quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O Cristianismo e o sagrado feminino

Escrito por José Laércio do Egito
Para que se possa entender bem o porquê dos tabus em torno da feminilidade em geral e da mulher em particular é importante que se tenha conhecimento das transformações que ocorreram no tocante ao papel da mulher no contextos das religiões.

Durante muitos séculos as religiões ocidentais foram descriminativas com relação ao lado feminino da natureza, embora isto não haja sido oriundo de outros ciclos de civilização. Já no início do Cristianismo, o domínio da Igreja de Pedro prevaleceu com tamanha influencia que até mesmo os Gnósticos Valentinianos chegaram a substituir o Demiurgo - masculino - por Sophia - feminino. Isto quer dizer que deixaram de atribuir a divisibilidade ao Demiurgo e passaram a atribuí-la a Sophia.
Deixaram de considerar o masculino como símbolo da fragmentação - queda - e passaram a considerar com tal o aspecto feminino. Assim a mulher passou a ocupar a posição de causadora da "queda" pelo "Mito de Osíris", no qual a dissociação da natureza não se fez sentir pelo gênero feminino e sim pelo masculino.
Mudanças ocorreram durante séculos. No catolicismo primitivo o machismo patente na Igreja de Pedro prevaleceu embora Jesus jamais houvesse descriminado o lado feminino. Basta que se considere que Jesus após a ressurreição primeiro se manifestou às mulheres e não aos apóstolos. Nos Evangelhos Canônicos há ênfase aos apóstolos, mas considere-se que houve manipulações nos evangelhos, foram adequados à conveniência dos interesses humanos da época. O papel da mulher diante de Jesus, e nos primeiros anos do cristianismo, é claro nos documentos de Nag Hamadi, que datam do terceiro século. Contudo, mesmo nos Evangelhos Canônicos se vêem que todos os Passos de Jesus foram acompanhados pelas mulheres, entre elas Maria, Madalena, Marta e outras.
O papel da mulher é um tanto obscurecido nos Evangelhos Canônicos (Os 4 aprovados no Concilio o de Nicéia), pois mesmo estes Evangelhos foram convenientemente manipulados. No Concilio de Nicéia foram excluídos muitos outros evangelhos, isto está registrado nos documentos encontrados em Nag Hamadi e que corresponde ao terceiro século do Cristianismo. Por eles se pode ver que a mulher tinha um papel relevante nas primitivas igrejas cristãs. Até mesmo há um evangelho atribuído a Maria, mãe de Jesus e um outro à Maria Madalena. Pelos documentos de Nag Hamadi se pode ver o quanto já existia de discriminação contra a mulher no tempo dos Apóstolos, quantas pressões elas já sofriam por parte de alguns dos apóstolos. Na verdade estes eram membros da comunidade judaica fortemente machista.
A partir do Concilio de Nicéia o Cristianismo ficou dividido, tendo de um lado o gnosticismo e do outro o pré-catolicismo - ortodoxos - seguidores da Igreja de Pedro que era extremamente intransigentes para com as mulheres. Assim, passo a passo, a mulher foi sendo discriminada, não havendo sido poupada nem mesmo Maria, mãe de Jesus. Depois do Concilio de Nicéia a mulher foi se tornando subserviente, chegando ao ponto de no contexto religioso ela só ter direito de assistir aos atos litúrgico, mas não de participar diretamente deles, e menos ainda de exercer qualquer tipo de sacerdócio. E ainda mais, mesmo como assistente, ela tinha que cobrir a cabeça com um véu. Mas, a despeito das tentativas do Cristianismo Ordotoxo de eliminar a mulher do contexto religioso, o povo mantinha vivo o sentimento ligado à Deusa Mãe, e neste contexto os cristãos cultuavam Maria, a despeito do ostracismo exercido pelos bispos e sacerdotes.
A desconsideração para com a mulher, mesmo o ostracismo imposto a Maria chegou a um ponto tal que a população durante o Concilio de Éfeso ameaçou incendiar o local em que os bispos estavam reunidos e queima-los vivos. Foi então que por temor os membros daquele Concílio os bispos voltaram atrás e reconsideraram o papel de Maria, mas basicamente movidos pelo temor de serem queimados vivos e não por aceitação do feminino no seio do Cristianismo.
Por medo da pressão popular, os bispos concederam à Maria um elevado título, o de Santa Maria Mãe de Deus. Mas isto foi por medo, o resultado da pressão exercida pelo povo, pelos devotos de Maria e não por respeito ao lado feminino. Mesmo assim a posição da mulher no Cristianismo Romano não mudou muito, pois foi reconhecida Maria, mas não a mulher em geral. Esta continuou sendo relegada a um plano de inferioridade diante do masculino. A igreja católica não viu ser impossível se destruir um Princípio Hermético.
Assim o Princípio do Gênero, expresso como feminino / masculino, não ter como ser destruído um dos pólos sem que o outro também o seja. Os ministros religiosos, em sua quase totalidade, haviam perdido conhecimentos tradicionais, já não viam a importância fundamental do equilíbrio da polaridade de gênero. Ou pela ignorância, ou pela intencionalidade preconceituosa, o Princípio do Gênero foi posto de lado, do que resultou uma visão equivocada quanto ao papel do lado feminino por parte do Cristianismo, e assim tentaram fazer prevalecer o masculino, posição assumida pela quase totalidade das religiões cristãs até o presente. Elas consideram algumas funções ao feminino, mas conservaram o sacerdócio apenas para o masculino, e até mesmo incentivando a abstinência sexual.
Na verdade a abstinência tem sentido quando se tem o objetivo de poupar energia sutil, mas na verdade não foi é esse o motivo que o Catolicismo exige o celibato de deus ministros. As religiões tradicionais retiram Osíris da posição de Binah, substituindo-o por Sophia e, ainda mais, responsabilizaram-na pela fragmentação da Unicidade da Trindade. Isto fez com que o Catolicismo passasse a ver a mulher como basicamente pecaminosa e conseqüentemente fossem consideradas satânicas todas as práticas que desse ênfase ao Divino Feminino e até mesmo a função básica da fecundidade, gestação e parturição.
O Principio do Gênero, expresso como masculino / feminino, foi um ponto que fortemente contribuiu para o grande cisma estabelecido no Concílio de Nicéia, pois de um lado situaram-se os que aceitavam o Divino Feminino - Gnósticos - e do outro os que a negavam - Ortodoxos. Mesmo assim uma grande ala dos gnósticos, os valentinianos, infelizmente já havia substituído o Demiurgo por Sophia. Outro fator relevante foi a condenação do próprio corpo humano com sendo coisa diabólica, em especial o feminino, e ainda mais intensamente o ato da procriação, da gravidez, e do parto.
A substituição do Divino Feminino não aconteceu somente na Trindade Cristã, pois mesmo as religiões védicas, cujas vertentes situaram-se na Atlântida, também foram levadas a colocar na Trimurti - Trindade Indiana - Shiva como um ser masculino. Contudo as religiões védicas tiveram muitas deusas, o feminino conservou muito de suas qualidades, o inverso do que aconteceu com as religiões cristãs em geral e com o Judaísmo em particular, que relegaram o feminino à uma condição inexpressiva, ou mesmo desprezível.
Por haver o pólo masculino sido substituído pelo feminino na posição Binah, posição da "queda" - fragmentação da Tríade Superior - Trindade - o Catolicismo não podia tolerar qualquer doutrina, ou sociedade que de alguma forma cultuassem o Divino Feminino, daí a destruição do celtismo, que a igreja transformou em bruxaria e práticas diabólicas certos rituais. Assim sendo, muitos praticantes de rituais celtas foram abjurados pelo catolicismo.

Nenhum comentário: