segunda-feira, 31 de março de 2014

Admirável Mundo Velho

A Imprensa Abutre está de volta, com tudo. Foi necessário que um avião desaparecesse na Malasia para que aparecessem reportagens ridicularizando as crenças locais. Nenhum site de notícias falou o que é bomoh, nenhum falou da função do xamãn, nenhum falou das crenças da Malasia. Se tivesse sido uma missa de um padre/pastor pelas vítimas do avião e algum ateu fizesse um artigo ridicularizando a missa, não faltaria espaço na Mídia para cristãos expressarem o quanto se sentem ultrajados e ofendidos. Na sequência, surgem notícias sobre rituais na Indonésia, mostrando uma foto que pode impressionar um ocidental provinciano, citando em poucas palavras o nome da festividade e mais nada.
E dá-lhe procurar no oráculo virtual algum artigo que preste para falar um pouco da rica cultura da Malásia e da Indonésia, países aonde ainda se preserva religiões nativas e há convivência com o budismo, o islamismo e o cristianismo. Um exemplo a nós, ocidentais.
Infelizmente a maioria das informações estão em inglês.
Mas isto eu vou deixar para depois. O assunto agora é a reedição (remix) da "Marcha da Familia com Deus Pela Liberdade" e a pesquisa do IPEA mostrando que, na opinião dos brasileiros, a "culpa" da violência [física e sexual] contra a mulher é dela mesma, com um inúmero desfile de jargões machistas, preconceituosos, intolerantes e patriarcais. Como se isso não fosse o suficiente eis que, depois de 50 anos que o Brasil superou a ditadura militar, vivemos uma onda saudozista, revisão histórica e até negação de que houve extremos em ambos os lados.
Em pleno século XXI temos um recrudescimento das idéias, reaparece o puritanismo e o falso moralismo, a ditadura da mediocridade empobrecendo a mente dos brasileiros e a patrulha do politicamente correto acabando com qualquer possibilidade de diálogo ou debate. Sinal da decadência ideológica, temos liberais de direita e temos a esquerda caviar digladiando-se em blogs com retóricas obsoletas e estereótipos absurdos. As lutas e esforços de tantos que nos precederam para que nos tornássemos efetivamente humanos vai desaparecendo, por falta de planejamento, de ação, de interesse.
Nos idos de junho, quando eu havia preconizado, com exatidão, que as manifestações morreriam na praia, os fatos recentes ratificaram minha profecia. As manifestações pecaram ao se associar ao PSOL, que contratava gente desqualificada por R$ 150,00 para a tropa de Black Blocks, gente paga para destruir, quebrar, queimar, cometer vandalismo e violência. Foi preciso morrer um cinegrafista para que os podres das "manifestações pacíficas" viessem à tona. Nada mudou e quando muda é para pior, retrocedendo. O brasileiro continua esmolando e esperando por mudanças sem se dar conta que mudança só ocorrem quando se põe a mão na massa. Pensadores, filósofos, artistas e profetas indicam a direção, mas de idéias e ideais a humanidade está farta, quer soluções práticas e eficientes, não quer compromisso, responsabilidade ou consciência. E ficamos como estamos. Como disse uma vez Elis, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Putin, Europa, Sexo e Crianças

Olá, sr Ponde, faz um tempo que eu não te escrevo. Eu li seu artigo na folha elogiando Putin, o que foi ecoado pelo Rodrigo Constantino - o artigo e o argumento, eu não sei se foi extensivo ao elogio. O que é curioso, porque o que faria Putin, Ponde e Constantino concordarem? Pondo Putin a parte [uma péssima punch line], que quer recriar a Mãe Russia/URSS, o que incomodaria tanto Constantino e o sr para valer artigos concórdios?
Seria o assistencialismo às "minorias"? O assistencialismo fez ruir Grécia, Espanha, Portugal. Fazer assistencialismo pode render votos mas acaba com as finanças de qualquer país. Mas não parece ser o caso. Seria o debate sobre a questão do gênero e da opção sexual? Eu vou apostar que sim, sexo ainda é um tabu em nossa civilização ocidental. Discutir estas questões incomodam e muito certos pruridos e consciências, certamente resultado de um recalque latente. O debate não é invenção de professores com problemas de identidade sexual nem ocupação de gente riquinha. A intenção do debate é exatamente o de acabar com o autoritarismo da ideologia de gênero, imposta sem qualquer base biológica ou psicológica - uma imposição feita, via de regra, por dogmatismo eclesiástico. Se há debate é porque há o que se discutir, especialmente quando está em decadência o monopólio e a ditadura da Igreja sobre as sexualidades. Se é pertinente, é um caso à parte e talvez seja nisto que se escora o texto do sr e do Constantino, eu espero.
Seria interessante entender porque se discute e isto tem a ver com o aspecto do Estado enquanto responsavel pela garantia dos direitos à todos e da assistência social. Politica sexual, se me permitir usar o termo, torna-se uma questão de saúde pública, quando há um aumento de doenças venéreas, aumento de adolescentes que engravidam, aumento da violência sexual contra um gênero. Curiosamente mas não coincidentemente, estas políticas estremecem a autoridade da Igreja, a Católica e a Protestante - pudemos ver ad nauseam os monólogos de Feliciano, Malafaia e Bolsonaro mostrando como uma visão política sexual diferente da "normal" acaba produzindo muita neurose e paranóia. Então o debate é pertinente. Os EUA também tinham "coisas mais importantes" para debater e, mesmo assim, levaram o homem à lua.
Então o problema é que se está debatendo sobre sexo, gênero e opção sexual, sem seguir os padrões impostos pelo stablishment. O que a biologia, a anatomia e a fisiologia demonstram é que todos os seres vivos nascem com sexo. Como tal fator irá se desenvolver, ser percebido e exercido depende de outros fatores - genótipos, fenótipos, habitat. No caso da nossa espécie temos que considerar o enorme peso da cultura e da sociedade. Nós somos a única espécie problemática, criamos categorias de tipos de sexo, chamado de gênero e criamos papéis definidos para cada um. Mas a realidade é bem mais complexa, o espectro de variantes de sexualidade e de gênero é maior do que essa dicotomia imposta, "homem", "mulher". Quem não se adequa ou é morto, ou é internado em um manicômio,   ou é excluído. Como se isso não fosse suficiente, nossa espécie criou uma escala absurda e arbitrária, sem considerar que o metabolismo de cada indivíduo amadurece de formas diferentes, mas o órgão, as funções, as glândulas, estão bem ali no corpo, independentemente de nossa faixa etária. Ou seja, criança tem sexo, mas ainda não amadureceu para ter uma sexualidade, nem adquiriu consciência de como ele/ela percebe, vê e sente o seu sexo. Talvez devamos contestar tentativas de legislar sobre a sexualidade das crianças "avant la lettre", mas é inegável que não podemos tratar a criança como um ser assexuado, nem podemos tentar ocultar delas esta sexualidade, nem negar que vivemos em uma sociedade que explora a sexualidade comercialmente da pior forma possivel. O que devemos e podemos fazer é criar uma política sexual que dê educação sexual para adolescentes e campanhas para adultos tratarem seus desvios sexuais. Sim, é possível chegarmos à lua. Apesar de trogloditas como Putin.

segunda-feira, 24 de março de 2014

O Mestre do Sabat

Livros de Bruxaria, sejam históricos, antropológicos, filosóficos, psicológicos, ou testemunhais, em algum momento terá de lidar com o complexo, complicado, intenso, profundo e às vezes traumático tema da identidade e do papel do "Diabo". A figura do Homem de Preto, o Bode Negro do Sabat, o "Diabo", o Deus Cornífero, o Deus das Bruxas, é um personagem crucial e perturbador no meio do Paganismo Moderno.
Nas religiões antigas, especialmente nas urbes, o Deus supremo é Júpiter, Zeus, ladeado por uma corte de Deuses, certamente um espelho da forma como nossos antepassados viam a sociedade e o mundo. Além dos limites das cidades, no campo e nas vilas, o domínio pertencia a divindades mais antigas, mais poderosas, mais sábias. Incontroláveis, portanto perigosas e temíveis, eram adoradas em meio às florestas, em poços, lagos, cavernas, montanhas e encruzilhadas.
Reinos e impérios surgiram, expandiram e conquistaram vários povos, levando ao sincretismo, assimilação ou desaparecimento dos Deuses antigos dentro do culto oficial, mas nas crenças e folclore popular a figura do Deus Cornífero resistiu por milênios. Na Europa não seria diferente, diversos Deuses da caça, da floresta, das feras, do gado e da agricultura fundiram-se em um único Deus que, com a chegada e domínio do Cristianismo, o sincretismo popular e a folclorização do cristianismo, acabou sendo assimilado ou identificado com o Diabo Cristão.
O ressurgimento dos antigos cultos e a adoração do Deus da Floresta foi o resultado de um processo histórico, onde o povo comum queria resgatar a alegria, a felicidade e a liberdade, rebelando-se contra os poderes constituídos, seculares e eclesiásticos. Mas não nos enganemos, a concepção e crença popular diferiam em muitos aspectos do Diabo Cristão, mas certamente usou a iconografia dominante para dar um sentido a essa revolução, como descreve Jean Michelet.
Com o Renascimento, a Ciência, a diminuição do poder da Igreja e o Estado Moderno, o Romantismo do século XVIII trouxe para o mundo artístico e intelectual o culto das bruxas do século XII, dando origem ao neopaganismo, o florescimento do ocultismo, o surgimento de diversas ordens e as missas negras.
Na Idade Moderna, na Era Industrial, com o trabalho de diversos filósofos e o aumento da liberdade de pensamento, foi possível haver uma ruptura do sistema dominante. No pós-modernismo aconteceu a Contracultura e ali o neopaganismo cresceu junto com diversas religiões alternativas. A necessidade cada vez maior por liberdade, pelo fim da opressão e repressão, pela contestação ao poder da Igreja, pela falta de compromisso e seriedade, o ser humano tornou o Deus das Bruxas em um mero arquétipo, confinando-o a conceitos pós-modernos ou, pior, muitas vezes sendo vilificado e negado, como acontece em vertentes do Dianismo e da neowicca.
No mundo contemporâneo, com estudantes sérios e dedicados, a Wicca e a Bruxaria Tradicional tem conseguido, orgulhosamente, remar contra a corrente. Por inspiração, por dom, por honestidade, por honra, muito de nós tem mantido e resgatado essa longa e antiga crença, adoração e nome do Deus Cornífero, o Homem de Preto, o Bode Negro, o Mestre do Sabat.
Descrevê-lo ou defini-lo para o mundo contemporâneo, mesmo para pagãos modernos, continua sendo um desafio, um risco e um problema. Não porque não o conheçamos ou que estejamos proibidos. Mas porque a complexidade e a profundidade de nosso Deus vão de encontro às suscetibilidades humanas e para muitos isso é ofensivo, escandaloso ou vergonhoso. Reinos e impérios viraram pó exatamente porque o ser humano preferiu ouvir sua vaidade e orgulho a ouvir os Deuses. Para os poucos que tem a coragem de falar a verdade há a eternidade do heroísmo. Nosso compromisso, serviço e adoração são para os Deuses, não para nossas preferências ou agendas pessoais.
Eu canto a vós, Senhor. O primeiro existente que nasceu neste mundo. Aceitou nascer, viver e morrer como todos que vem a este mundo, por que vós sois o mestre dos mistérios e conhecedor de todos os caminhos. Vieste a este mundo como o carvalho e o azevinho. Vós fostes posto no solo como semente, brotou, cresceu, floriu, frutificou e foi ceifado. Vós viestes a este mundo como o lobo e o cervo. Vós fostes posto dentro de um ventre, passou pela infância, adolescência, maturidade e senilidade. Conheceu o leite, comeu da terra, gerou muitos para depois aceitar a morte. Vós viestes a este mundo como a caça e o caçador. Vosso é o domínio dos grãos, do gado, das feras, da floresta. Por vós, tudo é santificado e sacramentado. Em vossos rituais nos reencontramos ao celebrar o êxtase da vida. Vós sois o arado que abre a terra, a chuva e a força que faz a semente brotar. Vós viestes a este mundo como bebê, criança, jovem e adulto. Vós fostes o camponês, o sacerdote, o guerreiro e o rei. Vós viestes a este mundo como filho, pai e consorte. Vosso é o domínio do amor, do desejo, do prazer, do sexo. Por vós, tudo é belo e divino. Em vossos bosques sagrados, nos santuários das cavernas, entre rios, vales, morros e encruzilhadas, nós festejamos. Vós sois aquele que nos tira do ventre e nos conduz para a tumba. Vós viestes a este mundo como vencedor e vencido, como herói e monstro. Vossa são as dádivas da vida e da morte. Ave Dioniso, ave Cernunnos, ave Herne, ave Pan!

domingo, 23 de março de 2014

A marca da bruxa

Outro tema que chamou minha atenção após a leitura do livro de Lee Morgan, “Deed Without a Name”, é a tão afamada “marca da bruxa”.
Para os nossos ancestrais tudo possuía substância, ou um “corpo”, a ideia de que o corpo carnal é algo distinto ou separado do corpo sutil apareceu mais tarde, com outras correntes espirituais. Nosso corpo e alma estão interligados, interconectados, então o limite de nosso “corpo” vai além de nossos limites físicos.
Com o treino e domínio do corpo e alma, o bruxo consegue manipular sua sombra e dar forma a uma segunda pele. Com o desenvolvimento dessa habilidade o bruxo consegue entrar em contato com o seu daimon, tornando a caminhada e o aprendizado mais fácil, mais suave, mais dinâmico, mais surpreendente. O daimon ainda é parte do nosso “eu”, muito embora o inverso seja mais verdadeiro.
O acesso à nossa consciência espiritual nos deixa mais próximo do mundo divino e do submundo, através do daimon a bruxa atrai para si dois espíritos, duas entidades complementares, o espírito consorte e o espírito familiar. Com o primeiro a bruxa tem um relacionamento marital e com o segundo a bruxa tem uma relação filial.
O provável é que o espirito familiar seja progênie da união entre a bruxa e o espirito consorte, se não for por adoção. O importante, nesse caso, é que a bruxa tem que alimentar essa entidade, geralmente por uma teta falsa (verruga?) que é a “marca da bruxa”.
Um tema controverso, visto que este sinal é citado em muitos dos julgamentos de bruxas, mas havemos de considerar que os juízes (seculares e clericais) não teriam tal imagem se isto não fizesse parte de um folclore antigo. Ainda que as confissões sofram de um vício de procedimento (feito sob tortura), muitos testemunhos feitos voluntariamente relatam essa circunstância.
Chegamos ao consenso que de que uma bruxa tem um espirito consorte, tem um espirito familiar e tem uma marca. Discutir ou definir a Bruxaria sem essas características torna-se inútil ou desonesto. Esta marca é um dom que veio de nascença ou foi recebido por um ente - tema delicado e polêmico no meio pagão - que é o “Diabo”. A associação da bruxa com este Deus e Mestre, essa figura do Bode Negro, em relatos de bruxas do passado e atual, cuja imagem e conceito carregam muito da visão judaico-cristã e visões pós-modernistas, sem dúvida deve tocar em um ponto sensível nas mentes suscetíveis, o que talvez requeira um texto para apaziguar a identidade, personalidade e papel do “Diabo” na Bruxaria.

sábado, 22 de março de 2014

O caminho tortuoso

Da leitura do livro de Lee Morgan, “Deed Without a Name”, eu farei uma reflexão em cima do conceito dado pelo autor a respeito do “crooked path”.
O inverso, o conceito do “straight path”, parece um conceito mais fácil de abordar. A maioria das religiões majoritárias pertence ao “straight path”. As características mais evidentes são que há uma “revelação”, uma “palavra”, um “profeta”, uma “doutrina”, uma “origem”, um “destino”. Enfim, um único caminho “reto” ao qual desvios não são tolerados. São religiões cujo sucesso se deve a necessidade humana de certeza. A certeza, parte da crença, torna o individuo conformado, reconfortado, acomodado. Diante da certeza, da crença de que se possui a verdade, faz com que o homem esqueça-se de suas inseguranças, o mundo se torna um lugar previsível, controlável.
A tradução não ajuda muito, “crooked” pode significar acidentado, sinuoso, traiçoeiro. Lee Morgan o exemplifica este caminho com a forma de uma cobra caminhar, o que combina com o conceito do Ofício, com a jornada do bruxo e do pagão. Nossa jornada é feita com os pés no chão, o contato e convivência com a natureza é a base de nossa busca.
Isso significa colocar nosso corpo, nossas entranhas, nessa busca e procurar por trilhas que serpenteiam em meio às florestas, em meio a inúmeros espíritos antigos, em meio às maravilhosas experiências que só podem ser compreendidas pela vivência. Eu utilizo em meus textos a ideia do caminho entre os bosques sagrados.
Muitos disseram que a jornada é solitária, onde essa expedição irá passar e nos levar depende do viajante. Há um largo, imenso e extenso mundo a ser explorado, sendo necessário apenas dois pés e a vontade. Não há uma rota definida, não há um destino definido, cada um é seu profeta e dono de sua revelação, não há um caminho plano, não há certezas absolutas. Nosso caminho é cheio de desafios, obstáculos, surpresas, becos, valas, morros, rios, árvores, espinhos. Muitas vezes acabamos voltando a um mesmo ponto. Para quem olha de fora, esse caminho não é muito atraente, mas o sábio conhece que as aparências enganam. No caminho reto, pela promessa de um paraíso perdemos nossa alma.
A despeito dos riscos e das dificuldades, muitos percorreram estes bosques sagrados e estas antigas trilhas são a herança sem nome, o tema do livro de Lee Morgan. Com alegria e tristeza, seguimos adiante, celebrando e cantando, as agruras e felicidades de seguir esse caminho sinuoso. Quando se fala no perigo de trilhar esse caminho traiçoeiro, não se trata apenas da perseguição por agentes da lei, do Estado ou da Igreja. Isso nós tiramos de letra, temos sobrevivido à margem da sociedade há séculos. Infelizmente, caro dileto e eventual leitor, estudante e praticante do Ofício, o maior perigo está em nosso meio. Volta e meia lemos histórias e experiências que não deram muito certo. Eu mesmo narrei a saga de Joãozinho. Nesse caminho haverá muito logro, muita decepção e muito delírio. Não poderia ser diferente, esse é um caminho feito nesse mundo e é um caminho natural e humano.
Não se desespere, não fique frustrado, não guarde rancor. Por onde quer que passe, por onde quer que perambule, por mais voltas e turnos que sejam, saiba que tudo tem um propósito que é o de nos dar o conhecimento necessário para resgatarmos nossa humanidade e realizarmos todo o nosso potencial divino.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Cegos e ateus

Entre os argumentos teístas listados no artigo de Dan Baker no site do Ateus ponto net, eu vou frisar um interessante por que a analogia e a refutação precisam de uma análise.
Diz Dan Baker, como "argumento" teísta, a seguinte analogia:
"Os ateus não têm discernimento espiritual e dificilmente poderiam criticar a experiência teísta de Deus. Isso seria como uma pessoa cega negando a existência das cores."
A refutação de Dan Baker vem com o seguinte argumento:
"A analogia com o cego não é apropriada porque as pessoas cegas não negam o sentido da visão, nem negam que as cores existam. Os cegos e os que veem vivem no mesmo mundo, e ambos podem compreender os princípios naturais envolvidos. O caminho da luz pode ser traçado através de um olho normal até ao cérebro. As frequências podem ser explicadas e o espectro pode ser experimentado independentemente da visão."
A análise vai se basear no quesito existência e evidência.
O ateu não crê na existência dos Deuses baseado na acepção de que não há evidências de que os Deuses existem.
A analogia teísta vem de encontro a este argumento basilar do ateu ao argumentar que negar a existência dos Deuses é similar ao cego negado a existência das cores. Explicando melhor, o ateu nega porque não percebe a existência dos Deuses. O caso que deve ser melhor explicado e detalhado é se o cego nega a existência das cores a despeito de sua deficiência sensorial.
Neste ponto há uma falha no argumento de Dan Baker, pois ele descreve o processo de como percebemos as cores, não uma evidência de que as cores existam. No caso do cego, pela lógica do ateu, sem evidências não se pode dizer que as cores existam, portanto a refutação falhou.
Voltemos às questões quanto ao processo de percepção, ao caso do cego, à existência das cores e às evidências.
A percepção das cores não pode ser considerada evidência da existência das cores porque a) os cães, a despeito de ter um órgão sensitivo, percebem as coisas apenas em preto-e-branco b) os humanos, a despeito de serem capazes de perceber as cores, são limitados e não percebem todos os espectros de cores. Portanto, o processo de percepção das cores não é evidência da existência das cores. Para que haja a percepção das cores primeiramente as cores devem existir para então haver a percepção das mesmas através dos órgãos sensitivos.
O autor não explica nem dá provas quanto ao cego, então devemos pressupor que o cego não negue o sentido da visão nem negam a existência das cores. Obviamente, pessoas desprovidas de visão vivem no mesmo mundo que o nosso, mas isso não prova a existência das cores e, como nós vimos, o processo de percepção das cores não pode ser considerada evidência da existência das cores. O autor argumenta que ambos [cegos e não cegos] podem compreender os princípios naturais envolvidos, mas para "compreender" algo denota alguma forma de aprendizado, cultura e percepção. Ora, se as cores não existissem, não haveria a percepção, ainda que tivéssemos os órgãos sensitivos; não haveria compreensão porque sem elementos de exemplo para o aprendizado seria nulo o conceito de "cor" e, sem um conceito, não há a formação de uma cultura para explicar esse estímulo sensitivo como sendo "cor". Portanto a refutação falhou.
Sendo falha a refutação nesse quesito, permanece o dilema – como fazer um cego crer na existência da cor, considerando que: a) para a concepção do ateu, não se pode crer na existência da cor sem que existam evidências; b) falta ao cego a capacidade sensitiva para perceber a cor; c) a existência da cor precede conceito, aprendizado e explicação; d) o ambiente natural é comum a todos, mas existem condições para compartilhar a mesma concepção de mundo.
A medicina e a tecnologia são capazes de substituir o órgão sensitivo, tornando o cego capaz de "ver". Sem qualquer parâmetro ou referência, o cego terá que "aprender" a associar esse estímulo sensitivo como sendo "cor". Apenas e só então o cego poderá crer na existência da cor, pois será capaz de reconhecer aquele estímulo como sendo "cor" e, pelo reconhecimento, será evidência da existência da cor.
Nesse sentido, o argumento teísta tem sentido pois, a despeito do ateu e do teísta pertencerem ao mesmo mundo e serem capazes de compreender os princípios naturais envolvidos, cada um tem uma concepção de mundo diferente. A concepção do ateu é uma percepção do mundo apenas em sua aparência física e mecânica, desconsiderando ou ignorando qualquer coisa que não tenha evidência, ainda que a evidência não seja percebida por uma deficiência sensitiva. Nisso o cego é melhor que o ateu, afinal, ainda que ao cego lhe falte a capacidade sensitiva, este não nega o sentido da visão nem a existência da cor. Estabelecendo uma correlação com o cego, o ateu nega o sentido da crença e a existência dos Deuses porque a) não tema percepção; b) nega o "aprendizado" recebido; c) nega os parâmetros associativos d) nega as evidências se baseando no conceito de que não foram "testadas" ou "confirmadas" pela ciência.
Para que o ateu possa perceber a evidência da existência dos Deuses ele terá que a) desenvolver a percepção; b) abandonar os preconceitos e as doutrinas; c) procurar e desenvolver uma experiência religiosa; d) procurar conhecer e reconhecer os Deuses como são, onde estão. Este é um desafio e tanto, considerando o crescente ressentimento dos ateus contra todo tipo de crença, religião ou concepção "não científica". Mas aos ateus que não tem medo, receio ou vergonha de admitir que podem não saber de tudo, saibam que são muito bem vindos, com todas suas dúvidas e críticas, ao Paganismo.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Mazzerismo

O mazzerismo é uma prática de adivinhação do folclore corso, provavelmente um legado xamânico, para o qual alguns indivíduos em algumas famílias na ilha são considerados possuidores de qualidades incomuns. Entre essas qualidades a faculdade de bilocar durante o sono, a pessoa que dorme está, simultaneamente, em uma situação de caça, onde ele caça e mata animais. O possuidor do dom de ser dito mazzerismo vem de mazzero. Ele também é apelidado de "O caçador de almas" e "O Mensageiro da Morte".

Origem

Este valor provavelmente remonta a um período anterior à religião megalítica, do povo de caçadores e coletores. Na verdade, a ligação mística entre a vítima eo mazzero repete muito do que teria existido na Idade Pré-Neolítica entre o caçador e sua presa. O mazzerismo também oferece muitos pontos em comum com o xamanismo. Embora muitas tribos espalhadas do mundo se sustentam com a caça não é um estado místico comparável ao mazzerismo corso.

Etimologia

Mazzero evolui de mactator, Substantivos da mactare verbo latino, de onde vem também o italiano "matar". Ele definitivamente tem paralelos com a palavra espanhola matador que, precisamente na realidade e não no sonho, mata um animal. O Mazzer tem vários nomes na Córsega, dependendo da área, "culpadore" ("colpatori" em Figari), "acciacatore", "mazzeru" ("mazzatori" em Gualdariccio), "lanceiros" em Sartène , "nuttambuli" ou "sunnambuli" em Appietto, "murtulaghj" em Marignana. Em algumas dessas áreas, no entanto, argumenta-se que os homens são murtulaghj apenas para aparecer em um sonho, anunciando a morte.

O Mazzer

A caça pode ser individual ou coletiva. Neste caso, o sonho envolve mais mazzeros. Muitas vezes, o mazzero assume a forma de animal: um cão, um gato ou um corvo. O mazzero tem na sociedade uma reputação ambivalente, embora realiza uma vida social normal por seus concidadãos é considerado como um ser sobrenatural, como um intermediário entre o submundo e o mundo dos vivos.

O sonho de perseguição e profecia

Sua arma de escolha é uma vara pesada, chamada de "morcego", mas com o avanço da cultura, também pode usar a arma, lança, machado, punhal, facas e até mesmo o asfódelo, a arma usada no luta entre dois mazzeros de duas aldeias diferentes. A caça ocorre em áreas de fronteira e nos lugares mais selvagens: os locais mais desolado, os vaus, rios. Estes são os seus lugares favoritos. Ele joga para emboscada e segue o mesmo padrão de caça tradicional perto de pontos de água, em lugares incultos, selvagem e impenetrável. Os rios marcam a fronteira de um mundo para outro. A água também é um dos lugares favoritos dos espíritos dos mortos que não tenham expiado seus pecados. No entanto, a função de mazzerismo também pode ser útil: você pode agir sobre os acontecimentos e inverter a tendência em favor da pessoa reconhecida na caça.

O Mandrache

O Mandrache é uma batalha fantasma entre os mazzeros de duas aldeias diferentes. Ocorre geralmente em uma colina. Isso acontece na noite de 31 de Outubro -1 novembro, agrupados em milícias, lutando contra os da comunidade vizinha. Esta guerra é praticada com o asfódelo. Os vencedores terão um ano de prosperidade, um dos perdedores e fome. Os mazzeros da aldeia perdedora não vão perder os mortos.

Transmissão de poder e taumaturgia

A transmissão de mazzerismo é geralmente hereditária e você tem que ser um membro de uma família de Mazzero. É um presente que você não pode recusar, se limita se você não vai se tornar um mazzero "acciaccatore" assassino ou não, nesses casos o mazzero será o salvador e curador de almas.

Fonte: Wikipedia Italiana