sábado, 12 de março de 2016

As raízes do Paganismo Moderno

O dileto e eventual leitor deve estar penando que eu endoidei de vez. Depois de três “biografias” de personalidades que deram sua contribuição ao Mundo Contemporâneo, o leitor deve querer saber o que tais personalidades tem a ver com o Paganismo Moderno.
Caro leitor, toda nossa cultura, filosofia, ciência e tecnologia nasceram e foram desenvolvidas pelos povos antigos, todos religiosos. O pensamento contemporâneo ocidental é predominantemente formado pela Filosofia Neoplatônica. Michel Onfray publicou toda uma série de outros filósofos e pensadores que seriam a “contra história da filosofia” diante da supremacia do Platonismo no Pensamento Ocidental. Mas essa é uma falsa noção, visto que Platão deu ensejo à Aristóteles, o principal teórico do método científico. Sem os trabalhos de Aristóteles, o ateu não teria fundamento ao discursar sobre razão, lógica, fato e evidência.
Neoplatonismo é o termo que define o conjunto de doutrinas e escolas de inspiração platônica que se desenvolveram do século III ao século VI, mais precisamente da fundação da escola alexandrina por Amônio Sacas (232) ao fechamento da escola de Atenas imposto pelo edito de Justiniano, de 529.
O neoplatonismo é direcionado para os aspectos espirituais e cosmológicos do pensamento platónico, sintetizando o platonismo com a teologia egípcia e judaica. No entanto, os neoplatônicos se consideravam simplesmente platônicos, e a distinção moderna é devido à percepção de que sua filosofia continha interpretações suficientemente originais a Platão para torná-la substancialmente diferente do que Platão escreveu .
Pensadores da escola neoplatônica relacionaram seus pensadores com outras escolas intelectuais. Por exemplo, certas vertentes do neoplatonismo influenciaram pensadores cristãos (como Agostinho, Boécio, João Escoto Erígena e Boaventura de Bagnoregio), enquanto o pensamento cristão influenciou (e às vezes converteu) filósofos neoplatônicos (como Pseudo-Dionísio, o Areopagita).
Na Idade Média, os argumentos neoplatônicos foram levados a sério por pensadores islâmicos e judeus medievais, como al-Farabi e Moisés Maimônides,[8] e despertou interesse novamente no Renascimento, com a aquisição da tradução dos textos neoplatônicos em grego e árabe.
O neoplatonismo nasceu em um momento histórico particular, quando o homem, impulsionado por uma crise interna profunda, sentiu intensamente a transitoriedade da realidade sensível. Os primeiros neoplatônicos foram Plutarco, Maximus, Enesidemo e Numênio Apameu, que teriam vivido no segundo século da era cristã e influenciado Plotino, o sistematizador do neoplatonismo. Segundo Numênio, havia três deuses, o Pai, o Construtor (Demiurgo) e o Mundo. Amônio Sacas, de Alexandria, é visto como o fundador da escola neoplatônica .
O termo "neoplatonismo" é uma construção moderna. Plotino, que é muitas vezes considerado o "fundador do neoplatonismo", não teria se considerado um "neoplatônico", em qualquer sentido, mas simplesmente um expositor das doutrinas de Platão. Este fato o ter obrigado a formular um sistema filosófico inteiramente novo não teria sido visto por ele como um problema, pois era, a seus olhos, justamente o que a doutrina platônica precisava. Em certo sentido, isso é verdade, pois desde o Antigo Academy encontramos sucessores de Platão lutando com a interpretação adequada de seu pensamento e chegando a conclusões muito diferentes. Além disso, na época helenística, certas idéias platônicas foram retomadas por pensadores de diferentes lealdades - judaicas, gnósticas, cristãs - e trabalharam em novas formas de expressão que variavam bastante do que Platão realmente escreveu em seus Diálogos. [Wikipédia]
Isto é algo que é ocultado tanto pela Igreja quanto pela Academia: tanto nosso pensamento religioso quanto nosso pensamento científico devem muito ao Neoplatonismo. O Neoplatonismo carregou em si as ideias sustentadas por Aristóteles, Pitágoras e outros tantos pensadores, pesquisadores e cientistas. O Neoplatonismo parece um Frankenstein e, dependendo de quem está dissecando ou costurando esse corpo, algumas partes são boas e outras podem ser descartadas. Para a Igreja incomoda a ligação do Neoplatonismo com o Gnosticismo e o Politeísmo, para a Academia incomoda a ligação do Neoplatonismo com o Hermetismo e o Ocultismo. Para a Igreja o Neoplatonismo foi útil por sua noção de Logos. Para a Academia o Neoplatonismo foi útil por sua noção de Alquimia.
Filosofia grega antiga e gnosticismo
As primeiras origens do gnosticismo são obscuras e ainda contestadas. Por esta razão, alguns estudiosos preferem falar de "gnosis" ao se referir às ideias do século I que mais tarde evoluíram para o gnosticismo e reservar o termo "gnosticismo" para a síntese dessas ideias em um movimento coerente, no século II . Influências prováveis ​​incluem Platão, o Médio platonismo e as escolas ou academias de pensamento neopitagóricas e isto parece ser verdade em ambos os gnósticos do setianismo e os do valentianismo. Além disso, se compararmos diferentes textos setianistas uns aos outros em uma tentativa de criar uma cronologia do desenvolvimento do Setianismo durante os primeiros séculos, parece que os textos posteriores continuam a interagir com o platonismo. Textos anteriores, como o Apocalipse de Adão mostram sinais de ser pré-cristão e se concentram em Sete, o terceiro filho de Adão e Eva. Estes primeiros setianistas podem ser idênticos ou relacionados com a Nazarenos, Ofitas ou aos grupos sectários chamados de herético por Fílon de Alexandria.
Textos setianos tardios como Zostrianos e Alógenes criam sobre as imagens de textos setianos mais antigos mas utilizam "um grande fundo de conceituação filosófica derivada do platonismo contemporânea, (médio platonismo tardio) com vestígios de conteúdo cristão ". Na verdade, a doutrina do "um único formado por três" (a trindade) é encontrada no texto de Alógenes, como descoberto na Biblioteca de Nag Hammadi e é "a mesma doutrina encontrada nos comentários anônimos em Parmênides (Fragmento XIV) que são atribuídos por Hadot a Porfírio e também, a encontramos na Enéadas de Plotino 6.7, 17, 13-26."
No entanto, os neoplatônicos do século III, como Plotino, Porfírio e Amélio da Toscana atacam os Setianistas. Parece que o Setianismo começou como uma tradição pré-cristã, possivelmente sincrética que incorporou elementos do platonismo e do cristianismo à medida que crescia, apenas para que ambos o cristianismo e o platonismo os rejeitassem se voltassem contra eles. O Prof. John Turner acredita que este duplo ataque levou à fragmentação do Setianismo em numerosos grupos menores como Arcônticos, Audianos, Borboritas, Fibionitas, Estratiônicos e outros.
O estudo sobre o gnosticismo tem avançado muito desde a descoberta e a tradução dos textos de Nag Hammadi que lançam alguma luz sobre alguns dos comentários mais intrigantes feitos por Plotino e Porfírio sobre os gnósticos. Mais importante ainda, as versões ajudam a distinguir os diferentes tipos dos primeiros gnósticos. Parece claro que os gnósticos setianistas e valentinianos tentaram "se esforçar para uma conciliação e mesmo afiliação" com filosofia antiga final, mas foram rejeitados por alguns neoplatônicos, incluindo Plotino.
Relações filosóficas entre o neoplatonismo e o gnosticismo
Os gnósticos emprestaram várias déias e termos do platonismo, eles exibem uma profunda compreensão dos termos filosóficos gregos e do idioma grego koiné em geral; utilizam conceitos filosóficos gregos em todo o seu texto, incluindo conceitos como hipóstase (a realidade, a existência), ousia (essência, substância, ser), e demiurgo (Deus criador). Bons exemplos incluem textos como a Hipóstase dos Arcontes ("Realidade dos Governantes") ou Protenoia Trimórfica ("O primeiro pensamento em três formas").
Porfírio em A vida de Plotino estabelece uma diferença entre os genuínos seguidores de Cristo e um outro grupo de mesclava a filosofia (gnosis) com elementos cristãos e Plotino é antagônico a esta situação ao dizer "Eles (gnósticos) tiraram algumas ideias de Platão, mas todas as novidades que acrescentaram para criar uma filosofia original, são fora da verdade", no mesmo tratado, Plotino critica o elitismo ao dizer que os gnósticos "visam à formação de uma doutrina especial", Plotino repreende os gnósticos por desfigurarem a filosofia de Platão e apesar de sempre sereno em suas exposições fala de modo áspero: "Quando esses gnósticos afirmam que desprezam a beleza terrena, fariam melhor se desprezassem a dos meninos e das mulheres, para não sucumbirem à incontinência". É preciso observar que se os gnósticos, sem exceção tivessem sido libertinos, Plotino nunca os teria admitido, já que levava uma vida de virtudes.
Outro epíteto dado por Plotino aos gnósticos é o de charlatães ao "se vangloriaram em poder expulsar doenças com fórmulas" e ainda segundo Plotino, que as doenças eram consideradas seres (ou obras) de entidades demoníacas pelo gnósticos de sua época, "Só a plebe ignara se deixa iludir(...) as doenças não são algo demoníaco.". Plotino assevera que a moral dos gnósticos é inferior à de Epicuro o qual "aconselha procurar a satisfação no prazar" e ainda adverte que a doutrina é temerária porque ridiculariza a virtude e só pensa em interesses próprios. Para chegar a essas acusações graves, com certeza Plotino levou algum tempo, ao chegar em Roma, ele encontrou entre seus ouvintes sectários do gnosticismo com os quais discutia seus pontos de vista.[Wikipédia]
Não se sabe exatamente quem deu origem a quem, ou quem influenciou quem, mas o conhecimento deixado por estes pensadores e filósofos antigos chegou até nós embora disfarçado nos textos Herméticos, Esotéricos e Ocultistas. Em pleno início da Idade moderna, enquanto começava a Renascença, estas mesmas ideias eram tranquilamente discutidas na Academia, transitando como o conhecimento científico conhecido por Alquimia. Bem debaixo das franjas da Igreja, padres e nobres clandestinamente estudavam e praticavam a magia que estava contida nos famigerados grimórios. Este cenário deu forma e estrutura ao Movimento Romântico do século XVIII, bem como a incontáveis ordens e sociedades secretas. Foram estes magos, poetas, escritores e diletantes que foram os percursores disto que se tornou o Paganismo Moderno.

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