segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O curandeiro muçulmano

"O senhor é muçulmano, Dr. Amir?" A pergunta me pegou de surpresa, como pegaria a qualquer psiquiatra americano cuidadoso em revelar informações pessoais.
Mas estávamos no Iraque, onde a religião é um elemento central para a vida e para a identidade das pessoas.
Então, após uma leve pausa, respondi com uma afirmativa tímida ao mulá que eu tinha ido ver.
O mulá Eskandar era um curandeiro - um homem de aparência jovem, bronzeado e de barba, que usava uma túnica branca e fluida e um solidéu combinante.
Sentado sobre um tapete na área da recepção com um pôster gigante da Kaaba sagrada de Meca, ele emanava autoridade e sabedoria, apesar da sua relativa juventude.
Tinha ouvido falar de curandeiros em minhas viagens ao Iraque.
Eles eram alternadamente difamados como charlatões que vitimavam uma população supersticiosa ou admirados por preencherem um vazio, particularmente nos cuidados à saúde mental, num país que presenciou um verdadeiro êxodo de médicos.
Assim, quando um colega iraquiano se ofereceu para me apresentar ao curandeiro, eu agarrei a oportunidade.

O caminho de um curandeiro é árduo, disse o mulá Eskandar, falando em curdo.
"Essa vocação", ele continuou, "é reservada a homens religiosos e espirituais".
O mulá prosseguiu, recontando seus 15 anos de aprendizagem com um renomado curandeiro, que o ensinou a essência do tratamento espiritual, da lei islâmica e das tradições proféticas.
Sua descrição me fez lembrar dos meus próprios anos na faculdade de medicina e no treinamento da residência médica, que foram longos e difíceis.
"Mais de 80% dos meus pacientes são mulheres", continuou.
"Elas sofrem de insônia, dor de cabeça, depressão e problemas conjugais".

Ele se esforçou para explicar que não aceitava dinheiro não vendia qualquer utensílio, ao contrário de um xeque ali perto "que vende mel aos pacientes - ele está mancomunado com o diabo".
"O que eu faço é como sua profissão, que tem médicos bons e ruins", ele prosseguiu.
"Os que se importam com os pacientes e os que só estão em busca de recompensas materiais".
O mulá explicou que trabalhava como clérigo assalariado numa mesquita durante a semana, e que suas atividades de cura eram reservadas para as sextas-feiras, dia do descanso.
A única recompensa que ele buscava, como comentou, era na vida após a morte.
Positivamente surpreso com a aparente integridade do mulá, aceitei o convite que ele faz a mim e ao meu colega para conhecer seu trabalho de perto.
O primeiro paciente a entrar em sua área de recepção foi uma jovem mulher, que usava uma roupa vermelha florida típica dos moradores de zonas rurais do leste do Curdistão.
Ela estava enfeitada com pulseiras e brincos de ouro, os dedos cobertos de pontos de tatuagem e hena.
Como a maioria das mulheres iraquianas solteiras, ela estava acompanhada da família: um pai pesado e de bigode, e uma mãe observadora.
A mãe explicou que, desde que a filha ficou noiva de um parente, ela apresentava ataques de desmaio, pesadelos, mau humor e incapacidade de caminhar.
A família tinha consultado um clínico geral, que a indicou a um neurologista, em vão.
Ela continuava a desmaiar quando se falava em casamento - até mesmo ficando agitada com a possibilidade do noivado iminente da irmã mais nova.
Conforme a mãe continuava a narrativa, meu colega iraquiano se inclinou e cochichou um diagnóstico no meu ouvido: "transtorno de conversão".
Esse transtorno é bem conhecido dos profissionais de saúde mental: antes chamado de histeria, ele é geralmente deflagrado ou piorado por um agente estressante bem definido, como o noivado, e seus sintomas muitas vezes envolvem funções motoras ou sensoriais.
Assim como as mulheres judias jovens, de classe média e seculares que buscaram a ajuda de Freud na Viena do século 19, as mulheres iraquianas muitas vezes se veem entre tradições antigas e necessidades pessoais numa sociedade global - e cada vez mais recorrem à medicina interna, psicologia ou curandeiro para aliviar esses sintomas.
O mulá Eskandar convidou as jovens mulheres a sentar numa cadeira alta (na verdade, uma torre de seis cadeiras de plástico empilhadas e começou a entoar um verso do Corão no ouvido direito da jovem, implorando pela ajuda de Deus e alertando sobre as tentações do demônio.
Então ele explicou que a jovem mulher estava possuída por um gênio, um tipo de espírito do mal que o Corão culpa por semear maldade e doença no mundo - neste caso, espalhar a discórdia na família da jovem ao perturbar seu casamento.
Para banir o gênio, o mulá Eskandar prescreveu um regime de orações, banhos diários e perfume de água de rosas.
E aconselhou a paciente sobre as responsabilidades de uma filha que se casa e a felicidade que a esperava quando ela tivesse sua própria família.
Ocorreu-me que os rituais do mulá Eskandar, particularmente este aconselhamento tranquilizador, parecia uma imitação da nossa terapia de apoio muitas vezes praticada na medicina ocidental.
Sua opinião respeitável e sua aparente empatia, além de sua habilidade em realinhar a visão da mulher para uma perspectiva mais positiva, pareceram dar à jovem certo conforto imediato.
Além disso, culpar o gênio permitia à família ver o mau comportamento da jovem como uma aberração e colocar a responsabilidade sobre um ser sobrenatural, em vez de nela própria.
Meu colega iraquiano concordou que, apesar de sua própria perspectiva fortemente secular, ele ainda acredita que curandeiros honestos desempenham um importante papel num país destruído pela guerra e que sofre com uma grave escassez de profissionais de saúde mental.
Vim ao Iraque profundamente descrente quanto a suas tradições de tratamentos religiosos folclóricos.
Para minha surpresa, encontrei um curandeiro preocupado que às vezes tem mais sucesso no tratamento de pessoas com problemas mentais do que os poucos psiquiatras treinados e clínicos gerais do país.
O exemplo do mulá Eskandar nos mostra que o progresso psiquiátrico não pode ser alcançado apenas pela ciência de ponta - ele só pode ser obtido quando o cuidado orientado ao paciente é prioridade.
Fonte: Yahoo! Notícias
Nota da casa: O Islamismo, assim como o Judaísmo e o Cristianismo, assimilou diversas crenças e práticas regionais nativas por onde passou. Sacerdotes, sacerdotisas, áugures, curandeiros tiveram que se adaptar para sobreviverem, para manterem a tradição, a sabedoria e o conhecimento milenar. A grosso modo, estas crenças e práticas assimiladas são resquícios do que se chama Paganismo.

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