segunda-feira, 21 de março de 2016

Voltando ao ponto inicial

Em 17 de julho de 2007 eu escrevi aqui o texto “Família, esses estranhos” e em 01 de julho de 2015 eu escrevi na Sociedade Zvezda o texto “Vamos falar do elefante na sala”. Ambos os textos, separados por sete anos, são sobre algo em mim, em minha vida, que não funciona muito bem: a família.
O que coloca uma questão em minha jornada, afinal, faz parte do princípio do Paganismo que o praticante tenha algum vínculo com sua família. Como eu posso ter alguma conexão com um grupo, comunidade, coven, se eu tenho um relacionamento problemático com minha família? Pior, como eu posso fazer o culto aos meus ancestrais se eu não tenho sequer uma convivência com minha família carnal? Talvez esta seja a raiz de meu comportamento problemático em fóruns, grupos e comunidades: eu acabo me comportando com essas pessoas com essa mesma relação tsundere que eu tenho com minha família. Talvez esta seja a razão de minha dificuldade em estabelecer uma ligação com o mundo espiritual.
Considerando que eu comecei essa jornada em 2006, considerando as experiências que tive, as decepções que eu tive com a Comunidade Pagã, com sacerdotes, com sacerdotisas e com pessoas que disseram ser minhas amigas e que iam me ajudar, eu devo estar próximo da mesma encruzilhada que me trouxe até aqui. Qual o passo seguinte?
Depois de dez anos, perceber que pouco ou nada mudou, a despeito de todo meu estudo e esforço, isso depõe unicamente contra mim e ninguém mais. Fui eu quem criou expectativas, quem acreditou em falsas amizades. Fui eu quem se deu demais ao ponto do estresse físico, mental e espiritual. Fu eu quem escolheu passar por todas as agruras que eu passei em toda minha vida. Fui eu quem idealizou em um modelo o que é uma família, um amor, uma amizade, um sacerdócio, uma religião. Fui eu quem quis acreditar que, se eu melhorasse o mundo também melhoraria. Fui eu quem se iludiu com a imagem que eu criei deste mundo.
Nenhuma família é perfeita e ideal, simplesmente não existe a família do comercial de margarina. Relacionamentos humanos são assim mesmo, imprevisíveis, explosivos, complicados, doloridos, incompreensíveis, mas indispensáveis. Nenhuma pessoa é melhor ou pior do que eu, grupos são compostos por pessoas, igualmente limitadas e falíveis. Uma comunidade não é muito diferente de uma família e é ainda mas abrangente, mais complexa e exponencialmente mais imperfeitas. Uma religião é um meio, não é o fim, não é a Verdade, o sacerdócio é apenas uma agremiação de pessoas que fazem um serviço religioso, pessoas com os mesmos dilemas, conflitos e dificuldades que nós, profanos.
Por isso que eu insisto para que o pagão moderno estude e compreenda os mitos antigos, porque eles falam mais de nossa humanidade do que dos Deuses. Os mitos são a razão dos ritos, somente através da experiência e percepção é que eu vou conseguir me superar, melhorar, crescer e, com sorte, estabelecer um vínculo com meus ancestrais e meus Deuses. Assim seja, assim é, assim será.

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