sábado, 16 de maio de 2009

Entrevista com a Grande Meretriz

Como se não bastasse a história ou mesmo uma análise textual da gibíblia [copyright dos ateus] mostrar que o Cristianismo é misógino, tem algo mais agressivo e ofensivo do que inventar uma personagem mulher como a Grande Meretriz do Apocalipse? Assim como para o Cristianismo é fundamental a figura do Adversário, é fundamental a figura da Grande Meretriz para justificar suas doutrinas quanto ao pecado, ao corpo, ao sexo, na figura de uma mulher que, na lógica do (es)clero(sado), é uma meretriz.
Todo esse medo de mulher, de sexo e das coisas carnais vem desde sua raiz Judaica que nunca aceitou a existencia de hierodulos ou mesmo de ritos sagrados que envolvessem sexo. Para fazer justiça a persognagem tão injustiçada, este pagão resolve marcar uma entrevista, o que me é concedido sem reservas.

Eu: Bom dia, ahnnn, como devo chamá-la?

GM: Chame-me do que quiser, gato.

Eu: Dona Meretriz, quem é a senhora afinal?

GM: Dona? Deixe de formalismo. Senhora? Eu não sou casada. Eu sou muitas mulheres e nenhuma. Eu sou uma personagem criada por interesses comerciais.

Eu: E qual seriam esses interesses comerciais? Por parte de quem?

GM: Obvio, gato. Interesse em aumentar os clientes, por parte da instituição que me criou, a Igreja.

Eu: Mas por que, para quê?

GM: Ah, querido, coisas de menino imaturo. Não gosta de meninas e odeia tudo que se refira a meninas. Eles acham que ao me criarem iriam deixar a humanidade com mais nojo do sexo, do corpo, do prazer.

Eu: Mas por que te criaram como sendo mulher?

GM: O que você acha, fofo? No ocidente cristão a palavra feminino vem de fe-minus, menos fé. A mulher sempre foi considerada mais fraca, mais suscetível às tentações do Diabo.

Eu: Mas e quanto à você? Você concorda com isso?

GM: Oh, gato, desde que me deem atenção, grana e fama, pouco me importa o que pensam de mim ou do meu serviço.

Eu: Não pensou em sair da atual empresa e procurar emprego em outra?

GM: Ah, sim...tem algumas empresas que me procuram com ofertas interessantes, mas no fim eu sou apenas usada para os interesses de outros meninos.

Eu: Você não gosta de ser usada?

GM: [olhando com sensualidade] Depende... tem algo em mente? Eu não sou ruim, apenas fui criada assim. [copyright Jessica Rabbit]

Eu: O que você gostaria de ser ou fazer? Meninas não te procuram?

GM: Ah, procuram e eu fico confusa pois vejo nelas o desejo de ser meninos ou se comportarem como meninos... algumas me desejam como meninos. Eu gosto de ser mulher e o que eu gosto de fazer... bem... [insinuando]

Eu: Então a Igreja não fala por você quando te usa ou oprime a sexualidade, a sensualidade, o prazer?

GM: Nein! Not! Niet! Non! Não! Eu apenas permito que eles tenham outra forma de prazer ao me usarem da forma que querem. Eles tem prazer ao privarem os outros do prazer.

Eu: Mas essa não é a única forma de prazer, dentro e fora da Igreja...

GM: Graças a sei-lá-quem que não! Mesmo na Igreja existe formas de prazer que não são autorizadas pela doutrina da Igreja. E eu fico muito feliz que mesmo entre os seguidores da Igreja existe uma flexibilidade espantosa. Fora da Igreja, então... huuummm... profanos... [lança um olhar sedutor]

Eu: Acha que isso algum dia pode mudar ou modificar essas pessoas ou mesmo a Igreja?

GM: Quem sabe? As pessoas são livres, certo? Não optar é uma opção. Meu papel é atiçar.

Eu: Mas e quanto a você, seus sonhos, seus projetos e seus objetivos?

GM: Mmmm... isso está começando a me excitar... gato, eu não pensei muito nisso. Eu fui criada para um propósito, muito embora não concorde com ele, vou continuar assim enquanto for divertido. Talvez quando eu pensar em ter sonhos, projetos e objetivos eu venha a incluir uma promoção ou uma redenção da minha personagem. Quem sabe até a inclusão da sensualidade e da sexualidade na Igreja.

Eu: Isso existe no Paganismo...

GM: Ah! Enfim! Chegamos a algum lugar! Sim, eu sou mulher, em toda a plenitude, com corpo, desejo, sensualidade e sexualidade femininas transbordando... [abre os botões do vestido]

Eu: Não acha que você deveria trabalhar para o Paganismo? [tiro as calças]

GM: Depende gato [olhando meu dote com gula] se for esse o pagamento, eu aceito.

Eu: Devo avisar que nem todo pagão superou os tabus, proibições e dogmas sociais ou cristãos. [aliso seu corpo e me posto]

GM: [gemendo] Ah, gato, eles que resolvam seus problemas. Agora chega de papo! Trabalhe!

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Quem tem raça é cachorro

No domingo passado, citei aqui a frase de meu amigo e conterrâneo Zecamunista que hoje uso como título. Ele de fato diz isso, como eu também digo, nas conversas intermináveis havidas com amigos desde a juventude, quando nos ocorre a felicidade de revê-los. Coroas meio ou bastante chatos, compreendemos quando os mais novos nos cumprimentam com a possível afabilidade, depois mantendo prudente distância. Portanto, a maior parte de nossas conversas não passa mesmo do papo de dois velhotes irresignados e rezinguentos, que não sai, e geralmente não deve ou não precisa sair dali, pois costuma ser algo sem o qual ou com o qual tudo permanece tal e qual, como sentenciava minha avó Pequena Osório, a respeito de meus livros.
Mas, no caso, quando estamos ameaçados de ver consagrada nas leis do País a divisão do povo brasileiro entre raças, acho que devemos fazer o nosso papo transcender os limites do Largo da Quitanda, a ágora da Denodada Vila de Itaparica, onde hoje vultos menores, como Zeca e eu, ocupam com bem pouco brilho o lugar de tribunos da plebe legendários, como Piroca (Piroca é um apelido para Pedro, no Recôncavo Baiano; não tem nada demais, é um fenômeno que atinge o nome “Pedro” de forma curiosa; quer ver, pergunte a um amigo americano o que quer dizer “peter”, com P minúsculo) e Zé de Honorina, este negro pouco misturado com branco, aquele mulato.
Zé, aliás, um dos homens mais inteligentes, argutos e eloquentes que já conheci – e cito o que se segue como um dado interessante – não tinha muita noção de que era negro e uma vez me pediu explicações sobre “negritude” e “irmandade” entre negros, conceitos que lhe eram pelo menos parcialmente estranhos. Mas vou deixar de nariz de cera e de vaselina, porque creio que o assunto merece ser tratado na grossura mesmo, como vem sendo por muita gente, em todas as faixas de opinião.
Quem tem raça é cachorro (em inglês, breed, não race), gente não tem raça. Não vou repetir, porque qualquer um com acesso ao Google pode se encher de dados sobre isto, os argumentos científicos que desmoralizam a raça como um conceito antropologicamente irrelevante e equivocado, sem apoio algum entre os que estudam a genética humana. Entretanto, o atraso da espécie (ou raça) humana leva a que continuemos a lhe emprestar importância desmedida e irracional, odiando por causa dele, matando por causa dele e até ameaçando o planeta por causa dele.
De qualquer forma, incorporando o conceito de raça a seu sistema jurídico, o Brasil estará dando um ridículo (mas de consequências possivelmente temíveis, ou no mínimo indesejadas) passo atrás, mais ou menos como se o Ministério da Saúde consagrasse a geração espontânea de micro-organismos como fonte de infecções. Mais ridículo e até grotesco é que os defensores do reconhecimento das “raças” que compõem o povo brasileiro façam isso depender de uma declaração ou opção da pessoa racialmente classificada, até mesmo em circunstâncias nas quais essa opção pode não ser honesta, mas apenas de conveniência, como nos casos, já acontecidos, de gente que se considerava branca declarar-se negra para obter a vaga destinada a um “negro”.
Ao se verem num mato sem cachorro para definir a raça de alguém, exceto copiando manuais nazistas e tornando Gobineau e Gumplovicz autores básicos para a formação de nossos cientistas sociais, médicos, dentistas, músicos, atletas e profissionais de outras áreas onde as diferenças de aptidão ou fisiologia são “visíveis”, assim como era visível a superioridade dos atletas de Hitler que o negro Jesse Owen botou num chinelo, os defensores de cotas raciais se valeram desse recurso atrasado, burro, grotesco e patético em sua hipocrisia básica.
Não há como defender critério tão estapafúrdio e destituído de qualquer fundamento. Outra coisa chata, enquanto vemos o Brasil querer botar na letra da lei, o que outros países onde houve e há até mesmo apartheid, como nos Estados Unidos, não só de ontem como ainda de hoje, apesar do presidente Obama, fazem força para retirar, é a persistência do que eu poderia chamar de síndrome de Mama África, contra a qual quem eu mais vejo protestar são escritores amigos meus de países africanos, que não aguentam mais ser embolados num mesmo pacote como “africanos”, transformando em folclore disneyano a enorme complexidade cultural de um continente como a África.
Burrice falar em “cultura africana”, “comida africana” e similares, em vez de pluralizar essas entidades, porque são plurais. Além disso, nada mais racista e simplório do que achar que os negros são “irmãos”. Os negros são tão irmãos entre si quanto os europeus entre si, ou seja, irmãos em Cristo, tudo bem. Mas o racismo contra si mesmos de muitos que se acham negros insiste em que há essa irmandade. Documentos escravagistas do Segundo Império, no Brasil, recomendavam que se mantivessem escravos de nacionalidades diversas na mesma senzala, porque muitos se odiavam ou desprezavam entre si mais do que ao opressor.
Quem já viu um alemão racista olhar um polonês (eslavo, que curiosamente tem a mesma origem que “escravo”) sabe o que estou dizendo. Desumaniza-se o negro, tornando-o imune à baixeza de seus companheiros de humanidade (mas não de raça). Isto, claro, é outra asnice desmentida pelos fatos ontem e hoje.
Ontem, quando mercadores negros de escravos vendiam outros negros por eles mesmos escravizados; hoje, quando negros continuam a escravizar negros e a guerrear entre si, exatamente como os homens de outras raças, o que lá seja isso, desgraça de atraso de vida na cabeça das pessoas, triste exemplo de um país misturado pela graça de Deus querer jogar no lixo esse dom inestimável e irreproduzível, “modernizando-se” pela condenação por vontade própria ao que a História não o condenou.
Autor: João Ubaldo Ribeiro coletado em Alma Carioca [link morto]

Muros e muralhas

Existem duas muralhas que são nos dias de hoje consideradas marcos culturais e patrimoniais da humanidade que são o Muro das Lamentações e a Muralha da China, cada qual tem uma mensagem e uma importância para o povo local e para o mundo. Muros e muralhas são construidas por um conforto e conveniência urbana, mas possui um simbolismo intenso como no mito de Romulo e Remo quando este, ao trespassar um muro, foi morto por Romulo. Mas nem sempre um muro ou muralha tem um simbolismo tão agradável ou mitológico. Muitos são os muros que envergonham a humanidade como o Muro da fronterira dos EUA com o Mexico, o Muro de Berlim e o Muro de Belem. Estes também tem um significado, mas sombrio e desagradável. São muros construidos para separar, excluir, dividir, oprimir. São muros da intolerância, do preconceito e do ódio. O muro de Berlim felizmente caiu, mas seu simbolismo permanecerá na memória da humanidade. O muro entre EUA e México só terminará quando (e se) os EUA começarem a ter políticas mais inclusivas e socias frente às América Latina. Isso é algo que eu falava para meu finado pai quando ele em seu pensamento provinciano achava ruim da entrada dos nordestinos, se esquecendo de suas raízes serem igualmente provindas de imigrantes. Isso é o que defendo até mesmo diante de neopagãos nacionalistas: todos nós somos filhos de imigrantes. Se os países "estrangeiros" não querem que venham imigrantes, que adotem políticas sociais para que estes encontrem em sua terra natal condições para saúde, habitação e emprego. O muro de Belém é igual ao muro de Berlim, com um tempero religioso e pode ser que caia algum dia, mas para mim foi hilário ler o Papo Furado declamar que "muros não duram para sempre" o que me faz lembrar de um muro que dificilmente cairá: o muro do Vaticano. Com isso eu quero dizer que existe um muro ou muralha que é mais resistente à mudanças ou questionamentos que são as muralhas ideológicas ou doutrinárias, sejam estas políticas ou religiosas. Ainda hoje se pode encontrar pessoas que defendem o mesmo messianismo marxista, bem como se pode encontrar pessoas que se orgulham de defender a mesma doutrina católica cheia de ignorância, intolerância e preconceito. Quanto a isso, eu dou eco ao pedido da Opera Rock do Pink Floid: Derrubem as Paredes.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Sobre a religião da Ucrânia

O fenómeno é rico em ramificações, práticas e ideias. Como todos os outros povos indo-europeus antigos, os antigos Eslavos tinham vários Deuses - e também entre eles se observou uma inequívoca resistência ao Cristianismo. Cercado de monoteístas por todos os lados, o rei dos Rus de Kiev, Volodymyr I, que tinha erigido estátuas de culto aos Deuses, considerando Perun acima de todos os outros, acabou por ceder e, mercê de alianças políticas, deixou-se baptizar no final do século X. Práticas pagãs subsistiram todavia no seio do Povo, como de resto sucedeu um pouco por toda a Europa.
No século XX a consciência pagã retornou, revestida de um posicionamento nacionalista e ecologista, voltada para a vida familiar e comunitária, para o culto da honra e da responsabilidade para com os Ancestrais, e essencialmente assente numa combinação de estudo do folclore com o estudo científico-arqueológico e as ideias de autores pagãos contemporâneos.
Outro culto neopagão é o RUNVira, ou Fé Nacional Nativa Ucraniana, fundada por Lev Sylenko após a II Guerra Mundial, mas na diáspora ucraniana.
Sylenko afirmava que o Cristianismo era uma religião alienígena e hostil aos Ucranianos, que instalou na Ucrânia uma mentalidade de escravo e dizia que o período de subjugação da Ucrânia a outras nações foi o da "traição a Dazhboh". O símbolo da RUNVira é o tridente. Os seus princípios fundamentais estão registados no livro "Maha-Vira", da autoria de Sylenko. O seu centro de culto é a Catedral da Santa Mãe, localizada em Nova Iorque. Na Ucrânia há mais de trinta comunidades desta religião, coordenadas por B. Ostrovskyi, o pastor da comunidade "Dazhboh" de Kiev.
Em 1994 surgiu outro movimento pagão ucraniano, a Sobor Ridnoyi Viry, ou Catedral da Crença Nativa. O seus praticantes acreditam que Shayan e Sylenko muito fizeram pelo paganismo nacional, mas falharam em revivê-lo na sua totalidade. Este grupo tem o objectivo de unificar todas as doutrinas nativas. Centra-se na região de Podillia, por ter sido aí que se preservaram mais monumentos pagãos, pois que teriam aí existido comunidades pagãs até ao início do século XVII.
Há outros movimentos, entre os quais o Fé Nativa Ortodoxa (Ridna Pravoslavna Vira, ou RPV), criado a partir de um grupo de praticantes de artes marciais e mágicas dos Cossacos e que põe a tónica do seu culto, não no monoteísmo ou no henoteísmo, mas no verdadeiro politeísmo, embora afirme que há um Deus originador de todos os outros Deuses, Rod (que, além de teónimo, é também um nome ucraniano para dizer "ancestralidade").
Por motivos religiosos ou, mais prosaicamente, meramente nacionais, foi em 2001 colocada na Maidan Nezalezhnosti (Praça da Independência), praça sita no centro de Kiev, uma coluna encimada por uma estátua de Berehynia, espécie de Deusa Mãe, de índole aquática (espécie de Ninfa ou Náiade, a que os Eslavos chamam Rusalka), considerada protectora da urbe e transformada por nacionalistas e por feministas num novo símbolo nacional.
"Actualmente a humanidade começa a perceber a importância da renovação dos seus valores espirituais, que têm estado perdidos por milénios. As razões destas perdas estão a tornar-se óbvias. Mistura de culturas étnicas leva inevitavelmente à demolição da etnoesfera que é uma parte da biosfera da Terra. Não deve esquecer-se que uma pessoa e uma nação são uma parte da natureza. Tal como a natureza existe devido à variedade das espécies, assim a sociedade vive e desenvolve-se na sua variedade de expressões etnoculturais".
O texto acima reproduzido em parte é da autoria de um dos principais senão o principal ideólogo do actual paganismo ucraniano, que é aliás uma ideóloga: Halyna Lozko, filóloga, folclorista, autora de vários estudos académicos, líder da Pravoslavia e da Associação da Fé Nativa da Ucrânia (Obiednannia Ridnoviriv Ukraïny, ou ORU).
Fonte: Gladius

Sobre a pobreza sexual

Uma sociedade baseada na concentração de poder e no intercâmbio econômico empobrece cada área da vida, inclusive as mais pessoais. Existe mais ou menos acordo quando se fala da liberação da mulher, da liberação dos homossexuais e inclusive a liberação sexual dentro do âmbito anarquista. Além disso, é fácil encontrar análises sobre a dominação masculina, sobre o patriarcado e o heterossexismo, mas a realidade do empobrecimento sexual parece que foi amplamente ignorada, a respeito da expressão sexual, limitaram às percepções como monogamia, poligamia, poliamor e outros mecanismos similares das relações amorosas.
Segundo creio, esta limitação é em si mesma um reflexo de nosso empobrecimento sexual; limita-nos a falar dos mecanismos das relações de maneira que possamos evitar os questionamentos sobre a qualidade dessas mesmas relações. Existem vários fatores que influem no empobrecimento sexual que experimentamos nesta sociedade. Se examinarmos suas origens, as instituições do matrimônio, a família e a imposição de algumas estruturas sociais patriarcais são importantes, e o papel que jogou não pode ser ignorado. Mas durante as últimas décadas, pelo menos aqui no chamado Ocidente, a força destas instituições diminuiu consideravelmente. No entanto o empobrecimento sexual não o fez. Talvez tudo ao contrário. Voltou-se mais intenso e o sentimos de uma forma mais desesperada.
A coisificação da sexualidade conduziu um tipo de "liberação" dentro do esquema das relações de mercado. Não somente porque é muito freqüente ver relações sexuais entre pessoas solteiras no cinema, mais porque cada vez mais as relações de homossexualidade, bissexualidade e inclusive algumas outras raras estão ganhando certo nível de aceitação entre a população.
De fato, estas práticas são transformadas em identidades nas quais alguns se ajustam de forma mais ou menos estrita. Desta maneira, se converte em muito mais que uma simples prática de um determinado ato sexual. Assim "estilos de vida" completos estão associados a eles, implicando conformismo, lugares específicos para ir, produtos específicos para se comprar.
Neste contexto, o ato sexual tende a tomar-se na mesma medida; uma forma quantificável em consonância com esta coisificação. O jogo do ato sexual se reduz não somente ao prazer físico, mas mais especificamente ao orgasmo, e o discurso sexual se centra sobre os mecanismos mais efetivos para ganhar este orgasmo.
Um orgasmo eufórico é algo maravilhoso. Mas centrar o encontro sexual em conseguir um orgasmo, não nos permite sentir o jogo de nos perder no outro, aqui e agora. Mas que ser uma imersão de um no outro, o sexo centrado em alcançar o orgasmo se converte em uma tarefa que aspira a um objetivo futuro, a manipulação de certos organismos para ganhar um fim.
A adolescência é a época em que os impulsos sexuais são mais fortes devido às mudanças que se produzem no corpo. Em uma sociedade sã, os adolescentes deveriam ter a oportunidade de explorar seus desejos sem medo ou censura, deveriam fazê-lo de uma forma aberta e aconselhada, se quiserem, pelos adultos. Enquanto que os desejos intensos dos adolescentes são claramente reconhecidos (quantas vezes filmes de humor ou programas de TV se baseiam na intensidade destes desejos e na impossibilidade de explorar-los de uma forma livre e aberta) nesta sociedade, não se criam métodos para que esses desejos possam explorar-se livremente, esta sociedade os censura, fazendo uma chamada à abstinência, deixando os adolescentes ignorando seus desejos, limitando-os a masturbação ou aceitando frequentemente ter sexo rápido em situações de muita pressão e ambientes nada confortáveis para evitar assim que lhes peguem. É difícil não estranhar que algum tipo de sexualidade sã houve se desenvolvido sob estas condições.
Porque o único tipo de "liberação" sexual de utilidade para o Capital é aquela que permite preservar a pobreza sexual, e utilizará todo tipo de ferramentas para a manutenção da repressão sexual sob o engano de uma liberação fictícia. Desde que as velhas justificações religiosas para a repressão sexual deixaram de ser válidas para amplas porções da população, um medo físico pelo sexo atua agora como catalisador na criação de um novo meio para a repressão.
Este medo é promovido principalmente por duas frentes. Em primeiro lugar é o meio do depredador sexual. Ataque sexual a jovens, olhar violador e a violação são fatos muito reais. Mas os meios de comunicação exageram a realidade com explicações sensacionalistas e especulações. O manejo destes assuntos por parte das autoridades e os meios de comunicação não têm como objetivo encarregar-se destes problemas, mas seguir promovendo o medo. Na realidade, os casos de violência sexual contra mulheres e crianças são a maioria das vezes, mais freqüentes que os atos de violência sexual.
Em meio a tal ambiente de deformação sexual, outros fatos desenvolvem o que parece ser inevitável. Uma tendência a agarrar-nos desesperadamente àqueles com quem temos conectado, ainda que seja uma conexão empobrecida. O medo de estar sozinha, sem amor, nos conduz a nos unir com amantes quando há muito já deixamos de amá-los.
Em qualquer caso, vivemos em uma sociedade que empobrece todo tipo de contato, os sexuais também. A liberação sexual - no sentido real, que é nossa liberação para explorar a plenitude, do abandono erótico carnal no outro - nunca o poderá realizar-se por completo dentro desta sociedade, porque esta sociedade necessita do empobrecimento, dos encontros sexuais coisificados, tanto como necessita que todas as interações sejam coisificadas, medidas, calculadas. Assim que os encontros sexuais livres, como cada encontro livre, só pode existir contra esta sociedade. Mas isto não é um motivo de desesperação, mas sim deve conduzir-nos a uma exploração subversiva. O reino do amor é muito amplo, e existem infinitos caminhos a explorar.
Na expressão sexual livre têm cabimento tudo isto e muito mais. De fato, a riqueza sexual não tem nada haver com ambos os mecanismos (tanto as relações como os orgasmos) ou com a quantidade. E sim consiste no reconhecimento de que a satisfação sexual não é exclusivamente uma questão de prazer como tal, senão concretamente de prazer que brota do encontro real e o reconhecimento, a união dos desejos e dos corpos, e a harmonia, o prazer e o êxtase que se obtém dele.
Autor: Willfull

terça-feira, 12 de maio de 2009

Se o Papa fosse mulher


SE O PAPA FOSSE MULHER,
SE O PAPA FOSSE MULHER,
SE O PAPA FOSSE MULHER,
O ABORTO SERIA LEGAL
O ABORTO SERIA SEGURO

Sim, depois de ler o excelente artigo "Se Obama fosse Papa" que eu postei aqui, eu fico imaginando o que aconteceria se a Igreja começasse a admitir mulheres no sacerdócio e se eventualmente uma delas se tornasse a Sumo Pontífice da Igreja.
Existe uma história que não é confirmada de que houve anteriormente uma Papisa, mas ela conseguiu isso por outros meios que não os mais recomendados. Para ser bom, gostoso e para valer, teria que ser com todos os protocolos que cercam a posse de um alto cargo.
Em primeiro lugar, ela iria mudar o nome do cargo e não usaria "Papisa", mas sim "Mama". Imaginem que enorme diferença: "A Mama Maria I convoca novo Concílio para a Igreja".
O resultado desse concílio seria uma adequação tardia da Igreja ao nosso tempo, mas enfim executada, com a revisão de diversos dos dogmas e doutrinas da Igreja, algo que foi feito anteriormente pela Igreja e que seria admitido pela Mama em discurso público.
A Igreja se tornaria menos pesada e rigorosa. Todos os arquivos, inclusive os mais secretos e ocultos estariam à disposição do público, a Igreja colocaria enfim sua história a limpo.
A Mama, como Chefe de Estado e de Governo do Vaticano, se vestiria como as outras mulheres que ocupam ou estão associadas à altos cargos, adotando roupas mais contemporâneas conforme a tendência da Alta Costura, dando fim ao visual cafona e brega das roupas eclesiásticas. As roupas incluiriam babados, paetês e...decotes! Sim, haveria espaço para enfim o clericato poder exercer sua sensualidade e sexualidade de forma normal, natural e saudável.
Outra importante resolução seria o fim da exclusividade da Igreja nos assuntos da espiritualidade humana, a Igreja reconheceria as demais religiões como caminhos espirituais igualmente válidos e dignos de respeito. Neste mesmo ritmo, seria revogada toda e qualquer intolerância contra a diversidade sexual, a Igreja passaria a incluir e aceitar todas as opções de gênero e manifestação de preferência sexual, coibindo e proibindo qualquer sermão ou homilia que censurasse o livre arbitrio das pessoas.
A Igreja passaria a observar e defender os Direitos Humanos, tanto internamente quanto externamente, agindo em apoio às Nações Unidas para implementar em todos os países a observância da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Deixaria para o poder secular e laico as questões legais e constitucionais de cada sociedade, cuidando unica e exclusivamente do apoio e da orientação espiritual de seus membros.
A Igreja poderia até mesmo decidir que o Espírito Santo é Shekinah, a tão omitida e oculta Deusa consorte de Deus, incentivando e construindo o espaço para o sagrado feminino, pondo fim a séculos de repressão sexual, misoginia, frustração e violência sexual. Com isso, seriam repensados os tabus do matrimônio, da fidelidade, da monogamia, do adultério, de concepções preconcebidas e preconceituosas sobre gênero, sexualidade, família e relacionamentos.
Quando e se isso acontecer, até eu teria vontade de voltar a ser Cristão.

sábado, 9 de maio de 2009

Di Indigetes e Di Novensides

Se distingue claramente no ritual romano duas classes de Deuses:
INGIGETES: Trinta desses Deuses eram venerados em festivais especiais. Se trata de Deuses nacionais protetores do Estado. Os primeiros sacerdotes adquiriram esse nome, assim como as festividades fixas do calendário indicavam seus nomes e natureza.
NOVENSIDES OU NOVENSILES: O culto dessas divindades se introduziu no período histórico.
As primeiras divindades romanas incluíam numerosos Deuses, onde cada um protegia um tipo de atividade humana. Se invocava essa série de Deuses quando se tratava de relacionar uma atividade muito específica. No caso da colheita, um velho ritual acompanhava o ato de semear ou arar a terra. Em cada fase da operação (semear-colher) se invocada uma divindade diferente, cujo nome derivava regularmente do verbo correspondente ao ato que se realizava. Nesse caso se tratava de Deuses secundários ou subalternos a quem se invocava junto com as divindades maiores ou superiores.
O primitivo povo romano, como muitos outros, um povo de agricultores durante sua etapa lendária, também eram grandes guerreiros. Aqui há uma estreita relação entre os Deuses e as necessidades práticas da vida cotidiana.
Para os romanos, o mais sagrado era a casa e o fogo do lar. Cada casa tinha seus Deuses. Se realizava o culto aos Deuses protetores do campo e do lar, conhecidos como Lares; aos espíritos dos parentes mortos, denominados de Manes; aos Diparentes (alma dos antepassados); aos Penates (Deuses da família, protetores das provisões) e aos protetores da faculdade procriadora do homem, chamados de Gênios.
A expansão romana teve como conseqüência a aceitação dos Deuses nativos de seus vizinhos. Ao que parece, os romanos não tiveram nenhum problema para conduzir os Deuses recém assimilados para seus próprios templos. Mesmo quando a população e as cidades cresceram, aos estrangeiros ou conquistados, sempre foi permitido o culto de seus próprios Deuses.
Os romanos aceitaram com boas graças a incorporação de novos Deuses procedentes de outras culturas e assim se refletia no calendário religioso romano. E assim foi feito, quando os povos conquistados também assimilaram os Deuses romanos. Houve, portanto, uma mescla entre conquistadores e conquistados.
Nos encontramos no princípio da decadência da religião romana a partir de uma translação das qualidades antropomórficas dos Deuses gregos à religião romana e, sobretudo, à influência e predomínio da filosofia grega entre os romanos cultos. Essa circunstância teve uma drástica conseqüência: o desinteresse pelos velhos ritos e tradições. De alguma forma, a decadência de uma religião vem a fortalecer outras. Sendo assim, no século I AC os ofícios sacerdotais antigos praticamente desapareceram. Desinteressando-se cada vez mais pelo antigo, os patrícios (topo da pirâmide social, descendentes dos primeiros romanos) deixaram de crer nos ritos. Só houve uma continuidade por interesse político, entretanto a maioria da população se inclinou por abraçar ritos procedentes do estrangeiro. Só a elite sacerdotal continuou controlando os cargos do pontífice e de "augur", cargos sem dúvida, tipicamente político e muito cobiçados.
Texto pesquisado e desenvolvido por Rosane Volpato
Nota da casa: A decadência de Roma se deu mais por círcunstâncias e características do Império Romano do que pela entrada de outros cultos e povos.