domingo, 14 de março de 2021

O fosso e a fronteira

"Chegado o dia da fundação, oferece primeiramente um sacrifício. Seus companheiros enfileiram-se ao seu redor, acendem um fogo de ramos, e cada um deles pula através das chamas. A explicação desse rito é que, para o ato que se vai cumprir, é necessário que o povo esteja puro: ora, os antigos julgavam purificar-se de toda mancha física ou moral pulando através da chama sagrada.
Depois que essa cerimônia preliminar preparou o povo para o grande ato da fundação, Rômulo cava um pequeno fosso de forma circular, onde lança um torrão, por ele trazido da cidade de Alba. Depois, cada um de seus companheiros, um por um, lança no mesmo lugar um pouco de terra, trazida de seu país de origem". - Fustel de Coulanges - A Cidade Antiga.

Por que, perguntaria o eventual e dileto leitor, este escritor pagão que vos fala cita uma postagem feita aqui em 28/11/2009? Para apontar para uma evidente semelhança com a prática de se lançar o círculo sagrado? Ou para explorar o motivo pelo qual os Romanos celebravam o Deus das Fronteiras, Terminus?
Ambos, pois há muito que se explorar dos mitos antigos, principalmente nos que concerne às origens de Roma, da Europa e os "progenitores lendários".

A guisa de registro e comparação, outro mito da fundação de Roma fala-nos do motivo pelo qual Rômulo matou Remo:

"Dois mitos sobre a fundação da cidade (os 'cosmos' de Roma) refletem esses temas - um do assassinato de Gêmeo e outra de desmembramento. Em um conto , os gêmeos Rômulo e Remo foram colocar para fora dos muros da cidade. Rômulo estava arando um sulco para marcar as paredes, enquanto Remus, que tinha acabado de perder o direito de nomear a nova cidade, insultou seu irmão por saltar sobre o 'muro' arado. Na raiva , Rômulo matou seu irmão". -  Druid Fellowship - A Natureza do Sacrifício. [publicado aqui em 02/02/2014]

Ou seja, Remo havia maculado, conspurcado o espaço sagrado, purificado. A necessidade de estabelecer a fundação da cidade mediante a cuidadosa demarcação de um fosso pode ser vista nos dias de hoje, nas cerimônias do lançamento da pedra fundamental, seja de uma cidade, seja da igreja ao redor da qual a cidade será erguida. A virtuosa preocupação de Rômulo tem seu sentido quando este insta aos demais presentes, representantes de outras tribos, gens e povos, imitem-o, somando assim os espíritos dos ancestrais de toda aquelas gens como parte dessa comunidade consagrada pelo rito consumado. Todos os convidados, representantes de tribos, gens e povos distintos passam, com este rito, a pertencer a uma e a mesma "nova" gens, que passa a ter existência e identidade próprias.

O estabelecimento do fosso sagrado, da fronteira, é o estabelecimento ritualístico dos "limites do mundo", ao mesmo tempo em que se estabelece uma conexão entre o mundo profano e o mundo divino. O sentido do ato ritualístico da fundação da cidade sobrepassa a mera delimitação da cidade, da definição de quem é parte dessa gens, dessa comunidade, mas também de estabelecer um limite ao que está fora, não apenas nos limites físicos, mas nos limites espirituais.

Esse é o verdadeiro sentido da lenda relativo ao Deus das Fronteiras, quando Terminus recusou que o Seu altar fosse retirado do Monte Capitolino para aí se erigir um templo a Júpiter. O espaço que Terminus defendeu foi o terreno devidamente consagrado para o seu povo, a sua gens, o mesmo respeito que Rômulo exigiu ao custo da vida de Remo, não se pedia "respeito" à fronteira, mas aos espíritos e entidades que, tal como os antigos romanos, são parte de uma mesma e única comunidade, estabelecida e consumada no ato ritualístico.

Ora, até mesmo Terminus, um Deus, demonstra extrema preocupação em manter seu torrão de terra puro e imaculado, pois esse é o motivo primordial do ritual. Acontece que, nas religiões de mistério, bem como nos rituais de inúmeros povos, existem concessões e exceções nas quais a "fronteira", o "fosso", pode ser aberto, para que outras pessoas possam ser devidamente apresentadas, não apenas aos Deuses daquele povo, mas à toda a comunidade para que, tal como nos mitos ancestrais, as origens do mundo, senão da cidade, sejam reencenadas, restabelecendo, assim, a origem, ordem e organização, do mundo, da cidade, da comunidade e da gens.

Os mitos, dos Deuses antigos e as lendas dos progenitores lendários demonstra que ambas as origens são difusas, mescladas, miscigenadas, algo que eu pretendo abordar, analisando um ou mais mitos específicos.


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