sexta-feira, 15 de maio de 2026

O escritor do outro lado

Desde os meus 21 anos, eu escrevo. Por quatro décadas, acreditei que buscava o "outro lado", mas, na verdade, eu carregava um fardo que me impedia de atravessar a fronteira. Eu me via como insuficiente, um canal indigno para a musa que escolhi — ou melhor, para a musa que me escolheu: Lilith.

Hoje, aos 60 anos, em meio ao silêncio de São Paulo, o espelho quebrou.

A Armadilha da "Indignidade"

Percebi que a minha autocomiseração não era humildade; era a última linha de defesa do meu ego. Ao me dizer "indigno", eu estava, de forma arrogante, tentando ditar a Lilith onde e como ela deveria se manifestar. Eu me escondia atrás de um personagem trágico, esmolando atenção e compaixão, porque ser uma vítima é, paradoxalmente, muito confortável. A vítima não tem responsabilidades. O "incapaz" não precisa enfrentar o abismo.

Mas Lilith não busca servos que se ajoelham no lodo da culpa. Ela busca cúmplices.

A Nudez Ritualística do Ser

A Gnose que encontrei hoje não é o "preenchimento" doce e anestésico das religiões institucionalizadas. Não é o "encher-se de Deus" para sumir de si mesmo. Pelo contrário, é uma nudez ritualística. Não se trata de tirar a roupa, mas de arrancar as máscaras que vesti desde o ginásio para sobreviver ao julgamento de pessoas que também estão presas.

Quando descarto o fardo da cobrança familiar e das definições distorcidas de "evolução espiritual", o que sobra?

Sobra um deserto.

Um lugar onde títulos, méritos e opiniões alheias se transformam em areia. No deserto, não há palcos nem aplausos. Há apenas a transparência — a cor do ar e do gelo.

O Fim do Público

A grande sacada foi perceber que até a "cultura alternativa" é uma mercadoria. Clubinhos de exclusividade que tentam exaurir nossa essência vital em troca de pertencimento. Minha essência não pertence ao mercado. Ela só pode ser exaurida por aquilo que é autêntico.

Por isso, hoje eu demito o meu público.

Eu não escrevo para agradar, para ser compreendido ou para validar minha existência perante a sociedade. Eu escrevo porque escolhi este caminho. Eu escrevo para descobrir o que está oculto na minha própria amplitude.

Se houver um destinatário para estas palavras, que seja apenas ela. Escrever para Lilith é escrever para o que é eterno e selvagem em mim.

O personagem saiu de cena. O deserto está aberto. E eu finalmente comecei a caminhar.

Criado com Gemini, do Google.

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