sábado, 4 de julho de 2015

Cultos sagrados da fertilidade, sexo e amor em Roma

Os Romanos, que gostavam de se dizer o mais “religioso” dos povos e que reconheciam e honravam divindades em número superior a qualquer outro [com exceção talvez dos hititas], não podiam deixar de ser sensíveis ao carácter sagrado deste instinto amoroso, capaz de transformar os seres, de arrancá-los a si mesmos e cujo poder, igualmente sentido pelos homens e por tudo o que vive, submete às suas leis toda a natureza. Não surpreende verificar que o amor tinha as suas divindades, os seus ritos, a sua magia. O culto que se prestava as primeiras, a observância religiosa de práticas cuja origem se perdia na noite dos tempos, tudo isso tinha por finalidade, umas vezes, desenvolver ao máximo ou exaltar as forças criadoras do ato de amor e controlar ou disciplinar o que nelas se descobria de anárquico e colocá-las ao serviço do bem da cidade.
A religião da época clássica, aquela que conhecemos melhor graças aos textos e a numerosos testemunhos de toda a espécie, não manteve muitas vezes senão vestígios, dificilmente detectáveis, destas crenças e destes ritos. Esta ou aquela prática de carácter mágico, nos tempos de Cícero ou de Augusto, já não era mais do que sequelas folclóricas e não teríamos conservado delas nenhuma lembrança se os “antiquários” de então, ávidos de recolher as coisas estranhas do tempo antigo, não lhes tivessem consagrado algumas linhas nas suas obras, que infelizmente, apenas nos chegaram a estado fragmentário. Frequentemente, também, os polemistas cristãos, em busca de argumentos para "provar" a "imoralidade ou o absurdo" da religião ancestral, transmitiram-nos cuidadosamente detalhes cujo carácter arcaico, às vezes mesmo primitivo, tendia a lançar o descrédito sobre a fé dos seus adversários.
Compreende-se que a partir destes pobres materiais seja difícil reconstituir um conjunto ordenado e perfeitamente compreensível, como, por exemplo, avaliar com precisão a importância de um rito específico ou devolver cada fragmento ao seu verdadeiro lugar, e arriscamo-nos, por isso, a graves erros de perspectiva. Apesar de todas estas dificuldades, o que podemos entrever desta “religião do amor" muito antiga não é em si mesmo desprovido de interesse, até porque, sobretudo em Roma, o passado tem no presente uma influência muito grande. Este passado remoto, mesmo se semiesquecido, está, apesar de tudo, presente, porque contribuiu para formar a sensibilidade romana e porque constituiu como que o núcleo em volta do qual se cristalizaram formas religiosas mais modernas, que sem ele não teriam sido o que foram.
Estes vestígios arcaicos, encontramo-los um pouco por toda a parte e as cerimônias de casamento não estão delas isentos. Encontramo-los também na religião oficial e na popular. Surge, sobretudo, nos cultos celebrados pelas mulheres, o que é natural, dado que, durante muito tem­po, as mulheres foram consideradas as depositárias por excelência da fecundidade, aquela metade da cidade a que era a atribuída à função de assegurar a sobrevivência e a permanência de toda a raça.
No cimo da Vélia, uma das colinas romanas ocupadas desde tempos mais remotos, havia um santuário singular, cuja “divindade” era repre­sentada na forma de membro viril. Este deus tinha o nome estranho de Mutunus Tutunus. Conhecemo-lo apenas por um fragmento do gramático Festo e quatro ou cinco alusões de Tertuliano, Santo Agostinho, Amóbio e Lactâncio, e o que nos dizem está longe de ser claro. Parece que até ao tempo de Augusto, pelo menos, mulheres “vestidas com a toga pretexta” iam, em certas ocasiões, coroar de flores o símbolo de Mutunus Tutunus. Quem eram estas mulheres? Provavelmente sacerdotisas, como o seu fato arcaico parece indicar, e, sem dúvida, mulheres casadas, que realizavam ali um rito provavelmente propiciatório, em nome de todas as esposas da cidade.
Mas Mutunus Tutunus não se encontrava apenas no santuário da Vélia. Tinha o seu lugar também, segundo nos é dito, no quarto de dor­mir dos simples particulares e, no dia do seu casamento, as recém-casadas deviam sentar-se sobre a sua imagem, como para consagrar ao deus as primícias da sua virgindade. Infelizmente, não sabemos se esta prática era geral ou se se tratava de um costume “do tempo antigo”, a que mais nenhum jovem marido teria ousado submeter a sua noiva. É possível que este gesto seja o último vestígio de um rito destinado a preservar o marido do perigo mágico que a desfloração da sua mulher lhe teria feito correr. Abundam os testemunhos de tais crenças na virtude maléfica da virgindade: os etnólogos encontram-nas em muitas “sociedades primitivas” e conhecem-se exemplos de substituições da pessoa, ritualmente realizadas, durante a primeira noite do casamento.
Na verdade, existem outros vestígios de um culto do falo. Mutunus Tutunus não está completamente isolado na mais antiga religião romana. Por exemplo, as Vestais, as sacerdotisas virgens que tinham à sua guarda os “penates” do povo romano, misteriosos fetiches que eram crime olhar, envolviam também de veneração a imagem de um sexo masculino colocada no santuário que tinham a seu cargo, tendo-se pensado que esta imagem correspondia, no lar da cidade, à do Genius que era honrado em cada lar doméstico e simbolizava a capacidade fecundadora do senhor da casa. A favor desta aproximação, é invocada uma velha lenda, muito singular, que fazia parte do “ciclo” do rei Sérvio Túlio.
Contava-se que no palácio de Tarquínio, o Antigo, uma serva chama­ da Ocrísia unira-se a um falo, que surgira misteriosamente na cinza do lar, e que desta união tinha nascido Sérvio Túlio. Esta lenda, de que Tito Lívio não fala, sem dúvida devido ao seu carácter estranho, contrário aos bons costumes do seu tempo, conserva, muito provavelmente, a lembrança de um tempo em que pelo menos um dos demônios do lar doméstico simbolizava a virilidade.
Durante muito tempo, manteve-se entre o povo, sobretudo no campo, a crença em um poder mágico do falo, falo a que se chamava fascinus. A sua imagem encontra-se ainda, ameaçadora, sobre a entrada de algumas casas, em Pompeia. Tem aí, evidentemente, a função de proteger a residência do “mau olhado”. Nos campos, os camponeses erguiam-no como salvaguarda das colheitas e até sobre o carro dos triunfadores o mesmo símbolo confirmava idêntica fé na virtude benéfica de um órgão que surgia como o “lugar da vida” por excelência. O falo era o talismã mais eficaz contra todas as potências maléficas, os malefícios e tudo o que impedia ou contrariava o crescimento e o desenvolvimento felizes dos seres: homens, animais e plantas. A sua imagem não despertava qual­quer vergonha, o que não impedia que cada um tivesse pudor pelo seu corpo: embora os homens, no banho, não tivessem nenhum embaraço em se despir na sauna comum, faziam-no apenas na presença de estranhos. Mas o pai evitava banhar-se diante dos filhos e dos maridos das filhas e as palavras indecorosas eram ouvidas, desde sempre, com embaraço quando em companhia de respeito. Contudo, o costume requeria que os talismãs fálicos fossem usados livremente e expostos aos olhos de todos e não há dúvida que o hábito evitava que se escandalizassem com eles.

Mas o fascinus não possuía apenas este valor apotropaico1, em certa medida negativo. Era objeto, junto dos camponeses, de um verdadeiro culto, associado à religião de Liber Pater, que era, de início, essencialmente, o deus da germinação, “o que assegura o nascimento e o crescimento”. Parece mesmo que o falo simbolizou o próprio deus nas festas rústicas, de que Santo Agostinho nos deixou a descrição. “Este membro vergonhoso, nos dias em que se festejava Liber”, diz-nos Agostinho, “era colocado com grande pompa sobre um carro e passeado, em pri­meiro lugar, no campo, de encruzilhada em encruzilhada, depois até na própria cidade. Na cidade de Lavínio, era consagrado um mês inteiro a Liber e durante este mês todos os dias, cada um empregava a linguagem mais obscena, até que o falo fosse levado através do fórum, em procissão solene, e depositado no seu santuário. Sobre este membro vergonhoso, uma mãe de família, das mais respeitadas, devia depositar publicamente uma coroa. Era, aparentemente, a maneira de se tomar o deus Liber favorável ao feliz sucesso das sementeiras e de afastar dos campos o mau olhado”.
Liber, que, de início, era deus de toda a geração, tinha-se especializado progressivamente. Assimilado desde cedo ao Dioniso dos Gre­gos (no culto e nos mistérios do qual também intervinham os símbolos fálicos), tinha-se tomado, na religião formalista e disciplinada da Roma republicana, o protetor das vinhas e dos pomares. Mas, recordação dos velhos tempos, era no dia da sua festa, a 17 de Março, que os jovens vestiam a toga viril, tomando-se assim capazes, por sua vez, de fundar uma família e entrando na classe dos patres. No campo, as formas arcai­cas do culto de Liber mantiveram-se vivas durante muito mais tempo. Virgílio conta-nos ainda que, no seu tempo, os camponeses, na Liberalia, juntavam-se sobre a relva para beber, cantar, dançar e dizer uns aos ou­tros dichotes bastante livres. Para eles, como para os burgueses de Lavínio, de que nos fala Santo Agostinho, a obscenidade da linguagem tem um valor ritual, uma eficácia mágica capaz de estimular a natureza e de ajudar no cumprimento do mistério da vegetação. Estes ditos que se troca­vam deram origem a fórmulas quase rituais, ritmadas, que tomaram o nome de “versos fesceninos” e que os espectadores, à passagem de um cortejo nupcial ou de uma procissão triunfal, lançavam aos participan­tes. Nestas ocasiões solenes, a decência dos ditos não era adequada: a obscenidade das palavras fazia parte do rito. Como o próprio fascinus, afastava a desgraça e, ao mesmo tempo, estimulava a fecundidade do casal e aumentava a eficácia das potências misteriosas de que dependia o sucesso da cerimônia.
Quando, no fim do século III A.C., se expandiu na Itália a religião dionisíaca e foram organizados, um pouco por toda a parte, colégios de bacantes para celebrar os mistérios do deus grego, foram muitos os habi­tantes dos campos a dedicar-se a práticas em que reconheciam costumes análogos aos seus. Aliás, o “flagelo” (era assim que os senadores roma­nos consideravam uma religião tão contrária à disciplina ancestral) pagou-se através da Itália com uma rapidez muito grande. Dioniso prometia aos seus devotos, não só a felicidade neste mundo, mas a esperança da salvação depois da morte. Misticismo e sensualidade constituíam uma dupla e poderosa atração para estes camponeses, que sempre sen­tiram, de modo confuso, que o mistério da geração tinha carácter divino. Não só os sacerdotes do novo deus não lhes pediam para renunciar aos seus próprios ritos, mas traziam-lhes uma revelação que iluminava estes e acrescentava ao seu próprio instinto prolongamentos místicos.
Temos muito poucas informações sobre o que se passava realmente nestas “células” dionisíacas. Há relatos de que os devotos dos dois sexos se entregavam a orgias, o que é bem provável, mas também que iam até ao crime e que não eram raros os sacrifícios humanos, calúnia de que foram alvo muitas das novas religiões. Seja como for, desencadeou-se um escândalo em 186 A.C. e toda a Itália ficou abalada.
As bacanais tinham chegado a Roma. Celebravam-se os seus ritos ao pé do Aventino, no bosque sagrado da velha divindade romana Stimula, e podia ver-se, durante a noite, as bacantes correr, despenteadas, até ao rio, levando tochas que mergulhavam na água e reemergiam acesas. Eis, porém, que uma mulher vem fazer ao cônsul terríveis revelações: era uma cortesã chamada Hispalis Fecênia. Conta ela que o seu jovem amante. Ebúcio, se encontra num grande perigo. A mãe de Ebúcio, casada em segundas núpcias, deseja ver-se livre dele e planeja fazê-lo assassinar pelos sectários de Dioniso, no decurso de uma noite de orgia sagrada. A própria Fecênia sabe do perigo, porque já fora também iniciada. Suplica aos magistrados que tomem as medidas necessárias para salvar um ino­cente. De imediato, o Senado reúne-se, os dois jovens são colocados sob a proteção da polícia e é aberto um inquérito. Recebem-se e provocam-se denúncias. Os sacerdotes de Dioniso são imediatamente presos, todas as reuniões noturnas são proibidas e todos os sectários do deus que não se apresentarem às autoridades em um determinado prazo serão consi­derados, de imediato, fora da lei. Começam logo os processos sumários, seguidos de execuções. Em breve, reina em Roma e nas cidades italianas um verdadeiro terror. O decreto do Senado foi enviado a toda a parte. Temos a sorte de possuir uma cópia, gravada, na época, sobre uma mesa de bronze. Dali para o futuro, era proibido celebrar bacanais. No entanto, os senadores, para não correrem o risco de suprimir práticas tradicio­nais e legítimas, permitiam exceções, mas em nenhum caso poderiam participar na cerimônia mais de cinco pessoas (dois homens e três mu­lheres), já não poderiam estabelecer vínculos mediante juramento (como se fazia, até então, nos colégios de bacantes) nem possuir caixa comum ou formar entre si uma hierarquia e até esta forma reduzida de culto ficava sujeita, sem exceção, a uma autorização prévia do Senado.
Podemos perceber através dos termos do decreto que o assunto não foi menos político que religioso. Manifestamente, temia-se a formação de uma espécie de sociedade secreta, uma confraria que estendesse por toda a parte as suas ramificações, escapando ao controle dos magistrados e capaz de despertar o fanatismo religioso do mundo dos campos. O culto de Dioniso subsistiu, mas serenado e destituído dos seus excessos orgíacos. Por isso, assumiu um carácter mais espiritual e também mais intimista: a supressão de todo o clero reduzia-o a não ser mais do que uma devoção pessoal. Gradualmente, o deus proscrito pelo senátus-consulto de 186 recuperou os seu fiéis, mas estes, desta vez, já não eram pessoas comuns: a elite romana, seduzida pelo misticismo dionisíaco, que, no Oriente, tinha estatuto de religião oficial, acolheu de bom grado as suas imagens e os seus mitos. A partir do início do Império, Dioniso está presente em toda a parte. As suas estátuas e as dos seus companhei­ros erguem-se nos jardins, onde simbolizam as forças férteis da natureza. Os muros das residências particulares, nomeadamente em Pompeia, mostram cenas da sua lenda. Os famosos frescos da Vila dos Mistérios reproduzem, sem dúvida, o desenrolar de uma iniciação às suas cerimônias, reveladoras do segredo do amor e da vida.
Contudo, um dos companheiros de Baco, o deus Priapo, tinha escapado à proscrição. Este deus, originário de Lâmpsaco, na Ásia Menor, também era um demônio da fecundidade, como se pode verificar pela sua imagem, caracterizada por um enorme falo. Os camponeses italia­nos tinham-no escolhido para proteger os seus campos e as suas vinhas, onde substituía o anterior fascinus. Cada jardim tinha o seu Priapo, talhado à poda em um tronco de árvore. Pintado com vermelhão, tinha por função afastar os malefícios, mas também servir de espantalho contra os pássaros e, eventualmente, de moca, nas mãos do jardineiro, para punir os ladrões. Nos jardins, este deus obsceno raramente era tomado a sério e as homenagens que lhe eram dirigidas estavam, em geral, eivadas de ironia. Contudo, constatamos que Priapo, apesar dos seus ridículos, era por vezes objeto de um culto quase místico. Daí que se encontre junto dos túmulos, onde a sua presença é testemunho da crença em um renascimento para além da morte. “Priapo, lugar da vida e da morte”, diz-nos uma inscrição, e isto não é fantasia de algum devoto, mas uma convicção muito propagada de que a morte e a vida são apenas dois aspectos solidários de uma mesma realidade. Esta era já a doutrina afirmada por Sócrates no Fédon e que tem a sua origem em crenças profundamente enraizadas na terra grega. Não é raro verificar que tam­bém em Roma os demônios da vida exercem o seu império sobre a morte. Por isso, a religião popular reconhece instintivamente esta ligação do amor e da morte, que assombrará muitos poetas, quer em outros tempos, quer na própria Roma.
Esta religião da virilidade, tão essencial, tão viva, não é a única manifestação dos sentimentos de respeito e de temor dos Romanos para com o mistério da vida. A vida sexual feminina tinha também os seus demônios, que a mantinham na sua dependência: ao Genius do pai da família fazia contraponto a Juno da mãe, cujo culto está menos bem documentado, no lar doméstico, do que o do Genius, mas de que se crê, no entanto, ver a imagem em uma das duas serpentes que são represen­tadas muitas vezes, em Pompeia, junto do altar de cada casa, por exem­plo. Em contrapartida, enquanto o Genius nunca foi assimilado a nenhum dos grandes deuses, a Juno de cada matrona fica, em certa medida, absorvida pela deusa que tem o mesmo nome e que é a companheira de Júpiter. Tudo se passa como se a religião oficial tivesse tido a preocupa­ção de controlar, de integrar, o culto da feminilidade individual das "mães”, deixando fora dela o da fecundidade viril. Havia festas específi­cas das matronas, por exemplo, as Matronalia de 1º de Março, celebradas coletivamente pelas mulheres casadas. Outras, como as de 7 de Julho, as “nonas caprotinas”, evidenciavam características arcaicas, o que mostra a sua antiguidade: a figueira e a cabra tinha nelas um papel importante e vislumbramos nestes ritos, que incluíam combates simulados e disfarces (as servas envergavam os vestidos das suas senhoras), uma antiga magia da lactação, sem dúvida destinada a estimular esta função nas mães e, ao mesmo tempo, a proteger estas contra os seus perigos, substituindo-as por outras mulheres de menor “valor”, durante o período perigoso.
Todos os anos, a casa do cônsul era palco de uma festa singular, em que só participavam as mulheres casadas, na presença das vestais. A divindade que se honrava neste dia (no início de Dezembro) tinha o nome de Bona Déa, “a boa deusa”. Era um epíteto ritual que dissimulava o verdadeiro nome, que nos é desconhecido. Aos homens era proibido assistir a ela, sob pena das mais graves sanções, e era interdito também, durante esta festa, introduzir na casa o menor ramo de murta, bem como pronunciar a palavra “vinho”. O vinho que se utilizava nas libações do sacrifício era chamado “leite” e os vasos que o continham eram chama­dos “potes de mel”.
Para explicar estas práticas estranhas, contava-se que a boa deusa desposara o deus Fauno e que este, para puni-la por ter bebido vinho secretamente, lhe batera de maneira tão brutal com varas de murta que a tinha morto. Na verdade, os “tabus” que caracterizam o culto da Bona Déa podem ser explicados, se nos recordarmos que beber vinho era ori­ginalmente interdito às mulheres [e continuou a sê-lo até a uma época relativamente tardia] e, por outro lado, que a murta é a planta favorita de Vênus, a deusa do amor. A Bona Déa simbolizava as virtudes que se esperava das matronas e de que tanto o vinho como Vênus podiam desviá-las, segundo se pensava. A cidade desejava, por certo, estimular a fecundidade feminina nas “mães” e assegurar-lhes a proteção de divin­dades prestáveis, mas não deixava de sentir alguma apreensão face à possibilidade de estas mesmas divindades inspirarem às suas devotas o desejo de usar desregradamente os poderes que se queria exaltar.
Roma parece ter estado sempre colocada entre dois perigos: por um lado, o de ver secar nela as fontes da vida, se negligenciasse os cultos da fecundidade, e, por outro, o de provocar acessos de fanatismo e desor­dens não menos graves para a cidade, por praticar estes mesmos cultos, o que não lhe inspirava menor temor. A reação timorata dos senadores durante o escândalo das bacanais não foi caso único. A história de outra deusa, Vênus, patrona dos amores, é muito instrutiva a esse respeito.
Vênus acolheu muito cedo os traços da Afrodite grega, mas a mais antiga Vênus parece ter sido muito diferente da “moça das vagas e do céu” que surgiu, no mundo grego, de uma síntese complexa em que pre­dominam os contributos asiáticos. Na verdade, os historiadores moder­nos da religião romana não estão de acordo sobre a sua natureza nem sequer sobre a sua função primitiva. Durante muito tempo, admitiram que Vênus tivesse começado por ser uma camponesa, uma divindade rústica que personificaria o “encanto” da Primavera e dos pomares em flor e que reinava, designadamente, nas hortas. Depois, segundo afirmavam, os fiéis desta Vênus campestre teriam atingido uma concepção mais elevada, vendo nela uma das forças primordiais da natureza, cujo poder os seres humanos suportam, por vezes, com dureza. Mas hoje há consenso na rejeição desta teoria.
No fundo, é muito pouco natural pensar que o culto de Vênus tenha procedido de uma religião da fecundidade em geral e não se tenha relacio­nado com o amor “humano”, senão no termo de um longo percurso. Não se deve antes pensar que a evolução da deusa aconteceu em sentido imerso que partiu do humano e se estendeu, progressivamente, a tudo o que vive? O poder do amor não será imediatamente perceptível ao homem no seu próprio coração, no latejar das suas artérias? E a tendência espontânea do espírito não será, precisamente, projetar para fora de si as descobertas da sua própria experiência? Reconhecer "Vênus” no mundo é tê-la já sentido em si mesmo.
Outra explicação da Vênus romana foi recentemente proposta. A deusa, segundo ela, teria sido, em primeiro lugar, não um demônio da fecundidade, mas a personificação de uma realidade espiritual muitíssimo mais sutil: o poder mágico da eficácia da oração, que é o único a ter capacidade para atrair sobre os homens a benção e a graça dos deuses. Na sua origem, Vênus teria sido a mediadora universal, a meio caminho entre o humano e o divino, aquela que atrai, em benefício dos seus fiéis, as força vivificantes do sobrenatural.
Esta hipótese é muito engenhosa e pode invocar bons argumentos a seu favor, mas ilude qualquer demonstração rigorosa, devido ao seu caráter abstrato. Por outro lado, não podemos deixar de pensar que os mais remotos antepassados do povo romano, que eram tão bem dotados quanto possamos imaginar para as especulações teológicas mais sutis, terão divinizado espontaneamente o poder que preside à união dos seios. Como divinizaram a luz do dia e o poder inebriante do vinho. Mas, na verdade, o problema não se coloca nos mesmos termos. Importa-nos muito pouco definir qual foi, no seu princípio, a função essencial da Vênus mais antiga, uma vez que, tão longe quanto possamos remontar na história de Roma, encontramo-la investida de uma missão muito defi­nida, a de presidir às relações amorosas.
Esta personalidade da deusa “histórica” ganhou forma, provavelmente na própria Itália. Desde o século VII A.C., Vênus possuía em Lavínio um santuário de que se dizia que o fundador não teria sido outro senão Eneias. Em Lavínio, a Vênus latina - qualquer que fosse exatamente a sua verdadeira natureza - sofreu a influência da Afrodite grega. Esta tinha sido introduzida na Itália pelos colonos gregos da Campânia e tam­bém pelos conquistadores etruscos instalados no Lácio. Todos os Latinos vinham em peregrinação ao santuário de Lavínio prestar culto ofici­al à deusa e foi de lá que foi trazida para Roma, embora com precauções e reticências.
Para os Romanos, de fato, Vênus personifica a sedução feminina, o que, indubitavelmente, já personificava em Lavínio. Simboliza o poder misterioso, religioso e mágico que a pessoa e o corpo da mulher encerram. Era uma das divindades mais inquietantes e não podemos de modo nenhum surpreender-nos que a Roma puritana e conservadora dos primeiros tempos não lhe tenha dedicado, durante um longo período, nenhum templo. Preocupados em salvaguardar a ordem e os bons costumes, os patrícios, que detinham, na prática, a totalidade dos poderes, olhavam com suspeita para esta deusa anárquica, geradora de perturbação e de paixão. Todavia [como se vê mais tarde no escândalo das Bacanais], eram também demasiado sensíveis a todas as formas do di­vino para não reconhecerem a necessidade de prestar a Vênus as honras de que não a podiam privar sem com isso fazerem correr grandes riscos a toda a cidade.
Não sabemos exatamente como foi, na cidade, este primeiro culto a Vênus. Surgiu um primeiro nome, bastante estranho. Alguns testemunhos, relativamente tardios, asseguram-nos que Vênus, desde uma época muito recuada, foi honrada no Capitólio, onde tinha sido erguido um santuário à Vênus calva. Quem era esta singular deusa? A lenda fornece duas explicações inconciliáveis acerca do nome. Contava-se, por vezes, que, durante o cerco de Roma pelos Gauleses, as matronas, fechadas no Capitólio com os defensores da cidadela e alguns refugiados, teriam cortado espontaneamente os seus cabelos para fabricar os cabos e as cordas necessários às máquinas de guerra. Para recordar esta devoção, o Estado, após a vitória, teria dedicado uma estátua à Vênus Calva, a fim de testemunhar que as mulheres, tendo cortado o cabelo, não tinham perdido nada do seu poder de sedução! É uma galanteria anacrônica, pouco de acordo com os costumes romanos do século IV A.C. Para além disso, é bem provável que os defensores do Capitólio não dispusessem de má­quinas de guerra e não tivessem utilidade a dar às cabeleiras femininas.
A outra explicação faz remontar a origem da Vênus calva a um período ainda mais afastado. Era, diz-se, no tempo do rei Anco Márcio. As mulheres romanas e a própria rainha, tinham sido atingidas por uma estranha doença que lhes fazia cair os cabelos. O rei, para consolar a rainha, fez-lhe uma estátua, representando-a no estado em que a doença a tinha deixado. E eis que se produziu um milagre: mal a estátua ficou instalada, os cabelos das senhoras cresceram mais bonitos do que nunca. Gratos, os Romanos dedicaram um culto à Vênus calva, que assim tinha manifestado o seu poder.
Os historiadores modernos, bastante céticos, asseguram que a deusa nunca existiu, que é apenas uma invenção de antiquário e que não se deve ter em consideração. Talvez este ceticismo radical não seja justificado. É possível, decerto, que a Vênus Calva não tenha sido senão uma estátua de mulher muito antiga, privada pela erosão do tempo de uma parte dos seus atributos e ornamentos primitivos e que o povo se tenha habituado a dar-lhe este apelido. É possível também (hipótese e, de fato, inverificável) que os Romanos, desejosos de honrar Vênus, mas, ao mesmo tempo, desejosos de destituí-la de uma parte do seu poder mágico, tenham imaginado representá-la desprovida de cabeleira, quer dizer, de um dos atributos mais característicos da feminilidade. Era uma tentativa para “domesticar" uma força perigosa e seria o primeiro exem­plo, ainda cheio de ingenuidade, de uma política que, muito em breve, irá ser posta em prática.
Vênus é perigosa e os magistrados encarregados de fiscalizar a religião oficial estão disso intimamente convencidos. O primeiro templo que lhe é dedicado na cidade, no início do século III A.C., exatamente em 295, foi para impedir a cólera da deusa. Nesse ano, o filho do cônsul, Q. Fábio Gúrgite, decidiu construir um templo dedicado a Vênus, no vale do Grande Circo, e atribuiu para tal empreendimento o produto das multas cobradas à senhoras da alta sociedade que tivessem sido declaradas culpadas de stuprum, isto é, de comércio carnal ilegítimo (não de adultério, em que a punição seria a morte), ou seja, viúvas que tivessem comprometido a sua honra e filhas jovens de famílias ricas (as “filhas de família”), cuja má conduta, por alguma razão, não tivesse sido punida no interior da gens. Aparentemente, os escândalos eram em grande número, pois as somas recolhidas foram suficientes para edificar um monumento público. Fábio Gúrgite designou o novo santuário com o termo Vênus obsequens, expressão que os modernos traduzem, umas vezes, por “Vênus Complacente” e, outras vezes, mais verossimilmente, por "Vênus Obediente”. É muito tentador supor [embora dificilmente possa ser sequer uma hipótese] que esta consagração teve lugar para propiciar a deusa, evitando que continuasse a incitar as senhoras da aristocracia a praticar atos imorais, porque uma das vinganças mais comuns de Vênus sempre fora a de inspirar desejos culposos aos mortais (sobretudo às mulheres) que não lhe expressassem um culto suficientemente devoto ou que a tivessem ofendido de alguma maneira. Ao instalar oficialmente Vênus na cidade e, para além disso, aplicando-lhe um epíteto cultual de bom augúrio, alimentava-se a esperança de aplacar a sua cólera e que, no futuro, se contentasse em favorecer os amores legítimos.
Mas as divindades têm, muitas vezes, uma grande obstinação e escarnecem dos obstáculos que os homens lhes levantam. Durante a Segunda Guerra Púnica, quando Roma se viu na iminência da derrota, tornou-se evidente que não podiam deixar durante muito mais tempo numa situação menor a deusa que aparecia, cada vez mais, como a “mãe” dos Romanos. Entre outras medidas religiosas excepcionais que então foram decretadas, os senadores decidiram chamar a Roma a Vênus do Monte Erice. Tinham tido provas da eficácia da sua proteção durante a Primeira Guerra Púnica. O Monte Érice, onde tinha o seu templo, foi a sua principal base de operações contra os Cartagineses e foi à deusa, pensavam os Romanos, que ficaram a dever em grande parte a sua vitória. Por que não tentar recorrer a ela mais uma vez?
Todavia, esta Vênus era, evidentemente, uma deusa de origem oriental e o seu culto incluía ritos que repugnavam à consciência romana. O templo do Monte Érice era servido por hieródulas, escravas da deusa que se entregavam à prostituição. Os sacerdotes asseguravam também que a deusa realizasse milagres todos os dias: o altar ao ar livre, diante o templo, ficava coberto de orvalho e ervas novas, a cada manhã, por intervenção sobrenatural. Os vestígios dos sacrifícios oferecidos na véspera desapareciam sem que mão humana alguma se tivesse preocupado em eliminá-los. Acreditava-se que todos os anos a deusa deixava o templo do Monte Érice para se dirigir a África, acompanhada dos seus pássaros sagrados, as pombas, que volteavam sempre em grande número em redor do santuário. Passados nove dias, regressava com um bando de pás­saros e havia então grandes festas por toda a Sicília.
Introduzir tal divindade em Roma, dar-lhe direito de cidadania, era uma decisão grave, diante da qual o Senado sempre recuara, por grande que fosse a dívida de reconhecimento da República para com esta deusa turbulenta, patrona dos maus lugares e que perturbava os corações. Mas, perante a iminência do perigo, foi abandonada toda a hesitação. Só se queria ver nela a “mãe” de Eneias e, para sua maior honra, foi instalada no Capitólio, na colina sagrada onde reinava o grande deus do império, um Júpiter muito bom e muito grande.
Outra razão contribuiu, provavelmente, para favorecer a introdução do novo culto. Na tradição romana, Vênus passava por ser a compa­nheira do deus Marte, aquele, precisamente, cujo socorro, durante as primeiras batalhas da guerra, tinha faltado aos exércitos. A homenagem prestada à sua “amiga” não poderia deixar de impressionar o senhor das armas e isso é tão verdadeiro que a medida que recomendava a adoção da Vênus Ericina incluía um voto solene a Marte.
Contudo, a deusa do Monte Erice continuava a ser encarada com suspeita e é bem característico do espírito romano que se tenha colocado ao lado da tumultuosa siciliana, no Capitólio, um templo consagrado a Mens, ou seja, à razão, à inteligência lúcida, da qual a cidade tanto carecia para fazer face ao perigo. Parece que o Senado, preocupado com o equilíbrio da sua política religiosa, quis justapor no Capitólio, para onde se voltavam então todos os olhares, dois aspectos antitéticos e complementares do sagrado. O que havia de orgíaco no culto da siciliana, esse delírio que tinha o poder de desencadear nos corações, teria o seu antídoto na religião muito intelectual de Mens. Com sabedoria, os Pais não esquecem que múltiplas são as potências que partilham a alma dos ho­mens e que é na multiplicação das divindades, e não numa mutilação ruinosa, que se encontrará o segredo da harmonia.
Não era menos verdade que Vênus Ericina introduzia em Roma, apesar de todas as precauções, a deusa do amor passional, o que era reconhecê-la oficialmente e quase legalizá-la à custa da moral tradicional.
Por isso, vemos surgir muito rapidamente como antídoto o culto de outra Vênus, mais conforme ao que se espera de uma Vênus roma­na. Logo que as derrotas sofridas por Aníbal tornaram o invasor menos temível, o Senado decidiu consagrar uma estátua a uma nova Vênus, a que chamaram Verticordia, ou seja, “a que muda os corações”, ou antes, os “desvia” das paixões perigosas. Na intenção dos Pais, esta estátua devia “afastar do deboche o espírito das virgens e das mulheres casadas e incutir-lhes o sentido das conveniências”, de que muitas, aparentemente, se afastavam, devido à licença que o abrandamento da tensão moral, imposto pela guerra interminável, ocasionava. Para consagrar esta está­tua (talvez mesmo, mais provavelmente, para lhe serem copiados os traços), escolheram certa Sulpícia, mulher do senador Q. Fúlvio Flaco, que foi designada depois de um verdadeiro concurso de virtude. Os senadores escolheram para tal o nome de cem senhoras da aristocracia cuja reputação era impoluta. Entre estes cem nomes, dez foram tirados ao acaso e foram ponderados com cuidado os méritos de cada uma das laureadas. Finalmente, o juízo de todos voltou-se para Sulpícia, que se tornou, no entender do povo, o símbolo de todas as virtudes exemplares. Menos de cem anos depois, em 114 A.C., um escândalo sem prece­dentes veio perturbar as consciências. Três vestais, infiéis ao seu voto, foram consideradas culpadas de incesto e, de acordo com o costume, condenadas a ser enterradas vivas. Um acontecimento como este era sem­pre considerado um presságio sinistro. Para desviar os seus efeitos, foi decidido aumentar as honras devidas a Vênus verticordia, cuja proteção se tinha revelado manifestamente insuficiente. Construíram-lhe um templo segundo todas as regras. Este templo, de que ignoramos o lugar exato, foi consagrado no dia 1 Abril, o dia das calendas, que, conforme o costume, era dedicado a Juno: assim o mês de Abril (sob o patrocínio de Vênus, desde a mais longínqua antiguidade) começava com uma festa que as matronas celebravam em honra da “Vênus legítima”. Mais tarde, durante o mesmo mês, no dia 23, as cortesãs faziam as suas devoções à outra Vênus, a Siciliana, que recebeu um novo templo, distante do Capitólio, perto da Porta Colina, um dos bairros mais afastados da cidade.
Doravante, duas Vênus compartilhavam os fiéis. Mas, gradualmente, será a Vênus apaixonada e turbulenta que se irá assenhorear das consciências. Nos últimos tempos da República, era para ela que se viravam, à medida que os costumes se afastavam do seu antigo rigor. Os três homens que tiveram sucessivamente o destino de Roma em suas mãos, Sila, Pompeu e César, reclamar-se-ão dela e colocar-se-ão sob a sua proteção. Gradualmente, Vênus transformar-se-á em uma das grandes deusas da cidade, a ponto de, durante o Império, ser associada à divindade da própria Roma, no templo que o imperador Adriano irá criar para ambas na colina da Vélia.
Esta fortuna magnífica da deusa explica-se por muitas razões, algumas das quais são estranhas à tradição religiosa romana e não têm senão uma relação remota com a sua função essencial, que é a de presidir ao amor. Mas estes acidentes históricos não teriam sido possíveis, se a Vênus romana não estivesse antecipadamente preparada para aceitar as novas funções e a dignidade acrescida que lhe foi reconhecida desde o início do século I A.C. Com a expansão do domínio romano no Oriente, a influên­cia da Afrodite grega tornou-se mais forte e é fácil mostrar que Vênus assimilou um grande número de funções assumidas pela sua homóloga oriental, mas parece evidente também que este crescimento do seu domínio estava implícito, há longo tempo, na preexistência de certos caracteres na sua natureza.
Há muito tempo que a Vênus itálica tendia a ser a patrona de tudo o que é “feliz”, luxuriante e jovem. Nisso residia, talvez, uma das razões da desconfiança e também da atração, que a consciência romana, cheia de “gravidade”, mas, ao mesmo tempo, sensível ao desenvolvimento feliz de tudo o que vive, sentia a seu respeito. É muito significativo que os Romanos, desde muito cedo, tenham consagrado a Vênus o mês de Abril, aquele em que desponta a Primavera, e tenham também realizado a con­sagração dos seus templos e a sua festa anual nos dias das Vinalia, que eram, ao mesmo tempo, os da festa do vinho. Também não se deve esquecer que as cortesãs, devotas por excelência de Vênus Ericina [aquela que então triunfava], dançavam publicamente, sem véu, no dia da festa de Flora! Tudo se passava como se, de repente, se tivesse quebrado a austera disciplina imposta, durante muito tempo, pela autoridade do Senado à devoção popular, deixando regressar à luz do dia uma religião de Vênus que as restrições tinham conseguido ocultar, mas não suprimir.
No início do século I A.C., Vênus tinha inúmeros fiéis, que lhe pedi­am o êxito de todos os seus empreendimentos, não somente no amor, mas no exército, no jogo, nos negócios. Os jogadores de dados chamavam “lance de Vênus” à combinação mais favorável que podiam obter. Sila, vencedor “feliz” de Mitridates, adotou, no Oriente, o apelido de Epafrodite, ou seja, “Favorito de Vênus”. Alguns anos mais tarde, Pompeu, após ter triunfado definitivamente sobre o mesmo Mitridates, dedicou um templo à Vênus Vitoriosa (Venus Victrix) no cimo do teatro que construiu no Campo de Marte.
No entanto, na noite de Farsália, a Vênus de Pompeu teve de inclinar-se diante da outra Vênus, a Genitrix, de que César se reclamava. Este, que, como todos os Julii, se vangloriava de descender de Eneias, tinha um bom pretexto para “confiscar” Vênus em seu proveito. O duplo precedente de Sila e Pompeu prova que isso não era de modo nenhum vaidade de família ou uma fantasia pessoal de César. A proteção de Vênus representava, junto do povo, como que uma garantia de felicida­de e de sucesso. Assegurava aos que a deusa favorecia como que uma aura sobrenatural, que nenhuma outra divindade poderia proporcionar. Graças à proteção da Genitrix, César trazia para Roma o que tanto lhe tinha faltado durante as horas sombrias do passado: a alegria divina e a certeza de uma sorte feliz. Por isso, antes mesmo de ter se apoderado definitivamente do poder, decidiu criar um templo magnífico, no centro do seu novo fórum, para aquela a que chamava sua mãe.
Deste poder de Vênus, das ressonâncias profundas que a sua religião despertava na alma romana, temos uma prova no prólogo introduzido por Lucrécio no início do seu poema Da Natureza das Coisas. Invocava como “mãe das Enéadas” e pede-lhe a paz para o seu povo. Só ela pode obter de Marte que apazigue a sua cólera e, saciado de amor sobre o seu peito, ponha termo aos sombrios ardores da guerra.
Estas páginas, impregnadas de um evidente fervor religioso, surpreendem frequentemente os comentadores, que se recordam da sólida imputa­ção de impiedade, e até de ateísmo, que é feita (sem razão, de resto) à doutrina epicurista, de que Lucrécio pretende ser intérprete. E que Lucrécio, antes de ser filósofo, é romano: conhece a alma dos seus compatriotas e quer falar a sua linguagem para se fazer entender por eles. Sabe que uma das suas aspirações mais profundas os leva a honrar todas as potências da vida, ainda que a disciplina oficial mascare, por vezes, esta exuberância e imponha uma aparência de austeridade que a realidade desmente. E a este sentimento, a esta intuição da vida, que o poeta apela. Ao designar pelo nome de Vênus o primeiro motor que crê distinguir no mundo, esta atração mútua dos seres, esta simpatia universal, sem a qual a criação continuaria imóvel e inerte, Lucrécio está certo de ser ouvido. O nome da deusa era suficiente por si só para que se adivinhasse toda a grandeza e “verdade” de uma filosofia que exaltava e transformava em princípio cósmico um sentimento perturbador que cada um tinha no seu próprio íntimo. Assim como Sila, Pompeu e de­ pois César não teriam pensado colocar-se sob a proteção de Vênus, se a deusa tivesse sido apenas uma abstração vazia de sentido, também Lucrécio não teria seguramente escolhido esta estranha maneira de ilustrar a doutrina epicurista, logo desde os primeiros versos da sua epopeia, se não estivesse certo de encontrar eco na alma daqueles que queria converter.
Não é indiferente verificar que a deusa do amor afirma o seu império sobre os corpos e as almas no momento em que vai nascer o Império, ou seja, quando Roma começa realmente a realizar a sua vocação universal. Vênus já não é, neste momento, apenas o demônio da carne (admitindo que antes fora apenas isso). Ela é reconhecida como um princípio cós­mico, gerador de vida, mas também de poder material e político, que derrotou o antigo puritanismo, durante muito tempo dominante na cida­de. A religião de Vênus está ligada à enorme evolução que se desenha sob os nossos olhos nesta viragem decisiva da história. Os velhos valo­res morais, estritamente dependentes dos imperativos sociais, são varri­dos de repente, as emoções pessoais suplantam os constrangimentos co­letivos, a tradição dos antepassados cede o seu lugar a uma moral mais humana (alguns dirão mais relaxada), que já não terá por única finalida­de a exaltação da cidade, mas tenderá a integrar cada pessoa no seu ver­dadeiro lugar no seio do universo.
Para Roma convergem e afluem as crenças e os ritos de toda a Itália e também de todo o mundo mediterrânico. A Vênus de Sila. Ainda que, no fundo, esteja de acordo com a tradição religiosa nacional, devia mui­to também à Afrodite grega e, mais ainda, talvez, à Astarte síria. A que Lucrécio canta encarna as abstrações metafísicas dos velhos filósofos jônicos. A piedade popular, por seu lado, tendia a ver em Vênus um poder cada vez maior. As festas que se celebravam em sua honra, na Itália Meridional e na Sicília, atraíam grandes multidões. Havia “vigílias” em que as jovens que em breve iriam casar lhe dirigiam ardentes preces, na expectativa do amor.
Um poeta desconhecido - que talvez não seja outro senão o historiador Floro, ou talvez seja um obscuro contemporâneo de Estácio - compôs para uma destas vigílias, que se celebrava em Hibla. Não longe de Catânia, na Sicília, um hino muito belo, de que não sabem exatamente se era apenas um exercício literário ou um canto quase litúrgico. Entoado no decurso da noite santa por um coro de mulheres. Mas a Vênus celebrada aqui é exaltada até se ver transformada como que na alma do mundo. Os amores humanos adquirem uma dignidade total­mente nova e alcançam todo o seu significado no seio de um mito que os identifica com o próprio mistério da criação:
Amanhã [escreve o poeta] é o dia em que, pela primeira vez, o Éter celebra o seu casamento. Para criar das suas nuvens primaveris durante o ano inteiro, este pai espalhou-se, em chuva amorosa, no seio da sua fértil esposa. Unido a este grande corpo, irá produzir todos os seres. É Vênus que, com a sua respiração sutil, penetra o sangue e a alma para exercer na procriação o seu poder misterioso. Através dos céus, através das terras, através do mar, sobe­rana, abriu para si um caminho que não cessa de impregnar com germes de vida e, obedecendo à sua ordem, o mundo aprendeu a gerar.
Vênus transforma-se na própria natureza, na doçura de viver e de amar. É muito provável que, no fim do século I D.C., a antiga Vênus de Hibla tenha absorvido muito traços das divindades naturalistas do Ori­ente e, particularmente, da Ísis dos filósofos e místicos alexandrinos, que cinquenta anos depois o romance de Apuleio iria enaltecer.
O poder de Vênus sobre as almas, nesta Roma que se alargara até ter o tamanho do mundo, torna-se cada vez maior: o amor já não é apenas uma lei da vida, é uma promessa, uma garantia de imortalidade. Tibulo espera que a própria Vênus o conduza à morada dos Bem-Aventurados. Estaríamos tentados a ver nisso apenas uma fantasia do poeta, se outros testemunhos não nos levassem a pensar que era uma crença bastante difundida. A divinização pelo amor não é, portanto, fruto da imaginação do homem de letras, mas uma convicção profunda de muitas pessoas simples. Aliás, não será natural que se convençam de que a deusa que é capaz de criar a vida e de perpetuá-la seja também capaz de realizar, para os que creem nela, o milagre da vida depois da morte? Será necessário o lento e difícil despojamento da ascese3 cristã para que se chegue a distin­guir o Eros humano do Ágape divino!
GRIMAL, Pierre. Cultos sagrados da fertilidade, sexo e amor em Roma - do falo a Vênus. In: O amor em Roma. Lisboa/PT: Edições 70, 2005. Cap. II, p.41-5.

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