quinta-feira, 25 de junho de 2026

O vazio da platéia

“Ora, se o Self é Absoluto, não há Atma. Se o Self é Absoluto, “isto” é igualmente responsável e autor da ilusão [Maya], da Ignorância, da dor e do sofrimento inerente à existência. Sem o mundo fenomênico, sem o corpo carnal, não haveria como adquirir qualquer conhecimento ou consciência.

Ao se desvencilhar do mundo fenomênico e da forma encarnada que o nosso Self se manifesta nesse espaço-tempo, as escolas de filosofias dármicas tornam-se indiferentes aos problemas que encaramos diariamente e que não serão resolvidos com meras palavras e filosofias.”

-A Polaridade Sagrada.

Esse é um ensaio crítico, irônico e sarcástico aos vídeos que abordam o Budismo.
Não prossiga se for ficar ofendido.

O turista ocidental anda pela cidade. Em algum lugar da Índia, isso não é importante. A cena é mais interessante.

As pessoas em volta de um “homem santo”. Respondendo às dores e sofrimentos de pessoas comuns com palavras mansas.

O turista observa e ouve. O “homem santo” estudou por anos as sutras. O problema é que ele só estudou aquilo enquanto o turista estudou dez vezes mais sobre filosofia. Enquanto o santo decorava sutras, o turista havia dissecado a dialética ocidental e o niilismo materialista.

Quando os populares dispersaram, o turista sentou tranquilamente diante do “homem sagrado”.

-Santo, eu posso fazer algumas perguntas?

O santo olha para o homem. Definitivamente não é alguém local. Nem é uma pessoa com pensamentos simples, sem instrução. Mas era uma oportunidade perfeita.

-Quais são as suas perguntas?

-Se não tem um “eu”, quem proferiu a sabedoria? Se não tem “eu”, quem ouviu a sabedoria? Se não tem um “eu”, quem despertou, quem tem a percepção (awareness)?

O santo preparou o ar para proferir uma dessas frases circulares que encantam os turistas comuns, mas o fôlego morreu no meio do caminho. A mansidão ensaiada, aquela suavidade plástica de quem vive de abstrações, colidiu frontalmente com a crueza da pergunta. Por um instante, o 'ser desperto' foi apenas um homem acuado, cujos anos de sutras pareciam subitamente insuficientes diante de uma lógica que exigia um 'Eu' para sustentar a própria negação.

Lentamente o turista levantou. Não esperava uma resposta. A expressão no rosto do “homem santo” era suficiente.

O sorriso do santo não desapareceu — o que seria honesto — mas congelou. Tornou-se uma máscara de gesso, onde os olhos, antes semicerrados em uma falsa beatitude, agora buscavam desesperadamente uma saída nos cantos das pálpebras. A mansidão, que antes fluía como um rio calmo, estagnou-se em um pântano de incerteza.

Houve um curto-circuito visível. Ele tentou manter o tom de voz naquela frequência monótona e terapêutica, mas o intelecto, acuado, fez sua garganta travar. O silêncio que se seguiu não era o 'vazio iluminado' que ele costumava pregar aos locais; era o silêncio árido de quem acabou de perceber que sua bússola não aponta para o norte, mas para o próprio umbigo.

Os dedos do homem sagrado, que antes desfilavam calmamente pelas contas do mala, pararam. Um tremor quase imperceptível denunciou que o 'desapego do ego' era apenas uma teoria confortável até ser desafiada por alguém que falava sua língua, mas não compartilhava sua fé. Ele não via mais um fiel; via um espelho que refletia o vazio da sua própria plateia.

-Ah, sim. Só mais uma coisa. Quando eu me sentei, o que você viu? É muito fácil passar por santo na frente de pessoas iletradas. Mas não pode enganar outro sábio.

O turista caminhou de volta para a multidão, satisfeito com o silêncio que deixou para trás. O santo, por sua vez, levou alguns segundos para recompor o sorriso sereno. Ele não precisava de uma resposta lógica; precisava apenas que a próxima pessoa na fila não tivesse lido Nietzsche.

Criado com ajuda do Gemini, do Google.

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