quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Arqueólogos encontram "casa de bruxa"

Arqueólogos britânicos encontraram um gato mumificado em uma casa do século 17 durante um projeto de construção em Lancashire, no norte da Inglaterra.
A casa foi descoberta perto de um reservatório no vilarejo de Barley. A construção tem uma sala fechada e, dentro de uma das paredes, foi encontrado o gato mumificado.
Os historiadores afirmam que a casa pode ter pertencido a uma mulher acusada de bruxaria que vivia na região no século 17 e acredita-se que o gato tenha sido emparedado vivo para proteger os moradores da casa de maus espíritos.
Uma companhia de fornecimento de água, a United Utilities, levou os arqueólogos para o local, um procedimento de rotina da companhia antes de fazer obras de escavação em áreas que podem ter importância arqueológica.
"É como descobrir sua pequena Pompeia. Raramente temos a oportunidade de trabalhar em algo tão bem preservado", disse Frank Giecco, arqueólogo que descobriu a casa. "Assim que começamos a cavar, encontramos o topo das portas e sabíamos que tínhamos em mãos algo especial", acrescentou.
A região de Lancashire teve muitos registros da presença de mulheres acusadas de bruxaria no século 17, principalmente na área de Pendle Hill, onde a casa foi encontrada. Na época, distritos inteiros em algumas partes de Lancashire relatavam ocorrências de bruxaria, contra homens e animais, gerando uma onda de acusações contra muitas pessoas.
Em 1612, 20 pessoas, entre elas 16 mulheres de várias idades, foram levadas a julgamento, a maioria delas acusada de bruxaria, em um episódio que ficou conhecido na região como o 'julgamento das bruxas de Pendle'.
Frank Giecco afirmou que a construção encontrada é um "microcosmo da ascensão e queda desta área, do tempo das 'bruxas de Pendle' até a era industrial. Há camadas de história bem na sua frente".
"Não é com frequência que você encontra uma casa de contos de fada completa, incluindo o gato da bruxa", disse Carl Sanders, gerente de projeto da companhia. "A construção está em ótimas condições, você pode andar por ela e ter um sentimento real de que está espiando o passado. Pendle Hill tem uma verdadeira aura, é difícil não ser afetado pelo lugar", afirmou Sanders. "Mesmo antes de descobrirmos a construção, havia muitas piadas entre os funcionários sobre vassouras e gatos pretos. A descoberta realmente nos surpreendeu", disse.
"Em termos de importância, é como descobrir a tumba do (faraó egípcio) Tutancâmon", disse Simon Entwistle, especialista nas bruxas de Pendle. "Daqui a alguns meses teremos os 400 anos dos julgamentos das bruxas de Pendle e aqui temos uma descoberta rara e incrível, bem no coração da região das bruxas."
"Gatos aparecem muito no folclore sobre bruxas. Quem quer que tenha dado este destino horrível a este gato, certamente estava buscando proteção de espíritos malignos", acrescentou.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Sete dias de dor

Eu morri. Pela terceira vez.
A primeira foi afogado em uma piscina.
A segunda foi quando eu fiz endoscopia.
A terceira foi quando eu fiz a cirurgia de osteotomia maxilar.
Na primeira vez a gente fica impressionado, não há quem não pense em como é morrer, mesmo os descrentes pensam nisso.
Os ateus tem uma vantagem prática, eles simplesmente aceitam o fato, sem especular com o além.
Como bom pagão a minha concepção é bem naturalista e como eu não deixo minha concepção interferir em outros aspectos da minha vida ou da de utrem, então não há mal algum em ter tal espectativa.
O que eu posso falar das três experiências de morte que tive é que eu acordei, como todos acordam no dia seguinte, mas sem sonhos, sem lembranças ou sensações do período em que eu estava "morto".
Existem Deuses e Deusas da morte, existem Paraísos pagãos e nós temos a certeza, não a crença, de que nossa existência há de continuar.
Para mim fica bem claro que a morte é um estado, uma circunstância, não uma realidade permanente ou uma entidade a ser temida.
Todos os dias nós comemos. Sejam coisas que foram plantadas, cujas sementes precisaram morrer para que viessem os frutos, sejam animais que foram criados, cujo sacrifício é necessário para suprir nossas necessidades alimentares. Tem gente que tem horror e prurido quanto a isso, mas tudo que vive mantém sua existência pela morte de outros seres.
Ateus céticos e agnósticos discordam. Recentemente eu li um texto afirmando que nós somos como computadores, rodando um programa e que a alma é uma ilusão produzida por este programa. Uma analogia extremamente pobre e longe da realidade.
O ser humano tem senciência, consciência e percepção de sua existência, sendo capaz de definir e transmitir culturalmente tais conceitos, algo que um computador (e o animal) não é capaz.
O ser humano é capaz de se modificar, se alterar, se melhorar, ampliando, inovando e revolucionando as idéias, concepções, ações, decisões, interpretações e habilidades, algo que o computador não é capaz.
Cada ser humano é único em sua personalidade, identidade, características e talentos. Um computador, por mais veloz e mais dados que carregue, será sempre igual a todos os demais e somente executará os programas e o sistema operacional que estão gravados em sua HD.
Mas aproveitando a analogia homem=computador, então nossa existência não é produto do acaso, mas sim o resultado "tecnológico" de diversos inventores. Nós temos um usuário ou propietário que cuida de nós, nos dirige e nos faz "back-up"; assim como o computador, o ser humano está interligado em uma enorme "rede". Em suma, mesmo depois que o "homem-computador" queimar/morrer, nosso "sistema operacional" e "back-up" estará preservado em algum dispositivo físico (CD, pendrive) ou virtual (servidor, rede). Ou seja, aquilo que morre é o corpo. Nossa identidade/personalidade/alma continuará a existir, bastando ser "baixada" ou "instalada" em outro "homem-computador" para voltar a funcionar.
Para mim está bem claro que, se há vida no além, continua sendo vida e a morte é simplesmente um estado, circunstância, restrita a um corpo/objeto. Nós continuamos a existir, do mesmo modo que acordamos no dia seguinte, do mesmo modo que recobramos a consciência depois de uma anestesia geral. Ainda que mude o ambiente, o local, o "hardware" e a nossa função, continuaremos sendo nós mesmos.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Cientistas desvendam profecia maia

Arqueólogos de diversos países se reuniram no Estado de Chiapas, uma área repleta de ruínas maias no sul do México, para discutir a teoria apocalíptica de que essa antiga civilização previra o fim do mundo em 2012.
A teoria, amplamente conhecida no país e contada aos visitantes tanto no México como na Guatemala, Belize e outras áreas onde os maias também se estabeleceram, teve sua origem no monumento nº 6 do sítio arqueológico de Tortuguero e em um ladrilho com hieróglifos localizado em Comalcalco, ambos centros cerimoniais em Tabasco, no sudeste do país.
O primeiro faz alusão a um evento místico que ocorreria no dia 21 de dezembro de 2012, durante o solstício do inverno, quando Bahlam Ajaw, um antigo governante do lugar, se encontra com Bolon Yokte', um dos deuses que, na mitologia maia, participaram do início da era atual.
Até então, as mensagens gravadas em "estelas" - monumentos líticos, feitos em um único bloco de pedra, contendo inscrições sobre a história e a mitologia maias - eram interpretadas como uma profecia maia sobre o fim do mundo.
Entretanto, segundo o Instituto Nacional de Antropologia e História (Inah), uma revisão das estelas pré-hispânicas indica que, na verdade, nessa data de dezembro do ano que vem os maias esperavam simplesmente o regresso de Bolon Yokté.
"(Os maias) nunca disseram que haveria uma grande tragédia ou o fim do mundo em 2012", disse à BBC o pesquisador Rodrigo Liendo, do Instituto de Pesquisas Antropológicas da Universidade Autônoma do México (Unam).
"Essa visão apocalíptica é algo que nos caracteriza, ocidentais. Não é uma filosofia dos maias."
Novas interpretações
Durante o encontro realizado em Palenque, que abriga uma das mais impressionantes ruínas maias de toda a região, o pesquisador Sven Gronemeyer, da Universidade australiana de Trobe, e sua colega Bárbara Macleod fizeram uma nova interpretação do 6º monumento de Tortuguero.
Para eles, os hieróglifos inscritos na estela se referem à culminação dos 13 baktunes, os ciclos com que os maias mediam o tempo. Cada um deles era composto por 400 anos.
"A medição do tempo dos maias era muito completa", explica Gronemeyer. "Eles faziam referência a eventos no futuro e no passado, e há datas que são projetadas para centenas, milhares de anos no futuro", afirma.
Para a jornalista Laura Castellanos, autora do livro "2012, Las Profecias del Fin del Mundo", o sucesso da teoria apocalíptica junto à cultura ocidental se deve a uma "onda milenarista" que, segundo ela, "antecipa catástrofes ou outros acontecimentos cada vez que se completam dez séculos".
Para Castellanos, esse tipo de efeméride é reforçada por uma 'crise ideológica, religiosa e social'.
Ela observa que as profecias sobre 2012 não têm somente uma 'vertente catastrófica', mas também uma linha que "prognostica o despertar da consciência e o renascimento de uma nova humanidade, mais equitativa".
Crença no final
A asséptica explicação científica e histórica vai de encontro à crença popular no México, um país onde há quem procure adquirir os conhecimentos necessários para sobreviver com seu próprio cultivo de alimentos em caso de uma catástrofe mundial.
Muitos dos que vivem fora procuram regressar ao país porque sentem que precisam estar em casa em 2012, e há empresas que oferecem espaço em bunkeres subterrâneos, com todas as comodidades.
Afinal, o possível fim do mundo também é negócio. O próprio governo mexicano lançou uma campanha para promover o turismo no sudeste do país, onde estão localizados os sítios arqueológicos maias.
Muitos governos dos Estados onde existem ruínas da antiga civilização maia já estão registrando aumento na chegada de turistas.
Fonte: G1 Mundo

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Dia de Salácia

Dia I de Dezembro é consagrado a SALÁCIA, Deusa ligada à água salgada e ao culto de NEPTUNO, sendo por vezes considerada como Sua esposa. SALÁCIA - Cuja etimologia indica um significado associado ao acto de saltar, pular, aludindo ao movimento das águas do mar, bem como dos rios - estaria particularmente associada às águas salgadas.
Há uma lenda popular interessante narrada pelo Dr. Rocha Martins em 1935 (texto a itálico):
“Na verdade, ao que parece, Alcácer do Sal foi fundada pelos lusitanos no ano Vlll de César, isto é trinta anos antes de Cristo, atribuindo-a a uma lenda que reza o seguinte: Bugud, califa africano, invadiu a Lusitânia, pondo as povoações a ferro e fogo. Havia na região de Alcácer, um tempo dedicado à deusa Salácia (um dos nomes da deusa Diana), que foi profanado pelos africanos. Quando estes se faziam ao mar, porém, um grande temporal destruiu as embarcações, perecendo no naufrágio a maioria dos invasores, e perdendo-se as riquezas roubadas. Os lusitanos viram no acontecimento um milagre da Deusa, e fundaram uma vila a que deram o nome de Salácia. Há também uma corrente de opinião para quem o nome de Salácia se referia, não à Deusa, mas à abundância de sal existente na região."
Antes de ler este texto, aqui a itálico, não tinha conhecimento de que SALÁCIA pudesse de algum modo estar relacionada com DIANA, Deusa Lunar do Bosque, que, tanto quanto sei, nunca teve nada a ver com o mar. No entanto, a menção do Seu nome nesta lenda pode indicar que havia na Lusitânia um extenso culto desta Divindade, ou, talvez, de uma Divindade lusitana que Lhe fosse de algum modo equivalente. A este respeito, é intrigante que o templo romano de Évora, comprovadamente de culto imperial, seja considerado como templo de DIANA; do mesmo modo, vale a pena referir que, na Crónica Geral de Espanha de 1344, considera-se que a Lusitânia recebeu o seu nome porque o mítico Hércules aí celebrou jogos em honra de DIANA (Ludi + DIANA).
O que por outro lado parece testemunhado neste mito é a intolerância totalitária muçulmana para com o Paganismo que talvez existisse ainda nas regiões hispânicas mais interiores no dealbar do século VIII, ou não fosse o Islão o irmão mais novo, e ainda mais radicalmente totalitário, do Cristianismo. Não é de todo impossível que tenha havido muito património pagão ibérico a ser destruído pelos sequazes de Mafoma, pois que o Paganismo (shirk, adoração de Outros que não Alá) constitui, na religião muçulmana, um crime dos maiores senão o maior.
Texto do Caturo, no Gladius.

domingo, 27 de novembro de 2011

A invenção do natal

Embora tradicionalmente a data represente a celebração do nascimento de Jesus, o festejo do Natal precede o próprio Cristianismo. Não há uma data exata definida, mas há relatos históricos de que as comemorações antecedem de 2 a 4 mil anos o nascimento de Jesus. "A origem do Natal é muito vaga", afirma Jany Canela, mestre em educação e graduada em História pela Universidade de São Paulo. "Na verdade, é sabido que muitos rituais e festas do Cristianismo eram originalmente tradições pagãs reunidas de maneira a incorporar também a cultura popular", afirma Jany.
Muitos antes do nascimento de Jesus, um antigo festival na Mesopotâmia, chamado Zagmuk, simbolizava a passagem de um ano para outro. As comemorações duravam 12 dias e a tradição dizia que, por conta do solstício de inverno (que marca a noite mais longa do ano), os monstros do caos ficavam furiosos. Para lutar contra eles, o rei deveria morrer no fim do ano e, ao lado do deus Marduk, ajudá-lo nessa batalha.
Para poupar o rei, um criminoso era vestido com suas roupas e tratado com todos os privilégios do monarca, sendo morto e levando todos os pecados do povo consigo. "Os povos antigos sempre realizaram festas de celebração em deferência aos marcos de transição da natureza, como as estações ou períodos representativos de mudanças importantes, entre eles o solstício (em dezembro) e o equinócio (em março)", explica Jany.
Um ritual semelhante, chamado de Sacae, era realizado pelos persas e babilônios. Sob os mesmos pilares da luta contra a escuridão, a versão também contava com escravos tomando lugar de seus mestres. "Por conta da relação luz/escuridão trazida pela simbologia do solstício, a teoria mais difundida sobre o Natal associa a data a esse período, em que alguns povos passavam a noite em vigília com tochas acesas para garantir que o sol nascesse e imperasse sobre a escuridão", afirma a historiadora.
Os gregos: homenagem a Saturno
A Grécia antiga também incorporou os rituais estabelecidos pelos mesopotâmios ao celebrar a luta de Zeus contra o titã Cronos. O costume alcançou os romanos, que passaram a realizar a Saturnalia (em homenagem a Saturno). A festa começava no dia 17 de dezembro e ia até o 1º de janeiro, comemorando o solstício do inverno. De acordo com os cálculos do povo, o dia 25 era a data em que o sol se encontrava mais fraco, porém pronto para recomeçar a crescer e trazer vida às coisas da Terra.
Durante o dia 25 de dezembro, conhecido como o Dia do Nascimento do Sol Invicto, não havia trabalho nem aulas e eram realizadas festas nas ruas, grandes jantares com amigos, além de que as árvores verdes eram ornamentadas com galhos de loureiros e iluminadas por muitas velas para espantar os maus espíritos da escuridão.
O Cristianismo
Segundo o Cristianismo, Maria deu à luz o filho de Deus, chamado Jesus, em um estábulo em Belém. No dia 25 de dezembro, entre bois e cabras, Jesus nasceu, sendo enrolado com panos e deitado em uma manjedoura (objeto usado para alimentar os animais). No entanto, a data exata do nascimento é polêmica.
Cross Content
Especial para o Terra
Nada de novo sob o sol. Nesta época do ano aparecem artigos e notícias divulgando aquilo que nós sabemos desde criancinhas.

Deuses não são para serem interpretados

Eu encontrei uma curiosa reflexão na SW, por parte de Herne, sobre a estranha mania de pagãos/bruxos/wiccanos acharem que os Deuses são como livros, estão abertos a "interpretação".
A “interpretação” não é apenas um exercício racional, mas antes de mais nada uma postura cultural. Explico: interpretamos as coisas (fatos, histórias, ritos, atos, etc) a partir de um conjunto de idéias que já trazemos em nós. Esse conjunto é sempre dado pela sociedade em que somos criados e introjetados através da educação (formal e informal). Ou seja: a cultura nos dota com óculos através dos quais vemos o mundo (e que também nos faz cegos para o que não conseguem passar por eles). Esse é o principal desafio dos antropólogos e etnólogos: conseguir tirar esses óculos e tentar vestir os óculos da outra cultura para poder vê-la a partir de si mesma e, então, tentar uma tradução dos significados daquela cultura para uma linguagem da nossa cultura, tornando-a compreensível para nós.
O sagrado de um povo também sofre essa “deformação”: acabamos por olhá-lo com os óculos de nossa cultura e o INTERPRETAMOS a partir do nosso conjunto de idéias. Para nós, por exemplo, é estranho que hindus passem fome com aquele imenso rebanho de vacas... mas eles nos olham horrorizados pela na falta estupidez e selvageria por comermos carne bovina no cotidiano. Nós os INTERPRETAMOS como atrasados; eles nos INTERPRETAM como selvagens abomináveis. Muitos acham abomináveis os costumes religiosos africanos e afro-brasileiros de sacrificar animais aos seus orixás... eles acham engraçado (e estranho) como essas pessoas têm tanto medo da morte e não compreendem que a essência do animal sacrificado, longe de ser violentada, foi elevada.
Não creio que Baal, Lucifer, Lillith se “transforme” naquilo que as pessoas pensam deles. Eles são o que são. A questão está – como colocou o Rufus – na INTERPRETAÇÃO que se faz desses (e outros deuses) a partir de critérios éticos, morais, sociais... enfim, culturais por outros povos. E eles continuam interpretados como “maus, perigosos, não-confiáveis” não porque o são ou se tornaram, mas porque estão sendo olhados com óculos estranhos àquela cultura.
Deixa te dar um exemplo: Pachamama é INTERPRETADA pelos ocidentais como uma DEUSA. E, quando se usa esse conceito, se traz à consciência todas as características desenvolvidas pelas culturas daquela região do planeta. Muitos de nós, inclusive, ainda pensamos em Deuses e Deusas dentro daqueles mesmos critérios cristãos: seres onipotentes, onipresentes, oniscientes, que controlam ou têm poder para interferir na nossa vida, para o bem ou para o mal... e isso se traduz na instituição da monarquia e/ou da concentração (e, as vezes, centralização) de poder nas mãos de uma pessoa. Essa idéia para os povos indígenas sul-americanos é totalmente estranha. Pachamama, Inti, Ñanderu, Mama Quilla... não são “deuses”, mas Espíritos que não tem poderes, mas capacidades... como nós, humanos, também temos capacidades. Particularmente é estranha essa idéia de que eles podem intervir na nossa vida, sobretudo para castigar. No conceito guarani, um “deus” que faça qualquer tipo de mal a uma pessoa simplesmente não é um deus! E por “qualquer tipo de mal” não estou falando só do castigo, mas até das idéias de “lei tríplice”, “cagada mágica”, “trapaça”, etc. E tudo isso se traduz na falta de instituições e papéis sociais que concentrem poder.
Muitas vezes, estamos com os olhos tão viciados pela nossa própria cultura que simplesmente não conseguirmos ver nada além dela. E acabamos interpretando erroneamente as coisas. Inclusive, os Deuses de outros povos.
Quanto à questão do "trabalho mágico reunindo pessoas com visões diferentes sobre o(s) Deus(es) que serão celebrados"... há muita coisa a se pensar.
Primeiro: será mesmo que os Deuses atendem a qualquer "chamado"? De qualquer pessoa? Você atenderia? Digo: se um estranho passa por você na rua e, todo sorridente, te convida a ir numa festa na casa dele, você iria??? Se te oferecesse comida, você comeria??? Se te oferecesse flores, você aceitaria??? E de te pedisse "favores especiais", você atenderia??? Por que achamos que os Deuses são mais ingênuos que nós?
Baal, Lúcife, Lillith não são órfãos de povo! Eles fazem parte de um contexto e só nesse contexto eles podem ser entendidos a ponto de serem chamados de forma que eles próprios compreendam. E atendam. Há formas, ritos, rituais, simbolos, odores, cores, palavras, idiomas etc, etc que eles reconhecem como sendo do seu "grupo". E para se ter ciência de todas essas informações, é preciso aprender de quem sabe. É preciso ser INTRODUZIDO naquele contexto sagrado, saber caminhar por aquele ambiente... e, então, ir se tornando conhecido (e reconhecido) pelos Deuses.
A partir desse ponto de vista, acho impossível que duas pessoas com visões antagônicas de um Deus ou Deusa possam fazer alguma coisa juntos. Ou melhor: possam fazer algo que realmente seja reconhecido por esse Deus ou Deusa a ponto de atender ao chamado.
Ver tal reflexão na comunidade pagã brasileira é um alívio, diante da Casa de Mãe Joana que é divulgado pela internet.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Sacerdócio e confrarias religiosas

O culto público, sob o controle do Estado, era efetuado por certo número de oficiantes e confrarias religiosas. Na época da monarquia, o rei ocupava o primeiro posto na hierarquia sacerdotal: era o rex sacrorum. Infelizmente, pouco se sabe sobre a maneira como eram celebrados os ofícios. Sabe-se no entanto que, na Regia, a casa do rei, praticavam-se três categorias de ritos: destinados a Júpiter (ou a Juno e a Jano), a Marte e a uma deusa da abundância agrícola, Ops Consina. Desse modo, a casa do rei era o lugar de encontro, e o rei, o agente de síntese das três funções fundamentais que, como em breve veremos, eram administrados separadamente pelos flamines maiores. É lícito supor que, já na época pré-romana, o rex tinha a seu lado um corpo de sacerdotes. Contudo, a religião romana caracteriza-se por uma tendência ao fracionamento e à especialização. Em Roma, cada sacerdote, cada colégio ou sodalidade tinha sua competência específica.
Depois do rex vinham, na hierarquia sacerdotal, os 15 flamines, em primeiro lugar os flâmines maiores: os de Júpiter (flamines Dialis), de Marte e de Quirino. Os flâmines não formavam uma casta; além disso, não constituíam sequer um colégio; cada flâmine era autônomo e ligado a uma divindade da qual tirava seu nome. A instituição é por certo arcaica; os flâmines distinguem-se por seu costume ritual e por um grande número de proibições.
Para os flâmines de Marte e Quirino, as obrigações e proibições eram menos severas.
São poucas as informações que temos sobre a origem do colégio pontifical. O colégio compreendia, além dos pontífices, o rex sacrorum e os flâmines maiores. Ao lado do flamen Dialis, o pontifex desempenhava, no círculo sagrado do rei, uma função complementar. Os flâmines exerciam seus ofícios de certa forma "fora da história"; efetuavam regularmente as cerimônias prescritas, mas não tinham o poder de interpretar nem de resolver situações inéditas. A despeito de sua intimidade com os deuses celestes, o flamen Dialis não traduzia a vontade do Céu, responsabilidade afeta aos áugures. Por outro lado, o colégio dos pontífices, mas precisamente o pontifex maximus, de quem os outros eram apenas o prolongamento, dispunha ao mesmo tempo de liberdade e de iniciativa. Comparecia às reuniões em que se decidiam sobre os atos religiosos, respondia pelos cultos sem titulares e fiscalizava as festas. No tempo da República, incumbia ao pontifex maximus criar os flâmines maiores e as vestais sobre os quais possuíam poderes disciplinares e ser o conselheiro, por vezes o representante destas últimas.
As seis vestais estavam vinculadas ao colégio pontifical. Escolhidas pelo sumo pontífice entre os seis e os doze anos de idade, as vestais eram ordenadas por um período de 30 anos. Protegiam o povo romano alimentando o fogo da cidade, que tinha a obrigação de nunca deixar se extinguir. Sua força religiosa dependia da virgindade: se uma vestal incorresse em falta contra a castidade, era enterrada viva num túmulo subterrâneo, e seu parceiro era supliciado.
O colégio augural era tão antigo e tão independente quanto o colégio dos pontífices. Mas o segredo da disciplina foi bem guardado. Sabe-se apenas que o áugure não era convocado para desvendar o futuro. Seu papel limitava-se a esclarecer se este ou aquele projeto era fas. Entretanto, já no fim da realeza, os romanos começaram a consultar outros especialistas.
Além destes colégios, o culto público compreendia muitos grupos fechados ou sodalidades, cada qual especializado numa técnica religiosa particular. Os 20 Fetiales sacralizavam as declarações de guerra e os tratados de paz. Os salii, dançarinos de Marte e de Quirino, em grupos que contavam com 12 membros cada um, atuavam em março e em outubro, sempre que se dava a passagem da paz à guerra e da guerra à paz. Os Frates Arvales protegiam os campos cultivados. A confraria dos Luperci celebrava, em 15 de fevereiro, os Lupercalia.
Tanto no culto público quanto no privado, o sacrifício consistia na oferenda de determinada matéria alimentar: primícias de cereais, uva, vinho doce e principalmente vítimas animais. Com exceção do cavalo de outubro, o sacrifício das vítimas animais obedecia à mesma encenação. Efetuavam-se libações preliminares sobre o lar portátil (foculus), que representava o foculus do sacrificante, e situava-se em frente ao templo, ao lado do altar. Em seguida, o sacrificante imolava simbolicamente a vítima, passando a faca sacrifical sobre o corpo, da cabeça até a cauda. Nos primeiros tempos, ele abatia o animal, mas no ritual clássico essa tarefa era desempenhada por certos sacerdotes (victimarii). A parte reservada aos deuses - fígado, pulmão, coração e alguns outros pedaços - era queimada sobre o altar. A carne era consumida pelo sacrificante e por seus companheiros no culto privado, e pelo corpo de sacerdotes nos sacrifícios celebrados em favor do Estado.
Autor: Mircea Eliade em "História das Crenças e das Idéias Religiosas II", pg 112 - 115, Editora Zahar.