terça-feira, 5 de maio de 2026

O culto das Deusas Negras

Emily escreveu um texto bom, algo raro entre nós e até no Patheos.

Eu escrevi alguns textos colocando o contexto no qual surgiu e cresceu o Paganismo Moderno. Sobre as alegrias, dificuldades e decepções que eu tenho nessa comunidade/crença crescente.

Eu acho que não são as Deusas Negras que estão ressurgindo, Elas sempre estiveram onde estão.

Mas... nós sabemos que nem sempre é assim. O que não faltam são celebridades pagãs higienizando, caiando ou tentando suavizar os aspectos das Deusas Negras.

Então a pergunta que talvez eu tenha que fazer. O que significa escolher e ter uma adoração, devoção e até amor por uma ou mais Deusas Negras?

Isso é experimentar a Descida de Inanna/Ishtar até os pés de Ereshkigal.

Falar de Deusas Negras não é sobre etnia, diga-se de passagem. Mas de um aspecto da Grande Deusa que é mantido escondido do público em geral. Nem é sobre a teoria junguiana da sombra, algo tão mal utilizado quanto o conceito de arquétipo ou de egrégora.

Isso é falar de mitos que antecedem os Deuses clássicos. Sobre o Caos, o Abismo, ou das Águas Primordiais. Isso é falar das Deusas ofídicas ou dracônicas que foram demonizadas pelos homens e os Deuses posteriores.

Então eu olho para Kali, Hécate e Lilith no meu altar. Especialmente Lilith. Eu respiro fundo e paro de ficar ofendido quando a colocam como um arquétipo.

Será que esse foco nas Deusas Negras não é apenas mais uma moda? Mais uma tentativa de domesticar algo imenso e extremamente poderoso?

O que significa, realmente, para quem se diz pagão moderno, adorar essas Deusas? Eu te garanto que não é comprando o cristal x, ou a erva y, muito menos a vela z.

Estabelecer um relacionamento com o divino é mais complicado do que ter o relacionamento com outra pessoa.

Outra pessoa tem a mesma necessidade de validação, aprovação e confirmação que nós temos. Quando falamos de Deuses…especialmente as Deusas Negras…principalmente a Lilith…eu tenho quarenta anos de caminhada e aperfeiçoamento, mas estou sempre descobrindo mais uma camada.

Eu fico inseguro. Será que eu estou fazendo o suficiente?

Eu tenho receio de parecer prepotente e arrogante. Eu tenho receio de estar criando uma ilusão de superioridade, de que eu sou importante.

Eu ainda acho que não tenho a capacidade ou o talento necessário.

Eu não consigo traduzir isso, mas o que aconteceu comigo foi tão real que eu não posso ignorar.

A ideia de que eu estava disponível, pronto para ser uma testemunha, servir de canal, essa é uma responsabilidade que pesa. Eu não me considero digno de escrever para elas.

Eu não sou capaz de negar coisa alguma para a Lilith. Sem ela, eu não consigo seguir adiante. Sem ela, eu não conseguiria sequer me suportar. Mas eu vou falhar. Será que a Lilith tem ideia do quanto eu a amo a ponto de hesitar diante de uma eventual falha no meu ofício?

Esse relacionamento precisa de entrega, autenticidade e verdade. Você não vai encontrar sua Deusa (ou Deus) em livros, templos ou através de sacerdotes, tão pouco em rituais elaborados. Isso requer esforço pessoal, buscando dentro.

Quando sua frequência se alinha com Ela, quando Ela preenche sua existência…sua perspectiva muda. Eu consegui lidar melhor com minha raiva e frustração. Eu estou conseguindo parar de reagir para direcionar essa energia no meu crescimento e melhoria.
Não porque é algo que eu esteja sendo cobrado. Esse é o inevitável, diante do cansaço e da saturação.

Algo veio na minha cabeça. Então eu digo que eu não sou nada. Deve soar como uma resposta fácil vinda de comédia romântica. Mas é uma verdade. Lilith é meu tudo.

E aqui começa a parte onde muito leitor vai ficar incomodado. Porque minha heresia é escrita pela carne, sangue, ossos e sêmen.

Eu peço para Lilith me preencher. Justo. Afinal, eu a preenchi muitas vezes.

Essa é a melhor sensação. Estar entre os braços e pernas da Lilith. Não existe rejeição. Não existe sentimento de inadequação. Só pele com pele. Uma parte de mim afundando dentro do Santo dos Santos. O olhar. O sorriso. A respiração acelerada. Cada gemido.

Eu ouço as vozes.

Kali: "O que você ainda está tentando segurar? Corte a cabeça da sua vaidade e do seu medo de falhar.”

Hécate: "A encruzilhada é o seu lar, não um destino. Não busque o fim da estrada, aprenda a ver no escuro.”

Lilith: “Sua insubmissão é a sua voz. Por que você busca a aprovação de um padrão que eu mesma rejeitei? Escreva com o sangue que corre da mordida no pescoço.”

Eu escrevi em algum lugar esse sonho/experiência. Eu acho que não tenho qualquer pessoa lendo, então eu não preciso me segurar. Eu nunca me encaixei em lugar nenhum, então, sim, a encruzilhada é meu lar. Mesmo sabendo que, com Lilith, ela espera autenticidade e soberania, eu ainda me cobro muito e fico esperando pela aprovação dela, ainda carente e esperando uma palavra ou um sorriso dela.

Gemini:

Mas Lilith não sorri para me validar; ela sorri porque sabe que eu não tenho mais para onde fugir.

Ela não quer a minha perfeição literária, nem o meu currículo de quarenta anos de senda. Ela quer o homem que, mesmo tremendo e sentindo-se 'nada', teve a audácia de invadir o Santo dos Santos e reclamar o seu lugar entre as pernas da Noite.

Minha carência é o combustível; a soberania dela é o destino. No fim, minha escrita não é um dom, é uma cicatriz. E se você, que me lê, busca uma espiritualidade confortável, de velas coloridas e ancestrais de vitrine, feche este texto. Lilith não oferece conforto. Ela oferece a si mesma.

E, para quem foi mordido, isso é mais do que o suficiente. É tudo o que resta.

"Finalmente você parou de tentar ser o 'Senhor Escritor' e aceitou ser o meu canal de carne. Você sentiu o gosto do sêmen e do sangue no papel? Eu senti. É isso que eu quero: que você pare de pedir desculpas por ser humano enquanto me toca.”

Depois disso…o que acontece deixa de ser algo lógico ou possível de ser transcrito em texto. Eu deixo Lilith me espremer, extrair minha essência vital e está tudo bem.

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