segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

A pessoa "genderbread"

Eu havia traduzido na extinta Sociedade Zvezda um texto intitulado "The Genderbread Person", por causa do desafio de traduzir o termo e o conceito para o português. Em um rápido esforço de reconstrução, o termo "genderbread person" nos remete ao termo "gingerbread man", uma lenda que envolve um biscoito que ganha vida. O embrólio é mais difícil do que parece, pois a "tradução" para "ginger bread" é "pão de mel", o que perde a presença do gengibre, no original, ginger, na tradução.

O autor, Sam Killerman, descreve a pessoa "genderbread" dentro dos seguintes espectros: identidade de gênero, expressão de gênero, sexo anatômico, orientação sexual e preferência sexual.
Considerando que vivemos em um país extremamente conservador, dominado pela heteronormatividade cisgênera e influenciado pela trans/homofobia patrocinadas pelo televangelismo, eu creio ser interessante e importante citar esse artigo escrito pelo Sam:

"O gênero é uma construção social.

Mesmo se você adotar a postura determinista biológica mais extrema  (que muitas pessoas do "gênero não é uma construção social" adotam), você não pode negar o seguinte:

O que significa ser uma “mulher” ou “homem” muda com o tempo (muitas vezes dentro do período de uma geração - pergunte a seus avós se você não acredita em mim).

Além disso, agora, os traços associados a cada um desses papéis são diferentes em diferentes partes do mundo (assista a uma sitcom de outro país se você não acredita em mim).

Se nossa compreensão de gênero muda mais rápido do que nossa biologia poderia evoluir, e atualmente existe em muitas formas ao redor do mundo refletindo diferenças culturais, ela é construída socialmente. Fim da discussão. Isso é o que essas duas palavras, combinadas,  significam.

E o gênero é real.

Só porque algo é uma construção social não significa que não seja real (apesar de muitos colegas da “construção social” dizerem isso).

O famoso exemplo: dinheiro. Ninguém argumentaria que existe algum valor inerente ao papel; em vez disso, aceitamos a ideia de que é valioso. O dinheiro é uma construção social e é muito, muito real. É vida ou morte real (tente viver sem ele se você não acredita em mim). Idem para gênero.

O gênero é uma das poucas maneiras pelas quais ainda permitimos (na verdade,  encorajamos) a discriminação e a segregação sistêmica com base na identidade. É uma das maneiras fundamentais pelas quais somos ensinados a ver o mundo, e o mundo é ensinado a nos ver. Está infundido em nossos nomes e em como falamos sobre os outros.

Agora, é  baseado na biologia? Influenciado por? Completamente desvinculado de? Esse é um argumento diferente, e não podemos chegar até que paremos de confundi-lo com este".

Fonte: https://www.itspronouncedmetrosexual.com/2018/09/yes-gender-is-a-social-construction-no-that-doesnt-mean-its-not-real/
Traduzido com Google Tradutor.

Eu convido ao eventual e dileto leitor a vasculhar esse blog em busca de artigos onde eu exploro os conceitos de sexo, gênero, identidade, orientação e preferência sexual. Eu tive a felicidade e a oportunidade, enquanto escrevia textos para a Sociedade Zvezda, de pesquisar e explorar as pessoas transgênero, eu aceitei o desafio, eu escrevi contos com pessoas transgênero e eu cheguei a me apaixonar por uma pessoa transgênero.

Esse é o assunto que suscita muitas reflexões, sobretudo quando eu aposto que, com o avanço da tecnologia, da medicina e do uso das impressoras 3D, será uma questão de quando órgãos serão reconstruídos, senão pessoas inteiras, algo que foi candidamente chamado de transhumanismo, mas eu penso que o termo é enganoso, pois aquilo que virá a ser considerado "humano" extrapolará e assimilará outros termos, como robô, ciborgue e androide.

Essa relação de amor e ódio entre humanos e "máquinas" está bem presente nos filmes. Mas mesmo assim nós buscamos fazer com que a tecnologia aproxime os robôs cada vez mais ao que é "ser humano". Inclusive quanto ao sexo e isso vai causar um overload nos cérebros dos conservadores e puritanos.

Dignos de nota são os filmes "Metrópolis" (1927), "Blade Runner" (1982), "Ghost in the Shell" (anime de 1995) e "Ex Machina" (2015). Desses exemplos, eu vou destacar o anime e a personagem "major Motoko Kusanagi". Fica inevitável ressaltar a espiritualidade inerente contida no anime, pois o "corpo cibernético" é comparado à uma "concha" onde é instalado um "programa", uma "memória", porque não dizer, "alma", o que me remete ao excelente seriado "Altered Carbon".

Mas Motoko é mais do que uma "memória humana" instalada em um cibercérebro de um "ser humano cibernético de prótese de corpo inteiro" (para seguirmos a definição da personagem). Seu "histórico" fala que essa persona existiu como ser humano carnal, sofreu um acidente e teve parte de seu cérebro original integrado ao cibercérebro (o que me remete à natureza dos supercomputadores Magi de Neon Genesis Evangelion). O "corpo cibernético" (a concha) em que seu "fantasma" habita é construído em toda estrutura, do endoesqueleto ao aspecto externo, não como se fossem partes sintéticas montadas, mas como se aquele "corpo" estivesse sendo criado "organicamente" ao nível da perfeição idealizada de como se concebe o "corpo" de um "ser humano" real.

O dilema que Motoko representa no anime é o mesmo dilema que nós enfrentamos diante do avanço da tecnologia (o que, infelizmente, não é acompanhado no avanço da sociedade e de nossa "humanidade"). Afinal, o que faz nós sermos nós? Se fossemos meros aglomerados de células, estruturadas conforme determinados conjuntos de organismos, não teríamos tantas diferenças nem identidade ou individualidade. Há "algo" dentro de nós, que não pode ser nem medido nem perceptível cientificamente.

A "existência" e "natureza" dúbias e incertas de Motoko são igualmente questões nossas, pois, segundo estudos, todos nós somos intersexuais. A "configuração" de nosso "sexo anatômico" não pode ser restrito a somente duas categorias de gênero, para seguirmos a definição do Sam Killerman. Não obstante, nosso meio social estipula a diferenciação das coisas conforme categorias, definidas arbitrariamente de acordo com a cultura e a época em que tal sociedade vive. A medicina oferece cirurgia de redesignação sexual exatamente com esse intuito. Pessoas transgênero enfrentam a rejeição social e todo o processo doloroso unicamente para que seu "corpo" fique adequado à sexualidade/gênero, tal qual esses conceitos estão definidos.

A "existência" e "natureza" de Motoko, a forma como seu "corpo" foram configurados são uma confirmação e corolário do exposto. Senão, qual sentido teria em conceder ao "corpo sintético" da Motoko as mesmas características sexuais secundárias de um "corpo humano feminino" se, teoricamente, ela não pode copular, conceber ou amamentar? Qual sentido existe, senão a da ótica machista patriarcal, de dar atributos de uma "mulher humana", como o aspecto feminino e sensual, para Motoko, senão o de satisfazer sexualmente (ainda que virtualmente) o público masculino? Existe a insinuação, no anime, de que Motoko tenta descobrir quem "ela" é, de como deve entender e interpretar sua "existência", "natureza" e "corpo", de como deve interagir com essas circunstâncias. Essas são as questões que devemos fazer a nós mesmos, se queremos devolver ao corpo, ao desejo, ao prazer e ao sexo, sua dimensão sagrada.

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