domingo, 10 de dezembro de 2017

Sahasetaum

Esta é outra versão de como poderia ser o conflito final entre o Império das Luzes e o Reino das Trevas, pela conquista do Cosmo e das criaturas evoluídas, a fim de agradar ao Universo e mostrar qual dos filhos é o melhor soberano de suas posses.
Ao menos, essa era a intenção do Universo, criou Leviathan e Iahravel para ajudá-lo a comandar o Cosmo em toda sua extensão, mas não imaginou que isso iniciaria uma luta entre os irmãos, pela conquista de mais galáxias para suas possessões.
Isso o deixou irritado, tanto com seus filhos como consigo mesmo. Entretanto ele não era capaz de tomar atitudes drásticas. Se fosse para punir seus filhos, deveria punir-se primeiro. Mas o conflito tomava dimensões assustadoras e isso o angustiava.
Suas partículas, prestativas, puseram-se a trabalhar para tranqüilizá-lo, tirando dele o fluxo irado até este assumir uma forma de vida independente e pronta para agir pelo Universo, já que este não queria.
Foi com satisfação que o Universo viu surgir um quase meio irmão, pronto para ser a força da justiça, pelo bem da harmonia no Cosmo, mais a sua própria, antes que ficasse conturbado e tudo acabasse. Melhor que isso era então dar boas vindas a este e deixá-lo trabalhar. Assim surgiu Sahasetaum, que partiu em missão para advertir Leviathan e Iahravel de que este conflito estava tomando proporções perigosas.
Como a reclamação de inúmeras criaturas imoladas era em maior número contra o Império das Luzes, para lá se dirigiu Sahasetaum.
No castelo de Iahravel, a corte estremeceu ao perceber algo estranho acontecendo no firmamento. Foram perguntar ao Imperador o que ele estava fazendo, pois o julgavam responsável, já que dizia sempre ser o Deus único e todo poderoso. Talvez o fosse, mas entre os seus, mas não muito diante de seu irmão e nem um pouco diante de seu Pai. Como sabia que seu Pai não o atacaria, achou que só poderia ser coisa de seu irmão.

-Meus filhos! Eis que vejo que as forças infernais têm a ousadia de vir até nossa presença e nos atacar! Preparemo-nos e vamos enfrentá-las!

Assim se equiparam com todas as armas, o exército inteiro, paramentado e pronto para enfrentar todo tipo de força. Quando Sahasetaum saiu dentre os redemoinhos de estrelas e energias cósmicas, o exército inteiro entrou em comoção, o próprio Iahravel se assombrou com semelhante aparição. Mas logo deu o comando de ataque, sendo seguido por inúmeros disparos das armas mais pesadas.
Os fachos luminosos ricocheteavam pelo corpo de Sahasetaum, como pipocas na panela, mas o ataque o enfureceu. Simplesmente com uma de suas patas, golpeou toda a tropa, jogando-a de volta ao castelo de Iahravel, que quase não vem abaixo com o impacto.
Embora desacordado, Iahravel pode escutar bem a advertência de Sahasetaum que, se me permitirem, irei omitir, pois é terrível demais para que se escreva e pior ainda de se ler. Avisado o primeiro filho, Sahasetaum dirigiu-se ao outro. Esperemos que Leviathan receba melhor Sahasetaum, que já está irritado. Que o faça ainda ter confiança ao menos em um filho e o tranqüilize, senão, toda luta terá sido em vão!
Do mesmo jeito que se aproximou do centro do Império das Luzes, Sahasetaum aproximou-se do centro do Reino das Trevas, com as mesmas consequências disso.
O Conselho das Trevas, receoso de que isso fosse um plano de Iahravel para derrotá-los, estava para ordenar a prontidão,quando Leviathan acordou e ergueu-se.

-Soberano Leviathan! Melhor se esconder e vestir tua armadura! Sentimos que teu inimigo está tramando tua morte!
-Não sabem o que dizem, amigos. Este não é meu irmão, senão já o sentiria. E? algo maior, que me toca o coração. Devo recebê-lo em minha casa e tratá-lo bem, seja lá qual for o motivo de vir me visitar.

Apesar dos pedidos, Leviathan sai, dispensando sua guarda e até seus ministros de acompanhá-lo, sai sem uma arma sequer. Não contendo sua euforia, deixa ser visto em seu poder, como o Dragão de Sete Cabeças e Dez Chifres. Diante da tempestade cósmica faz uma saudação reverente.

-Pai, o que queres de mim? Diz o Soberano das trevas. No que surge Sahasetaum e lhe explica:
-Não sou seu Pai, mas vim por causa dele, para advertir a ambos os filhos de que o conflito deve ter fim.
-Se não é meu Pai, quem és, criatura, capaz de trazer ternura ao meu negro coração?
-Eu sou Sahasetaum, o que foi designado pelo Universo, para controlar as atividades das Luzes e das Trevas. Se necessário, julgá-las!
-Então entre e seja bem vindo. Nada tenho a esconder ou me envergonhar. Antes de dominar, prefiro mais a livre associação dos seres à minha causa. Se eu luto, é para manter a salvo tantos planetas e vidas que existem pelo Cosmo, sem esperar destes, gratidão ou reconhecimento. Como criaturas racionais e feitas da mesma matéria que a minha, embora mortais e frágeis, devem ser livres para terem seu destino e sua crença, seja nos princípios das Luzes ou das Trevas.

Tendo escutado e visto tanta sinceridade, sabedoria e nobreza, Sahasetaum acalmou-se, até esquecendo-se do incidente com Iahravel. Aceitou o convite e entrou na casa de Leviathan.
Foi então apresentado à rainha das Trevas, Nahema, esposa de Leviathan. Apresentou-o à princesa das Trevas e sua filha, Lilith, mais seu companheiro, Samael.
Lilith saudou o imponente guerreiro, com o mesmo beijo carinhoso que uma neta daria a seu avô. Tanta força e poder lhe provocavam, mas apesar deste amor súbito, sua paixão verdadeira era por Samael.
Sahasetaum até poderia tirar partido disso, mas para ele, Lilith era quase menos que uma criança. Nahema era tão bela, senão mais que Lilith, mas sentia-a como sua própria filha. Então preferiu continuar só.
Leviathan levou-o então ao Conselho das Trevas, que o recebeu atordoados, tamanha era a potência. Era o mesmo que um ancião ter entrado numa brincadeira de roda.
Preparou-se então uma festa de boas vindas, para apresentarem-se todos ante Sahasetaum. Satan e Moloch pediram-lhe para que abençoasse a união deles, mas Sahasetaum era mais juiz que sacerdote. Belphégor fez uma bela explicação dos princípios das Trevas, mas Sahasetaum a escutava, como um professor que tentava prestar atenção à apresentação de uma aluna. Lucifuge apresentou sua tese de acusação contra o Império das Luzes, mas Sahasetaum como juiz sabia perfeitamente os prós e os contras dos dois filhos do Universo. Belzebu e Baal Chanan fizeram um verdadeiro espetáculo aéreo, mas Sahasetaum, que já tinha visto a dança das estrelas, planetas e galáxias, nem se entusiasmou. Enfadonho, para Sahasetaum, foi ouvir as abordagens alquímicas sobre fenômenos naturais e sobrenaturais de Astaroth, já que Sahasetaum era a própria essência do que existe de mais sobrenatural. Uma última tentativa por Asmodéia, em sua dança de fogo com serpentes inflamadas, apresentação aparentemente inútil, já que Sahasetaum poderia facilmente brincar com o maior e mais poderoso dos sóis. Mas não poderia deixar de admirar, com que determinação defendiam seu Reino. Os acompanhava com os olhos quando estes, exaustos, voltavam aos seus lugares.
Foi ao observar Asmodéia que notou uma criatura sem igual em toda a extensão do Cosmo. Estava a cobrir com uma manta a Asmodéia e a servi-la com vinho para relaxar, refrescar e acabar com a sede dela. No meio daquele carnaval, era a única que, calma e dedicadamente cuidava do seu trabalho, sem nunca desviar a atenção a ele, o convidado e o festejado. Quis conhecê-la melhor, mas naquela folia era impossível. Então se retirou junto com ela, para outro espaço, a fim de conversar.
Assustada com a repentina desaparição de todas as coisas em torno dela, olhou para o único lugar onde havia mais alguém, que era Sahasetaum.

-Quem é, adorável criatura? Perguntou o gigante.
-Que quer de mim, senhor? Não sou mais que a governanta de Asmodéia.
-Não serás mais, se assim quiseres. Peço-te que me acompanhes.
-Onde irás levar-me, senhor?
-Quero levar-te até onde criatura alguma jamais foi.
-Mas por que eu, que te sou completamente desconhecida?
-Pois então, apresente-se. Eu sou Sahasetaum, incumbido de julgar as Luzes e as Trevas. Agora é tua vez.
-Eu sou Vrtra, venho da mesma tribo de Moloch e fui incumbida de cuidar de Asmodéia, enquanto ela não alcança a idade da responsabilidade.
-Criaturas como tu foram feitas para comandar. Como eles puderam relegar-te tão degradante serviço, a tão pueril criatura como Asmodéia? Agora vejo porque tentam enganar-me. Tentaram esconder-me essa injustiça!
-Oh, não, senhor! Não foi por injustiça! Na verdade, Asmodéia cuida de sua parte, mas eu a administro, sugerindo-lhe indiretamente, por conselhos.
-Pois então, deixe-a agora, deve ter tido aulas suficientes, ela já está bastante crescidinha para precisar de uma governanta. O que me diz, queres ir ou não?

Vrtra aceitou, pois temia o que poderia lhe acontecer se recusasse. Sahasetaum a fez voar consigo pela imensidão do Cosmos através de todas as regiões, tanto das Trevas quanto das Luzes. Levou-a então, por através da região que o Universo regia, o lar de Sahasetaum e ela maravilhou-se.
Pousaram em um lugar que superaria qualquer definição de beleza ou feiúra, porque simplesmente ali tais conceitos não tem utilidade, já que na região mantida pelo Universo estão os planetas, galáxias e seres que superaram todos os medíocres referenciais de valor.

-Seja bem vinda Vrtra, ao coração do Universo e ao meu lar. Onde coração e mente são coisas únicas, existindo por todos os princípios negativos.

Sahasetaum pousou suave, delicadamente e ternamente uma de suas mãos no ombro de Vrtra que estremeceu.

-Compreendo teu temor, criatura. Eis porque te trouxe para cá. Somente aqui poderia fazer-te tocar no nervo do universo e torná-la como uma galáxia ou algo de uma existência tão complexa como Leviathan, Iahravel e quase tão poderosa quanto eu.
-Senhor! Mas eu?!
-E mais ninguém conheço que pudesse ser assim. Só assim perderá o medo por mim, terá tua liberdade. Se algum dia tu vieres a nutrir apreço por mim, terá capacidade de me falar por igual, como igual será recebida e viverá comigo. Acha que é possível? Por mérito e esforço, uma criatura evoluir tanto?

Das garras de Sahasetaum surgiu uma esfera que mais parecia a própria vontade do Universo, a mesma vontade que criou tantas coisas

-Sim, é possível! Eu mesma vi inúmeras vezes, criaturas menos evoluídas que nós, chegarem ao extremo. Faço parte de um reino, cuja característica e formação está em criaturas que conquistaram formas de existência mais dignas. Então...eu também...

Vrtra tocou,ainda receosa a esfera, na expectativa de que fosse sentir dor ou de que seria destruída. Mas a esfera desvaneceu ao seu toque, como uma bolha de sabão. Tão simplesmente como a chuva cai de nuvens carregadas, Vrtra agora irradiava essa força, que antes era a esfera.

-Agora retornaremos. Dar-te-ei o tempo que quiser para decidir teu destino, pois agora tempo é o que não lhe faltará.

No instante seguinte, já estavam de volta no mesmo lugar de onde partiram. Sahasetaum deu a entender que já partia, logo todos se puseram a fazer as despedidas.
Ao desaparecer Sahasetaum, Leviathan ainda parecia senti-lo presente. Notou Vrtra, que estava diferente. Esta lhe contou tudo, pois ainda o considerava o seu soberano.

-Então agora eu é que te devo respeito, Vrtra. Disse Leviathan, inclinando-se em reverência.
-Não, meu soberano. Ainda não decidi. Seria muito fácil tirar proveito de minha condição, para forçar Sahasetaum a ter preferência pelo nosso Reino.
-Tenho certeza que ele o faria por ti. Mas desconfio que, antes mesmo de a ter visto, ele já tenha nos julgado, nos considerando dignos de sua piedade e confiança. Caso contrário, não teria feito o que fez contigo. Antes, já o nosso Reino escolheu por viver, de forma a orgulhar o Universo. Agora, estamos praticamente morando no coração do Universo, graças a ti.

Eis talvez o porquê, leitores, no final, as Trevas venham a vencer as Luzes. Primeiro porque as Luzes perderam completamente o contato com o Universo, vivendo em seu estúpido fanatismo. Em segundo, porque as Luzes não souberam receber, nem reconhecer Sahasetaum, como enviado do Universo ou como um dos seus. Por outro lado, as Trevas, em primeiro, viveram sempre em acordo às regras básicas do Universo, sabendo viver seu destino. Em segundo, por ter Sahasetaum encontrado alguém com quem poderia deixar seu coração repousar.
Vrtra ainda não sabe se aceita a oferta, pois estará muito preocupada por vários milênios, com a ameaça constante que se tornou o Império das Luzes ao seu Reino. Talvez, quando tiverem paz em si, possa levar um pouco a Sahasetaum, ao simplesmente aceitar a oferta. Mas o mais irônico nisso é que só será possível, quando finalmente a prepotência do Império das Luzes for detido pelo reino das Trevas. Ou seja, o conflito que Sahasetaum queria deter, continuará. Só que, a partir deste momento, será ele que ficará angustiado e irritado, sem saber ao certo o momento exato de agir, já que foi criado com esse propósito. Mas isso não demorará, assim espero! Sahasetaum deseja dar fim a este conflito, viver o quanto mais cedo possível com Vrtra e ter um pouco de paz!

Consultem minha pequena versão sobre a criação, sobre o surgimento de Leviathan e de Iahravel, do reino das Trevas e do Império das Luzes. Tem um capítulo, onde faço uma pequena tentativa de antever como será tal conflito final entre os dois irmãos.
Pode lhes parecer um pouco pretensioso. Praticamente me delego a posição de escritor do profano e que serei para as Luzes, o falso profeta que anuncia a Besta, o que fará com que tenham de me eliminar.
Irão rir da minha fantasia, de que justamente um ser tão medíocre quanto eu, possa vir a tumultuar o Império das Luzes, após sua vitória provisória, ao plantar a árvore do Fogo Negro em plena Nova Jerusalém.
Bom, meus amigos, hão de convir que meu intenso trabalho já deve ter surtido algum efeito em minha Deusa, Lilith. Sem dúvida, ela comentou minha predisposição com Vrtra. Se esta me julgar merecedor de tal apreço, certamente irá pedir por minha proteção a Sahasetaum, para que minha missão seja bem sucedida. Porque não seria muito ético, da parte de ambos, tomarem nitidamente parte do conflito, então se servem de peças mais sutis, que possam trazer, enfim, o resultado almejado por ambos.
Afinal, por uma paixão a Vrtra, Sahasetaum se diminuiria a ponto de proteger uma vida mortal e tão medíocre quanto a minha. Sensacional vai ser testemunha-los consumando esse amor, ao fim do conflito. Podem ter certeza de que estarei observando como Sahasetaum ficará feliz com a recompensa desse esforço.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Quinta revelação

Não os consulteis, mas vossos corações. 
Não prestigiem os cultos que orquestram, 
mas antes, dais culto aos vossos lençóis. 
Aos homens foi dado um bastão, 
porque aí se encontra a verdadeira magia. 

Cuide bem de vossa chave, 
pois se quiserdes desvendar os mistérios da existência, 
vos é imperativo que saibais buscar a fechadura, 
o encaixe perfeito só se poderá alcançar na tentativa! 

As mulheres têm a coroa, 
porque aí se encontra a verdadeira sabedoria. 
Cuide bem de vossa fechadura, pois sem uso enferrujará 
e vos tornará em mulheres amargas, histéricas ou neuróticas. 
Como vos podeis querer manter um tesouro guardado? 
Sem ele não haverá evolução da humanidade! 
Somente pelo vosso portal que tal riqueza poderá passar, 
por isso que vos é necessário 
que deixeis que a chave experimente a fechadura!

Deixe de lado a vergonha ou o recato, 
que isso é submissão moral a pequenos! 
Eu proíbo-vos apenas isto: que se cubra ou vele vossa beleza, 
pois o que é bonito é para se mostrar. 
Cobrir-vos, somente com vossos lençóis, na cama, com vossos escolhidos. 

O único sacrifício agradável a Mim, seu Senhor, 
não é sangue de animal, mas o sangue virginal 
que ofertar em vossa primeira noite, uma única gota Me basta. 

O único louvor, não se encontra em templos, mas em motéis; 
não em cânticos, mas nos gemidos que precedem o orgasmo. 
Vós não encontrareis a salvação na observância das virtudes, 
nem na caridade, nem no dízimo, nem na oração, 
nem na busca obsessiva da pureza de espírito, como vos ordenam.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Heterogênese XIX

Eis que chega o dia do confronto entre o Espírito das Trevas e o Espírito das Luzes, quando o Universo, Pai de ambos e equilíbrio harmônico, julgará qual dos dois filhos foi mais bem sucedido na missão que lhes confiou.

O prazo, que o Universo concedeu a seus dois filhos para que provassem suas capacidades, está prestes a se consumar. Foi marcado que ambos deveriam mostrar seus feitos, quando a data de aniversário do surgimento de cada sol e cada planeta do Cosmo, coincidissem em um único instante.

Sabendo que não lhe restava muito tempo, que seus seguidores estavam divididos e que estava bem próxima a vitória do Espírito das Trevas na Terra, o Espírito das Luzes lançou um ataque de grandes proporções em ambos os níveis, tanto o material quanto o espiritual, pela reunificação total do Império das Luzes e a destruição do que consideravam o Mal, que estava representado pelo Espírito das Trevas. Deu a este ataque o nome de Apocalipse.

Entretanto, nunca o Espírito das Luzes foi superior ao Espírito das Trevas, por mais que este acreditasse. Como este ataque estava tomando dimensões assustadoras e estava mesmo com a intenção de aniquilar qualquer oposição, Leviathan, o Espírito das Trevas, convocou prontidão imediata de todos do Conselho das Trevas e dos espíritos das Trevas, pois a guerra estava declarada, embora todos preferissem evitá-la. Mas como o Império das Luzes tomou a iniciativa, cabe ao povo das Trevas o direito de defender-se e manter o Império das Luzes nos seus limites, senão a harmonia necessária para a existência do Universo estaria quebrada.

Embora pelo livro sagrado do Império das Luzes, chamado de Bíblia Sagrada, este Império fosse considerado mais forte e poderoso, portanto vencedor da luta, a verdade aqui se encontra, já que as Trevas não sentem necessidade de enganar ou falsear os fatos, já que esse é um método usado pelo Império das Luzes para garantir sua soberania sobre as mentes fracas dos humanos. Sabemos que as ações têm mais significado do que as palavras e justamente o Império das Luzes tem feito exatamente aquilo que condena.
Este é o livro das Trevas que será chamado de Crítica Sagrada que, como o próprio nome diz, as únicas coisas sagradas são as capacidades de criticar , de pensar e duvidar, capacidades que toda raça superior inteligente e racional deve ter.

Eu estava no exílio que a sociedade me trancafiou, junto com outros loucos por terem a audácia de reconhecer a superficialidade do Império das Luzes e da sociedade regida e controlada por eles. Ainda estava alheio a tudo, pois me concentrava em reescrever mais e melhor o Livro das Trevas.

Era uma bela manhã de domingo, com a rotineira visita de padres para realizarem a missa, a catequização e o recuperamento mental sadio dos internos. Algo mudou neste dia, eu até podia adivinhar porque. Pois os cardeais e um bispo, invadiram com uma centena de padres e freiras armados, o pátio do manicômio, sendo requisitada a presença de todos os internos. Isto foi rapidamente atendido, pois os enfermeiros e dirigentes faziam parte da sociedade normal e integrada ao Espírito das Luzes. Mesmo que não quisessem, teriam de fazê-lo ou serem metralhados friamente. Esta era a intenção daquele bispo gordo e ensebado, sentado num palanque, numa cadeira luxuosa, metralhar a todos nós, já que a loucura era sinal de possessão demoníaca, mas ele preferia dar uma chance aos internos.

Ficou claro para todos, para que tipo de missão esses santos homens representantes da Igreja vieram. Muitos começaram uma fuga desesperada, mas não havia saída. Logo foram cercados e postos a assar em uma imensa fogueira. Pude ver bem que os olhos de nossos executores faiscavam mais que as chamas, maravilhados com o poder que tinham, em prol da purificação do mundo.

Sabendo que, em breve acabaria também nas mãos destes carrascos, lancei um último e pesaroso olhar para meus amigos e enfermeiros. Foi justamente por isso que um deles me apontou, trazendo-me para perto do supremo assassino, nas vestes de um bispo.

Com presteza, armaram um cadafalso improvisado e um nó tosco em torno de meu pescoço. A forma do nó lembrou-me muito do que é usado em gravatas, embora as considere mais parecidas com coleiras humanas.

Veio o próprio canalha, para puxar a alavanca que acionaria a porta do cadafalso, debaixo de uma sombrinha de veludo vermelho, com os emblemas papais em dourado. Tudo por causa de alguns protestos dos internos, para que não se matasse o único com sanidade ali. O tumulto foi controlado pelos enfermeiros, especializados como uma tropa de choque no controle de comoções. Pela lógica, todo aquele que está no asilo, foi por causa de um mau funcionamento mental. Não poderia provar, agora que seria executado, de que fui afastado da sociedade, condenado a tal exílio, por uma conveniência: minhas obras desestruturavam o meio podre de viver da sociedade. E por uma conivência: de meus parentes em me entregar às autoridades, em troca de recompensa e prestígio social.

Meus ossos estavam para ser esticados neste estranho varal, para secar ao sol, quando a tarde feneceu, muito rapidamente. Logo chegam a noite e as sombras, parcialmente afastadas pelos holofotes elétricos, iguais aos que se usam em campos de futebol. Agora sim, minha execução virou um espetáculo circense, como qualquer execução o é.

O chão me falta. A cabeça estala. O corpo treme. Estou morto. Ainda assim, posso ver que, não contentes, perfuram meu corpo inerte com suas baionetas e bebem meu sangue, atirando o resto ao fogo.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Quarta revelação

O que fazeis tolas crianças? 
Por que negai-vos o desejo? 
Por que fugis do prazer? 
O que temeis, se não há nada que vos impeça? 
Acaso é a felicidade? Será que a satisfação é tão aterradora? 
Deveis obediência apenas a vosso Senhor, 
que é vosso corpo e à Lei deste, que é o instinto. 

Quaisquer outras obrigações, 
só façam por vosso consentimento, 
pois são deveres que, tal como os direitos, 
são concessões que existem para vossa época 
e a convivência em uma sociedade comum. 

Não vos fieis nestes que se apresentam em Meu Nome, 
pois não necessito nem constitui advogados. 
Nem crede em qualquer livro, 
por mais santo que se o considere, 
são obras humanas, não as minhas. 

Se quiserdes realmente seguir a Lei do Senhor, 
ausculta vossos corações,
pois é neles que escrevi com Meu próprio fogo, 
minha Palavra e a Lei. 

Muitos vós conheceis, que dizem conhecer-Me, 
mas sabei bem que nisso se empenham 
por que nada de mais útil sabem estes fazer. 
Não os sustente nem os coloquem em cargos, 
não os sacramenteis, mas sim a vós.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Lírios sangrentos

Ou conferências carnais sobre a materialidade humana, os objetivos das deidades e a justificativa de seus métodos.
Pois todo o futuro da humanidade está na corrupção da carne, do que sobra, entre vícios e virtudes, sirva-se de prazer a estas deidades que, não tendo a matéria para sentir, exigirão os sentimentos em essência de nós, para terem os prazeres que temos, mas tendo-os em nível espiritual.
Pois a eternidade é um ócio é um tédio, é preciso sentir a vida, esses nossos mortos e existentes sem existência, deidades e antepassados, tem necessidade de algo para distrairem-se e perceberem a própria presença por estas dores e exultações a que estamos expostos enquanto vivos.
Pois nos enganamos, acreditando que a presença na eternidade é melhor que esta na Terra, nos afundando e cercando de crenças, fornecidas pelas múltiplas deidades, cada uma em busca de mais simpatizantes, para aumentar seus pratos e diversificar mais a ceia.
Pois todo ser que é sem que o seja, alimenta-se da crença dos vivos, para que esses confiem a essas deidades o seu destino após a morte, na qual então tais deidades poderão digerir sem consumir o espírito dos crentes que se ofertam a eles, por uma vida após a morte, sem dor ou sofrimento, o que terão pelo preço da corrupção das carnes, mais o espírito, eternamente cedendo alimento, em troca de sua permanência junto a essas deidades. Se os prazeres destas deidades se decidem mais por experimentar virtudes ou vícios, não parece ser razão suficiente para distingui-las e separá-las entre o Bem ou o Mal. Os objetivos são os mesmos, embora a matéria prima seja diferente, assim como as sensações produzidas por estas. A Virtude, embora dependa de referenciais nem sempre confiáveis ou estáveis, é enobrecedora, ou melhor, os homens acham que isto os engrandece e os torna homens de bem, merecedores desta vida na eternidade, que resumem no Paraíso, quando o que terão é, na verdade, o que conhecemos aqui por relação simbiótica, uma troca entre codependentes que se auxiliam e alimentam-se mutuamente. Realmente, o que seriam de todas essas deidades se não houvesse tais homens, ou mesmo tal existência material, ou até tal vida inteligente?
Pois é de se notar que apenas a criatura humana tem tal capacidade de reconhecer e adotar comportamentos considerados agradáveis a tal deidade, por misteriosos meios de comunicação entre esses e o Homem, quer por escrituras, quer por outros homens que se dizem ter contato com esses. O que é lógico, pois incapacitados pelo seu estado, fazem-no através dos homens, para falar pela boca e pela língua de seus ouvintes e estes, para perpetuar a palavra, a registram nas linhas de um papel, e este livro também acaba tornando-se um testemunho dos desejos destas deidades aos homens, de como devem levar suas vidas, para merecer tal proteção e prêmio no final da etapa da vida.
Mas então se vê um paradoxo: tão poderosos e ainda assim como um Rei, depende de seus vassalos, para que assim o sejam, dependem da crença dos homens, em número e qualidade, para reconhecer-se e fazer-se presente, tanto a si como aos demais, que competem entre si, pela conquista do mais alto grau de poder de domínio. O mais estranho: vai ser essa quantidade e qualidade de criaturas aos seus cuidados que lhes darão o poder necessário, pela força de vontade destas.
Então digladiam-se as deidades em busca da preferência humana pela vontade que são dotados, a mesma vontade que nos tornam criaturas tão notáveis e capazes. Mas a partir do momento em que se deixa dominar por estes desígnios ou outros líderes temporais ou sagrados, corre-se o risco de se perder também a razão, tornando a vontade apenas uma força de coação, agindo pela uniformidade, prisão e extermínio da diversidade. Pois homens lutam pelo domínio dos seus, da Natureza e de toda a Terra em busca de conforto, poder e riqueza ainda em vida, ou de perpetuarem sua memória, ou de perpetuarem a memória das deidades em que acreditam. Pois tão confiantes estão de que esta é a portadora da Verdade, acabam tornando-se serviçais, se não das deidades, de seus ideais, que na forma de organização humana, acaba sendo transformados em uma presença que podemos considerar semelhante à que exercem as deidades sobre os homens.é interessante notar que quaisquer desses dois captalizadores das paixões humanas acabam negando a base primária de sua razão de ser: a matéria, à vontade e a humanidade.
Enquanto as deidades exigem um comportamento moral, os ideais comandam os modos de ação da vontade humana. Um comportamento moral tenta regrar as atitudes humanas frente à Vida, negando ou tentando coibir essas práticas mais apegadas à matéria, o que cada deidade entende por vicio, em precedência e preferência a outros, que são dados por virtudes, embora ambos são e precisam ser realizados ainda em vida, vida essa cuja base é a matéria. Mesmo as virtudes não se manifestam, sem se concretizarem em atos ou obras que possam ser reconhecidas como tais. Já os ideais tentam regrar o comportamento do Homem frente ao Homem, dentro de uma Sociedade, a qual é organizada por Estados, estes são formados pelos ideais dos líderes da Sociedade, que garantiram a legitimidade da formação destes ideais, estados e Sociedades, pelo esforço da educação e civilização dos hábitos dos demais, através de anos de História, separando e perseguindo o que é definido, por estes ideais, como marginais e criminosos. Muitos se tornam um elemento visado por não terem muitas escolhas diante da indiferença, total falta de orientação e oportunidades dentro destas sociedades, que são sempre privilegiadoras de um grupo, que contam com a garantia da força física para coibir desvios e a coopção contemplativa desses ideais pela maioria dos componentes das sociedades, através da formação de uma legislação, via hegemonia ideológica, garantida pela educação. É de se ver que tal lei e justiça só se mantém quando tem mais força física que os que estão enquadrados na marginalidade e na criminalidade, tais definidos pelo que entende tais ideais, agregados nos homens e na sociedade, transformando-se numa presença de domínio e controle das ações humanas, tal como as deidades, negando sua matéria de formação, o ser humano, todo ele, cada um, ser vivo, formador de ideais e sociedades, mas que pela ação de um geral organizado, acaba sendo proibido de ter seus ideais fora do organizado socialmente, ou mesmo de ter sua participação nesta, apesar de ser sócio ao seu modo de participar nesta, ainda que limitadamente, por não preencher as exigências necessárias para tornar-se um líder social ou até um cidadãos honesto, que são todos aqueles que seguem as leis e as condutas sociais organizadas e orientadas por estes líderes sociais.
Agora, tentemos imaginar afinal o que então, qual que justifica a presença do outro, devemos nós sermos gratos a ponto de nos entregarmos incondicionalmente a estes que nos formaram, tanto as deidades como as sociedades, ou caberia a nós, justamente por sermos racionais, buscar regras de convívio entre o indivíduo e cada uma dessas entidades coletivas, de formas mais abertas e livres, com melhores ofertas e oportunidades iguais em prol do próprio sucesso destas? Ou então devem estas procurar agir mais pelo Homem, enquanto indivíduo, pois não é a união de todos e cada um que possibilita e realiza a presença concreta dessas entidades?
Como se vê, a solução está em ouvir e permitir o acesso de cada participante e crente, para melhorar, atualizar e efetivar como poderes de decisão, as deidades e as sociedades, porque estarão finalmente garantindo a total capacidade de manifestação de cada um. Só desta forma se chegará com sucesso ao objetivo de toda deidade e sociedade, que é captar, coletar a maior quantidade e a melhor qualidade de pessoas, congregá-las nesse meio que só será legítimo quando a vontade coletiva for reflexo de cada vontade individual.
Por outro lado, se existem as deidades que se alimentam das virtudes e as sociedades que se alimentam dos ideais, da mesma forma terá o grupo que, pelo mesmo objetivo mas movido por outras matérias primas, faz sua presença pelo motivo dos vícios, crimes, imoralidade, dissociação, individualidade radical, anarquismo. Mas é bom notar que isso é assim nomeado por um juízo de valor definido pelos primeiros partidários, que considerando ser sua vida exemplar, desta forma a defendem ardorosamente, caracterizando os demais comportamentos e atitudes por estas palavras depreciativas. Não se pode condenar quem, na falta de expectativas e perspectivas, acaba criando todo um método e atitudes segundo um referencial próprio.
Já que existe dissidência, é porque não são tão perfeitas as deidades e muito menos os homens, seus ideais e suas sociedades. Por que não se ouve, ainda que sejam minoria, pois resolvendo os problemas e desajustes destes, evita-se toda a consequência criminosa que realizam em busca de sobrevivência ou afirmação como seres vivos e merecedores de alguma atenção e cuidados. Essa seria a função da organização humana enquanto sociedade, garantir a participação de todos os sócios. As deidades simplificariam bastante seu trabalho sem adversários, pois as atitudes tidas como pecaminosas ou viciosas são apenas formas de expressão de protesto e descontentamento, o que não lhes tira a legitimidade de, como atitudes de vontades conscientes, de serem proveitosas a essas deidades. O que temos na verdade não é a luta entre o Bem e o Mal, mas de conceitos e sentimentos que devem ser discutidos e vivenciados, pois são parte da personalidade de todo ser.
Não se pode condenar qualquer um que seja, por ter tomado medidas drásticas, mesmo o assassinato, pois nós não consentimos, muitas vezes de alguma forma até colaboramos, para a morte por frio, doença, fome, abandono ou violência contra crianças, homens, mulheres e velhos? Muitos não desejam tal destino, incomodados e inconformados, reagem contra quem acredita ser seu agressor, ou seja, a sociedade. Mas o defeito está na organização e nos organizadores dela. Cabe a nós, como parte disto tudo, lhes exigir atitudes mais eficazes e eficientes que não simplesmente matar, surrar e prender, o que acaba agravando o problema, já que este surgiu por esses fatores. Basta dar acesso e orientar todos para serem indivíduos produtivos, receberem adequadamente para isso, para serem consumidores, para haver mercado, gerando mais riquezas,menos diferenças, miséria, mendigagem, criminalidade.
Então, nenhum ato pode ser considerado criminoso, pois todo ato tem um motivo e um objetivo claramente definível, caso não o seja, tem origens psicológicas, sendo assim, não é natural, foi conduzido a tal estado de demência pelo meio em que interagia.
Podemos imaginar o crime como uma forma da humanidade manter seus níveis populacionais, selecionando apenas os mais capacitados a viver na sociedade, já que o Homem é um dos animais no fim da cadeia alimentar, é até natural considerá-lo predador de todas as espécies, inclusive da própria. Para isso existem os crimes, puníveis ou imputáveis, pois a guerra é crime, mas os que sobrevivem são condecorados como heróis. Mesmo em paz a sociedade sabe como separar, isolar, incapacitar e matar por fome, doença ou violência policial, coisas cujos verdadeiros culpados nunca serão levados a júri, simplesmente escolhe-se um indivíduo para pagar por toda uma situação causada pelo sistema.

Então, o que vale a pena, por qual meio devemos levar nossa vida se é tão inútil e cheia de enganos acerca da real intenção de tais deidades por nós? Já que, de qualquer forma, teremos que ser devorados pela morte e só depois viver com nossos deuses, que irão conviver conosco nessa relação simbiótica eternamente, eles nos digerindo e nos mantendo inteiros ao mesmo tempo, por que nos perturbamos tanto com as atitudes e as separamos entre boas e más, se isto não é sincero? Qual é a verdade senão uma boa mentira em que se acredita e pela confiança se dá o valor de verdade? Já que não se difere o casto do libertino, todos deveremos morrer, por que então não viver todas essas maneiras de ser, sentir o mais que puder o prazer tanto das virtudes quanto do vício?
Justamente porque tanto os homens quanto as deidades precisam se justificar a si e a seu outro dependente, já que a existência de ambos seria tão vazia sem uma projeção que estabeleça a realidade como algo concreto, que só é perceptível aos sentidos, por meio dos quais satisfazemos nossos desejos de prazeres, por meio desses objetos, dessas crenças e atitudes humanas. Ou seja, o real é uma mera produção de determinados desejos e necessidades que, ao estarem satisfeitos, acarretam no prazer e no alívio de, com isso, sentir que estão vivos e justificando sua presença neste espaço hipotético.
Até mesmo aqueles que buscam a renúncia a tais sentimentos e objetos materiais o fazem na satisfação de justificar a própria existência. Baseados na crença, acreditam que se provando, privando, recusando, renunciando ao mundano, demonstram força e coragem, mesmo porque nesta renúncia, as reações biológicas proporcionam uma sensibilidade maior pela ausência desse material. Não negam o material, mas sim o valorizam, por causa de tal sensibilidade mais desperta, mesmo não o desejando, acabam vendo-o com mais esplendor que qualquer outro acostumado a tais objetos. Além do que, ao torná-los proibidos, os tornam mais desejados, conduzindo à sensações de prazeres ainda maiores que tinham ao usá-los.
Ao inverso, se se busca muito os vícios, eles perdem toda aquela carga de proibição, até diria pecado, pelo excesso de uso. Mesmo fontes de prazer se se tornam rotineiras, automatizadas, repetitivas, perdem o fascínio, porque agora é um objeto comum. Por ser comum, nem se nota mais quais os prazeres e necessidades que queremos satisfazer, o usamos porque se tornou um hábito, chega-se ao absurdo de o usarmos por instinto, o objeto chega a perder totalmente seu significado e passa a fazer parte do real, ainda que distante, no horizonte.
Não é sem motivo então que seja tão difícil deixar tais hábitos, nem tanto pelo prazer, que estes já não tem, mas sim por fazer parte do referencial do que se considera como realidade, parâmetro que os faz sentir parte deste real.
É então, por precisar de tais justificativas de se considerar inscrito no real, que os homens seguem tais determinações, vindas de seus líderes, ou vinda dos preceitos deixados por tantos profetas que se arrastam atrás das religiões deixadas pelas deidades que, para terem esse grau elevado sobre os mortais, devem sem dúvida estabelecer tais limites do real e do sobrenatural, assim como as regras de viver bem, para os homens merecerem tal local, ao findar o tempo material carnal destes homens. De qualquer forma, todos buscam seu tipo de prazer através das diversas formas de sensibilidade, isto sem dúvida é o que se verifica.

Eu sei que sou uma pessoa comum média e sustento os meus próprios engodos. Afinal, o pior radical contra o sistema é na verdade seu maior defensor. Sua razão de revolta se acaba assim que lhe for dado o que deseja, logo entrando no esquema e até irá defendê-lo. Mesmo o rebelde fornece justificativas ao sistema e sua crueldade, pois é justamente para manter a situação, que se age contra os revoltosos, justificando assim essa relação de exceção e privilégios de uma minoria sobre a maioria. Por mais que se mude de mãos os governos, ainda haverá insatisfação, mesmo que a oposição vença e seja social-democrata, a linha de Estado não deixa de existir e estes, que até tem boas intenções, acabam prisioneiros de sua presa. Não é sem motivo que nada muda efetivamente.


A carne é boa
Para o espírito,
Mas o espírito
É bom para a carne?

O amor constrói,
Mas e quando o amor
É solitário, quando não é
Possessivo?

Fomos feitos à imagem de Deus
Mas foi Ele quem nos fez tão falhos?
Deus é o Pai dos homens
Mas por que os homens
Só respeita o Homem
Que os lideram como pai?

Se Deus é uno,
Não deviam as pedras
Também adorá-lo?
Mas tantos quantos existem
Como a variedade de raças humanas?

Como é que recebendo tão pouco
Ainda sustentamos um governo?

Muitos não procuram outros mundos
Por covardia de enfrentar este?

Se o dia de hoje
Nunca é garantia do amanhã,
Por que somos prisioneiros
De calendários e relógios?

Um jornal documenta os fatos da realidade
Ou ajuda a filtrá-la com um papel timbrado?

Todos consultam algo para saber do próprio futuro,
Mas fazem algo para garantir o futuro geral?

Se a juventude se acha tão rebelde
Por que aceita viver de maneira tão fútil?

Nenhuma manifestação ainda que artística
Poderá ser considerada anarquista
Pois ao se manifestar, estará organizada
Por algum critério estabelecido.

Minha função é a de lançar a dúvida.
Eis meu prazer e minha tortura.
Porque quem se dá ao trabalho de pensar
Deve estar bem nutrido de idéias.
Ao fazê-las em confeitos escritos,
Nutrir os vazios dos espíritos dos demais.
Estas obras em que me dedico,
Aos poucos definhando ao dar parte de mim,
Só são suculentas
Porque os ingredientes são os melhores.
As obras de melhores
E anteriores a mim,
Seus livros são minha hóstia.
Neste estranho templo da sabedoria
Pretendo ser o vinagre amargo
Tanto para engasgar os acadêmicos
Quanto para esterilizar seus vermes.
Cuide bem de mim,
Estou em tuas mãos
E cabe à tua cabeça
Fazer bom uso de mim,
Para que estas minhas carnes
Não tenham sido temperadas em vão.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Heterogênese XVIII

Comemoro 72 anos, a mesma idade que tinha na minha preexistência, na qual pude compartilhar com o Conselho das Trevas, meus melhores amigos e amigas, contra quem falhei e tenho uma dívida. Dez existências, por volta de 144 anos entre um renascimento e outro, fico na expectativa de estar perdoado por eles. Conheci tantos estilos de vida que precisaria de um livro exclusivamente para contá-las. Minha vida atual no ano cristão de 2037, embora não seja meu referencial favorito, está bem melhor que muitas outras. Os governantes finalmente perceberam que não adianta nada o poder, o dinheiro e a fama se o povo que governam morre de fome, frio e doença. Embora isto ainda esteja bem pouco adotado, melhorou, sinceramente!

Devo ficar muito grato se, em todas estas existências pude, depois de algum tempo, recuperar parte da minha consciência verdadeira, a despeito das pressões que todos sofremos. Estou certo de que sou um privilegiado, por ter tido tanta capacidade de entender os princípios das Trevas, lá na minha preexistência. Tenho que procurar não ser tão arrogante. Quem sabe tenha sido com isso que me conduzi ao erro de magoar meus únicos e verdadeiros amigos e amigas, minha família,meu reino?

Exulto de felicidade ao saber que estamos vencendo a luta, lentamente. O Império das Luzes está perdendo a credibilidade. Dentro das próprias fileiras está havendo divisões, novas religiões de diferentes tendências surgiram para cultuar o mesmo deus repressor, algumas até aproximando-se das Trevas, mas ainda com muitos enganos. Esta divisão não nos ajuda, apenas multiplicará os adversários que teremos que vencer, mas já aparecem brechas na intransponível barreira de alienação ideológica que o Império das Luzes exerce sobre a humanidade, através de seus métodos de coerção e adestramento.

Temos de nos preocupar, entretanto justamente com estas, que se dizem favoráveis ao controle libertário e participativo das Trevas. Primeiro, por se colocarem como demonófilas. Isto já é um erro, já que a ideia de que as Trevas e seus habitantes tenham tais características, vêm justamente da infâmia que o Império das Luzes propagou sobre nós. Segundo, que seus métodos estão nos dando justamente a má fama que queremos evitar. Métodos de aniquilação e rituais satanistas, que mais se parecem com os usados pela Inquisição e os nazistas, que não são os nossos grupos, mas os do Império das Luzes. Terceiro, que concentram seus esforços em um dos do Conselho das Trevas por considerá-lo o grande chefe, o mais poderoso, o que tem o comando sobre todos os outros espíritos. Outro engano, este tipo de hierarquia e organização agrada somente aos participantes do Império das Luzes que, como todo Império, é centrado na figura de um deus único, onipresente e onipotente. As Trevas se assemelham mais a uma república, que é pública realmente, com ampla e total participação de todos os espíritos. Estes ajudam e apóiam o Conselho das Trevas que, como ministros legítimos e realmente interessados em servir aos seus amigos, decidem conjuntamente e com sabedoria. Para que isso possa acontecer, existe um orientador e observador, o Espírito das Trevas ou Leviathan, filho do Universo. Mas que, mesmo assim, não exerce poder algum, salvo se houver discórdia ou falsidade nas decisões do Conselho, diferente das exigidas pelo povo das Trevas. Leviathan é como o Primeiro Ministro desta república. Existe, portanto, uma democracia radical, uma sociedade real em suas intenções e em sua essência, numa anarquia sobre o poder e a hierarquia. Anarco Socialismo democrático simples e puro.
Justamente, por terem os mesmos interesses que os espíritos das Trevas, que são tão unidos e ao mesmo tempo individuais. Justamente assim é que se mantém um Conselho das Trevas, com estes representantes e o Espírito das Trevas, o Leviathan, como líderes, mas não como soberanos, pois a luta é árdua e o inimigo resistente. Pela continuidade e poder maior das Trevas sobre as Luzes, para que sejam profundas e consistentes e não fúteis e superficiais, todos nós lutamos pela vitória.

Sendo assim, aguardo que algum dia eles possam reconsiderar e ajudar-me. Este livro deve ser publicado algum dia, em alguma era, em algum lugar. Só assim descansarei satisfeito e espero que ele possa trazer a consciência na razão humana e a leve a pensar, ao invés de matar, explorar, dominar, repreender, de ser tão bestial.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Terceira revelação

Só vos permiti que continuásseis em vossa obsessão 
pela perfeição e busca do mundo espiritual, 
pois bem sabeis que com esse senso religioso inicial 
é que vos percebêsseis como criaturas inteligentes, 
dotados de razão e consciência. 

Deste ponto, vos considerastes e respeitastes, 
aos que vos assemelham, constituístes vossas famílias, clãs e cidades. 
Vós formastes vossa comunidade e sociedade donde, para tanto e tal possibilidade, 
criaram o necessário e fundamental senso de lei, justiça, crime e castigo. 
Sem isto, ainda seríeis animais, 
de forma alguma a civilização existiria e a humanidade se aniquilaria. 

De forma alguma Eu permitiria a este projeto que fracassasse, 
ainda que muitas obras Eu tenha realizado. 
Agora que o fundamento já foi feito 
e que vossas capacidades estão plenas, 
confio que vós mesmos vos façais crescer e prosperar, 
se ousarem evoluir com tanto afinco que dão a vossos credos, 
igual aos anjos vos tornareis 
e poderão criar vossos próprios mundos, 
em algum ponto das intermináveis Pradarias da Eternidade. 

Mas que antes fique claro que o Soberano, Eu Sou. 
Carne não ordena carne, nem alcança o espírito; 
o espírito não ordena ao espírito, nem satisfaz a carne. 
A cada um, a Lei, de acordo com a própria natureza 
e a Justiça, de acordo com a realidade que estes vivem.