sábado, 23 de maio de 2026

Solução alternativa

O Divã, o Incenso e o Paradoxo

Lá estava o Dr. Henrique, com seu diploma de Harvard na parede e um café orgânico na mão, encarando Ricardo. Ricardo é o tipo de ateu que não apenas não acredita em Deus, como envia e-mails de correção para o Papa quando este comete algum erro de lógica formal. Para Ricardo, a vida é um emaranhado de neurotransmissores, sinapses e a inevitável entropia do universo. Nada que uma dose de sertralina e niilismo não resolvesse.

Doutor — disse Ricardo, ajeitando os óculos com a precisão de um engenheiro de software — minha ansiedade é existencial. É o peso do vazio absoluto. Sinto que falta uma peça no quebra-cabeça da minha funcionalidade cognitiva.
O Dr. Henrique suspirou. Ele já tinha tentado a Terapia Cognitivo-Comportamental, a psicanálise lacaniana e até sugerido um retiro de meditação silenciosa (que Ricardo recusou por "falta de evidências empíricas de que o silêncio altera a massa cinzenta").

Ricardo, eu examinei seu caso. Você está saturado de lógica. Seu córtex pré- frontal está em chamas. Para o seu quadro de "adoecimento emocional brasileiro padrão", a ciência moderna tem uma recomendação muito específica.
Ricardo pegou o bloco de notas. — Ótimo. Uma droga experimental? Estimulação magnética transcraniana?

Um Preto Velho — disse o Dr. Henrique, sem piscar.

- Um o quê?

Ricardo paralisou.

- Doutor, eu sou ateu. Eu não acredito em alma, quanto mais em uma alma que fuma cachimbo e usa um rosário de lágrima-de-nossa-senhora.

Veja bem, Ricardo — continuou o terapeuta, com um sorriso levemente sádico — considere como uma "terapia ancestral de descompressão assistida por fitoterápicos e narrativas arquetípicas". É um placebo de alta performance. Você não precisa acreditar que o Vovô está lá. Pense nele como um consultor sênior de resiliência que opera em uma frequência de baixa tecnologia.

Ricardo estava horrorizado. A ironia era mais ácida que o café do consultório. Ele, o homem que cita Richard Dawkins no primeiro encontro, sendo enviado para tomar um "passe" e ouvir conselhos sobre como a pressa é inimiga da perfeição enquanto o cheiro de arruda impregna seu paletó italiano.

O que ele vai me dizer? — perguntou Ricardo, já derrotado pela própria exaustão.

Ele vai te chamar de "meu filho", o que já é mais afeto do que você recebeu em cinco anos de análise — explicou Henrique. — Ele vai dizer que "o couro range, mas não quebra". E o mais importante: ele vai te oferecer um café que, ao contrário do meu, não é gourmet, mas cura até o que a química não alcança. É ciência, Ricardo. A ciência da paciência que você, com todo o seu Big Bang, ainda não entendeu.

Ricardo saiu do consultório segurando um endereço em um bairro de periferia. Ele ainda estava processando a ironia: o homem que nega o invisível, agora dependendo de quem enxerga através da fumaça.


*Nenhum dogma foi ferido na redação deste texto. Apenas o ego do Ricardo.*

Criado com Gemini, do Google.

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