quinta-feira, 11 de março de 2021

Ensaio de Ética

Basta o interessado digitar no Oráculo Virtual [Google] o termo “rede wiccana” para aparecer centenas de resultados. Como bom estudioso e conhecedor dessa religião, eu vou abordar o assunto de forma mais panorâmica.

A citação mais apresentada é: "An Ye Harm None, Do What Ye Will".

Eu escrevi sobre como Doreen Valiente teve o trabalho de editar os sinais da influência de Aleister Crowley no Book of Shadows, eu até traduzi um texto de Roger Dearnaley que abordava o assunto.

Não há como não notar a semelhança do Al Vel legis de Aleister Crowley:

“Do what thou wilt shall be the whole of the Law.” [Al Vel legis, III, 60].

Então, quando eu estudei o Tio Crowley, eu encontrei e fiquei muito interessado nessa linha do Al Vel Legis:

“The word of Sin is Restriction. O man! refuse not thy wife, if she will! O lover, if thou wilt, depart! There is no bond that can unite the divided but love: all else is a curse. Accurséd! Accurséd be it to the aeons! Hell”. [Al Vel Legis, I, 41].

Em suas obras, ao comentar a Lei de Thelema, ele endereça esclarecimentos sobre o mistério do pecado e sobre a concepção da “palavra de pecado é restrição”.

Eu escrevi “um estranho chamado pecado” e devo ter abordado como os povos e religiões antigas viam o “pecado”. Eu escrevi sobre valores que nos foram legados pelos pensadores antigos, como a chamada “regra de ouro” das religiões: “faça aos outros o que gostarias fosse feito a ti”. Infelizmente eu não encontrei se eu escrevi algo sobre a ética da moral contida no “mandamento” da rede wiccana sobre “harm none”. Afinal, um médico, para tratar de um traumatismo, precisa fazer um procedimento que irá causar “dano” para que o paciente possa ser curado.

Eu tive aulas de cabala e lembro-me do rabino falar algo sobre restrição e eu cito um texto que eu encontrei explicando esse conceito:

“Restrição, ou esforço pessoal ou resistência, é o que gera luz duradoura em nossa vida, assim como na lâmpada elétrica, é a “resistência” ou filamento que gera a luz, a nossa restrição nos faz gerar a luz verdadeira. Uma lâmpada é composta por polo negativo, polo positivo e filamento que é a resistência entre esses polos, se caso o filamento arrebentar por algum motivo o que acontece? Um curto circuito, e um posterior apagão, a lâmpada queima, o mesmo ocorre conosco, uma luz sem restrição, gera uma faísca de luz e um vazio subsequente. Sem resistência ou filamento ou restrição a luz verdadeira não pode existir”. [http://universo72.blogspot.com/2011/10/o-que-e-restricao.html]

Eu vou indicar ao eventual leitor que assista o episódio 26 do anime Neon Genesis Evangelion. Ao contrário do que se diz, anime não é coisa de criança, é possível aprender muito e coletar muita filosofia. O anime tem referências budistas e cabalísticas. Eu vou citar a parte importante:

Shinji: O quê? O mundo sem nada. O mundo sem ninguém.

Shinji: O mundo da liberdade.

Shinji: Liberdade?

Shinji: O mundo da liberdade que nunca seria restringido por ninguém.

Shinji: Isso é liberdade?

Shinji: Sim. O mundo da liberdade.

Rei: Como resultado, não há nada.

Shinji: A menos que eu pense.

Misato: Sim, a menos que você pense.

Shinji: Que diabos! Não sei o que devo fazer.

Rei: Você está inquieto.

Asuka: Você não tem sua própria imagem.

Shinji: Muito vago.

Misato: Tudo é vago. Isso é liberdade.

Ryouji: O mundo em que você pode fazer o que quiser.

Misato: Ainda assim, você está inquieto.

Fuyutsuki: Você não sabe o que deve fazer.

Shinji: O que devo fazer?

Gendou: Eu te dou uma [restrição].

Pelos meus estudos, práticas e experiências próprias, eu cheguei na conclusão que está contida em uma frase da música do Legião Urbana: “Disciplina é Liberdade”. Eu creio que não é complicado entender isso, você tem que optar por vontade própria se vigiar, ter autodisciplina. Eu falhei nessa lição que eu aprendi e eu estou pagando caro por isso. Quando você não conduz a sua vida, você vai errar e o mais provável, dependendo do seu erro, é que a sua vida acaba sendo conduzida por outra pessoa.

Entretanto o “pecado” é um artigo, um produto realmente notável, tanto para a Igreja, quanto para o Satanismo LaVeyano [ainda que se diga não-teísta]. Eu li e estudei as obras de Anton Szandor LaVey e cheguei na conclusão que seu arcabouço pseudo-filosófico é repleto de plágios e é muito imaturo.

Nas “Nove Declarações Satânicas” está bem na primeira declaração:

“Satã representa indulgência ao invés de abstinência”.

Um pálido reflexo do Hedonismo e do Epicurismo, mas até aí, toda religião é fundada em imitações, assimilações, plágios, e piedosas fraudes. Indulgência é apenas outra face da moeda, do outro lado está a abstinência. Inúmeras religiões [inclusive as da Nova Era] apregoam a abstinência como método para a transcendência. A indulgência foi explorada pela própria Igreja com o comércio [venda] de indulgências, o que anula a bravata do Satanismo LaVeyano.

Qual a opção, se considerarmos a possibilidade que não existe “livre-arbítrio” [eu citei um texto sobre isso]? Como o pagão moderno pode encarar qual sua posição e papel, se tudo que existe é Vontade dos Deuses? Como o pagão moderno pode encarar qual a política dos Deuses, quando nós interpretamos algo como benéfico ou maléfico conforme nossa dúbia moral? Afinal, nós somos filhos e filhas dos Deuses ou somos meros peões? O que eu posso responder é que nós encarnamos nesse mundo, nos foi dado vida, exatamente para descobrir isso e resgatar nosso verdadeiro propósito. Essa foi a minha escolha: a de acreditar e confiar nos Deuses e nos meus Ancestrais. Eu espero estar fazendo as melhores escolhas para chegar no meu objetivo.

Assim seja, assim é, assim será.

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