terça-feira, 14 de julho de 2015

Quão tradicional é uma tradição

Quando falamos em Paganismo Moderno, Caminhos Espirituais e Religiões Iniciática, um tema em comum surge, especialmente quando falamos em Bruxaria e Wicca – a tradição.
Tradição (do latim: traditio, tradere = entregar ou "passar adiante"), é a continuidade ou permanência de uma doutrina, visão de mundo, costumes e valores de um grupo social ou escola de pensamento.
Ao nível da etnografia, a tradição revela um conjunto de costumes, comportamentos, memórias, rumores, crenças, lendas, música, práticas, doutrinas e leis que são transmitidos para pessoas de uma comunidade, sendo que os elementos passam a fazer parte da cultura.
Designam-se como costumes as regras sociais resultantes de uma prática reiterada de forma generalizada e prolongada, o que resulta numa certa convicção de obrigatoriedade, de acordo com cada sociedade e cultura específica. [Wikipédia]
Essa é a teoria, a definição do dicionário. Mas o conceito de tradição está dentro de um contexto cultural e faz parte de uma linguagem. Tal como os outros domínios do conhecimento humano, eu não posso deixar de incluir que aquilo que se entende por tradição está sujeito a entendimentos, interpretações e experiências pessoais.
Destarte, eu acho importante repetir alguns textos de meu blog, bem como reproduzir alguns comentários feitos no Patheos que eu achei pertinente.
Tradição é algo que cresce e evolui. Não está gravado na pedra, mas é mais como um discurso; se você começa com uma séria de premissas, ideias e valores, você desenvolverá ideias e práticas que são consistentes com o conjunto inicial. Tradições religiosas evoluem de acordo com as circunstâncias sociais, culturais e políticas. [Yvonne Aburrow]
A tradição não evolui. As espécies evoluem. Por processos ditados pela natureza. Uma tradição não é um organismo. A tradição não mudou, foram os hábitos e costumes das pessoas que são membros ou sacerdotes das mesmas que mudaram. [Roberto Quintas]
O problema é que estas “tradições” não são um todo coerente, mas um amálgama, acidental e proposital, de ideias que aconteceram de estarem todas disponíveis para as mesmas pessoas naquele tempo.
O que eu defino como “tradição” é: eu combinei um sistema de prática espiritual e magia, compreensivo e envolvente. Ao fazê-lo, eu usei as ideias que estavam disponíveis para mim.
Todo criador de uma tradição fez o mesmo. Cada um ou [mais frequente] seus seguidores asseguraram que este amalgama particular é o Caminho Certo. Mesmo quando eles adotam uma atitude mais moderna que exista qualquer Caminho Certo, o conceito de um Caminho Certo é preservado sem questionamento por todos os tradicionalistas. [Brian Rush]
Sua definição está longe de ser de uma tradição. Alguém simplesmente não combina “um sistema de prática espiritual e magia, compreensivo e envolvente” usando “ideias que estavam disponíveis”. Uma tradição está baseada na herança que é passada através das gerações. Até onde eu posso falar, uma tradição não é sobre o Caminho Certo, ou o Caminho Verdadeiro, é sobre preservar a herança que recebemos de nossos ancestrais. Até onde eu posso falar, uma tradição não tem um fundador, mas existe uma fonte cultural que pode ser achada pelo folclore, que está baseado em uma antiga herança ensinada e preservada através de gerações. Estes caminhos são um todo coerente enquanto sistema, então eis por que parece que excluem algumas ideias, práticas ou metáforas. Quando e se não há um todo coerente, então existe um “empréstimo” de outra coisa, mas isto não torna caminho algum inválido ou indigno. [Roberto Quintas]
Volte através das gerações e os ancestrais, em algum ponto, no início da tradição, alguém fez exatamente o que eu descrevi. Então, nas gerações seguintes, as pessoas mistificaram o que tal pessoa fez, menosprezando quem tentava fazer o mesmo.
Fundadores de tradição são humanos, além do mais eram seres humanos que pensavam como eu. Eles inovaram, eles criaram, eles fizeram algo novo, misturando e combinando ideias que estavam disponíveis.
Estas culturas antigas das quais o Paganismo Moderno se inspira estão mortas. Seus descendentes desenvolveram algo novo. E uma nova espiritualidade é necessária para ser relevante no mundo novo. Nós ainda podemos usar a velha sabedoria enquanto for relevante [e geralmente é]. Mas nós não devemos ficar atados ou limitados pelo velho. [Brian Rush]
Esta é uma área cinza. Sim, novas ideias vieram enquanto os povos tiveram contato com diferentes culturas. Existem, então, dois resultados: sincretismo e assimilação. Então há o teste do tempo, se e apenas quando uma “nova” ideia serve ou funciona, se ela resiste através de gerações, então é uma ideia que vem de uma tradição.
A ideia e conceito de tradição devem estar separados da ideia e conceito de costume. Uma tradição é algo que resiste através do tempo e gerações. Uma tradição sustenta a si mesma mesmo quando atravessa diferentes povos, mas que compartilham os mesmos valores e crenças. Mesmo quando um poder maior sobrepuja a tradição, ela resiste e sobrevive, em um disfarce sincrético, dentro da religião oficial.
As culturas antigas que nós estamos tentando redescobrir não estão mortas, sequer desenvolveram algo novo, elas apenas assimilaram e sincretizaram os dogmas e rituais das religiões oficiais. Muitas das festas religiosas da Igreja [para citar um caso conhecido] têm profundas raízes nessas antigas religiões "mortas", a despeito das afirmações da Igreja que esta é uma “tradição da Igreja" [o que nos leva a algo que é dito ser uma tradição, mas é uma invenção].
Folclore, mito, pesquisa histórica vem a calhar para que possamos redescobrir nossas raízes e origens, sintonizado com nosso tempo [isto pode ser o que você define como “combinar”], tal como nossos ancestrais fizeram [ou em outros termos: Paganismo não é algo “velho” ou “campestre”, mas uma crença e religião de um tempo e sociedade daqueles que reconhecem a existência dos Deuses]. Mas você tem alguma razão, uma vez que estamos reconstruindo algo que estava ausente por quase dois mil anos.
Religião e tradição é parte da cultura, como a linguagem, e “evolui”, não como a Teoria de Darwin, mas como um processo humano de cruzamento, assimilação e sincretismo cultural. A religião e a tradição "emprestam" de várias fontes para se expressarem, mas os valores, os mistérios, o divino e o sagrado intrínsecos da religião e da tradição permanecem os mesmos. [Roberto Quintas]

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Festas, folias e cultos fálicos

«Folia» s. f. dança rápida ao som do pandeiro em que entra muita gente; • pândega; • folguedo. < (Fr. folie, loucura) «(eu)foria» < Gr. euphoría < eu, bem + phorós, = portador (de objectos sagrados nas festas carnavalescas de Dionísio) = «folião» = • s. m. farsante; • folgazão; • histrião; • dançarino;
É óbvio que é muito duvidosa a etimologia de «folia» perante a «euforia» dionisíaca dos «foliões» carnavalescos com a qual se assemelha muito mais do que com as loucuras francesas.

«Folgar • < Lat. follicare, v. tr. dar folga a; • dar descanso a; • alargar; • desapertar; • pôr à vontade; • v. int. ter descanso; • divertir-se; • «foliar»; • gozar;
«Folia» • (Fr. folie, loucura), s. f. dança rápida ao som do pandeiro em que entra muita gente; • pândega; • folguedo.

Fool (n.) c.1275, do francês antigo "fol", "maluco, pirado", também um adjetivo significando "louco, insano"; do latim follis "fole, sacola de couro," na vulgata usada no sentido de "falastrão, cabeça oca". Tmabme como sanscrito Vat-ula- "insano", literalmente. "avoado, cabeça de vento" < > «fút-il» / «Vaz-io».

Portanto, é na tradição grega das festas carnavalesca que deve ser encontrada a etimologia da euforia dos foliões do carnaval e de outras farras e festanças e não na folie francesa que seria uma conotação «foleira» se não fosse o prestígio pedante da língua dos afrancesados trazidos pelas invasões francesas.

Comos
Filóstrato, o Velho, imagens 2 (trad. Fairbanks) (retórico grego 3º sec. a. C): "[ uma descrição Ostensiva de uma pintura grega antiga em Neapolis (Nápoles):] O espírito Komos (Comus) (Folia), a quem os homens devem os seus festejos, está parado à entrada de uma câmara – de portas dourada, penso eu mas para as fazer é uma lenta questão, por o tempo actuar supostamente durante a noite. No entanto, a noite não é representado por uma pessoa, mas sim pelo que é sugerido estar acontecendo e a esplêndida entrada indica um rico par de recém-casados deitados num sofá. E Comos acabou de chegar como jovem para se juntar aos jovens, delicado mas já adulto, corada pelo vinho e, embora erecto, ele acaba adormecido sob a influência da bebida.
Enquanto dorme reclina o rosto sobre o peito pelo que a garganta não é visível, e eleva a mão esquerda até à orelha.

E o que há mais a revelar? Bem, que mais senão os foliões? Não ouvem as castanholas e a nota estridente da flauta e o canto desafinado? As tochas dando uma luz fraca suficiente para que os foliões possam ver o que está à sua frente, mas não o suficiente para que possamos vê-los. O estridor das gargalhadas aumentando e as mulheres correndo junto aos homens, vestindo sandálias masculinas e roupas em estranha moda de cinta apertada, pois a orgia permite que as mulheres se mascararem como homens e os homens possam trajar de mulher e macaqueiem a caminhada das mulheres. As suas grinaldas estão já murchas, mas esmagadas na cabeça por conta da corrida frenética dos dançarinos que já perderam a sua aparência alegre; porque o espírito livre das flores despreza o toque da mão levando-os a murchar antes do tempo."
O que é mais fascinante na descrição de Filostrato e o carácter actual das pândegas gregas que em muto pouco diferiam das modernas excepto no lado travestido que os modernos reservaram para o carnaval.

Komos (ou Comus) era o Deus da folia, pândegas e festas. Ele era o filho e ocopeiro do Deus Dionísio. Komos foi retratado tanto como um jovem alado, ou como um satyriskos (sátiro infantil) com patê de calvície e as orelhas de burro.
Kama - o Deus hindu do érotisme, do desejo sexual e do amor apaixonado (na «cama»).

Un como (en griego antiguo κῶμος, kỗmos) era una procesión ritual festiva en la Antigua Grecia. Se puede definir como un grupo de hombres en movimiento comunitario. Las prácticas precisas que este término bien atestiguado en la literatura griega comprende son confusas.
Se trataba de una expresión de sociabilidad no confinada únicamente en la esfera de las prácticas religiosas públicas, como por ejemplo las Dionisias, las Faloforias y otras celebraciones unidas al importante culto de Dioniso; si no que a veces se presentaba como una forma de ritual privado, que participaba en festividades como las celebraciones nupciales, y estaba estrechamente unido a importantes prácticas sociales como los banquetes. En este dominio, el como daba rienda suelta al deseo de frenesí y de jolgorio que seguían a las prácticas convivales; constituía un importante componente de la vida social de la Antigua Grecia.
Tal relación es sugerida y confirmada por Aristóteles, referida a la derivación etimológica de κωμῳδία, de κῶμος y ᾠδή/ ôdế, «canto».
Sin embargo, Aristóteles, en la tercera parte de la obra, evoca también la tradición de que el término komoedia derivado de kom-, provenía del término que en dialecto dórico indicaba el pueblo, en el sentido geográfico. En tal caso los orígenes de la comedia habría que buscarlos en los espectáculos y en las farsas mímica megarienses que se desarrollaban, justamente, en los pueblos. Sin embargo, permanece oscuro el saber a través de cuáles voces, las formas expresivas del «canto de la juerga», o de la pantomima, se desarrollaron en la Comedia griega antigua de las Dionisias del siglo VI A.C.

Neste caso, a origens da comédia seria olhar para os espectáculos e as farsas mímicas de Megara, que tinham lugar precisamente nas aldeias. A metamorfoseda piada, popular e improvisada num verdadeiro género teatral viria a acontecer na Sicília.

El helenista español, Francisco Rodríguez Adrados, de común acuerdo con Wilhem, interpreta el término κῶμος «como el conjunto de coros y celebraciones de los concursos de las Grandes Dionisias (el ditirambo, la tragedia, la comedia y el drama satírico)», a tenor de la investigación lingüística del primer fragmento de las didascalias de los concursos de estas fiestas, fragmento recogido en IG II 971. Afirma que el coro de las tres manifestaciones teatrales son «comos, que frecuentemente entran en la orquestra entonando himnos, plegarias y súplicas, cantando luego trenos o peanes impetrando o celebrando la victoria, bendicen o maldicen, todo ello con escarnio o alegría desenfrenada; salen cantando el éxodo, a menudo ejecutando acciones rituales». Lo anterior le sirve para argumentar que el como no es patrimonio de la comedia y que la identificación con ésta se produjo a pesar de que el comienzo de las representaciones oficiales de tragedias en Atenas comenzaron en 534 a C., y las de la comedia en 485 A.C. Infiere que el sentido de la palabra como en komoidía y su derivada kómikos pudo pues haberse producido por oposición a tragoidía y tragikós, por la razón que fuera, igual que ciertos comos se han denominado tragoidíai. Y debido a esto, el término komo en la komoidía designa a «los coros de carácter no trágico». – Wikipédia.

O hípercorrectivismo de Francisco Rodríguez Adrados não pode ser contestado senão por quem saiba mais do assunto do que ele!
Toda a gente sabe que o que começa em comédia pode acabar de maneira trágica, do mesmo modo que “a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”! Por isso, não pode ser contestado por ninguém que a farsa não tenha entrado nos primeiros esboços do teatro grego de mistura com a tragédia nem que a comédia não seja tão antiga ou mais que a tragédia ainda que esta tenha começado oficialmente em Atenas quase um século antes da comédia! Porém, ninguém pode contestar que este formalismo aconteceu no seio das festividades culturais das Grandes Dionisíacas sendo por isso no seio do culto deste deus que deve ser encontrada a origem tanto dos nomes das duas grandes formas teatrais como do estranho termo grego κῶμος.

É evidente que tanto Aristóteles como todos os eruditos que o seguiram na busca da etimologia do κῶμος grego se esqueceram de indagar junto da comitiva de Como, o filho de Dionísio, como se deveria interpretar esta palavra, seguramente pré grega porque da mesma origem será seguramente o «comício» latino.
«Comício» < Lat. comitiu = cidadãos que se juntam para discutir assuntos de interesse público > assembleia popular entre os antigos Romanos.
Ora, o termo latino sobrevaloriza precisamente o lado popular do termo dando razão a Aristóteles que o considerava a komoedia derivada de kom-, do termo emdialecto dórico relativo a pessoas do povo.
Na verdade desde sempre o povo diverte-se espontaneamente muito mais com farsas brejeiras do que com representações demasiado trágicas. Não se podendo brincar com coisas sérias o povo reserva o lado dramático da vida para os entendidos e consagrados à religiosidade.
Dados os rigores económicos da época antiga e a típica frugalidade diária da alimentação de Grécia clássica os Komos eram antes de mas uma boa oportunidade para tainas, pândegas, patuscadas e «comes e bebes»! No fundo pouca diferença haveria do que depois continuou a acontecer nas festas e romarias da cristandade tão concorridas quanto divertidas como eram as romarias minhotas…e a Senhora dos Remédios e para as quais se ia cantando e dançando com o farnel à cabeça ou aos ombros.

Comida.
De facto, o contexto do deus Comus reporta-nos para as folias populares que em tempos arcaicos aconteceriam com carácter espontâneo sempre que o povo podia comer bem e beber melhor em festas comemorativas fora em festividades públicas com pompa e circunstância fosse em festanças privadas mais ou menos informais. De facto os casamentos presididos ou não porHimeneu serão, desde tempos imemoriais, motivos bastantes para folias de «comitivas» intrusivas que de forma solidária e oportuna se viriam juntar à festa dos «comensais».
A este propósito, seria interessante saber a etimologia da palavra «comer» de uso comum que, por isso mesmo, varia muito nas línguas latinas.
«Comer» < Lat. *comedere < Lat. edere (comer).

É, não obstante, o ponto de vista teoricamente certo. Antes de tudo, há a circunstância de que os falantes de uma língua nada sabem espontaneamente da história dela e a manejam apesar de tudo de maneira plenamente eficiente. Depois, há a observação de que muitas vezes o conhecimento histórico, aplicado à análise sincrônica, a torna absurda. Por exemplo, port. comer vem do lat. comedere, em que com” era um prefixo com a idéia de «reunião»; mas é claro que “com” no verbo português é a raiz e distingue esse verbo de beber (<< deglutir um alimento sólido» versus «ingerir um alimento líquido»); (...). Finalmente, na análise histórica partimos sempre de uma análise sincrônica, tomada como ponto de partida (lat. comedere, por exemplo, sem cogitar de formas anteriores indo-européias que historicamente a explicariam). É sincronicamente que consideramos comedere = com + ed + ere. -- Estrutura da Língua Portuguesa - Joaquim Mattoso Câmara Jr.
A verdade é que os falantes passam ao lado do que os eruditos pensam saber com majestosa e soberana sobranceria porque se ficam sempre por aquilo que lhe parece e assim pelo menos raramente se enganam.

Para os eruditos ibéricos comedere seria comer com o que em latim se expressava com a raiz era con- não se entendendo assim porque deglutir comissialmente não teria ser conedere. Os eruditos anglo-saxões preferem derivar o termo de comedo / comedones com o significado de comilões em que com- seria um intensificador! Como só os falantes ibéricos usam termos derivados de comedere poderia ficar-se a pensar que os ibéricos eram todos uns grandessíssimos glutões? De modo algum porque os eruditos é que pensam saber tudo mas ignoram por vezes o básico que o senso comum nunca perde.

Edible [adjetivo], do latim tardio edibilis, "comestível", do latim edere "comer", da raiz PIE [Proto Indo Europeu] *ed- "comer" (conforme sanscrito admi "eu como", do grego edo "eu como", do lituano edu "eu como", do hitita edmi "eu como" e adanna "comida"; do antigo irlandes ithim "eu como"; do gotico itan, antigo sueco e antigo inglês etan; do velho alto germano essan "comer"; do avesta ad- "comer"; do armenio utem "eu como"; da velha igreja eslava jasti "comer"; do russo jest "comer").

Obviamente que os latinos não usavam o termo comedere quando degustavam de forma «comedida» Na verdade, a ideia de que «comida» deriva do que é «comido», pelo verbo «comer», é absurda! Na mente do falante antes do acto de comer vem a «comida» que depois de consumida já não é nada senão fezes! Os objectos concretos não derivam de acções abstractas mas é antes coisa a inversa a que ocorre!
«Comer» vem de «comida» e não de comedere que, como adiante se verá, pode ter derivado dum nome divino comum. «Comer» < com(d)er < comider < «comida» + ere < «comida»? Obviamente que a «comida» em sentido retórico seria tanto os alimentos como o momento e acção e comer presidida por Comos, o filho de Dionóisio e deus da fraternidade e liberalidade comicial.

Começamos agora a entender porque é que os termos latinos derivados de comederetinham a conotação de glutonaria dos banquetes festivos. Também agora começamos a suspeitar que ou comedere ou Comos terão que rever a sua etimologia.
•comĕdus, glouton.
•cŏmes-tĭbĭlis, mangeable, comestible.
•cŏmes-tĭo, action de manger.
•cŏmes-tŏr, mangeur, consommateur.
•cŏmes-tūra, action de manger.
•cŏmēs-(t)ŭs, action de manger.
Três termos com a mesma raiz para a acção de comer parece imaginação demais de quem especula que seria de menos a dos falantes latinos! Obviamente que a acção de comer e o que é comido se confundem possivelmente na cŏmestūra, no momento do acto de comer, cŏmēsŭs,e lugar da comida, que seria o cŏmestĭo...e de que derivou o termo comício.

«Comício» < Lat. comitiu = cidadãos que se juntam para discutir (com “comes e bebes”)assuntos de interesse público => assembleia popular entre os antigos Romanos.
Reparando bem verificamos que todos os termos latinos relacionados com comedere revelam a raiz comest- muito próxima do nome do deus Comos. Sendo assim, é legítima a suspeita de que comedus e comedere se teriam afeiçoado para parecerem com tendo a etimologia com-ed-ere. Mas o facto de não ter sido *con-ed-ere reforça a suspeita de estarmos perante uma falsa etimologia.
«Comer» < *come(s)dere <= Comos + ter.

Não há que ter grandes dúvidas de que Comos era a mesma divindade que ente os hindus foi Kama. De resto, Comos não foi uma divindade grega muito diferenciada porque partilhava um terreno comum aos Erotes e a Potos.
Kama - o deus hindu do érotisme, do desejo sexual e do amor apaixonado(não penas na «cama»?)!
Comus Kama.
A relação da deusa mãe Kima com a comida está nos olhos de todas as mães, senhoras dos segredos da cozinha e donas de casa.

Para concluir, no fundo o povo comum reúne-se espontaneamente com alegria sempre que há comes e bebes e quando os tempos eram rudes e de carestia inventavam justificações míticas para o fazerem em feriados e dias fastos dedicados aos deuses da devoção corrente. As “festas dos rapazes”, mais próximas das actuais festas académicas, seriam momentos de diversão juvenil que na Grécia se formalizaram em festas dionisíacas e deram origem ao tão formalizado e comercial carnaval moderno.

Assim, ainda que a comédia e o drama sejam aspectos formais eruditos do lado espontâneo da vida comum e popular há que não esquecer que o nome do κῶμος grego e dos comícios latinos estão relacionados inegavelmente com o nome do deus grego das folias que era Como. Se entre os gregos este deus presidia sobretudo as folias dos casamentos entre os hindus o seu equivalente fonético Kama é mesmo o deus do amor.
Como foi que se ligou semanticamente o amor hindu com o amor casamenteiro grego para acabarem no lado popular dos comícios latinos?

Seguramente por meio da simpatia que a festividade gera entre comensais e comitivas que partilham a mesma mesa e a proximidade da cama muito antes da mesma fé que em tempos arcaicos era mais geral e comunitária que particular e familiar!

"Todos estão vestidos com suas melhores vestes e enfeitado com jóias; a alegria prevalece.Primeiro são os portadores da ânfora de vinho e o ramo videira. Em seguida é o condutor do bode sacrificial, que orgulhosamente avança feliz. Em seguida, uma jovem mulher, a Portadora da Cesta (Kanephoros), enfeitada e decorada em seus melhores ornamentos, leva adiante o cesto de figos sacrificial, a fruta mais sexual. Atrás dela vem os fortes Portadores do Falo (Phallophoroi) que transportam o Falo gigante em uma plataforma que o mantém ereto em um ângulo. É um poste vermelho longo, que é envolto em hera e tem dois olhos pintados nas laterais da cabeça."

O Sacerdote é seguido pelo portador do pote de legumes e ppor outros homens e donzelas. (Embora as mulheres casadas participar do sacrifício e festins, eles não estão na procissão, mas assistem do lado de fora. Neste festival os homens estão no comando, enquanto as mulheres dominam outras festas dionisíacas.

Nem por mero acaso a «cama» aparecia no megaron grego tanto para dormir como para comer.
Na Ática, que nos interessa mais de perto, havia os seguintes tipos de festivais dionisíacos:
Lênaias rurais; as grandes festas das Anthestêrias e as Oskho-phorias urbanas.
1 - As Lenhinas eram literalmente as “festa da lua”, os festivais rurais dos tonéis de vinho, aproximadamente em Janeiro, porque não há luar como o de Janeiro nem amor como o primeiro. O termo grego Lenhia poderá ter a ver com a lenha com que se faziam as fogueiras de Inverno
2 -As Antestérias seriam literalmente as “festas em honra da deusa mãe, Antu”, que só não eram as “Maias” por serem realizadas aproximadamente em Fevereiro e Março, e, que por isso mesmo, seriam o equivalente das festas carnavalescas dos gregos e a antecessora da Páscoa. No entanto faziam parte dos cultos Eleusinos da Deusa Mãe Deméter. Era o mais antigo e grandioso dos festivais dionisíacos e por isso também chamadas de "Velhas Dionisíacas".
3 - As Oscofórias poderiam ser literalmente as “festas do «deus menino», (Dioniso, filho de deus do fogo que era Hefesto”). Este festival da colheita das uvas, realizava-se aproximadamente em Outubros, quando havia uma corrida de rapazes levando ramos de parreiras.

Os homens arrumaram o Phalus fora do santuário aonde os dançarinos cômicos irão dançar em volta dele.
Agora nós Te adoramos como Orthos, aquele que está ereto. E quando colocarmos duas pedras ou odres completos na base do Falo, então nós vamos reconhecer que Deus é Enorkhos.

Enorkhos = ἐνόρκιος = Voto, juramento?

Eles dizem que Dionysos e seu falo divino estão sempre juntos e assim Ele está conosco aqui no santuário.
Dentro do santuário ouvimos o sacerdote gritar: "Euphêmeite Euphêmeite!".

A Portadora da Cesta vem adiante e com uma concha espalha molho nos bolos que foram trazidos para o Deus. O sacerdote ora a Dioniso:
Ouçam bem. Senhor Dioniso, conçeda-me agora
Para apresentar o espetáculo e fazer o sacrifício:
Assim como Vós tens, eu e todo este povo;
Então mantenha com jubilo a Dionisia Rural;
Basta de esforço. E que este descanso
Restaure nossas almas e responda às nossas esperanças.
Antes de sacrificar o bode, o sacerdote diz:
Tu, o Bode, que é o Deus, veio e comeu as vinhas, mas agora as raízes trarão uvas em abundância e teremos vinho suficiente para derramar sobre Ti neste sacrifício. As mulheres proferiram o brado "Ololugê" e o bode é abatido."
EUFHMEITE = Não fale mal < *Kau-kima-tu!

Este grito "Ololugê" parece-se foneticamente com o «Aleluia»!

Na base da estátua de Zeus, Olímpia, Fídias colocou as doze divindades olímpicas em pares formados por um deus e uma deusa, como companhia da Hestiaretratou Hermes, deus do comércio. Há entre eles uma relação profunda: de amizade e afinidade de função. Hestia era a deusa do fogo e o paredro fonético e funcional de Hefesto.
Porém, no Verão celebravam-se na Grécia as festas chamadas Oscophoria,obviamente um culto agrícola relacionado com as uvas temporãs.

Nestas festas dionisíacas os herma eram cerimoniosamente vestidos e coroados ficando com o aspecto de “espantalhos de palhas”. Deste modo fica-nos a suspeita de que, mais do que para espantar os pardais por mecanismo que, de facto não seria muito plausível em etnologia animal, a verdade é que os espantalhos (< ish panta allyum, festa “das fogaças e dos fogachos” em honra de todos os deuses do fogo, e a que Hefesto cerimoniosamente presidia) seriam, tal como os palhaços (palliakius), rastos mnésicos degradados de cultos a deuses fálicos antigos!

PALLIUM ou A PROFANAÇÃO DOS FALOS.

O “santo dos santos” de qualquer procissão católica é o «pallium» que como vimos deriva a sua razão de ser do brilho triunfal do sol no étimo de halya de queveio o «alho» sempre tão ligado à boa sorte e à protecção contra vampiros.
Quer isto dizer que, debaixo do palio da vitória, era ostentado o sagrado corpo do deus dos exércitos. Os cristãos ostentam a hóstia consagrada na luneta da custódia que tem a forma áurea e resplandecente do sol de Mitra! Mal sabem os cristãos que sob o mesmo palio se ostentava outrora o mesmo orgulho resplandecente de deus Kar que era o Phallyum.

O Falo de Sacar seria, de facto, o santíssimo sacramento (< o fermento ou o poder mágico da fertilidade de Sacar ) e daí a referência clássica ao deus Phallo (> Pallas Atenas) como paredro de Dioniso.
As características especiais de Dionísio acabaram por atrair outros seres a princípio de origem heterogénea tais como os Sátiros, seres com características animalescas que representariam forças vigorosas da natureza, paixões e emoções da mente humana. Em geral são representados como covardes, sensuais, livres e bem-humorados e com um pénis em permanente erecção.

Havia também os Silenos, sátiros velhos, bêbados e lascivos. Já as Bacantes ouMénades eram entidades femininas, às vezes ninfas, às vezes mulheres, que tomavam parte no cortejo de Dionísio com os cabelos soltos e enfeites florais e cuja forma de contacto com a divindade era o êxtase, o entusiasmo. Vemos igualmente associados aDionísio os Centauros, representantes também da força e do vigor natural e amantes da embriagues e finalmente Pan, deus da vida rural.

Evidentemente que, não sendo os judeus os únicos a ter o interdito do nome próprio de Deus, P de Pan ou de «pénis» foi apenas um artifício para ocultar o nome do divino «caralho» de Kar < *Karallyum, “a festa e o gozo de Kar”, cobra solar, que alada por conseguir voar no céu durante o dia, já que de noite navegava numa barca no mar primordial?). Inicialmente teria sido também T ou D de teos ou deos pois deve ter havido uma forma em thalyum de que vem o «talo» das plantas, como da forma em D vieram as «dálias»…os «galhos», e os «alhos» que não se devem misturar com os «bogalhos».

Em boa verdade devemos estar em presença dum mito intelectualista que encobre a tradição mais arcaica das colunas fálicas da deusa mãe presentes na porta dos leões micénica e que em Gibraltar eram de Hércules e, de bronze no Templo de Salomão. Retorcidas como as cobras da sensualidade vieram a tornar-se as colunas salomónicas em estilo barroco de Bernini.
Mas…, se tal aconteceu terá sido bem mais tarde depois de ter sido esquecido o nome do deus oculto no Pálio < Pallium.

Sem o hallyum apenas restava o P de «pénis». Este seria genitivo, de tal modo que Phalyum se torna a sorte (lat. alia) e orgulho do «Pê», do Deus Pan.
Tudo leva a crer ter começado pelo som Phi dos Ofídios do culto da Grande Deusa a Terra Mãe, culto este que Moisés respeitou por estranha ordem divina:
«--- Faze uma serpente ardente e coloca-a sobre um poste. Todo aquele que for mordido, olhando para ela, viverá».
Ora, um poste com uma píton é um pálio e era no pau levantado ao alto que se efectuava o «empalamento» dos condenados.

Depos dos Egipcios abandonarem a mina no Vale de Tima durante o declinio no século XII DC, os Midianitas converteram o templo em um santuário deles por algum tempo. No santuário improvisado, no Santo dos Santos, os escavadores encontraram apenas um objeto, o mais intrigante de Tima - uma serpente  pequena de cobre com uma cabeça dourada, o antigo simbolo de fertilidade do Oriente Médio. Imediatamente recordou à "serpente de bronze" de Moisés, que se tornou um objeto de adoração.
"Removeu os altares idólatras, quebrou as colunas sagradas e derrubou os postes sagrados. Despedaçou a serpente de bronze que Moisés havia feito, pois até aquela época os israelitas lhe queimavam incenso. Era chamada Neustã"

Nehushtan < Nephushtan < *Nephiat An => Neptuno. De resto, esta tradição dos cultos fálicos entre os judeus manifestou-se ainda nas estranhas colunas de bronze que ladeavam a entrada do santo dos Santos do templo de Salomão. De facto, é sabido que um dos símbolos antiquíssimos da deusa mãe era formado por duas colunas fálicas. E são duas as colunas das armas de Espanha tal como eram dois os pilares de Hércules levantados em honra da deusa mãe da terra da Ibéria à entrada do estreito de Gibraltar (< Kiwra-Altar, lit. «os pilares do altar da Kiphura»). Sendo a cobra um animal solar e Atum o próprio deus sol, metade homem metade serpente como Abzu, então: Ophideo < O Phi Deo < Phi + Atum =Deo => Phitom. Cobras, falos e pilares eram símbolos antiquíssimos relacionados com os cultos da Grande Deusa Mãe e de seu filho amantíssimo, ora o deus menino do sol da alvorada ora o amante morto nas guerras quotidianas do sol posto.

Atum = Um Deus primordial que foi representado na forma de um ser humano e uma serpente. A versão do Deus egípcio Amon que cria Shu e sua irmã Tefnut via masturbação (ou expectoração). (Suméria) Um Deus criador na Mesopotâmia, mais tarde chamado Ea. => Aten (Aton) = O faraó Akhenaton decretou que ele era o único Deus em sua tentativa de estabelecer uma religião monoteísta.

No entanto, tudo leva a crer que esta tradição arcaica derivou para o culto do «Filho de Deus» nos cultos de fertilidade agrícula onde Eia/Enki = *Enkur/Kur/*kaukur foi:
Sacar < Saturno e Ósiris, no Egipto, Damuz < Thami-Chu < Ki-Ama-ish, lit. o “filho da deusa mãe *Kima” = Tiamat) na Caldeia, Adonis < At-An-Ish, lit. «filho de Anat/Atena», na Síria e Atis [< At-(An)-Ish] na Anatólia! E depois, Jesus Cristo < Jehu *Karestos < (Kiwe Kurish, o filho do deus do fogo do inferno) no cristianismo.

No Egipto o Pitom sagrado era um dos símbolos do terrível poder dos faraós, chamando-se «Uraeus» (< Uraneu) pela sua relação com os deuses uranianos. A cobra teve uma relação tão intima com Deus desde os começos da humanidade que existe a forte suspeita de ela ter sido o próprio Urano. De facto Gr. Ourá = cauda porque uráfoi cobra, pois… «Cobra» < Cupra, < Kap ura na = cabeça da cobra, campeã!

Hermes, Pane Dionísio eram os únicos deuses gregos que reunia ainda na sua simbologia alegórica e mítica este arcaico papel de «divinos filhos da Mãe» e da tradição solar de Aton!
Cupra, por ser da cor do cobre ou foi o cobre que recebeu este nome por ser da cor da cobra e ser extraído de Chipre, ilha das Cobras da deusa mãe cretense? Estranho, no entanto que de caupra > Capra tenha vindo a cabra, fêmea do bode ligado aos cultos caprinos (dionisíacos, báquicos e saturninos, carnavalescos, etc) de que o diabo herdou o aspecto e a má fama!
O santo padroeiro das festas do fogo de S. João tem todo o aspecto de ser o sucessor de Apolo não apenas pelo lado de Jovanes baptista, o mandaenos e gnósticos, mas pelo lado de Jovani, o evangelista do amor que foi o amado/eromeno de Jesus.

Os Ofitas fizeram um culto muito especial para esses répteis: eles os mantinham e os alimentavam em cestas, eles realizaram suas reuniões próximo aos buracos em que estes viviam. Eles colocavam pães em cima de uma mesa e, em seguida, por meio de encantamentos, seduzia a cobra até que esta vinha fazendo seu caminho entre as ofertas; só então eles partilhavam o pão, cada um beijando o focinho do réptil que tinha encantado. Isso, segundo eles, era o sacrifício perfeito, a verdadeira Eucaristia. "Onde está - nas orgias de Dionísio, no culto de Asclépio, ou nos mistérios de Sabazios que, segundo Arnobius, também fez uso da imagem da serpente - que é preciso olhar para as origens de tais práticas? Ou será que eles não lembram ainda mais os cultos de certas seitas pagãs que fizeram um culto especial da serpente da constelação Ophiuchus? Como nossos Ofitas, estes adeptos mantinham os répteis em seu peito e os acariciavam, como símbolos vivos da imagem celestial que eles adoravam."

A este propósito deve ser referido que o povo católico ibérico manifestou sempre um certo desdém pelo rigor da hagiologia já que era a melhor forma de iludir e convencer o clero a festejar os mitos tradicionais mantendo deste modo um paganismo mascarado de cristão. Assim se compreendem as confusões frequentes de S. João que é Baptista porque os bispos o determinaram mas, porque o seu ascetismo cairia mal numa festa desbraga, o povo trocou-o pelo que é evangelista.
Mantendo-lhe a roupagem ascética deram-lhe ares de pastor com o cordeiro pascal ao colo pois o evangelista apelava na sua epístola para os cristãos exclamando:
-- “ovelhinhas do meu rebanho”!
Ora, a verdade é que estamos perante uma manifestação da arcaica tradição do “Bom Pastor” iniciada por Hermes Crióforo.

Autor: Artur Felisberto.
Fonte: Numancia.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Os feitos e natureza de Dioniso

Por ordem de Hera, os titãs capturaram Dionísio, filho recém-nascido de Zeus, uma criança dotada de chifres, coroada com serpentes, e, apesar de suas transformações, eles o reduziram a pedaços, os quais ferveram numa caldeira enquanto uma romã brotava do solo onde havia caído seu sangue. Mas, resgatado e reconstituído por sua avó Réia, ele retornou à vida. Perséfone, a quem Zeus encarregara de tomar conta dele, levou-o ao rei Atamante de Orcômeno e convenceu sua mulher, Ino, a criá-lo no gineceu, disfarçado de menina. Mas era impossível enganar Hera, que lançou sobre o casal real a maldição da loucura, motivo pelo qual Atamante matou seu filho Learco ao confundi-lo com um cervo.

Em seguida, por ordem de Zeus, Hermes transformou temporariamente Dionísio num cabrito, ou carneiro, e o deu de presente às ninfas Mácris, Nisa, Érato, Brômia e Baca, do monte heliconiano Nisa. Elas cuidaram dele numa cova, mimaram-no e alimentaram-no com mel, razão pela qual Zeus colocou suas imagens entre as estrelas com o nome de Híades. Foi no monte Nisa que Dionísio inventou o vinho, motivo maior de sua celebrização.

Quando cresceu e atingiu a idade adulta, Hera reconheceu Dionísio como filho de Zeus, apesar da efeminação à qual a educação que recebera o havia reduzido, e o enlouqueceu. Ele saiu vagando pelo mundo afora, acompanhado por seu tutor Sileno e um exército selvagem de sátiros e mênades (bacantes), armados de bastões enfeitados com hera e pâmpanos, com uma pinha na ponta, chamados thyrsus, além de espadas, serpentes e aerófonos“ amedrontadores. Foi para o Egito de navio, levando consigo a vinha, e, em Faros, o rei Proteu o acolheu com grande hospitalidade. Entre os líbios do delta do Nilo, do outro lado de Faros, havia certas rainhas amazonas que Dionísio convidou a marchar com ele contra os titãs, para devolver ao rei Ámon o reino do qual havia sido expulso. A derrota que Dionísio infligiu aos titãs restaurando o rei Ámon foi o primeiro de seus vários êxitos militares.

Ele então se dirigiu para o Oriente, rumo à índia. Ao chegar às margens do Eufrates, enfrentou a oposição do rei de Damasco, e esfolou-o vivo, mas construiu uma ponte de hera e vinho sobre o rio. Depois disso, um tigre enviado por seu pai Zeus ajudou-o a cruzar o rio Tigre. Mesmo enfrentando muita oposição durante o caminho, ele chegou à índia e conquistou todo o país, onde ensinou a arte da vinicultura, estabeleceu leis e fundou grandes cidades.

Ao retornar, confrontou-se com as amazonas e perseguiu uma de suas hordas até Éfeso. Algumas se refugiaram no templo de Ártemis, onde ainda vivem descendentes seus. Outras fugiram para Samos, e Dionísio as perseguiu com marcos, matando tantas que o campo de batalha recebeu o nome de Pan-haema.

Nas redondezas de Floeum morreram alguns dos elefantes que ele havia trazido Da índia, e seus ossos ainda podem ser vistos ali.

Em seguida, Dionísio voltou à Europa passando pela Frigia, onde sua avó Reia o purificou dos vários assassinatos que havia cometido durante sua loucura e o iniciou nos Mistérios. Depois ele invadiu a Trácia, porém mal havia desembarcado sua gente na foz do rio Estrimão quando Licurgo, rei dos édones, apresentou-lhe uma feroz resistência, armado com uma aguilhada, capturando todo o seu exército exceto o próprio Dionísio, que mergulhou no mar em busca de refugio na cova de Tétis. Réia, ofendida com tal derrota, ajudou os prisioneiros a escapar e enlouqueceu Licurgo, fazendo com que ele golpeasse mortalmente seu próprio filho Drias com um machado, na ilusão de estar cortando uma vinha, e, antes de recuperar os sentidos, começasse a “podar” o nariz, as orelhas, os dedos das mãos e dos pés do cadáver. Todos os campos da Trácia ficaram estéreis por causa de seu crime hediondo. Quando, ao voltar do mar, Dionísio decretou que o flagelo perduraria até que alguém matasse Licurgo, os édones conduziram-no ao monte Pangeo, onde cavalos selvagens dilaceraram-lhe o corpo Dionísio não encontrou, desde então, nenhuma resistência na Trácia e se dirigiu a sua amada Beócia, onde visitou Tebas e convidou as mulheres a participarem de suas orgias no monte Citéron. Penteu, rei de Tebas, que não gostava do aspecto devasso de Dionísio, decidiu aprisioná-lo com todas as mênades, mas acabou enlouquecendo e, em vez de agrilhoar Dionísio, agrilhoou um touro.

As mênades escaparam de novo e saíram correndo enfurecidas para o alto das montanhas, onde despedaçaram algumas vitelas. Penteu tentou detê-las, mas, excitadas pelo vinho e pelo êxtase religioso, elas lhe arrancaram os membros um a um. Sua mãe, Agave, não só liderou o tumulto, como foi ela quem arrancou a cabeça do filho.

Em Orcômeno, as três filhas de Mínias, chamadas Alcítoe, Leucipe e Arsipe (ou Aristipe ou Arsínoe), recusaram-se a participar das orgias apesar de terem sido convidadas pessoalmente por Dionísio, que surgiu sob a forma de uma moça. Ele, então, sucessivamente, se transformou num leão, num touro e numa pantera, enlouquecendo-as. Leucipe ofereceu seu próprio filho Hípaso em sacrifício - ele fora escolhido num sorteio - , e as três irmãs, após haverem-no despedaçado e devorado, saíram correndo freneticamente para as montanhas, até que, por fim, Hermes as transformou em pássaros, embora alguns digam que Dionísio as converteu em morcegos. O assassinato de Hípaso se expia anualmente em Orcômeno num festival chamado Agrionia (“incitação à selvageria”), na qual as mulheres devotas simulam procurar Dionísio e então, deduzindo que ele tenha se ausentado com as musas, sentam-se em círculo e fazem perguntas enigmáticas, até que o sacerdote de Dionísio precipita-se de seu templo levando uma espada e matando o primeiro que lhe aparecer no caminho.

Quando toda a Beócia reconheceu a divindade de Dionísio, ele iniciou uma viagem pelas ilhas do Egeu, semeando a alegria e o terror por onde passava.

Ao chegar a Içaria, descobriu que seu barco não era apropriado para a navegação no mar e alugou outro de certos marinheiros do Tirreno, que diziam dirigir-se a Naxos. Na verdade eram piratas, que, ignorando tratar-se de um deus, dirigiram-se para a Ásia com a intenção de vendê-lo como escravo. Dionísio fez crescer uma vinha que se estendeu desde o tombadilho até o mastro, enquanto a hera se enroscava pelo cordame. Também transformou os remos em serpentes, e ele mesmo se converteu em leão, enchendo a embarcação de feras fantasmas e do som de flautas, de tal forma que os piratas, aterrorizados, atiraram-se ao mar e se tornaram golfinhos.

Foi em Naxos que Dionísio conheceu a encantadora Ariadne, abandonada por Teseu, e não tardou a se casar com ela. Ariadne lhe deu Enopião, Toante, Estáfilo, Latromis, Evantes e Taurópolo. Mais tarde, Dionísio pôs seu diadema nupcial entre as estrelas.

De Naxos foi para Argos e puniu Perseu - que no início opôs-lhe resistência e matou muitos de seus seguidores — enlouquecendo as mulheres do lugar, que começaram a devorar vivos os próprios filhos. Perseu admitiu rapidamente seu erro e apaziguou Dionísio erguendo um templo em sua homenagem.

Finalmente, após haver instaurado seu culto em todo o mundo, Dionísio ascendeu ao céu e está sentado agora à direita de Zeus, como uma das doze divindades olímpicas. Em favor dele, a modesta deusa Héstia abriu mão de seu lugar na suprema mesa, satisfeita por ter uma desculpa para escapar das contendas cheias de ciúme no seio de sua família, sabendo que sempre seria bem recebida em qualquer cidade grega que lhe apetecesse visitar. Dionísio desceu depois, através de Lerna, até o Tártaro, onde subornou Perséfone com um mirto para que libertasse sua falecida mãe Sêmele, que subiu com ele até o templo de Ártemis em Trezena. Para evitar que as outras almas ficassem com ciúmes ou se sentissem recusadas, ele trocou o nome dela e apresentou-a aos outros deuses olímpicos como Tione. Zeus pôs um aposento à sua disposição, e Hera, embora furiosa, permazeceu em silêncio, resignada quase pelos mesmos estados de êxtase das orgias da cerveja da Trácía e da Frigia.

O triunfo de Dionísio consistiu no fato de que o vinho acabou substituindo, por toda parte, outros inebriantes. Segundo Ferécides, Nisa significa “árvore”.

Durante algum tempo, ele havia se subordinado à deusa-Lua Sêmele - também chamada Tione ou Cotito - e era a vítima eleita de suas orgias. O fato de ter sido criado como uma menina, assim como Aquiles, evoca o costume cretense de manter os meninos “na escuridão” (scotioi), ou seja, nos aposentos das mulheres, até atingirem a puberdade. Um dos títulos de Dionísio era Dendrites, “jovem-árvore”, e o Festival da Primavera celebrava sua emancipação, quando, repentinamente, as árvores verdejaram e o mundo inteiro se inflamou de desejo. Ele é descrito como um menino cornudo, justamente para não especificar o tipo de cornos, que podiam ser de cabra, cervo, touro ou carneiro, conforme o lugar onde fosse venerado. Quando Apolodoro diz que ele se disfarçou de cabrito para se salvar da ira de Hera - Erifo (“cabrito”) era um de seus títulos (Hesíquio sub Erifo) —, está se referindo ao culto cretense de Dionísio-Zagreu, a cabra montanhesa com cornos enormes. Virgílio (Geórgicas II. 380-384) explica equivocadamente que a cabra era o animal que se sacrificava normalmente para Dionísio “porque as cabras provocam danos à vinha ao mordê-la”. Dionísio como cervo é Learco, morto por Atamante ao ser enlouquecido por Hera. Na Trácia, ele era um touro branco. Mas, na Arcádia, Hermes o disfarçou de carneiro, pois os árcades eram pastores e o Sol entrava em Aries em seu Festival da Primavera, e o deixou sob a responsabilidade das Híades (“fazedoras de chuva”), que foram chamadas de “as altas”, “as coxas”, “as apaixonadas”, “as rugentes” e “as furiosas”, por descreverem as cerimônias de Dionísio.

Hesíodo (citado por Theon: Sobre Arato 171) registra os nomes anteriores das Híades como Fesila (“luz filtrada”), Corônis (“corvo”), Cléia (“famosa”), Feo (“obscura”) e Eudora (“generosa”). Alista de Higino (.Astronomia poética II. 21) é bastante parecida. Nysus significa “coxo”, e, nessas orgias da cerveja na montanha, parece que o rei sagrado coxeava como uma perdiz, como no festival cananeu da primavera, chamado Pesach (“manqueira”). Mas os fatos de Mácris alimentar Dionísio à base de mel e as mênades utilizarem ramos de abeto recobertos de hera como tirsos aludem a uma forma anterior de preparado alcoólico: cerveja de abeto misturada com hera e adoçada com hidromel. O hidromel era o “néctar” obtido do mel fermentado que os deuses continuaram bebendo no Olimpo homérico.

3. J. E. Harrison - quem pela primeira vez assinalou (Prolegomena cap. VIII) que Dionísio, o deus do vinho, é uma superposição posterior de Dionísio, o deus da cerveja, conhecido também como Sabácio — sugere que o termo tragédia possa derivar não necessariamente de tragos (“cabra”), como indica Virgílio (loc. cit), mas de tragos (“espelta”), um cereal utilizado em Atenas para a fabricação da cerveja. Harrison acrescenta que, nas primeiras pinturas de ânforas, aparecem como companheiros de Dionísio homens-cavalos e não homens-cabras, e que seu cesto de uvas era originalmente uma ventoinha para limpar trigo. De fato, a cabra líbia ou cretense estava associada ao vinho, ao passo que o cavalo heládico, à cerveja e ao néctar. Assim, Licurgo, que oferece resistência ao segundo Dionísio, é destroçado por cavalos selvagens — sacerdotisas da deusa com cabeça de égua —, tendo o mesmo destino que o Dionísio anterior. A história de Licurgo confundiu-se com o conto irrelevante da maldição que caiu sobre sua terra após o assassinato de Drias (“carvalho”), o rei-carvalho que era morto anualmente. A toda de suas extremidades servia para manter sua alma sob controle, e a derrubada arbitrária de um carvalho sagrado era punida com a pena capital. Cotito era o nome da deusa em cuja homenagem se realizavam os ritos édones (Estrabão: X. 3. 16).

Dionísio podia se manifestar como leão, touro e serpente porque esses eram os emblemas do calendário do ano tripartite. Ele nascia no inverno como serpente (daí sua coroa de serpentes), convertia-se em cão na primavera e era morto e devorado como touro, cabra ou cervo em meados do verão. Essas eram suas metamorfoses quando os titãs o atacaram.

Seus mistérios se pareciam com os de Osíris, daí sua visita ao Egito.

Dionísio viajou numa embarcação em forma de Lua nova, e a história de seu embate com os piratas parece estar baseada no mesmo ícone que deu origem à lenda da Arca de Noé e os animais, sendo o leão, a serpente e outras criaturas suas epifanias sazonais. De fato, Dionísio é Deucalião. Os lacônios de Brasia preservaram um relato não ortodoxo de seu nascimento, mostrando como Cadmo encerrou Sêmele e seu filho numa arca que, à deriva, chegou a Brasia, onde Sêmele morreu e foi enterrada, e como Ino educou Dionísio (Pausânias: III. 24. 3).

Faros, uma pequena ilha em frente ao delta do Nilo, em cuja costa Proteu experimentou as mesmas transformações de Dionísio, tinha o maior porto existente na Europa na Idade do Bronze.

Era o armazém dos comerciantes de Creta, da Ásia Menor, das ilhas gregas, da Grécia e da Palestina. Dali certamente difundiu-se o culto do vinho em todas as direções. O relato da campanha de Dionísio na Líbia talvez registre o reforço militar enviado aos garamantes por parte de seus aliados gregos. O de sua campanha na índia foi interpretado como uma história fantasiosa do avanço ébrio de Alexandre até o Indo, mas ele é de data anterior e registra a expansão do vinho até o Oriente. A visita de Dionísio à Frigia, onde Réia o iniciou, sugere que os ritos gregos de Dionísio como Sabázio ou Brômio eram de origem frigia.

A Corona Borealis, grinalda nupcial de Ariadne, chamava-se também “Coroa Cretense”. Ela era a deusa-Lua cretense, e os filhos vinosos que teve com Dionísio — Enopião, Toante, Estáfilo, Taurópolo, Latromis e Evantes - foram os antepassados epônimos das tribos heládicas que habitavam em Quios, Lemnos, no Quersoneso trácio e em outros lugares mais adiante . O culto do vinho chegou à Grécia e ao Egeu através de Creta - oinos, “vinho”, é uma palavra cretense - , e, por causa disso, Dionísio era confundido com o deus cretense Zagreu, que também foi despedaçado ao nascer.

Agave, mãe de Penteu, é a deusa-Lua que coordenava as orgias da cerveja.

O esquartejamento de Hípaso pelas três irmãs, que são a deusa tripla como ninfa, tem um paralelismo com o relato galês de Pwyll, príncipe de Dyffed, segundo o qual, no Dia de Maio, Rhiannon, corruptela de Rigantona (“grande rainha”), devora um potro que é, na realidade, seu filho Pryderi (“ansiedade”). Poseidon também foi comido sob forma de potro por seu pai Cronos, mas provavelmente numa versão anterior quem o comeu foi sua mãe Réia. O mito demonstra que o rito antigo, no qual as mênades com cabeça de égua despedaçavam e comiam cru o menino escolhido para ser a vítima anual - fosse seu nome Sabázio, Brômio ou outro qualquer - , foi substituído pelas orgias dionisíacas mais ordenadas. A substituição do potro pelo menino na cerimônia de sacrifício indica essa mudança.

A romã que brotou do sangue de Dionísio era também a árvore de Tamus-Adônis-Rimmon. Seu fruto maduro se abre como uma ferida e mostra as sementes vermelhas que traz dentro de si. Ele simboliza a morte e a promessa de ressurreição quando segurado pela mão de Hera ou de Perséfone.

O resgate de Sêmele, renomeada Tione (“rainha furiosa”), por Dionísio foi deduzido dos desenhos de um cerimonial celebrado em Atenas sobre um local de dança dedicado às Mulheres Selvagens. Ali, ao som de cantos, flautas e danças e sob a difusão de pétalas de flor retiradas de cestos, um sacerdote invocava Semele para que emergisse de um ônfalo, ou montículo artificial, e que viesse a serviço do “espírito da primavera”, ou seja, do jovem Dionísio (Píndaro: Fragmento 3).

Em Delfos, havia um ritual parecido de ascensão dirigido exclusivamente por mulheres, que se chamava Herois, ou “festa da heroína”. Pode-se presumir ainda uma outra cerimônia no templo de Artemis em Trezena. Cabe lembrar que a deusa-Lua tinha, nas palavras de John Skelton, três aspectos diferentes:

Diana nas folhas verdes, Luna que tanto resplandece, Perséfone no inferno.

Sêmele era, de fato, um outro nome de Core, ou Perséfone, e a cena de ascensão está retratada em muitos vasos gregos, alguns dos quais mostram sáros usando enxadões para ajudar a heroína a emergir. A presença deles indica que se tratava de um rito pelasgo. O que desenterravam era provavelmente uma boneca de cereal enterrada depois da colheita, que agora brotava de novo. Coré, evidentemente, não ascendeu ao Céu. Vagou pela terra com Deméter até chegar o momento de regressar ao mundo subterrâneo. Entretanto, logo depois da contração de Dionísio à categoria de deus olímpico, a assenção de sua mãe virgem passou a ser um dogma, e, uma vez admitida como deusa, ela foi diferenciada de core, que continuou ascendendo e descendendo como heroína.

A vinha era a décima árvore do ano sagrado da árvore e seu mês correspeedente era setembro, quando acontecia a festa da vindima. A hera, a décima primeira árvore, correspondia a outubro, quando as mênades farreavam e mastigavam suas folhas. Ela também era importante porque, assim como as outras quatro árvores sagradas — o carvalho espinhoso de El com que se aumentavam as cochonilhas, o amieiro de Foroneu, a vinha e a romãzeira, ambas ao próprio Dionísio —, fornecia uma tinta vermelho. O monge Teófilo (Rugerus: Sobre os ofícios, cap. 98) diz que “os poetas e artistas adoravam a hera pelos poderes secretos que ela encerrava... um dos quais vou lhe contar. Em março, quando a seiva sobe, se você perfurar o talo da hera com um trado em alguns pontos, exsudará um líquido viscoso que, ao ser misturado com urina e depois fervido, dá uma cor de sangue chamada Iaque, muito utilizada na pintura e nas iluminuras”. A tinta vermelha era usada para colorir os rostos das imagens masculinas da fertilidade (Pausânias: II. 2. 5) e dos reis sagrados. 

Em Roma, esse costume se conservou com a coloração vermelha do rosto do general triunfante. O general representava o deus Marte, que foi um Dionísio da primavera antes de se especializar como o deus romano da guerra, dando assim seu nome ao mês de março. Os reis ingleses ainda maquiam levemente o rosto com ruge nas cerimônias oficiais, para dar uma impressão de saúde e prosperidade. Ademais, a hera grega, assim como a vinha e o plátano, tem uma folha de cinco pontas que representa a mão criadora da deusa Terra Réia. O mirto era uma árvore da morte.

Autor: Robert Graves.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

A limpeza cultural

Operários bolivianos retiraram o altar para rituais satânicos e oferendas a entidades andinas da estrada que liga as cidades de La Paz e El Alto, por onde o papa Francisco passará na visita que fará ao país na semana que vem.

A “Curva del Diablo”, que normalmente abriga dezenas de velas e outros elementos usados nos eventos, estava hoje como qualquer outra parte da rodovia. Homens da prefeitura de La Paz e da Administradora Boliviana de Estradas (ABC) limparam o lugar e colocaram algumas pequenas plantas onde antes ficava o altar improvisado.

Membros da “Waka Katari”, um grupo que promove rituais andinos no local, ajudaram nos trabalhos e suspenderam os rituais até o fim da visita do papa à Bolívia, explicou à Agência Efe uma das integrantes, identificada apenas como Adriana. Segundo ela, o lugar é, na realidade, uma “waka”, local considerado sagrado na cultura andina e “não possui energia negativa”, ao contrário do que pensam as pessoas.

Na última segunda-feira, o grupo fez um ritual para pedir permissão para organizar o lugar e os integrantes se organizaram em turnos para garantir que ninguém usará o local nos próximos dias.

“Pedimos que respeitem o lugar por dez dias para que não haja enfrentamentos, porque se a prefeitura ou a ABC fizessem sozinhas o trabalho certamente haveria enfrentamentos e mortes”, indicou.

O papa Francisco visitará a Bolívia entre os dias 8 e 10, como parte de uma viagem pela América do Sul, que também inclui o Equador e o Paraguai. O pontífice chegará a El Alto, situada a 4 mil metros acima do nível do mar, e de lá irá a La Paz, a 3.600 metros de altitude, passando pela estrada em um veículo descoberto.

Há algumas semanas, as autoridades anunciaram limpariam a “Curva del Diablo” por conta da chegada do papa. Porém há três anos, o governo derrubou um altar de cimento que existia no lugar, depois que um corpo foi encontrado nas proximidades e a polícia suspeitou que o caso tivesse relação com os rituais.

No começo deste ano, organizações em defesa dos animais denunciaram que alguns bichos, como coelhos, cachorros e gatos, estavam sendo sacrificados em cerimônias satânicas na “Curva del Diablo”. Muitos dos ritos dos grupos supostamente satânicos aparecem misturados as crenças dos povos indígenas sobre o sacrifício de animais, particularmente lhamas, dedicadas à Mãe Terra para pedir boas colheitas e prosperidade.

A integrante do “Waka Katari” negou que as cerimônias sejam satânicas ou que tenha a participação de animais. Segundo ela, eles promovem apenas ritos ancestrais andinos.

EFE

NB - Mesmo no século XXI, o Cristianismo continua com sua limpeza cultural, demonizando outras crenças e cultos.

domingo, 5 de julho de 2015

Os feitos e a natureza de Pan

Vários deuses e deusas poderosos da Grécia jamais se incluíram entre os Doze Olímpicos. Pã, por exemplo, um tipo humilde, agora morto, contentou-se em viver sobre a terra na Arcádia rural. Hades, Perséfone e Hécate sabiam que sua presença não era bem-vinda no Olimpo. A Mãe Terra, por sua vez, era demasiado velha e apegada a seus hábitos para se adaptar à vida familiar de seus netos e bisnetos.

Contam que Hermes concebeu Pã com Driopéia, filha de Dríope; ou com a ninfa Eneis; ou com Penélope, mulher de Odisseu, que ele visitou sob a forma de um carneiro; ou com a cabra Amaltéia. Diz-se que ele era tão feio quando nasceu, com chifres, barba, rabo e pés de bode, que sua mãe fugiu assustada e Hermes o levou ao Olimpo para divertir os deuses. Mas Pã era irmão adotivo de Zeus e, portanto, muito mais velho que Hermes ou Penélope, a qual, segundo outra versão, o teria concebido com todos os pretendentes que a cortejaram durante a ausência de Odisseu. Há também quem o considere filho de Cronos e Réia: ou de Zeus e Híbris, que é a explicação mais plausível.

Ele vivia na Arcádia, onde cuidava de seus rebanhos, manadas e colméias, participava das folias das ninfas montanhesas e ajudava os caçadores a encontrar sua presa. Em geral, era tranqüilo e preguiçoso. Nada lhe apetecia mais do que uma sesta vespertina, e vingava-se daqueles que vinham perturbar o seu sono lançando-lhes, de dentro de uma cova ou caverna, um grito repentino, de arrepiar os cabelos. Apesar disso, os árcades tinham tão pouco respeito por ele que quando voltavam de mãos vazias depois de um longo dia de caça, ousavam ataca-lo com cebolas.

Pã seduziu diversas ninfas, entre elas Eco, que lhe deu Iinx e teve um fim desgraçado por amar Narciso; e Eufeme, a nutriz das musas, que lhe deu Croto, o Arqueiro do Zodíaco. Ele também se gabava de ter copulado com todas as mênades bêbedas de Dionísio.

Uma vez tentou violar a casta Pítis, que escapou dele facilmente, metamorfoseando-se num abeto, cujo ramo passou a ser usado desde então por Pã como grinalda. Em outra ocasião, perseguiu a casta Siringe do monte Liceu até o rio Ládon, onde ela se transformou em junco. Não conseguindo distingui-la do resto, ele cortou vários juncos ao acaso e os transformou numa flauta de Pã. Seu maior êxito amoroso foi Selene, a quem seduziu cobrindo seus pelos pretos de pele de cabra com tosões brancos bem lavados. Sem dar-se conta de quem era ele de fato, Selene aceitou montar no seu lombo, permitindo-lhe desfrutar dela como bem entendesse.

Os deuses olímpicos utilizavam para seu próprio proveito os poderes de Pã, apesar de desprezarem sua simplicidade e seu gosto por escândalos. Apolo

obteve dele a arte da profecia, e Hermes copiou uma flauta que Pã deixara cair, dizendo-se seu inventor e vendendo-a a Apolo.

Pã é o único deus que morreu na nossa época. A notícia de sua morte chegou através de Tamo, marinheiro cujo barco ia rumo a Italia, fazendo escala na ilha de Paxi. Uma voz divina gritou do mar:

- Está aí, Tamo? Quando chegar a Palodes, trate de anunciar a morte do grande deus Pã! E assim fez Tamo. A notícia foi recebida desde a costa com gemidos e lamentos.

Pã, cujo nome deriva habitualmente depaein, “pastar”, representa o “demônio”, ou “homem de pé”, do culto árcade da fertilidade, que mantinha grande semelhança com o culto das bruxas do noroeste europeu. Esse homem, vestido com uma pele de cabra, era o amante eleito pelas menades bebedas durante suas orgias nas montanhas altas, privilégio que, mais cedo ou mais tarde, ele acabaria pagando com a própria morte.

Os relatos sobre o nascimento de Pã são muito variados. Levando-se em conta que Hermes era a força residente numa pedra fálica que constituía o centro dessas orgias, os pastores descreviam seu deus Pã como filho de Hermes com um pica-pau, cujas fortes batidas do bico supostamente pressagiavam a bem-vinda chuva estival. O mito de que ele tenha concebido Pã com Eneis é auto-explicativo, ainda que as mênades originais usassem outros estupefacientes além do vinho. O nome de sua famosa mãe Penélope (“a que tem uma rede sobre o rosto”) sugere que as mênades tinham! algum tipo de pintura de guerra para as orgias, recordando as listras da penelope, uma espécie de pato.

Plutarco diz (Sobre as demoras do castigo divino) que as mênades que mataram Orfeu tinham sido tatuadas por seus esposos como castigo. 

A visita feita por Hermes a Penélope sob a forma de carneiro — demônio carneiro é tão comum quanto a cabra no culto das bruxas do noroeste - e o fato de ela engravidar com todos os pretendentes, além da jactância de Pã de ter copulado com todas as mênades, aludem ao caráter promíscuo das orgias em homenagem à deusa-abeto Pítis ou Élate. Os montanheses árcades eram os habitantes mais primitivos da Grécia, e seus vizinhos, mais civilizados, manifestavam desprezo por eles.

O filho de Pã, o torcicolo, ou biguatinga, era uma ave migrante de primavera,

utilizada para encantamentos eróticos. As cebolas contêm uma substância tóxica irritante — muito efetiva contra camundongos e ritos - e eram usadas como purgante e diurético antes de se tomar parte num ato ritual, motivo pelo qual passaram a simbolizar a eliminação de más influências, e a imagem de Pã era açoitada com essas cebolas quando rareava a caça.

A sedução de Selene deve se referir a uma orgia do Dia de Maio sob a luz do luar, em que a jovem Rainha de Maio montava no lombo do seu homem de pé. antes de celebrar com ele um casamento silvestre. Nessa época, o culto do carneiro havia substituído o da cabra na Arcádia.

Ao que parece, o egípcio Tamo ouviu mal o lamento cerimonial Tbamus Pan-megas Tethnêce (“o todo-poderoso Tamus morreu!”) e entendeu: “Tamo, o grande Pã morreu!”. De qualquer modo, Plutarco, sacerdote de Delfos na segunda metade do século I a.e.c., assim acreditou e publicou, mas, quando Pausânias fez sua viagem pela Grécia, aproximadamente um século depois, encontrou santuários de Pã, altares, cavernas e montanhas sagradas dedicadas a ele, que ainda eram muito freqüentadas.

Autor: Robert Graves.

sábado, 4 de julho de 2015

Cultos sagrados da fertilidade, sexo e amor em Roma

Os Romanos, que gostavam de se dizer o mais “religioso” dos povos e que reconheciam e honravam divindades em número superior a qualquer outro [com exceção talvez dos hititas], não podiam deixar de ser sensíveis ao carácter sagrado deste instinto amoroso, capaz de transformar os seres, de arrancá-los a si mesmos e cujo poder, igualmente sentido pelos homens e por tudo o que vive, submete às suas leis toda a natureza. Não surpreende verificar que o amor tinha as suas divindades, os seus ritos, a sua magia. O culto que se prestava as primeiras, a observância religiosa de práticas cuja origem se perdia na noite dos tempos, tudo isso tinha por finalidade, umas vezes, desenvolver ao máximo ou exaltar as forças criadoras do ato de amor e controlar ou disciplinar o que nelas se descobria de anárquico e colocá-las ao serviço do bem da cidade.
A religião da época clássica, aquela que conhecemos melhor graças aos textos e a numerosos testemunhos de toda a espécie, não manteve muitas vezes senão vestígios, dificilmente detectáveis, destas crenças e destes ritos. Esta ou aquela prática de carácter mágico, nos tempos de Cícero ou de Augusto, já não era mais do que sequelas folclóricas e não teríamos conservado delas nenhuma lembrança se os “antiquários” de então, ávidos de recolher as coisas estranhas do tempo antigo, não lhes tivessem consagrado algumas linhas nas suas obras, que infelizmente, apenas nos chegaram a estado fragmentário. Frequentemente, também, os polemistas cristãos, em busca de argumentos para "provar" a "imoralidade ou o absurdo" da religião ancestral, transmitiram-nos cuidadosamente detalhes cujo carácter arcaico, às vezes mesmo primitivo, tendia a lançar o descrédito sobre a fé dos seus adversários.
Compreende-se que a partir destes pobres materiais seja difícil reconstituir um conjunto ordenado e perfeitamente compreensível, como, por exemplo, avaliar com precisão a importância de um rito específico ou devolver cada fragmento ao seu verdadeiro lugar, e arriscamo-nos, por isso, a graves erros de perspectiva. Apesar de todas estas dificuldades, o que podemos entrever desta “religião do amor" muito antiga não é em si mesmo desprovido de interesse, até porque, sobretudo em Roma, o passado tem no presente uma influência muito grande. Este passado remoto, mesmo se semiesquecido, está, apesar de tudo, presente, porque contribuiu para formar a sensibilidade romana e porque constituiu como que o núcleo em volta do qual se cristalizaram formas religiosas mais modernas, que sem ele não teriam sido o que foram.
Estes vestígios arcaicos, encontramo-los um pouco por toda a parte e as cerimônias de casamento não estão delas isentos. Encontramo-los também na religião oficial e na popular. Surge, sobretudo, nos cultos celebrados pelas mulheres, o que é natural, dado que, durante muito tem­po, as mulheres foram consideradas as depositárias por excelência da fecundidade, aquela metade da cidade a que era a atribuída à função de assegurar a sobrevivência e a permanência de toda a raça.
No cimo da Vélia, uma das colinas romanas ocupadas desde tempos mais remotos, havia um santuário singular, cuja “divindade” era repre­sentada na forma de membro viril. Este deus tinha o nome estranho de Mutunus Tutunus. Conhecemo-lo apenas por um fragmento do gramático Festo e quatro ou cinco alusões de Tertuliano, Santo Agostinho, Amóbio e Lactâncio, e o que nos dizem está longe de ser claro. Parece que até ao tempo de Augusto, pelo menos, mulheres “vestidas com a toga pretexta” iam, em certas ocasiões, coroar de flores o símbolo de Mutunus Tutunus. Quem eram estas mulheres? Provavelmente sacerdotisas, como o seu fato arcaico parece indicar, e, sem dúvida, mulheres casadas, que realizavam ali um rito provavelmente propiciatório, em nome de todas as esposas da cidade.
Mas Mutunus Tutunus não se encontrava apenas no santuário da Vélia. Tinha o seu lugar também, segundo nos é dito, no quarto de dor­mir dos simples particulares e, no dia do seu casamento, as recém-casadas deviam sentar-se sobre a sua imagem, como para consagrar ao deus as primícias da sua virgindade. Infelizmente, não sabemos se esta prática era geral ou se se tratava de um costume “do tempo antigo”, a que mais nenhum jovem marido teria ousado submeter a sua noiva. É possível que este gesto seja o último vestígio de um rito destinado a preservar o marido do perigo mágico que a desfloração da sua mulher lhe teria feito correr. Abundam os testemunhos de tais crenças na virtude maléfica da virgindade: os etnólogos encontram-nas em muitas “sociedades primitivas” e conhecem-se exemplos de substituições da pessoa, ritualmente realizadas, durante a primeira noite do casamento.
Na verdade, existem outros vestígios de um culto do falo. Mutunus Tutunus não está completamente isolado na mais antiga religião romana. Por exemplo, as Vestais, as sacerdotisas virgens que tinham à sua guarda os “penates” do povo romano, misteriosos fetiches que eram crime olhar, envolviam também de veneração a imagem de um sexo masculino colocada no santuário que tinham a seu cargo, tendo-se pensado que esta imagem correspondia, no lar da cidade, à do Genius que era honrado em cada lar doméstico e simbolizava a capacidade fecundadora do senhor da casa. A favor desta aproximação, é invocada uma velha lenda, muito singular, que fazia parte do “ciclo” do rei Sérvio Túlio.
Contava-se que no palácio de Tarquínio, o Antigo, uma serva chama­ da Ocrísia unira-se a um falo, que surgira misteriosamente na cinza do lar, e que desta união tinha nascido Sérvio Túlio. Esta lenda, de que Tito Lívio não fala, sem dúvida devido ao seu carácter estranho, contrário aos bons costumes do seu tempo, conserva, muito provavelmente, a lembrança de um tempo em que pelo menos um dos demônios do lar doméstico simbolizava a virilidade.
Durante muito tempo, manteve-se entre o povo, sobretudo no campo, a crença em um poder mágico do falo, falo a que se chamava fascinus. A sua imagem encontra-se ainda, ameaçadora, sobre a entrada de algumas casas, em Pompeia. Tem aí, evidentemente, a função de proteger a residência do “mau olhado”. Nos campos, os camponeses erguiam-no como salvaguarda das colheitas e até sobre o carro dos triunfadores o mesmo símbolo confirmava idêntica fé na virtude benéfica de um órgão que surgia como o “lugar da vida” por excelência. O falo era o talismã mais eficaz contra todas as potências maléficas, os malefícios e tudo o que impedia ou contrariava o crescimento e o desenvolvimento felizes dos seres: homens, animais e plantas. A sua imagem não despertava qual­quer vergonha, o que não impedia que cada um tivesse pudor pelo seu corpo: embora os homens, no banho, não tivessem nenhum embaraço em se despir na sauna comum, faziam-no apenas na presença de estranhos. Mas o pai evitava banhar-se diante dos filhos e dos maridos das filhas e as palavras indecorosas eram ouvidas, desde sempre, com embaraço quando em companhia de respeito. Contudo, o costume requeria que os talismãs fálicos fossem usados livremente e expostos aos olhos de todos e não há dúvida que o hábito evitava que se escandalizassem com eles.

Mas o fascinus não possuía apenas este valor apotropaico, em certa medida negativo. Era objeto, junto dos camponeses, de um verdadeiro culto, associado à religião de Liber Pater, que era, de início, essencialmente, o deus da germinação, “o que assegura o nascimento e o crescimento”. Parece mesmo que o falo simbolizou o próprio deus nas festas rústicas, de que Santo Agostinho nos deixou a descrição. “Este membro vergonhoso, nos dias em que se festejava Liber”, diz-nos Agostinho, “era colocado com grande pompa sobre um carro e passeado, em pri­meiro lugar, no campo, de encruzilhada em encruzilhada, depois até na própria cidade. Na cidade de Lavínio, era consagrado um mês inteiro a Liber e durante este mês todos os dias, cada um empregava a linguagem mais obscena, até que o falo fosse levado através do fórum, em procissão solene, e depositado no seu santuário. Sobre este membro vergonhoso, uma mãe de família, das mais respeitadas, devia depositar publicamente uma coroa. Era, aparentemente, a maneira de se tomar o deus Liber favorável ao feliz sucesso das sementeiras e de afastar dos campos o mau olhado”.
Liber, que, de início, era deus de toda a geração, tinha-se especializado progressivamente. Assimilado desde cedo ao Dioniso dos Gre­gos (no culto e nos mistérios do qual também intervinham os símbolos fálicos), tinha-se tomado, na religião formalista e disciplinada da Roma republicana, o protetor das vinhas e dos pomares. Mas, recordação dos velhos tempos, era no dia da sua festa, a 17 de Março, que os jovens vestiam a toga viril, tomando-se assim capazes, por sua vez, de fundar uma família e entrando na classe dos patres. No campo, as formas arcai­cas do culto de Liber mantiveram-se vivas durante muito mais tempo. Virgílio conta-nos ainda que, no seu tempo, os camponeses, na Liberalia, juntavam-se sobre a relva para beber, cantar, dançar e dizer uns aos ou­tros dichotes bastante livres. Para eles, como para os burgueses de Lavínio, de que nos fala Santo Agostinho, a obscenidade da linguagem tem um valor ritual, uma eficácia mágica capaz de estimular a natureza e de ajudar no cumprimento do mistério da vegetação. Estes ditos que se troca­vam deram origem a fórmulas quase rituais, ritmadas, que tomaram o nome de “versos fesceninos” e que os espectadores, à passagem de um cortejo nupcial ou de uma procissão triunfal, lançavam aos participan­tes. Nestas ocasiões solenes, a decência dos ditos não era adequada: a obscenidade das palavras fazia parte do rito. Como o próprio fascinus, afastava a desgraça e, ao mesmo tempo, estimulava a fecundidade do casal e aumentava a eficácia das potências misteriosas de que dependia o sucesso da cerimônia.
Quando, no fim do século III A.C., se expandiu na Itália a religião dionisíaca e foram organizados, um pouco por toda a parte, colégios de bacantes para celebrar os mistérios do deus grego, foram muitos os habi­tantes dos campos a dedicar-se a práticas em que reconheciam costumes análogos aos seus. Aliás, o “flagelo” (era assim que os senadores roma­nos consideravam uma religião tão contrária à disciplina ancestral) pagou-se através da Itália com uma rapidez muito grande. Dioniso prometia aos seus devotos, não só a felicidade neste mundo, mas a esperança da salvação depois da morte. Misticismo e sensualidade constituíam uma dupla e poderosa atração para estes camponeses, que sempre sen­tiram, de modo confuso, que o mistério da geração tinha carácter divino. Não só os sacerdotes do novo deus não lhes pediam para renunciar aos seus próprios ritos, mas traziam-lhes uma revelação que iluminava estes e acrescentava ao seu próprio instinto prolongamentos místicos.
Temos muito poucas informações sobre o que se passava realmente nestas “células” dionisíacas. Há relatos de que os devotos dos dois sexos se entregavam a orgias, o que é bem provável, mas também que iam até ao crime e que não eram raros os sacrifícios humanos, calúnia de que foram alvo muitas das novas religiões. Seja como for, desencadeou-se um escândalo em 186 A.C. e toda a Itália ficou abalada.
As bacanais tinham chegado a Roma. Celebravam-se os seus ritos ao pé do Aventino, no bosque sagrado da velha divindade romana Stimula, e podia ver-se, durante a noite, as bacantes correr, despenteadas, até ao rio, levando tochas que mergulhavam na água e reemergiam acesas. Eis, porém, que uma mulher vem fazer ao cônsul terríveis revelações: era uma cortesã chamada Hispalis Fecênia. Conta ela que o seu jovem amante. Ebúcio, se encontra num grande perigo. A mãe de Ebúcio, casada em segundas núpcias, deseja ver-se livre dele e planeja fazê-lo assassinar pelos sectários de Dioniso, no decurso de uma noite de orgia sagrada. A própria Fecênia sabe do perigo, porque já fora também iniciada. Suplica aos magistrados que tomem as medidas necessárias para salvar um ino­cente. De imediato, o Senado reúne-se, os dois jovens são colocados sob a proteção da polícia e é aberto um inquérito. Recebem-se e provocam-se denúncias. Os sacerdotes de Dioniso são imediatamente presos, todas as reuniões noturnas são proibidas e todos os sectários do deus que não se apresentarem às autoridades em um determinado prazo serão consi­derados, de imediato, fora da lei. Começam logo os processos sumários, seguidos de execuções. Em breve, reina em Roma e nas cidades italianas um verdadeiro terror. O decreto do Senado foi enviado a toda a parte. Temos a sorte de possuir uma cópia, gravada, na época, sobre uma mesa de bronze. Dali para o futuro, era proibido celebrar bacanais. No entanto, os senadores, para não correrem o risco de suprimir práticas tradicio­nais e legítimas, permitiam exceções, mas em nenhum caso poderiam participar na cerimônia mais de cinco pessoas (dois homens e três mu­lheres), já não poderiam estabelecer vínculos mediante juramento (como se fazia, até então, nos colégios de bacantes) nem possuir caixa comum ou formar entre si uma hierarquia e até esta forma reduzida de culto ficava sujeita, sem exceção, a uma autorização prévia do Senado.
Podemos perceber através dos termos do decreto que o assunto não foi menos político que religioso. Manifestamente, temia-se a formação de uma espécie de sociedade secreta, uma confraria que estendesse por toda a parte as suas ramificações, escapando ao controle dos magistrados e capaz de despertar o fanatismo religioso do mundo dos campos. O culto de Dioniso subsistiu, mas serenado e destituído dos seus excessos orgíacos. Por isso, assumiu um carácter mais espiritual e também mais intimista: a supressão de todo o clero reduzia-o a não ser mais do que uma devoção pessoal. Gradualmente, o deus proscrito pelo senátus-consulto de 186 recuperou os seu fiéis, mas estes, desta vez, já não eram pessoas comuns: a elite romana, seduzida pelo misticismo dionisíaco, que, no Oriente, tinha estatuto de religião oficial, acolheu de bom grado as suas imagens e os seus mitos. A partir do início do Império, Dioniso está presente em toda a parte. As suas estátuas e as dos seus companhei­ros erguem-se nos jardins, onde simbolizam as forças férteis da natureza. Os muros das residências particulares, nomeadamente em Pompeia, mostram cenas da sua lenda. Os famosos frescos da Vila dos Mistérios reproduzem, sem dúvida, o desenrolar de uma iniciação às suas cerimônias, reveladoras do segredo do amor e da vida.
Contudo, um dos companheiros de Baco, o deus Priapo, tinha escapado à proscrição. Este deus, originário de Lâmpsaco, na Ásia Menor, também era um demônio da fecundidade, como se pode verificar pela sua imagem, caracterizada por um enorme falo. Os camponeses italia­nos tinham-no escolhido para proteger os seus campos e as suas vinhas, onde substituía o anterior fascinus. Cada jardim tinha o seu Priapo, talhado à poda em um tronco de árvore. Pintado com vermelhão, tinha por função afastar os malefícios, mas também servir de espantalho contra os pássaros e, eventualmente, de moca, nas mãos do jardineiro, para punir os ladrões. Nos jardins, este deus obsceno raramente era tomado a sério e as homenagens que lhe eram dirigidas estavam, em geral, eivadas de ironia. Contudo, constatamos que Priapo, apesar dos seus ridículos, era por vezes objeto de um culto quase místico. Daí que se encontre junto dos túmulos, onde a sua presença é testemunho da crença em um renascimento para além da morte. “Priapo, lugar da vida e da morte”, diz-nos uma inscrição, e isto não é fantasia de algum devoto, mas uma convicção muito propagada de que a morte e a vida são apenas dois aspectos solidários de uma mesma realidade. Esta era já a doutrina afirmada por Sócrates no Fédon e que tem a sua origem em crenças profundamente enraizadas na terra grega. Não é raro verificar que tam­bém em Roma os demônios da vida exercem o seu império sobre a morte. Por isso, a religião popular reconhece instintivamente esta ligação do amor e da morte, que assombrará muitos poetas, quer em outros tempos, quer na própria Roma.
Esta religião da virilidade, tão essencial, tão viva, não é a única manifestação dos sentimentos de respeito e de temor dos Romanos para com o mistério da vida. A vida sexual feminina tinha também os seus demônios, que a mantinham na sua dependência: ao Genius do pai da família fazia contraponto a Juno da mãe, cujo culto está menos bem documentado, no lar doméstico, do que o do Genius, mas de que se crê, no entanto, ver a imagem em uma das duas serpentes que são represen­tadas muitas vezes, em Pompeia, junto do altar de cada casa, por exem­plo. Em contrapartida, enquanto o Genius nunca foi assimilado a nenhum dos grandes deuses, a Juno de cada matrona fica, em certa medida, absorvida pela deusa que tem o mesmo nome e que é a companheira de Júpiter. Tudo se passa como se a religião oficial tivesse tido a preocupa­ção de controlar, de integrar, o culto da feminilidade individual das "mães”, deixando fora dela o da fecundidade viril. Havia festas específi­cas das matronas, por exemplo, as Matronalia de 1º de Março, celebradas coletivamente pelas mulheres casadas. Outras, como as de 7 de Julho, as “nonas caprotinas”, evidenciavam características arcaicas, o que mostra a sua antiguidade: a figueira e a cabra tinha nelas um papel importante e vislumbramos nestes ritos, que incluíam combates simulados e disfarces (as servas envergavam os vestidos das suas senhoras), uma antiga magia da lactação, sem dúvida destinada a estimular esta função nas mães e, ao mesmo tempo, a proteger estas contra os seus perigos, substituindo-as por outras mulheres de menor “valor”, durante o período perigoso.
Todos os anos, a casa do cônsul era palco de uma festa singular, em que só participavam as mulheres casadas, na presença das vestais. A divindade que se honrava neste dia (no início de Dezembro) tinha o nome de Bona Déa, “a boa deusa”. Era um epíteto ritual que dissimulava o verdadeiro nome, que nos é desconhecido. Aos homens era proibido assistir a ela, sob pena das mais graves sanções, e era interdito também, durante esta festa, introduzir na casa o menor ramo de murta, bem como pronunciar a palavra “vinho”. O vinho que se utilizava nas libações do sacrifício era chamado “leite” e os vasos que o continham eram chama­dos “potes de mel”.
Para explicar estas práticas estranhas, contava-se que a boa deusa desposara o deus Fauno e que este, para puni-la por ter bebido vinho secretamente, lhe batera de maneira tão brutal com varas de murta que a tinha morto. Na verdade, os “tabus” que caracterizam o culto da Bona Déa podem ser explicados, se nos recordarmos que beber vinho era ori­ginalmente interdito às mulheres [e continuou a sê-lo até a uma época relativamente tardia] e, por outro lado, que a murta é a planta favorita de Vênus, a deusa do amor. A Bona Déa simbolizava as virtudes que se esperava das matronas e de que tanto o vinho como Vênus podiam desviá-las, segundo se pensava. A cidade desejava, por certo, estimular a fecundidade feminina nas “mães” e assegurar-lhes a proteção de divin­dades prestáveis, mas não deixava de sentir alguma apreensão face à possibilidade de estas mesmas divindades inspirarem às suas devotas o desejo de usar desregradamente os poderes que se queria exaltar.
Roma parece ter estado sempre colocada entre dois perigos: por um lado, o de ver secar nela as fontes da vida, se negligenciasse os cultos da fecundidade, e, por outro, o de provocar acessos de fanatismo e desor­dens não menos graves para a cidade, por praticar estes mesmos cultos, o que não lhe inspirava menor temor. A reação timorata dos senadores durante o escândalo das bacanais não foi caso único. A história de outra deusa, Vênus, patrona dos amores, é muito instrutiva a esse respeito.
Vênus acolheu muito cedo os traços da Afrodite grega, mas a mais antiga Vênus parece ter sido muito diferente da “moça das vagas e do céu” que surgiu, no mundo grego, de uma síntese complexa em que pre­dominam os contributos asiáticos. Na verdade, os historiadores moder­nos da religião romana não estão de acordo sobre a sua natureza nem sequer sobre a sua função primitiva. Durante muito tempo, admitiram que Vênus tivesse começado por ser uma camponesa, uma divindade rústica que personificaria o “encanto” da Primavera e dos pomares em flor e que reinava, designadamente, nas hortas. Depois, segundo afirmavam, os fiéis desta Vênus campestre teriam atingido uma concepção mais elevada, vendo nela uma das forças primordiais da natureza, cujo poder os seres humanos suportam, por vezes, com dureza. Mas hoje há consenso na rejeição desta teoria.
No fundo, é muito pouco natural pensar que o culto de Vênus tenha procedido de uma religião da fecundidade em geral e não se tenha relacio­nado com o amor “humano”, senão no termo de um longo percurso. Não se deve antes pensar que a evolução da deusa aconteceu em sentido imerso que partiu do humano e se estendeu, progressivamente, a tudo o que vive? O poder do amor não será imediatamente perceptível ao homem no seu próprio coração, no latejar das suas artérias? E a tendência espontânea do espírito não será, precisamente, projetar para fora de si as descobertas da sua própria experiência? Reconhecer "Vênus” no mundo é tê-la já sentido em si mesmo.
Outra explicação da Vênus romana foi recentemente proposta. A deusa, segundo ela, teria sido, em primeiro lugar, não um demônio da fecundidade, mas a personificação de uma realidade espiritual muitíssimo mais sutil: o poder mágico da eficácia da oração, que é o único a ter capacidade para atrair sobre os homens a benção e a graça dos deuses. Na sua origem, Vênus teria sido a mediadora universal, a meio caminho entre o humano e o divino, aquela que atrai, em benefício dos seus fiéis, as força vivificantes do sobrenatural.
Esta hipótese é muito engenhosa e pode invocar bons argumentos a seu favor, mas ilude qualquer demonstração rigorosa, devido ao seu caráter abstrato. Por outro lado, não podemos deixar de pensar que os mais remotos antepassados do povo romano, que eram tão bem dotados quanto possamos imaginar para as especulações teológicas mais sutis, terão divinizado espontaneamente o poder que preside à união dos seios. Como divinizaram a luz do dia e o poder inebriante do vinho. Mas, na verdade, o problema não se coloca nos mesmos termos. Importa-nos muito pouco definir qual foi, no seu princípio, a função essencial da Vênus mais antiga, uma vez que, tão longe quanto possamos remontar na história de Roma, encontramo-la investida de uma missão muito defi­nida, a de presidir às relações amorosas.
Esta personalidade da deusa “histórica” ganhou forma, provavelmente na própria Itália. Desde o século VII A.C., Vênus possuía em Lavínio um santuário de que se dizia que o fundador não teria sido outro senão Eneias. Em Lavínio, a Vênus latina - qualquer que fosse exatamente a sua verdadeira natureza - sofreu a influência da Afrodite grega. Esta tinha sido introduzida na Itália pelos colonos gregos da Campânia e tam­bém pelos conquistadores etruscos instalados no Lácio. Todos os Latinos vinham em peregrinação ao santuário de Lavínio prestar culto ofici­al à deusa e foi de lá que foi trazida para Roma, embora com precauções e reticências.
Para os Romanos, de fato, Vênus personifica a sedução feminina, o que, indubitavelmente, já personificava em Lavínio. Simboliza o poder misterioso, religioso e mágico que a pessoa e o corpo da mulher encerram. Era uma das divindades mais inquietantes e não podemos de modo nenhum surpreender-nos que a Roma puritana e conservadora dos primeiros tempos não lhe tenha dedicado, durante um longo período, nenhum templo. Preocupados em salvaguardar a ordem e os bons costumes, os patrícios, que detinham, na prática, a totalidade dos poderes, olhavam com suspeita para esta deusa anárquica, geradora de perturbação e de paixão. Todavia [como se vê mais tarde no escândalo das Bacanais], eram também demasiado sensíveis a todas as formas do di­vino para não reconhecerem a necessidade de prestar a Vênus as honras de que não a podiam privar sem com isso fazerem correr grandes riscos a toda a cidade.
Não sabemos exatamente como foi, na cidade, este primeiro culto a Vênus. Surgiu um primeiro nome, bastante estranho. Alguns testemunhos, relativamente tardios, asseguram-nos que Vênus, desde uma época muito recuada, foi honrada no Capitólio, onde tinha sido erguido um santuário à Vênus calva. Quem era esta singular deusa? A lenda fornece duas explicações inconciliáveis acerca do nome. Contava-se, por vezes, que, durante o cerco de Roma pelos Gauleses, as matronas, fechadas no Capitólio com os defensores da cidadela e alguns refugiados, teriam cortado espontaneamente os seus cabelos para fabricar os cabos e as cordas necessários às máquinas de guerra. Para recordar esta devoção, o Estado, após a vitória, teria dedicado uma estátua à Vênus Calva, a fim de testemunhar que as mulheres, tendo cortado o cabelo, não tinham perdido nada do seu poder de sedução! É uma galanteria anacrônica, pouco de acordo com os costumes romanos do século IV A.C. Para além disso, é bem provável que os defensores do Capitólio não dispusessem de má­quinas de guerra e não tivessem utilidade a dar às cabeleiras femininas.
A outra explicação faz remontar a origem da Vênus calva a um período ainda mais afastado. Era, diz-se, no tempo do rei Anco Márcio. As mulheres romanas e a própria rainha, tinham sido atingidas por uma estranha doença que lhes fazia cair os cabelos. O rei, para consolar a rainha, fez-lhe uma estátua, representando-a no estado em que a doença a tinha deixado. E eis que se produziu um milagre: mal a estátua ficou instalada, os cabelos das senhoras cresceram mais bonitos do que nunca. Gratos, os Romanos dedicaram um culto à Vênus calva, que assim tinha manifestado o seu poder.
Os historiadores modernos, bastante céticos, asseguram que a deusa nunca existiu, que é apenas uma invenção de antiquário e que não se deve ter em consideração. Talvez este ceticismo radical não seja justificado. É possível, decerto, que a Vênus Calva não tenha sido senão uma estátua de mulher muito antiga, privada pela erosão do tempo de uma parte dos seus atributos e ornamentos primitivos e que o povo se tenha habituado a dar-lhe este apelido. É possível também (hipótese e, de fato, inverificável) que os Romanos, desejosos de honrar Vênus, mas, ao mesmo tempo, desejosos de destituí-la de uma parte do seu poder mágico, tenham imaginado representá-la desprovida de cabeleira, quer dizer, de um dos atributos mais característicos da feminilidade. Era uma tentativa para “domesticar" uma força perigosa e seria o primeiro exem­plo, ainda cheio de ingenuidade, de uma política que, muito em breve, irá ser posta em prática.
Vênus é perigosa e os magistrados encarregados de fiscalizar a religião oficial estão disso intimamente convencidos. O primeiro templo que lhe é dedicado na cidade, no início do século III A.C., exatamente em 295, foi para impedir a cólera da deusa. Nesse ano, o filho do cônsul, Q. Fábio Gúrgite, decidiu construir um templo dedicado a Vênus, no vale do Grande Circo, e atribuiu para tal empreendimento o produto das multas cobradas à senhoras da alta sociedade que tivessem sido declaradas culpadas de stuprum, isto é, de comércio carnal ilegítimo (não de adultério, em que a punição seria a morte), ou seja, viúvas que tivessem comprometido a sua honra e filhas jovens de famílias ricas (as “filhas de família”), cuja má conduta, por alguma razão, não tivesse sido punida no interior da gens. Aparentemente, os escândalos eram em grande número, pois as somas recolhidas foram suficientes para edificar um monumento público. Fábio Gúrgite designou o novo santuário com o termo Vênus obsequens, expressão que os modernos traduzem, umas vezes, por “Vênus Complacente” e, outras vezes, mais verossimilmente, por "Vênus Obediente”. É muito tentador supor [embora dificilmente possa ser sequer uma hipótese] que esta consagração teve lugar para propiciar a deusa, evitando que continuasse a incitar as senhoras da aristocracia a praticar atos imorais, porque uma das vinganças mais comuns de Vênus sempre fora a de inspirar desejos culposos aos mortais (sobretudo às mulheres) que não lhe expressassem um culto suficientemente devoto ou que a tivessem ofendido de alguma maneira. Ao instalar oficialmente Vênus na cidade e, para além disso, aplicando-lhe um epíteto cultual de bom augúrio, alimentava-se a esperança de aplacar a sua cólera e que, no futuro, se contentasse em favorecer os amores legítimos.
Mas as divindades têm, muitas vezes, uma grande obstinação e escarnecem dos obstáculos que os homens lhes levantam. Durante a Segunda Guerra Púnica, quando Roma se viu na iminência da derrota, tornou-se evidente que não podiam deixar durante muito mais tempo numa situação menor a deusa que aparecia, cada vez mais, como a “mãe” dos Romanos. Entre outras medidas religiosas excepcionais que então foram decretadas, os senadores decidiram chamar a Roma a Vênus do Monte Erice. Tinham tido provas da eficácia da sua proteção durante a Primeira Guerra Púnica. O Monte Érice, onde tinha o seu templo, foi a sua principal base de operações contra os Cartagineses e foi à deusa, pensavam os Romanos, que ficaram a dever em grande parte a sua vitória. Por que não tentar recorrer a ela mais uma vez?
Todavia, esta Vênus era, evidentemente, uma deusa de origem oriental e o seu culto incluía ritos que repugnavam à consciência romana. O templo do Monte Érice era servido por hieródulas, escravas da deusa que se entregavam à prostituição. Os sacerdotes asseguravam também que a deusa realizasse milagres todos os dias: o altar ao ar livre, diante o templo, ficava coberto de orvalho e ervas novas, a cada manhã, por intervenção sobrenatural. Os vestígios dos sacrifícios oferecidos na véspera desapareciam sem que mão humana alguma se tivesse preocupado em eliminá-los. Acreditava-se que todos os anos a deusa deixava o templo do Monte Érice para se dirigir a África, acompanhada dos seus pássaros sagrados, as pombas, que volteavam sempre em grande número em redor do santuário. Passados nove dias, regressava com um bando de pás­saros e havia então grandes festas por toda a Sicília.
Introduzir tal divindade em Roma, dar-lhe direito de cidadania, era uma decisão grave, diante da qual o Senado sempre recuara, por grande que fosse a dívida de reconhecimento da República para com esta deusa turbulenta, patrona dos maus lugares e que perturbava os corações. Mas, perante a iminência do perigo, foi abandonada toda a hesitação. Só se queria ver nela a “mãe” de Eneias e, para sua maior honra, foi instalada no Capitólio, na colina sagrada onde reinava o grande deus do império, um Júpiter muito bom e muito grande.
Outra razão contribuiu, provavelmente, para favorecer a introdução do novo culto. Na tradição romana, Vênus passava por ser a compa­nheira do deus Marte, aquele, precisamente, cujo socorro, durante as primeiras batalhas da guerra, tinha faltado aos exércitos. A homenagem prestada à sua “amiga” não poderia deixar de impressionar o senhor das armas e isso é tão verdadeiro que a medida que recomendava a adoção da Vênus Ericina incluía um voto solene a Marte.
Contudo, a deusa do Monte Erice continuava a ser encarada com suspeita e é bem característico do espírito romano que se tenha colocado ao lado da tumultuosa siciliana, no Capitólio, um templo consagrado a Mens, ou seja, à razão, à inteligência lúcida, da qual a cidade tanto carecia para fazer face ao perigo. Parece que o Senado, preocupado com o equilíbrio da sua política religiosa, quis justapor no Capitólio, para onde se voltavam então todos os olhares, dois aspectos antitéticos e complementares do sagrado. O que havia de orgíaco no culto da siciliana, esse delírio que tinha o poder de desencadear nos corações, teria o seu antídoto na religião muito intelectual de Mens. Com sabedoria, os Pais não esquecem que múltiplas são as potências que partilham a alma dos ho­mens e que é na multiplicação das divindades, e não numa mutilação ruinosa, que se encontrará o segredo da harmonia.
Não era menos verdade que Vênus Ericina introduzia em Roma, apesar de todas as precauções, a deusa do amor passional, o que era reconhecê-la oficialmente e quase legalizá-la à custa da moral tradicional.
Por isso, vemos surgir muito rapidamente como antídoto o culto de outra Vênus, mais conforme ao que se espera de uma Vênus roma­na. Logo que as derrotas sofridas por Aníbal tornaram o invasor menos temível, o Senado decidiu consagrar uma estátua a uma nova Vênus, a que chamaram Verticordia, ou seja, “a que muda os corações”, ou antes, os “desvia” das paixões perigosas. Na intenção dos Pais, esta estátua devia “afastar do deboche o espírito das virgens e das mulheres casadas e incutir-lhes o sentido das conveniências”, de que muitas, aparentemente, se afastavam, devido à licença que o abrandamento da tensão moral, imposto pela guerra interminável, ocasionava. Para consagrar esta está­tua (talvez mesmo, mais provavelmente, para lhe serem copiados os traços), escolheram certa Sulpícia, mulher do senador Q. Fúlvio Flaco, que foi designada depois de um verdadeiro concurso de virtude. Os senadores escolheram para tal o nome de cem senhoras da aristocracia cuja reputação era impoluta. Entre estes cem nomes, dez foram tirados ao acaso e foram ponderados com cuidado os méritos de cada uma das laureadas. Finalmente, o juízo de todos voltou-se para Sulpícia, que se tornou, no entender do povo, o símbolo de todas as virtudes exemplares. Menos de cem anos depois, em 114 A.C., um escândalo sem prece­dentes veio perturbar as consciências. Três vestais, infiéis ao seu voto, foram consideradas culpadas de incesto e, de acordo com o costume, condenadas a ser enterradas vivas. Um acontecimento como este era sem­pre considerado um presságio sinistro. Para desviar os seus efeitos, foi decidido aumentar as honras devidas a Vênus verticordia, cuja proteção se tinha revelado manifestamente insuficiente. Construíram-lhe um templo segundo todas as regras. Este templo, de que ignoramos o lugar exato, foi consagrado no dia 1 Abril, o dia das calendas, que, conforme o costume, era dedicado a Juno: assim o mês de Abril (sob o patrocínio de Vênus, desde a mais longínqua antiguidade) começava com uma festa que as matronas celebravam em honra da “Vênus legítima”. Mais tarde, durante o mesmo mês, no dia 23, as cortesãs faziam as suas devoções à outra Vênus, a Siciliana, que recebeu um novo templo, distante do Capitólio, perto da Porta Colina, um dos bairros mais afastados da cidade.
Doravante, duas Vênus compartilhavam os fiéis. Mas, gradualmente, será a Vênus apaixonada e turbulenta que se irá assenhorear das consciências. Nos últimos tempos da República, era para ela que se viravam, à medida que os costumes se afastavam do seu antigo rigor. Os três homens que tiveram sucessivamente o destino de Roma em suas mãos, Sila, Pompeu e César, reclamar-se-ão dela e colocar-se-ão sob a sua proteção. Gradualmente, Vênus transformar-se-á em uma das grandes deusas da cidade, a ponto de, durante o Império, ser associada à divindade da própria Roma, no templo que o imperador Adriano irá criar para ambas na colina da Vélia.
Esta fortuna magnífica da deusa explica-se por muitas razões, algumas das quais são estranhas à tradição religiosa romana e não têm senão uma relação remota com a sua função essencial, que é a de presidir ao amor. Mas estes acidentes históricos não teriam sido possíveis, se a Vênus romana não estivesse antecipadamente preparada para aceitar as novas funções e a dignidade acrescida que lhe foi reconhecida desde o início do século I A.C. Com a expansão do domínio romano no Oriente, a influên­cia da Afrodite grega tornou-se mais forte e é fácil mostrar que Vênus assimilou um grande número de funções assumidas pela sua homóloga oriental, mas parece evidente também que este crescimento do seu domínio estava implícito, há longo tempo, na preexistência de certos caracteres na sua natureza.
Há muito tempo que a Vênus itálica tendia a ser a patrona de tudo o que é “feliz”, luxuriante e jovem. Nisso residia, talvez, uma das razões da desconfiança e também da atração, que a consciência romana, cheia de “gravidade”, mas, ao mesmo tempo, sensível ao desenvolvimento feliz de tudo o que vive, sentia a seu respeito. É muito significativo que os Romanos, desde muito cedo, tenham consagrado a Vênus o mês de Abril, aquele em que desponta a Primavera, e tenham também realizado a con­sagração dos seus templos e a sua festa anual nos dias das Vinalia, que eram, ao mesmo tempo, os da festa do vinho. Também não se deve esquecer que as cortesãs, devotas por excelência de Vênus Ericina [aquela que então triunfava], dançavam publicamente, sem véu, no dia da festa de Flora! Tudo se passava como se, de repente, se tivesse quebrado a austera disciplina imposta, durante muito tempo, pela autoridade do Senado à devoção popular, deixando regressar à luz do dia uma religião de Vênus que as restrições tinham conseguido ocultar, mas não suprimir.
No início do século I A.C., Vênus tinha inúmeros fiéis, que lhe pedi­am o êxito de todos os seus empreendimentos, não somente no amor, mas no exército, no jogo, nos negócios. Os jogadores de dados chamavam “lance de Vênus” à combinação mais favorável que podiam obter. Sila, vencedor “feliz” de Mitridates, adotou, no Oriente, o apelido de Epafrodite, ou seja, “Favorito de Vênus”. Alguns anos mais tarde, Pompeu, após ter triunfado definitivamente sobre o mesmo Mitridates, dedicou um templo à Vênus Vitoriosa (Venus Victrix) no cimo do teatro que construiu no Campo de Marte.
No entanto, na noite de Farsália, a Vênus de Pompeu teve de inclinar-se diante da outra Vênus, a Genitrix, de que César se reclamava. Este, que, como todos os Julii, se vangloriava de descender de Eneias, tinha um bom pretexto para “confiscar” Vênus em seu proveito. O duplo precedente de Sila e Pompeu prova que isso não era de modo nenhum vaidade de família ou uma fantasia pessoal de César. A proteção de Vênus representava, junto do povo, como que uma garantia de felicida­de e de sucesso. Assegurava aos que a deusa favorecia como que uma aura sobrenatural, que nenhuma outra divindade poderia proporcionar. Graças à proteção da Genitrix, César trazia para Roma o que tanto lhe tinha faltado durante as horas sombrias do passado: a alegria divina e a certeza de uma sorte feliz. Por isso, antes mesmo de ter se apoderado definitivamente do poder, decidiu criar um templo magnífico, no centro do seu novo fórum, para aquela a que chamava sua mãe.
Deste poder de Vênus, das ressonâncias profundas que a sua religião despertava na alma romana, temos uma prova no prólogo introduzido por Lucrécio no início do seu poema Da Natureza das Coisas. Invocava como “mãe das Enéadas” e pede-lhe a paz para o seu povo. Só ela pode obter de Marte que apazigue a sua cólera e, saciado de amor sobre o seu peito, ponha termo aos sombrios ardores da guerra.
Estas páginas, impregnadas de um evidente fervor religioso, surpreendem frequentemente os comentadores, que se recordam da sólida imputa­ção de impiedade, e até de ateísmo, que é feita (sem razão, de resto) à doutrina epicurista, de que Lucrécio pretende ser intérprete. E que Lucrécio, antes de ser filósofo, é romano: conhece a alma dos seus compatriotas e quer falar a sua linguagem para se fazer entender por eles. Sabe que uma das suas aspirações mais profundas os leva a honrar todas as potências da vida, ainda que a disciplina oficial mascare, por vezes, esta exuberância e imponha uma aparência de austeridade que a realidade desmente. E a este sentimento, a esta intuição da vida, que o poeta apela. Ao designar pelo nome de Vênus o primeiro motor que crê distinguir no mundo, esta atração mútua dos seres, esta simpatia universal, sem a qual a criação continuaria imóvel e inerte, Lucrécio está certo de ser ouvido. O nome da deusa era suficiente por si só para que se adivinhasse toda a grandeza e “verdade” de uma filosofia que exaltava e transformava em princípio cósmico um sentimento perturbador que cada um tinha no seu próprio íntimo. Assim como Sila, Pompeu e de­ pois César não teriam pensado colocar-se sob a proteção de Vênus, se a deusa tivesse sido apenas uma abstração vazia de sentido, também Lucrécio não teria seguramente escolhido esta estranha maneira de ilustrar a doutrina epicurista, logo desde os primeiros versos da sua epopeia, se não estivesse certo de encontrar eco na alma daqueles que queria converter.
Não é indiferente verificar que a deusa do amor afirma o seu império sobre os corpos e as almas no momento em que vai nascer o Império, ou seja, quando Roma começa realmente a realizar a sua vocação universal. Vênus já não é, neste momento, apenas o demônio da carne (admitindo que antes fora apenas isso). Ela é reconhecida como um princípio cós­mico, gerador de vida, mas também de poder material e político, que derrotou o antigo puritanismo, durante muito tempo dominante na cida­de. A religião de Vênus está ligada à enorme evolução que se desenha sob os nossos olhos nesta viragem decisiva da história. Os velhos valo­res morais, estritamente dependentes dos imperativos sociais, são varri­dos de repente, as emoções pessoais suplantam os constrangimentos co­letivos, a tradição dos antepassados cede o seu lugar a uma moral mais humana (alguns dirão mais relaxada), que já não terá por única finalida­de a exaltação da cidade, mas tenderá a integrar cada pessoa no seu ver­dadeiro lugar no seio do universo.
Para Roma convergem e afluem as crenças e os ritos de toda a Itália e também de todo o mundo mediterrânico. A Vênus de Sila. Ainda que, no fundo, esteja de acordo com a tradição religiosa nacional, devia mui­to também à Afrodite grega e, mais ainda, talvez, à Astarte síria. A que Lucrécio canta encarna as abstrações metafísicas dos velhos filósofos jônicos. A piedade popular, por seu lado, tendia a ver em Vênus um poder cada vez maior. As festas que se celebravam em sua honra, na Itália Meridional e na Sicília, atraíam grandes multidões. Havia “vigílias” em que as jovens que em breve iriam casar lhe dirigiam ardentes preces, na expectativa do amor.
Um poeta desconhecido - que talvez não seja outro senão o historiador Floro, ou talvez seja um obscuro contemporâneo de Estácio - compôs para uma destas vigílias, que se celebrava em Hibla. Não longe de Catânia, na Sicília, um hino muito belo, de que não sabem exatamente se era apenas um exercício literário ou um canto quase litúrgico. Entoado no decurso da noite santa por um coro de mulheres. Mas a Vênus celebrada aqui é exaltada até se ver transformada como que na alma do mundo. Os amores humanos adquirem uma dignidade total­mente nova e alcançam todo o seu significado no seio de um mito que os identifica com o próprio mistério da criação:
Amanhã [escreve o poeta] é o dia em que, pela primeira vez, o Éter celebra o seu casamento. Para criar das suas nuvens primaveris durante o ano inteiro, este pai espalhou-se, em chuva amorosa, no seio da sua fértil esposa. Unido a este grande corpo, irá produzir todos os seres. É Vênus que, com a sua respiração sutil, penetra o sangue e a alma para exercer na procriação o seu poder misterioso. Através dos céus, através das terras, através do mar, sobe­rana, abriu para si um caminho que não cessa de impregnar com germes de vida e, obedecendo à sua ordem, o mundo aprendeu a gerar.
Vênus transforma-se na própria natureza, na doçura de viver e de amar. É muito provável que, no fim do século I D.C., a antiga Vênus de Hibla tenha absorvido muito traços das divindades naturalistas do Ori­ente e, particularmente, da Ísis dos filósofos e místicos alexandrinos, que cinquenta anos depois o romance de Apuleio iria enaltecer.
O poder de Vênus sobre as almas, nesta Roma que se alargara até ter o tamanho do mundo, torna-se cada vez maior: o amor já não é apenas uma lei da vida, é uma promessa, uma garantia de imortalidade. Tibulo espera que a própria Vênus o conduza à morada dos Bem-Aventurados. Estaríamos tentados a ver nisso apenas uma fantasia do poeta, se outros testemunhos não nos levassem a pensar que era uma crença bastante difundida. A divinização pelo amor não é, portanto, fruto da imaginação do homem de letras, mas uma convicção profunda de muitas pessoas simples. Aliás, não será natural que se convençam de que a deusa que é capaz de criar a vida e de perpetuá-la seja também capaz de realizar, para os que creem nela, o milagre da vida depois da morte? Será necessário o lento e difícil despojamento da ascese3 cristã para que se chegue a distin­guir o Eros humano do Ágape divino!
GRIMAL, Pierre. Cultos sagrados da fertilidade, sexo e amor em Roma - do falo a Vênus. In: O amor em Roma. Lisboa/PT: Edições 70, 2005. Cap. II, p.41-5.