segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Bruxaria e história

“Bruxaria” não era uma simples questão de nomeação, mas o produto de diferenciações muitas vezes complexas. Os que escreveram a seu respeito foram especialmente confundidos por seu caráter inversivo e este ato de reconhecimento os comprometia com as convenções de pensamento e expressão.
Mas cedo ou mais tarde os teóricos da Bruxaria se defrontaram com um conjunto de problemas – os motivos para que o Diabo e seus agentes serem muito mais ativos em sua própria época do que em qualquer outra.
Isto não significava que a especulação sempre tenha sido muito profunda. Na verdade, os autores sobre Bruxaria eram levados a considerar a significação mais profunda da magia e da bruxaria como aspectos definidores de sua época e decisivos para seu significado.
Os próprios historiadores modernos praticamente ignoraram a questão do porque as perseguições à Bruxaria surgiram entre os séc. XV e XVIII e não em alguma outra época. A maneira como os contemporâneos explicavam o que também viam como um quebra-cabeças histórico pode ter algum interesse intrínseco. Em particular, estavam preocupados com um de seus temas centrais – a leitura escatológica dos asssuntos corentes. A simples evidência de sucessos de Bruxaria reforçava a divisão binária da história do mundo agostiniano como uma luta dramática entre forças morais antitéticas, da qual o resultado é garantido pela vitória de um grupo sobre o outro. A evidência de sua aceleração deu precisão à idéia de que o desenlace estava próximo, transformou em assunto mais exato a situação da época corrente no fim da história e ajudou grandemente na identificação do Anticristo. Os escritores sobre bruxaria dependiam de uma teologia da história e ao mesmo tempo contribuíam para sua elaboração. O resultado foi uma interpretação da bruxaria radicalmente diferente de tudo que poderia ter surgido.
O debate sobre a relatividade no saber histórico não adquiriu a estatura do debate na ciência, principalmente porque a maioria dos historiadores em geral admitiram a questão. O positivismo ingênuo daqueles para quem o passado poderia ser fielmente retratado em narrativa já havia sido abandonado como mistificador. E a tentativa de garantir o direito de dizer a verdade histórica dando uma explicação direta dos “fatos” havia se mostrado não passar de uma afirmação de autoridade. Quanto ao mais sofisticado “positivismo lógico” dos que tentavam reduzir toda investigação empírica aos mesmos cânones metodológicos também foi desacreditado. Os argumentos alternativos são desdobramentos das visões da autonomia que fizeram da interpretação o pré-requisito da compreensão. Os historiadores foram impelidos nessa direção pelo desenvolvimento da linguagem comum, pela atenção à significação e pelas realizações de antropólogos sociais e culturais. O efeito dessas influências tem sido o de desenganchar a história de suas amarras tradicionalmente realistas, removendo gradualmente o sentido de que o pensamento histórico é responsável por qualquer outra coisa que não ele próprio. Isto tem conseqüências libertadoras para o modo como vemos o próprio passado da disciplina. Agora os historiadores deveriam ser capazes de admitir que a história é simplesmente uma forma de introspecção para os que constróem o passado de certas maneiras.
O modo como uma sociedade entende seu passado raramente é uma questão indiferente e freqüentemente é um elemento importante de sua auto-imagem; é sempre um dos modos em que a sociedade se revela e revela as suposições e crenças sobre seu próprio caráter e destino. O que é real ou mítico numa visão do passado é função apenas das regras adotadas pelos historiadores responsáveis por ela.
Clark, Stuart. Pensando com Demônios. Edusp: 2006, pg. 407-413.

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