" onde é instalado um "programa", uma "memória", porque não dizer, "alma", o que me remete ao excelente seriado "Altered Carbon".

Mas Motoko é mais do que uma "memória humana" instalada em um cibercérebro de um "ser humano cibernético de prótese de corpo inteiro" (para seguirmos a definição da personagem). Seu "histórico" fala que essa persona existiu como ser humano carnal, sofreu um acidente e teve parte de seu cérebro original integrado ao cibercérebro (o que me remete à natureza dos supercomputadores Magi de Neon Genesis Evangelion). O "corpo cibernético" (a concha) em que seu "fantasma" habita é construído em toda estrutura, do endoesqueleto ao aspecto externo, não como se fossem partes sintéticas montadas, mas como se aquele "corpo" estivesse sendo criado "organicamente" ao nível da perfeição idealizada de como se concebe o "corpo" de um "ser humano" real.

O dilema que Motoko representa no anime é o mesmo dilema que nós enfrentamos diante do avanço da tecnologia (o que, infelizmente, não é acompanhado no avanço da sociedade e de nossa "humanidade"). Afinal, o que faz nós sermos nós? Se fossemos meros aglomerados de células, estruturadas conforme determinados conjuntos de organismos, não teríamos tantas diferenças nem identidade ou individualidade. Há "algo" dentro de nós, que não pode ser nem medido nem perceptível cientificamente.

A "existência" e "natureza" dúbias e incertas de Motoko são igualmente questões nossas, pois, segundo estudos, todos nós somos intersexuais. A "configuração" de nosso "sexo anatômico" não pode ser restrito a somente duas categorias de gênero, para seguirmos a definição do Sam Killerman. Não obstante, nosso meio social estipula a diferenciação das coisas conforme categorias, definidas arbitrariamente de acordo com a cultura e a época em que tal sociedade vive. A medicina oferece cirurgia de redesignação sexual exatamente com esse intuito. Pessoas transgênero enfrentam a rejeição social e todo o processo doloroso unicamente para que seu "corpo" fique adequado à sexualidade/gênero, tal qual esses conceitos estão definidos.

A "existência" e "natureza" de Motoko, a forma como seu "corpo" foram configurados são uma confirmação e corolário do exposto. Senão, qual sentido teria em conceder ao "corpo sintético" da Motoko as mesmas características sexuais secundárias de um "corpo humano feminino" se, teoricamente, ela não pode copular, conceber ou amamentar? Qual sentido existe, senão a da ótica machista patriarcal, de dar atributos de uma "mulher humana", como o aspecto feminino e sensual, para Motoko, senão o de satisfazer sexualmente (ainda que virtualmente) o público masculino? Existe a insinuação, no anime, de que Motoko tenta descobrir quem "ela" é, de como deve entender e interpretar sua "existência", "natureza" e "corpo", de como deve interagir com essas circunstâncias. Essas são as questões que devemos fazer a nós mesmos, se queremos devolver ao corpo, ao desejo, ao prazer e ao sexo, sua dimensão sagrada.

sábado, 13 de fevereiro de 2021

A Deusa Nábia

O culto à Nábia estendeu-se por toda região norte do Rio Douro, resquícios de árias votivas foram encontradas em montes, fontes e castros. Muitos templos cristãos, aparentemente, foram construídos sobre seus altares de devoção.

Popularmente conhecida como uma deusa guerreira, dos rios e fontes, fato bem perceptível devido a quantidade de rios com seu nome ( Návia, Neiva e Nabão) e a sua imagem na Fonte dos Ídolos em Braga, bem como a relação clara com a palavra ‘navegar’; o que a coloca como uma possível psicopompo, condutora das almas para o Outro Mundo, sendo que esse simbolismo das águas, dentro da religiosidade celta, não pode ser ignorado.

No entanto, o simbolismo das águas também está ligado às deusas nutridoras da terra, como as deusas gaélicas Danu e Boann , e  com a cura e a fertilidade no caso da Deusa Brighid, o que leva a crer que Nábia não tinha apenas uma face guerreira, porém também de nutridora da terra e uma relação real com a fertilidade e a magia, o que a aproxima de uma deusa da vida.

Sua face guerreira aparece como protetora e guardiã da tribo, a presença de devoções em diversos castros enfatiza bem isso.

A soberania é visível no epíteto Corona que acompanha muitas vezes o seu nome, ela é a ‘coroada’, como a Morrighan gaélica é a Rainha. Ela é senhora dos montes e outeiros, seu valor mágico e soberano se reafirma nisso.

Sua oferenda eram os cordeiros, um animal de pastagem da tribo, ele além da carne, provém a lã e o leite, e a tribo lhe oferece o melhor. O melhor para Nábia Corona, para que os protegessem não só na guerra, e ataques a tribo, mas da fome e seca.

Com base, nessas conclusões, Nábia é uma deusa da tribo, da nutrição da vida, condutora ao outro mundo e a guerreira que defende a tribo e ajuda os guerreiros.

Nábia e os Festivais

Na ária encontrada em Mareco (uma cidade portuguesa extinta, hoje unificada a Penafiel), uma data nos dá um possível momento de celebração à Nábia, o mês de abril, o que a coloca no entremeio da chegada da primavera e do momento em que os pastores e agricultores sairiam para o campo, e os guerreiros para suas possíveis guerras, e pensando na Celtibéria e a ânsia guerreira, o tal era bem real.

Na Fonte dos Ídolos as inscrições à Nábia vêm ao lado de um homem que segura a cornucópia, símbolo de fertilidade; há muitas hipóteses a esse respeito, podendo esse ser mais um deus, o que não deixa de a cornucópia ter um forte significado. A fonte remete ao período romano na península, e os romanos são conhecidos pela unificação das suas crenças com os povos nativos, então o símbolo greco-romano ofertado à uma deusa celta não é de se estranhar, pelo contrário, reafirma a deusa Nábia em sua face de nutridora da tribo.

Segundo Melena (1984), Nábia é a deusa dos montes, a deusa selvagem, portanto o espírito da vida. E em Abril essa força de vida está desperta. Essa força selvagem faz parte da fúria do guerreiro e do semear.

E nesse momento que antecede a saída da tribo para seus trabalhos: pastorar, plantar e guerrear, é o tempo de fazer oferendas a Nábia, para que ela possibilite o terreno fértil, que suas águas nutram a terra, e as plantações cresçam em abundância, que o gado esteja protegido das doenças e saques, que a tribo esteja guardada e vigiada pelos seus olhos e os guerreiros protegidos por ela, e se tombarem nos campos de batalhas sejam guiados por ela ao Outro Mundo. Bem como ela seja a energia e força para isso.

As Faces de Nábia

Por mais que mais acima essas faces já tenham sido tocadas, a intenção agora é colocá-las de uma maneira mais clara.

Nábia Corona:

O epíteto Corona, coronus e corua, designado a Nábia foi encontrado em inscrições de lugares ermos, nos altos montes, como em Mareco ( Penafiel), Monte de Pedrados, Sierra de San Pedro, Serra de Marofa e outros; nessas inscrições Nábia está relacionada ao deus romano Júpiter, o que não se é de estranhar, as características dadas a Júpiter na península nos dão a clara anexação de um deus local ao romano, muitos apontando para Reue, o Deus Celeste, ligado também aos altos montes e as águas das chuvas. Nábia Corona é a Nábia elevada, a Nábia dos montes, seu aspecto soberano e até mesmo celeste aparece aqui. É a Nábia que está acima do humano, e a ele rende graça pela sua elevação, afinal essa natureza selvagem não está no controle humano, mas é temida por ele.

Nábia, Guardiã da Tribo:

O nome de Nábia foi encontrado grafado nos Castros de O Picato (Nábia Arconunieca) e Penarrubia e outros núcleos populacionais, em alguns com os epítetos Sesmaca e Arconunieca, ambos termos ligados à localidade, o que a coloca como divindade tutelar de diversas populações; ela é a guardiã da tribo com seu escudo e espada, é a Nábia guerreira, que está junto com a tribo, protegendo-a e guiando-a em suas batalhas. Aqui ela se aproxima do humano, ela é Terra e Tribo, está intimamente ligada a eles.

Nábia das águas:

A Nábia das águas é a da Fonte dos Ídolos e dos rios Navia, Nabão e Neiva, e nesse ponto ela exerce duas funções, a de nutridora e de guia ao outro mundo. Suas águas nutrem a terra, permitem que os campos cresçam em abundância e os gados tenham os melhores pastos, a fertilidade é o que ela dá ao camponês, e ele lhe faz oferendas de carneiro, frutos e flores. Mas essas águas também são passagens para o Outro Mundo; ela é a que abre os portais, é o entremeio, a que permite o contato com o outro lado e também será a guia após a morte.

Concluindo:

A deusa Nábia é a deusa que une os Três Reinos celtas: a deusa celeste, a deusa da terra e das águas, então ela traz em si o axi-mundi. O que explica o porquê da sua devoção não ser semelhante com as demais deusas da Iberia Celta, de ela ter ultrapassado um único local e ter atingido todo Alto Douro.

Nábia e o Cristianismo

Quando o cristianismo chega a uma determinada região e lá se estabelece, sua intenção é apagar os resquícios das religiões pagãs; isso não aconteceu apenas na Iberia, como em todos os locais em que ele se estabeleceu. Porém tal objetivo não é assim tão fácil, pois a fé não está apenas no espaço, mas na mentalidade das pessoas.

“Poderiam multiplicar-se os exemplos desta persistência, embora desvanecida, do antigo culto das águas nas tradições populares. As práticas rituais primitivas destas devoções religiosas ainda no século VI da era cristã eram conservadas integralmente entre muitas populações da Península, apesar da expansão do Cristianismo, pois sabemos, por exemplo, que S Martinho de Durine, na sua evangelização do território bracáreas condenava as superstições heréticas, arraigadas no povo, que continuava mantendo a crenças nas ninfas e noutras divindades do Panteão romano e dos anteriores cultos indígenas ” (SANTOS JUNIOR, J.R & CARDOZO, Mário, 1953, p.57)

O culto a Nábia foi combatido por diversos lados. Era praxe nos montes construir templos cristãos sobre seus lugares de devoção, esconder os resquícios por meio da cristianização do espaço, fatos que a arqueologia traria à tona em seus achados; aras votivas foram encontradas na igreja São João do Campo e há possibilidade de que uma capela dedicada à virgem tenha sido construída em cima de um altar de devoção à Nábia em Penafiel.

Nas águas é que surge a figura da santa, Santa Iria de Tomar:

“Segundo a lenda de Santa Iria, em 653, quando a jovem professa rezava próximo de Tomar, numa capela situada na margem do Nabão, terá sido morta e lançada ao rio, vindo o corpo a navegar até Santarém. Tratar-se-ia de uma freira do convento beneditino fundado em 640 por S. Frutuoso, bispo de Braga, na margem do Nabão? Ou, de facto, nunca passara de uma lenda incomprovada?

A poucos quilómetros de Tomar, e não longe do rio, há uma povoação que tomou o nome de uma santa, igualmente assassinada e atirada ao Nabão. Trata-se de Santa Cita, uma jovem freira, de época muito anterior à da outra mártir.

Poder-se-ia aceitar, inquestionavelmente, a existência destas duas virgens do martirológio cristão, como santas portuguesas, se não fossem as suas homónimas de regiões distantes com semelhante percurso hagiográfico. Pululam as santas Irena ou Irina, bizantina, grega e romana. Se atentarmos na Vitae de Santa Irina de Magedon, nas Balcãs, que a situa no ano de 305 e aponta o seu culto para o dia 5 de Abril (e aqui saliente-se a curiosa coincidência com a data do culto a Nabia, inscrita na ara de Marecos), constatamos que a santa, depois de torturada, é fechada num túmulo, e ao cabo de uns dias, quando o abrem, o corpo terá desaparecido, o que se torna uma situação muito idêntica ao da Iria peninsular!”(SOARES, Lina Maria, 2010, p.214)

A lenda da santa é a tomada do Rio Nabão pelo Cristianismo, é a tentativa de apagar os cultos das águas à Nábia, é tornar as águas culto à nova fé.

De qualquer forma, as tentativas de apagar os cultos à Nábia não deram de todo certo, ou nem eu, nem outros, estaríamos falando dela hoje, pois nada na história da humanidade se apaga, só precisa ser relembrado; essa foi a idéia ao escrever sobre Nábia, pois ela ainda vive.

Bibliografia:

MELENA, José L. – Un Ara Votiva in: VELEIA, Revista de Prehistoria, Historia Antigua, Arqueologia y Filologia Clasicas. Pais Vasco: 1984.
OLIVARES PEDREÑO, Juan Carlos – Los Dioses de la Hispânia Céltica – Madrid : Real Academia de la Historia : Universidad de Alicante,2002.

SANTOS JUNIOR, J.R & CARDOZO, Mário – Ex- Votos às Ninfas em Portugal. Salamanca: Zephyrus – Revista de prehistoria y arqueología Vol. IV, 1953

SOARES, Lina Maria – Da Scallabis Romana a Sactarem: Espaços, Gentes e Lendas in: Espaços e Paisagens. Antiguidade Clássica e Heranças Contemporâneas. Vol. 3. História, Arqueologia e Arte, org. OLIVEIRA, Francisco et. all. Coimbra: Associação Portuguesa de Estudos Clássicos – APEC, 2010.
VASCONCELLOS, J. Leite de – Religiões da Lusitânia, Volume II, Lisboa: Imprensa Nacional, 1905.

Original: http://www.ramodecarvalho.com.br/mitologia/mitologia-continental/deusa-nabia/

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

As senhoras do fogo

No sossego de suas casas, ocupados com as tarefas do cotidiano, os romanos viviam protegidos por uma chama que não podia se apagar. O fogo queimava em uma pira protegida pelas paredes do templo da deusa Vesta, no monte Palatino. Eles não imaginavam como a labareda, que homenageava a divindade encarregada de zelar pela união das famílias da Roma antiga, era mantida acesa. O mistério da chama só era conhecido por poucas pessoas. Em particular por moças abastadas, filhas de família de conduta impecável e virgens. Eram elas, as vestais, as encarregadas de não deixar o fogo apagar.

Reclusas, as sacerdotisas da deusa Vesta recebiam privilégios impensáveis a outras mulheres de sua época e ocupavam um alto status na comunidade. Tinham a obrigação de se manter castas durante 30 anos após escolhidas para a tarefa. Caso violassem a regra, recebiam penas duríssimas. Podiam até terminar enterradas vivas. 

Caso uma vestal quebrasse o código de conduta, estava automaticamente condenada à morte. Ou era enterrada viva ou jogada do alto da rocha Tarpeia, no monte Capitolino. O homem que a profanasse ia para a forca.

Apesar da sombra da punição, ser uma discípula de Vesta era uma honraria ambicionada e rara. Só eram levadas para o monte Palatino as meninas de origem nobre. Com o consentimento dos pais e sem poder de escolha, as garotas eram recrutadas pelo sacerdote supremo do templo antes da puberdade. Ingressavam no grupo sem imaginar que sua principal tarefa era cuidar da chama de Vesta. A escolha, em geral, ocorria quando elas estavam com cerca de 7 anos, mas podia ser mais tarde. “A virgindade era apenas um dos requisitos para a escolha”, afirma a historiadora Renata Senna Garraffoni, professora da Universidade Federal do Paraná. “A menina deveria ser fisicamente perfeita. Além disso, era importante que a família fosse exemplo de perfeição em vários aspectos. Os pais tinham de estar casados, não podiam ter sido escravos nem ter tido qualquer envolvimento com negócios escusos. Órfãs também não eram escolhidas".

Uma vez selecionadas, as meninas deveriam passar as próximas três décadas isoladas do convívio em sociedade. Viviam cercadas pelos muros altos do templo, localizado nas colinas romanas, onde também ficavam o Fórum e o Circo Máximo. Sob supervisão do Pontifex Maximus, título do maior dos sacerdotes de Roma, a chama do templo era mantida acesa sob disciplina militar. Nos primeiros dez anos de serviço, as vestais estudavam: aprendiam latim, histórias sobre a vida de Vesta – que era, segundo a mitologia romana, virgem – e questões de Estado. Nos dez anos seguintes, a tarefa principal era mais prática: revezar-se para alimentar a chama. A última década era voltada ao ensinamento: elas deveriam passar seu conhecimento para as novatas. Ao todo, entre as mais velhas e as mais jovens, o templo abrigava 18 sacerdotisas.

Considerada eterna e pura, a chama em homenagem à deusa funcionava como uma espécie de garantia de que Roma não seria invadida ou violada. “Por isso há uma relação direta entre a manutenção da virgindade e a proteção da cidade, destinando às vestais um lugar de destaque”, diz a historiadora. Segundo Holt Parker, especialista em estudos clássicos da Universidade de Cincinnati, nos Estados Unidos, as vestais tinham até privilégios legais: não estavam tuteladas pelo pai ou pelo marido, prática comum entre as romanas. Elas eram tiradas de suas famílias ainda crianças, mas não passavam a pertencer a ninguém mais, tornando-se, assim, independentes e especiais aos olhos da sociedade e da legislação.

O culto a Vesta era uma tradição antiga em Roma. “Muitos estudiosos afirmam que a fé data do período da monarquia e teria sido introduzida pelo rei Numa Pompílio, por volta de 715 a.C.”, afirma Renata. Não existem muitos registros sobre a divindade. Como a deusa não costumava ser representada em esculturas ou pinturas, os dados a seu respeito vêm de textos de autores latinos como Cícero, Plínio e Plutarco. “A grande maioria das informações foi escrita por homens das elites romanas”, diz a historiadora. “As metáforas relacionadas à deusa e a suas sacerdotisas são permeadas por valores masculinos de diferentes momentos da história.” É certeza que a deusa, além de representar o fogo, tinha como tarefa principal guardar a lareira de Roma.

Na época republicana, que foi do fim do reino de Roma em 509 a.C. à criação do Império Romano em 27 a.C., havia cerca de 33 deuses romanos. E, para cuidar de seus cultos, existia toda uma rede de sacerdotes provenientes da aristocracia. “Eles se reuniam em distintos colégios para interpretar as vontades divinas, cuja tradição remonta à influência etrusca. Embora, na sua grande maioria, fossem colégios masculinos, o dedicado a Vesta era formado por sacerdotisas”, diz Renata.

A origem de Vesta é cheia de mistérios. Mas sabe-se que ela é uma versão romana de Héstia, deusa do fogo dos gregos. Na tradição grega, a linhagem de Héstia teria sido uma das primeiras a formar o universo: ela era neta de Urano e uma das cinco filhas de Crono e Réia. Um dos irmãos de Héstia era Zeus, caçula que assumiu o posto maior do Olimpo após uma briga familiar. Quando soube que seria destronado para dar lugar a um de seus filhos, Crono engoliu sua prole. Réia, mãe dedicada, salvou Zeus escondendo-o do pai. Quando cresceu, Zeus decidiu vingar-se do pai. Ganhou de Prudência, sua amante, uma droga que obrigou Crono a vomitar os outros descendentes. Héstia voltou à vida e jurou virgindade eterna. Por isso, recebeu do irmão a honra de ser venerada nos lares por meio da chama sagrada. Todas as cidades gregas e romanas veneravam a chama eterna, cada qual com sua versão. Não se sabe, porém, quem veio primeiro: Héstia ou Vesta. “Era comum os romanos classificarem os deuses de outros povos a partir da comparação com os seus próprios”, diz a historiadora Renata Senna Garraffoni. Assim, embora Vesta seja a versão romana de Héstia, há quem defenda que o culto à deusa romana já existia antes do contato com os gregos. “Estudiosos dizem que relatos romanos indicam que as primeiras vestais eram filhas dos reis romanos ou suas esposas.” Tanto Vesta quanto Héstia se mantiveram indispensáveis para a vida social de seus povos no decorrer dos séculos.

As vestais tinham outros papéis importantes na sociedade romana. “Em geral, elas aconselhavam o Senado sobre todos os assuntos referentes a questões divinas, conversavam com o povo sobre temas como a lei sagrada, incluindo a dos mortos, e supervisionavam os assuntos da lei familiar, como adoção e herança”, diz Renata. Se houvesse discussões em família, por exemplo, as sacerdotisas eram chamadas para acalmar os ânimos. E podiam ainda ser solicitadas para cerimônias especiais, como a leitura do testamento de algum imperador. Atividades como cuidar do abastecimento de água para os serviços do templo também estavam no dia-a-dia dessas mulheres. A clausura não era assim tão rigorosa: elas tinham autorização para sair sempre que necessário para participar não só de seus afazeres cotidianos como também de alguns eventos públicos. Nas lutas de gladiadores, por exemplo, tinham cadeira cativa.

Uma vez ao ano, todas as sacerdotisas deixavam juntas o templo em que moravam e iam para as ruas de Roma. Era a Vestália, festa em louvor à deusa, com data fixa entre 7 e 15 de junho. Tratava-se de um acontecimento único entre os moradores da cidade, que aguardavam ansiosos para ver de perto as tais virgens. Do pouco que se sabe dessa festa, há relatos de que seis dessas mulheres ficavam encarregadas de confeccionar bolos sagrados, feitos com as primeiras espigas de milhete colhidas na estação.

No passeio realizado pela cidade, em espécie de procissão, as vestais eram vistas como celebridades. Enquanto as virgens estavam em liberdade nas ruas, o templo de Vesta era aberto para visitação, mas só para as mães romanas. No fim do percurso, no rio Tibre, as oferendas eram jogadas na água. “A partir de relatos do romano Ovídio, em especial em seu livro Fasti, sabemos que o festival se dava no Fórum e o asno era uma figura importante na procissão”, conta Renata. O carro que carregava as virgens era uma liteira tão luxuosa que, ao passar pelas vielas superpopulosas da cidade, causava alvoroço e comoção.

O sacrifício das sacerdotisas vestais também era empregado em outras ocasiões, como em situações de violência e ataques de inimigos contra Roma. Por serem puras, elas acabavam mortas para a proteção da cidade em momentos difíceis.

Uma vestal podia ser reconhecida pela aparência. O ingresso no templo, ainda na infância, era marcado pelo corte de cabelo: os fios deviam ser aparados na raiz. Com o passar dos anos, porém, passavam a exibir longas madeixas. As cabeças eram coroadas por adereços de lã branca que caíam sobre os ombros e por cima dos seios. Os vestidos brancos obrigatórios eram recobertos por mantos de cor púrpura.

A obrigação de se manter virgem durante os 30 anos de dedicação à deusa Vesta era levada a ferro e fogo. Caso uma vestal quebrasse o código de conduta, estava automaticamente condenada à morte. Ou era enterrada viva ou jogada do alto da rocha Tarpeia, no monte Capitolino. O homem que a profanasse ia para a forca.

O sacrifício das sacerdotisas vestais também era empregado em outras ocasiões, como em situações de violência e ataques de inimigos contra Roma. Por serem puras, elas acabavam mortas para a proteção da cidade em momentos difíceis. Ainda hoje muitos estudiosos questionam até que ponto essa prática foi comum. Alguns explicam que a punição era parte do “pacote” de pertencer ao grupo das vestais. Elas eram consideradas uma espécie de antídoto para as mazelas que a cidade estaria sofrendo.

Tanto os sacerdotes quanto as sacerdotisas eram considerados na sociedade romana os responsáveis pela ordem divina, não podendo exercer outras funções administrativas do governo. Na maioria dos casos, levavam uma vida normal dentro da aristocracia. “A exceção era para as virgens vestais e os sacerdotes de Júpiter, que tinham relações sociais mais restritas e estavam permeados de tabus, como, no caso delas, a virgindade”, afirma a historiadora.

Caso as guerras não vingassem, as pragas não atacassem e a tentação do sexo não prevalecesse, depois de cumprirem os 30 anos de serviços à deusa as vestais ganhavam a liberdade. Com seus 40 anos, tornavam-se Virgo Vestalis Maxima. Entre outros privilégios, elas poderiam continuar a servir a deusa até a morte, já que muitas aceitavam o celibato como as freiras o fazem hoje em dia, ou se casavam com algum grande homem da época, gozando até de uma remuneração do governo, como uma espécie de aposentadoria.

Alguns historiadores afirmam que o imperador Graciano, governante de Roma de 367 a 378, foi o responsável pelo fim da supremacia das vestais. Isso leva a crer que o reinado dessas mulheres teria durado cerca de mil anos. O manda-chuva daquele momento da história não era cristão, mas tinha certa aversão por alguns deuses pagãos. A manobra para acabar com o templo de Vesta foi um exemplo de má política: suspendeu os salários das vestais, desviando todo o dinheiro para o serviço postal imperial. O imperador Teodósio foi quem pôs fim à divina farra romana. Proibiu uma série de tradições antigas, como os jogos de gladiadores, e também encerrou o culto aos antigos deuses. O templo de Vesta foi fechado em 394. A última Vestalis Maxima conhecida, Coelia Concordia, morreu no mesmo ano, pouco tempo depois.

Mito e realidade se confundem quando o assunto é a vida das vestais. Claudia Quinta, que viveu por volta de 200 a.C., era uma delas. Certa vez, foi acusada de imoralidade e seria punida com a pena de morte, mas conseguiu provar publicamente sua inocência (não se sabe como). Alguns relatos sobre as vestais são fantasiosos, como o de que Rhea Silvia, mãe de Rômulo e Remo, os míticos gêmeos fundadores de Roma, que frequentava um colégio de vestais, teria sido seduzida por Marte, deus da guerra. Perigosa, e real, foi Tarpeia, que no século I teria aberto as portas de Roma para os sabinos, um povo que não aceitava a cidadania sem voto estipulada pelos romanos (vem dela o nome da rocha Tarpeia, local de onde as vestais traidoras eram jogadas). A moça acabou pisoteada pelos cavalos dos sabinos durante a invasão à cidade. Já a sacerdotisa Julia Aquila Severa rompeu seus votos de castidade para se casar com o imperador Elagabalus. Ele, para espanto geral, era um homossexual que se travestia de mulher, mas que, mesmo assim, foi casado com três mulheres.

Fonte: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/senhoras-do-fogo-as-virgens-vestais.phtml

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

As únicas mulheres livres da Grécia Antiga

No centro do tribunal, uma das mais belas mulheres da Grécia Antiga estava entre a vida e a morte. Os conselheiros do Areópago, o tribunal ateniense, tinham em mãos o destino de uma semideusa acusada de impunidade, o que era motivo de traição para os moradores da cidade-estado.

Por sorte, Hipérides, um dos mais renomados oradores na Ágora (onde se realizavam as assembleias e reuniões públicas), foi convidado para defender a ré com mais um de seus sublimes discursos. O júri, no entanto, parecia não estar convencido e pretendia mesmo assim tomar uma decisão contrária. Seria o fim de uma divindade?

Um gesto desesperado do advogado levou a impiedosa para o centro, rasgou seu manto e expôs seus seios diante do plenário: a pele branca reluzida por todo o salão era um último apelo a tamanha beleza. A perfeição para os gregos era uma dádiva e, por compaixão, os juízes decidiram absolvê-la. Afinal, não se podia matar uma sacerdotisa de Afrodite, a deusa do amor, da beleza e sexualidade.

A cena descrita acima foi retratada pelo pintor francês Jean-Léon Gérôme, em 1861, na obra Friné Diante do Areópago. O óleo sobre tela sugere o julgamento de um dos nomes mais estimados entre os homens da Grécia Antiga. Phryne, ou Friné, foi uma mulher perdoada por carregar traços de Afrodite mesmo após introduzir crenças de outro deus em Atenas.

Embora não haja registros que comprovem a veracidade do episódio, Friné guarda um importante significado para a história da arte. Praxíteles, um dos mais famosos escultores da Grécia Antiga, teria supostamente usado seu corpo como modelo para a estátua Afrodite de Cnidos, uma representação nua da deusa do amor.

Ateneu de Náucratis, escritor, foi outro que eternizou seu nome em diversas de suas obras, contando diferentes anedotas sobre sua vida. Ela também aparece na ópera do compositor francês Camille Saint-Saëns (1893) e nos poemas de Olavo Bilac (1888), no Brasil.

Esses e outros fragmentos históricos revelam Friné uma figura encantadora que fazia parte de um grupo seleto de mulheres na Grécia, que despertavam a atenção não só pela beleza mas também pelo gosto erudito que tinham.

Mnesarete era seu verdadeiro nome. De origem humilde, há indícios de que ela teria nascido em Téspias e se mudado para Atenas em busca de melhores oportunidades, onde se envolveu no mundo aristocrata frequentando encontros literários e artísticos.

Nesse período, Friné carregava uma imagem muito distante do ofício feminino nas tradicionais famílias gregas. E, por essa intelectualidade, fazia o papel de amante e de amiga dos homens de elite, oferecendo prazeres além do sexual. Tal classe (de Friné e de outras mulheres com características semelhantes) ganhou o nome de heteras.

As heteras, cujo nome vem do grego hetairo, que significa “companheiro”, eram geralmente estrangeiras, vindas de fora de Atenas. Podiam circular livremente pelas ruas e não estavam necessariamente submetidas ao patriarcado do período. Muitas conheciam poesia, outras sabiam dançar e tocar instrumentos, mas, além de tudo, eram lembradas pelo charme e sedução.

Nessa época era normal o homem procurar relações extraconjugais como um complemento à sua vida erótica e emocional ou até mesmo como forma de preencher lacunas que, culturalmente, a esposa deixava. Os casamentos arranjados davam às mulheres o papel de gerar filhos legítimos à formação do Estado.

Isso quer dizer que as heteras dificilmente podiam se casar com cidadãos de Atenas e, sobretudo, dar à luz um filho legítimo. “Elas eram cortesãs que ofereciam envolvimento intelectual e afetivo e podiam, muitas vezes, controlar suas próprias vidas e viver com seus próprios recursos. Em troca de envolvimento, recebiam presentes e não pagamento em espécie. As heteras eram as mulheres livres da época”, define Pedro Paulo Funari, professor do Departamento de História da Unicamp.

Mais descoladas que as esposas, tinham uma personalidade que fazia com que os homens enxergassem nelas uma fonte de inspiração, enquanto suas mulheres ficavam reclusas e restritas aos deveres domésticos.

O autor do livro Mundo Greco-Romano: Arte, Mitologia e Sociedade (2005), Moacyr Flores, refere-se a um guia de valores das heteras: “Antes de tudo deves ignorar o sentido da palavra fidelidade e conhecer a arte de fingir e de mentir. Quanto à vergonha, ignore-a! E, se teu amante perder a paciência, finge arrancares teus cabelos e compra reconciliação com presentes”.

Ele ainda as descreve como mulheres vaidosas que não necessariamente eram fiéis aos amantes. A figura da hetera está associada principalmente aos simpósios gregos – reuniões masculinas que aconteciam dentro dos casarões. O encontro, realizado após a refeição, acontecia em uma sala exclusiva e era um momento de conversa e descontração entre os patriarcas.

Há estudos que indicam que as heteras eram convidadas para essas cerimônias e, na ocasião, ficavam encarregadas de servir o banquete e de proporcionar entretenimento aos homens como forma de estreitar os vínculos.

“A música, a dança e o vinho eram os principais ingredientes. Alguns homens sob influência da bebida poderiam lutar por uma cortesã. Muitos testemunhos iconográficos mostram cenas de banquete, de conversa amorosa e de momentos de sedução em que estas mulheres aparecem ao lado dos homens, vestidas ou nuas”, descreve Ana Lúcia Curado, professora e investigadora portuguesa da Universidade do Minho.

Há muita iconografia desse período, especialmente, em vasos de cerâmica com pinturas de mulheres segurando taças, vasilhas e flautas, algumas com conotações eróticas. Por muito tempo, acreditou-se que essas imagens retratavam o que de fato acontecia nos simpósios masculinos.

No entanto, muitos pesquisadores já entendem que essa simbologia eram fantasias sexuais com mulheres irreais, ou seja, não passava de uma representação sensual de como os homens enxergavam suas “companheiras”.

Além disso, muitos desses vasos foram encontrados fora da Grécia, sugerindo a ideia de que essas criações foram feitas apenas para alimentar um possível mercado de objetos.

As heteras não eram prostitutas, como a História insiste em designá-las. Elas eram mulheres de amores livres, o que significa que elas não pertenciam a uma família  tradicional grega.

“Na retórica da elite, elas se confundem com prostitutas. Essa designação aparece nos escritos nostálgicos sobre Atenas Clássica de 700 anos depois, no século 2 d.C., e também em registros do século 19, por analogia às famosas cortesãs do demi-monde (eufemismo das cortesãs parisienses da época). O termo provavelmente se origina, de fato, como uma referência às mulheres ricas que gostam de festas, que eram conhecidas pelo luxo e que geralmente tinham mães estrangeiras”, esclarece Rebecca Futo Kennedy,
professora de estudos clássicos da Universidade de Denison, nos Estados Unidos.

Em Atenas, as prostitutas eram as pórnai. Estas, sim, viviam em supostos bordéis (ou, às vezes, na condição de escravas). Como era uma profissão legalizada, um grande número de mulheres trabalhava na região cobrando honorários modestos de uma clientela bastante variada e nem sempre afetuosa.

Em contrapartida, as heteras estavam envolvidas emocionalmente com homens ricos e influentes e mantinham relações mais estáveis do que as pórnai. “Como forma de cativar uma clientela mais seletiva e elitista, a hetera desenvolvia uma personalidade mais atraente e erudita. Ler, escrever e ter outras qualidades podiam constituir ferramentas úteis e fundamentais ao sucesso do seu negócio”, afirma Ana Lúcia Curado. Além das competências artísticas, essa educação era importante para reafirmar seu humor e sua habilidade de estabelecer o diálogo com os cidadãos.

As mais famosas e conhecidas cortesãs estiveram em Atenas. Muitas vezes, estavam ligadas ao nome dos seus amantes, alguns deles com grande influência na vida pública da cidade.

A lista inclui políticos, artistas, poetas e filósofos. Além de Friné, outras mulheres ganharam notoriedade ao longo dos séculos. Aspásia de Mileto, de acordo com o filósofo e escritor Plutarco, teria sido um dos nomes que mais contribuíram para a notoriedade das cortesãs em Atenas.

O autor conta que Aspásia recebia intelectuais em sua casa ao mesmo tempo em que formava jovens cortesãs. Ela era amante de Péricles, um dos estadistas mais importantes, ligado ao aperfeiçoamento das instituições e da democracia e que governou Atenas entre 444 a.C. e 429 a.C.

“Era sua segunda esposa e promovia reuniões filosóficas, sendo considerada uma mentora de Sócrates, com grande conhecimento filosófico. Aspásia também foi alvo de críticas por influenciar na vida política de Péricles”, conta o docente da Unicamp Pedro Funari.

Plutarco, filósofo e autor da biografia de Péricles, descreve em sua obra que a destreza intelectual, o saber político, a arte de sedução e o prestígio tornaram Aspásia uma mulher requisitada e estimada pelos homens do seu tempo.

Porém, tanto ela quanto as outras heteras e pórnai representavam mulheres com quem os homens não se casariam, já que isso desrespeitaria as leis atenienses. Nos termos históricos, a pórne (“prostituta” no singular) quase sempre foi referida como algo pejorativo e vulgar, especialmente nos jambos, um estilo poético ligado à comédia.

Já a hetera, embora pertencendo a outra classe, também aparece muitas vezes com conotação de prostituta, o que dificultava a interpretação da personalidade de cada uma.

Para esse impasse, entretanto, a pesquisadora norte-americana Rebecca Kennedy explica que deve-se levar em conta que trabalhar com a imagem feminina na Grécia Antiga é estar ciente de que ela foi feita sob a ótica dos homens.

“Quando se pensa nas mulheres ao longo da História e nos dias de hoje, sabe-se que não é só porque um homem chama uma mulher de prostituta que significa que ela seja uma delas”, afirma.

Para a professora de estudos clássicos da Universidade de Denison, essas mulheres até poderiam ter trabalhado uma vez ou outra prostituindo-se, mas também há indícios de que elas tenham atuado na execução de bordados, no comércio e até como babás.

A Grécia Antiga era formada por várias comunidades independentes e a sua história é contada principalmente por meio de três grandes períodos: Arcaico, Clássico e Helenístico. Em cada um deles, existem fragmentos que revelam traços do cotidiano e das relações interpessoais dos cidadãos.

No entanto, são poucos os documentos históricos que esclarecem, de fato, o verdadeiro papel e estatuto da mulher na sociedade. Ainda que haja registros em textos de religião e de literatura (como nas obras da poetisa Safo), os relatos quase sempre partem de um ponto de vista masculino.

No caso das heteras, que eram mencionadas como “companheiras de afeto” ou prostitutas, poderiam carregar histórias e passados muito diferentes.

Uma das biografias mais marcantes do período e que melhor descreve a situação de uma mulher no contexto de Atenas é atribuída a Neera, responsável por colocar em xeque a posição sublime das heteras.

A sua história está presente no discurso de Demóstenes no século 4 a.C., que a eternizou como uma figura promíscua. De acordo com o orador, ela teria tentado passar sua filha como cidadã legítima ateniense.

Neera foi uma prostituta de bordel quando jovem, comprada mais tarde por dois homens. Na condição de escrava, porém, ela exercia o papel de “companheira” e prestava serviços exclusivos a ambos, características determinantes das heteras. Após o pagamento de sua liberdade, no entanto, ela acaba se casando com um ateniense, Estéfano, e, nesse momento, Neera descumpria duplamente a ética de Atenas: não era permitida a união entre um cidadão e uma estrangeira nem apresentar um filho que não nasceu de um casamento como legítimo.

O que se carrega desse relato, portanto, não é só a imagem negativa que a prostituta tinha naquele período, mas também demarca a fragilidade na fronteira entre as classes de mulheres da época, sobretudo entre as heteras e as pórnai.

Estudos recentes indicam que havia uma permeabilidade muito grande entre essas figuras femininas, mas a passagem de um estatuto para outro estava fora do alcance de qualquer uma.

O que provavelmente as colocava em outra categoria era a sorte de encontrar um homem para prestar serviços exclusivos. Compará-las era uma prática comum e, quando isso acontecia, as heteras eram ressaltadas pelo seu ativismo e pelo seu papel quase revolucionário na sociedade.

É evidente que a intelectualidade e a arte de sedução das heteras chamaram atenção ao longo da História, contudo, “deve-se tomar cuidado com essa imagem glamourizada. Ao dizer que eram mulheres livres, é preciso ter em mente que isso não significa que seguiam os mesmos valores que hoje entendemos como liberdade”, explica Enrique Carretero, mestrando em letras clássicas na USP, com foco na prostituição feminina grega.

Para o acadêmico, a hetera era definida como uma mulher que não precisava trabalhar em bordéis (como a pórne) nem era prometida aos cidadãos homens (como a esposa). Naquela época, o que parecia mais seguro à mulher grega, segundo ele, era levar o estatuto de esposa, visto que as demais viviam sob diversas restrições.

“Essa era a condição de menor vulnerabilidade na Grécia Antiga”, defende. Em comum entre elas está o fato de que a definição do feminino sempre foi feita por homens e de acordo com o que eles esperavam de cada uma delas ou de como as enxergavam naquele contexto.

Muitos dos fragmentos históricos, sejam iconográficos ou literários, estavam ainda associados a fantasias sexuais. E essa imprecisão torna, até hoje, enigmática a interpretação dos fatos, mas conserva importantes personalidades para história da humanidade.

Fonte: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/quem-foram-as-heteras.phtml