sexta-feira, 14 de agosto de 2009

A religião da antiga Israel

A bíblia hebraica - o que os Cristãos chamam de Velho Testamento - lembram uma memorável experiência que o profeta Elias teve no monte Sinai. Deus disse a Elias para ficar ali e esperar por um encontro com o divino. O Deus hebreu, Yahweh, com toda a atmosfera ao redor dele, foi tênue.
Este episódio, do primeiro livro dos reis, é frequentemente citado como um marco na história da religião. No “primitivo” politeísmo, as forças da natureza podem estar habitadas pelos Deuses, ou enganadamente igualadas com Eles. Mas no monoteísmo que estava tomando forma no Oriente Médio, teria mais distância entre a natureza e a divindade. Ao contrário das divindades pagãs, Yahweh não estava nas forças da natureza, mas em um reino à parte.
A divinidade pagã clássica da bíblia era Baal, adorado pelos Cananeus e, às vezes, pelos Israelitas que se desviaram da devoção a Yahweh. Baal, como um Deus da fertilidade, era chamado de Deus da Chuva e Orvalho. Yahweh, em contraste, era o Senhor de coisa alguma e de tudo em particular; ele era a causa primeira do poder a natureza, mas ele não a negligenciava; ele era tanto um gerente quanto um diretor.
Essse tipo de Deus é mais frequentemente descrito como moderno do que pagão, mais compatível com a visão científica. Afinal, observando para as leis mecânicas da natureza não faria muito sentido se, como os pagãos acreditavam, que a natureza era animada pelo humor dos Deuses. Há mais lugar para os princípios científicos se existir apenas um Deus, sentado em algm lugar acima da luta — capaz de intervir em ocasiões especiais, mas tipicamente presidindo acima de um universo de leis regulares.
Transcendente é o termo que alguns acadêmicos usam para descrever esse Deus. Em qualquer evento, esse é um Deus que, embora menos evidente do que os Deuses pagãos, é mais poderoso. Yahweh não vive no processo da natureza, ele os controla. O Deus hebreu foi mais revolucionário do que evolucionário. A religião de Yahweh foi uma criação original do povo de Israel. Foi absolutamente diferente de tudo que o mundo pagão conheceu.[*]
Entretanto, por mais moderno que que esse Deus transcendente pode ter sido, o Yahweh do tempo de Elias ainda não tinha o que muitas pessoas poderiam chamar de sensibilidade moral moderna.
Essa é a queixa mais comum a respeito do monoteísmo que emergiu no Oriente Médio — que sua teologia criou a intolerância beligerante. Alguns vêem isso como uma propriedade intrinseca do monoteísmo, enquanto o politeísmo reconhece a validade dos Deuses, monoteístas ardorosos são alergicos à uma pacífica coexistência.
Cristãos e Muçulmanos, como os Judeus, identificam seu Deus com o Deus que, de acordo com a bíblia, se revelou a Abraão no segundo milênio AC. Embora os três grupos alegam a mesma linhagem para seu Deus, eles não se vêem como adoradores do mesmo Deus. Se você ler a bíblia hebraica cuidadosamente, ela conta a história de um Deus em evolução, um Deus cuja personalidade muda radicalmente do começo ao fim.
Entretanto há um problema se você quer ver o desenrolar dessa história. Você não pode começar por ler o primeiro capítulo do Genesis e seguir em frente, esperando para que Deus cresça. O primeiro capítulo de Genesis foi escrito após o segundo capítulo, por um autor diferente. A bíblia hebraica tomou forma vagarosamente, por vários séculos e em uma ordem na qual não é a ordem que aparece agora. Alguns textos ugaríticos que foram decifrados pela arqueologia ajudaram a dar uma visão dessa história pelo lado dos Cananeus. Quando tudo isso é colocado junto, você tem uma imagem inteira do Deus de Abraão. Uma imagem que, de um lado, absolve o monoteísmo abraãmico de muitas das acusações graves contra ele, mas de outro lado, desafia as bases padrões da crença monoteísta. Esta é uma imagem que elogia o Deus abraãmico em termos frequentemente depreciativos, mas ilustra sua maturação e oferece esperança para um crescimento futuro. E certamente é uma imagem bem diferente da que é desenhada na sinagoga, igreja ou mesquita.
Fonte: Robert Wright
[*]Nota: A idéia de um único Deus não foi uma concepção exclusiva do povo Judeu. Os Egípcios e os Persas passaram pela experiência, o primeiro com o culto a Athon e o segundo com o culto a Ormuz. A idéia de que Yahweh seja transcendente contrasta com referências na bíblia que descrevem Yahweh como o Senhor dos Exércitos, certamente originado de algum antigo Deus da Guerra. A concepção de Yahweh como Deus único tem duas hipóteses possiveis: ou foi o resultado de um consenso em comum entre as tribos hebraicas para a formação do reino de Israel, ou foi o resultado da influência do império Persa durante o exílio babilônico.

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