quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Decifrando a Deusa Trans/gênero/cedente/gressora

Pagãos, bruxos e sacerdotes têm citado trechos de textos e mitos antigos para agradar a população LGBT, que tem se expandido no Paganismo Moderno.
Nós não somos uma religião de livro, mas eu tenho notado na Comunidade Pagã uma crescente interpretação dos mitos e textos antigos como se fossem verdades literais.
No Patheos Sarah Amis cita trechos dos antigos hinos à Inanna da sacerdotisa Enheduanna para justificar a androginia sagrada. No Patheos, Dana Corby cita o mito de criação Feri e afirma que este é o mito de criação, tanto da Wicca Tradicional quanto do Ofício.
Quando o pagão moderno estuda sobre os povos antigos, seus mitos, seus ritos e sua visão do divino, ele deve perceber qual era a função, a razão e o propósito, bem como os ritos e cultos. A base de uma crença, uma espiritualidade, uma religião está na busca por realidades eternas, não na satisfação de nosso ego.
Sarah Amis cita o trecho onde Enheduanna atribui a Inanna o segunte discurso:
“Quando eu me sento na cervejaria, eu sou uma mulher e eu sou um jovem exuberante. Quando eu estou presente em um lugar de brigas, eu sou uma mulher, uma figura perfeita. Quando eu me sento junto à porta da taberna, eu sou uma prostituta familiarizada com o pênis; a amiga de um homem, a namorada de uma mulher.”
Mas para compreender a função , a razão e o propósito, temos que compreender a cultura Sumeriana e os mitos de Inanna.
A androginia cerimonial tem uma longa história. Na Mesopotâmia, as pessoas do tempo envolvidas na adoração da deusa são frequentemente descritas em textos literários relacionados aos rituais do templo como andróginos ou sexualmente ambivalentes, eunucos, hermafroditas ou travestis.
As sacerdotisas e os sacerdotes transgêneros têm a habilidade de trespassar, de revelar duas palavras essencialmente diferentes uma da outra. Nessa transgressão, a unidade original da criação do mundo é revelada.
As pessoas de gênero ambíguo atuavam dentro dos limites do ritual do templo. Assim contidos, o rompimento da realidade fabricada permitia aos cultuadores contemplarem a fragilidade de suas realidades construídas e dar espaço à instabilidade dentro de seu mundo predominantemente previsível.
Os aspectos rituais da androginia conectam-se ao propósito sagrado de transgredir para revelar o outro lado, de pertencer a mais de um mundo. Esta transposição espiritual era mais facilmente atravessada pelos andróginos do templo porque eles já haviam atravessado as fronteiras tradicionais da definição de gênero. ["Inanna, Lady of Largest Heart", de Betty De Shong Meador, University of Texas Press]
A inversão de papéis tem sua função, razão e objetivo na propagação da ordem social:
Todas as maiores funções da vida estavam associadas a uma ou mais divindades patronas e um corpo de mitos e rituais. Nossa distinção entre “sagrado” e “profano”, o reino da igreja e da rua seria ininteligível aos gregos antigos. E nós não podemos compreender o mundo deles a menos que nós percebamos que todos os processos da vida estavam interligados com noções místico-religiosas. Estudantes do passado tem procurado por uma teoria, uma chave única, que poderia abrir a porta para a compreensão da natureza e do propósito dos rituais religiosos nas sociedades pagãs. Uma teoria mais velha via no ritual primariamente um proposito imediatamente pragmático: o alvo do ritual era promover a fertilidade da terra e da espécie humana, produzir chuva, pacificar os Deuses ou evitar desastres. A antropologia mais recente tem apontado o papel do ritual como um perpetrador dos valores sociais e normas comportamentais, ou em seus méritos psicológicos como ajudar as pessoas a conviver com as contradições e problemas da vida.
Se o propósito da iniciação é didático, para doutrinar as futuras gerações com os valores das velhas para que a sociedade continue, os rituais de escape tendem a proteger os padrões sociais por providenciar uma liberação temporária e controlada. O significado mais comum que serve a esse propósito é a inversão de papéis, que é tão atestado quanto a iniciação. Nas condições controladas do ritual, o excluído, o submisso e o maldito podem sair das restrições sociais e das limitações da existência. [“Reign of Phallus”, de  Eva C Keuls]
No entanto, os mitos principais e maiores dos Deuses tinham outra função, razão e objetivo:
No rito, o homem se identifica com o primeiro princípio e a mulher com o outro. Essa união reproduz o Hiero Gamos, o Casal Divino, o Andrógino, bem como o mistério da natureza desse mundo, um mundo que é manifestado e condicionado, em que a humanidade aparece como separados em uma dualidade, vão se unir por um instante. No orgasmo sexual, a lei da dualidade é suspensa, o êxtase ocorre e, no arrebatamento, conduz os celebrantes à iluminação absoluta. [“Shiva e Dioniso”, de Alain Danielou]
Os hinos de Enheduanna eternizaram o tremendo poder de Inanna, a única Deusa que desceu ao submundo e voltou por conta própria. O poder de Inanna é tão grande que até os Deuses mais antigos temem sua fúria. Inanna é a Deusa do Amor, mas é também a Deusa da Batalha. Fica evidente que é nesse contexto que Enheduanna atribui a Inanna o poder de mudar o gênero.
Entretanto estes não são os únicos aspectos e atributos de Inanna. Diversos hinos de Enheduanna são canções de Inanna para Dumuzzi. Nestes hinos, Inanna demonstra toda sua exuberância, sensualidade e sexualidade feminina. Estes hinos estão tão carregados de erotismo que seria escandaloso para muitos pagãos modernos verem uma Deusa que exalta ao máximo os atributos mais carnais de toda mulher, tornando sagrado, o desejo, o prazer e o sexo.
Dana Corbi cita o que ela afirma ser o “mito de criação” da Wicca Tradicional e do Ofício:
“A Deusa, sozinha no universo que Ela havia criado, sentiu a necessidade de ter um companheiro, um reflexo, um parceiro. Então ela própria se dividiu para criar esse parceiro e o Deus nasceu. Vê-lo era deseja-lo e a Deusa sentiu desejo. Dançando, mexendo, cantando o primeiro encantamento conhecido, ela o seduziu. Eles se amaram e se tornaram Um novamente e do seu amor o mundo da matéria nasceu.”
Este texto é muito próximo do texto do livro “A Dança Cósmica das Feitiçeiras”, de Starhawk [Tradição Reclaiming/Feri] e muito utilizado pelas tradições diânicas e pelas religiões da Deusa. De acordo com Dana Corbi, este é o “mito de criação” da Wicca Tradicional, inspirado pelo livro “Arádia, o Evangelho das Bruxas”, de Charles Godfrey Leland. Dana Corbi ainda acrescenta que este é o mito de criação “universal” nas velhas formas do Ofício.
Por mais que eu respeite Dana Corbi, como estudante dedicado da Wicca e Bruxaria Tradicional estas afirmações esbarram em diversos problemas. A Bruxaria Tradicional é tão diversificada em suas práticas e crenças que é completamente sem sentido afirmar que haja um “mito de criação universal” nas velhas formas do Ofício. A Wicca Tradicional é Britânica, enquanto o livro de Charles Godfrey Leland fala da Strega, um tipo de Bruxaria Tradicional Italiana. Nos textos atribuídos a Gerald Gardner e nos Livros das Sombras não há qualquer indício de um “mito de criação”.
A Comunidade Pagã está fortemente influenciada pelo “neopaganismo americano”, como bem explicou John Halstead. O mais provável é que covens tradicionais acrescentaram o “mito de criação” da tradição Feri. O crescimento, popularização e comercialização da Wicca resultaram na infiltração de agendas politicas e pessoais. Para o público curioso, interessado e simpatizante, os covens wiccanos tem tentado atender, através de ideias, práticas e teologias mais inclusivas. O que certamente explicaria por que têm aparecido tantos livros de bruxos e sacerdotes voltados para a comunidade LGBT.
Essa confusão aumenta mais quando grupos, covens e organizações, para aumentar o interesse do publico geral, acabam se identificando como sendo wiccanos. Infelizmente o canal de Paganismo do Patheos tem seguido essa tendência. O engraçado é que a própria Comunidade Pagã reclama do “privilégio wiccano”.
O conceito de uma Deusa criadora e transgênero é um mito moderno, construído pelo ser humano, em busca de uma espiritualidade, uma religiosidade e uma crença que satisfaça suas necessidades egoístas. As Religiões Antigas mantiveram por milênios os mitos, os ritos e os mistérios de cada um dos Deuses, mesmo aqueles que acabaram assimilando ou sendo identificados com os Deuses de outros povos.
Nós que somos pagãos modernos e sabemos o quando devemos aos nossos ancestrais, devemos recuperar os valores e princípios das religiões antigas. Nós devemos evitar essa religiosidade de conveniência, essa espiritualidade sintética, essa crença artificial, inventada e vendida para satisfazer a vaidade humana. Nosso serviço é para nossos ancestrais e Deuses.

Um comentário:

Henrique Camacho disse...

Concordo plenamente com tudo o que foi dito no texto! Penso exatamente como você. As pessoas misturam muitas coisas e criam mitologias para "agradarem" os alheios e fazer o que bem estiver em sua cabeça, o que eu acho errado. Vai ver se os cristãos manipulam partes de suas doutrinas para agradarem os fiéis? Não! Pra entrar na religião tem que aceitar as leis, o mesmo vale pro paganismo em geral. Eu não vou manipular textos pra agradar fulano ou cicrano que queiram seguir a Deusa dentro da minha tradição. Sendo assim eu acho mais correto haver uma propria tradição pra trans e pessoas do tipo. Querem intervir e mudar tudo, por isso a dualidade sagrada está sendo corrompida. As pessoas não entendem o que é masculino e feminino.