segunda-feira, 28 de março de 2011

Da "necessidade" de uma religião "evoluir"

Uma questão interessante e importante para se refletir, principalmente com tantos [pseudo]sacerdotes afirmando que uma religião deve mudar e evoluir:
"Como eu sempre digo, a Wicca hoje é muito mais do que os escritos de Gardner ou de quem quer que seja. O que várias pessoas fazem no mundo hoje é muito diferente do que aquilo que Gardner propôs um dia e isso não tem nada demais e não desmerece a Wicca de forma alguma. Só retrata o processo natural de evolução de uma religião!"
O que várias pessoas fazem não é do interesse do pagão, bruxo e wiccano sério, senão teríamos permanecido católicos ou seguido uma das muitas vertentes do Cristianismo. A Wica sempre foi mais do que Gardner ou outro autor escreve, mesmo porque nós não somos uma "religião de livro", só o Pavão vive estufando suas penas para promover seus livros como se fossem divinamente inspirados.

"Se a Wicca é uma religião que busca inspiração para sua espiritualidade na natureza, seria contraditório desejar que ela continuasse a ser praticada da mesma forma que era há mais de 5 décadas. Olhe a natureza e veja a evolução. Ela não pede nossa opinião e autorização para evoluir, nela a evolução simplesmente acontece. E o mesmo ocorre com uma religião, que é o resultado daquilo que outros um dia fizeram e pensaram e que seguramente teria mudado muito se as pessoas que a idealizaram ainda estivessem aqui."
A natureza não evolui. As espécies evoluem. Por processos ditados pela natureza. Uma religião não é um organismo e o que o autor propõe parece mais um estupro do que um cruzamento.
"Não precisa ir longe, é só ver quantas versões diferentes do Livro das Sombras existem, aquelas que foram escritas e rescritas pelo próprio Gardner entre a década de 50 e 60, com os adendos ou não de Doreen Valiente".
Para comparar LdS [Livro das Sombras], seria preciso ter acesso aos LdS. Apenas iniciados em linhagens tradicionais têm acesso aos LdS de covens pertencentes à WTB [Wica Tradicional Britânica], o que não é o caso do autor.
"Sobre minhas obras e minha visão, eu nunca chamei o que faço de 'Wicca Moderna', para mim é simplesmente Wicca e ponto. A questão de eu concordar ou não com uma religião não implica no fato de eu poder praticá-la ou não. Se fosse assim, os Cristãos teriam que estar praticando o Cristianismo primitivo até hoje e novas denominações não teriam surgido. Eles não mudaram o nome de sua fé somente porque alteraram aquilo que não concordavam em sua antiga religião e forma de praticá-la. Ainda se chamam de Cristãos. Se não fossem esses 'revolucionários', as missas ainda seriam realizadas em latim, sem que ninguém entendesse o que se era falado durante elas."
O autor não entende a própria religião, não entenderia a religião cristã. Quando alguém "não concorda" com uma religião, não tem como praticá-la, procura outra coisa. O que aconteceu com o Cristianismo foi mais um efeito social e político do que uma "evolução" da religião. O que aconteceu foi que diversos reinos católicos começaram a traduzir a bíblia para a língua local, além do latim, a única língua permitida pela Igreja. Nestes locais, cresceu um movimento para que qualquer pessoa pudesse ler e interpretar a bíblia, de onde surgiu o Protestantismo. As diversas vertentes contemporâneas do Cristianismo são fruto dessa livre interpretação e isto não consiste em uma evolução da mesma.
"Não acredito que 50 anos seja suficiente para deturpar ou evoluir nada. Até porque, qualquer coisas que evolui está em constante transformação, o tempo não para. A Wicca está em processo de evolução contínuo."
O autor usa esse argumento fajuto de que a Wicca está evoluindo para sustentar, embasar e impingir os valores, crenças e práticas dele, do seu coven e de sua "tradição".
Aproveito um texto divulgado no forum Amber and Jet [autor: Steph Brady] para esclarecer a questão:

1°) Ela [a religião] deve refletir os valores da sociedade mesmo quando a sociedade muda.
No texto integral, o autor cita o exemplo da segregação. A religão não mudou, o que mudou foram os hábitos e costumes das pessoas que são membros ou sacerdotes das mesmas. Infelizmente a segregação foi e é justificada ainda por leituras tendenciosas de livros, sagrados ou seculares. Haja visto o lamentável exemplo do Caturo e seu patente racismo, xenofobia e fascismo escamoteado como Neopaganismo.
2°) Ela deve ser relevante aos seus seguidores.
Definitivamente errrado. A religião deve ser relevante ao Deus ou Deuses que servem. Uma religião não pode ser um clube ou grupo social.
3°) Para uma religião crescer e prosperar ela precisa ter um processo de recrutamento eficiente.
Princípio básico do Paganismo, da Bruxaria e da Wica: Nós não fazemos proselitismo. A despeito disto, pelas formas nem sempre mais desejadas, nós somos o grupo que mais cresce.
4°) A religião precisa gerenciar continuamente sua percepção pública.
Os organizadores de templos, covens e grupos é que tem que ter essa preocupação em fazer uma boa assessoria de imprensa e relações públicas, reafirmando e esclarecendo os princípios e valores de uma religão. Não haveria muito o que fazer, nem sobre o que se sustentar, se uma religião transforma-se conforme o desejo de seus seguidores, praticantes e sacerdotes.
Nota final: O propósito de uma religião sempre foi a de servir ao Deus ou Deuses, não às vaidades ou objetivos pessoais das pessoas. Isto, quando acontece, é sinal de que o indivíduo está deparando com uma seita, ou pior, com um culto de personalidade.

3 comentários:

MP disse...

"No part of the Amber and Jet group may be forwarded off-list or used
in another forum in any form, electronic or print, without the express written
consent of the original writer/poster."

Beto disse...

Just for your concern: I have already ask permission from Steph Brady to translate, publish and comment here his text and he gave to me.
So, whoever you are, I hope you have better argument than that, if you want to comment here.

Draku-Qayin vel Sabatraxas (a.k.a. Adriano Carvalho) disse...

"livros divinamente inspirado" ou "livros espertamente plagiados"... hahahaha ótima crítica... ;-)