sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

A serpente e o arco íris

No Patheos, na seção de Paganismo, Lilith Dorsey escreve a coluna “Voodoo Universe” [Universo Vodu]. Ela escreveu um artigo sobre Dambala e Aida Wedo, a saber, o Deus Serpente e a Deusa Arco Iris. Imediatamente eu lembrei do filme “The Serpent and the Rainbown”, que recebeu aqui no Brasil o título de “A Maldição dos Mortos Vivos”.
Aidàhwedó, Aido Wedo ou Dan Wedo é a “Serpente Arco-Íris”, um Vodun raro e pouco conhecido, suas escamas tem o poder de refração de luz, formando assim o arco-íris. É dito como um vódun podendo ser fêmea, mas em outras casas sendo um vódun masculino.
Aido Wedo não é só o vódun do arco-íris mas é considerado também um vódun da riqueza, da prosperidade e da vida. É considerado por muitos o vódun de Obará-Mejí dos povos jejes devidos suas atribuições ligando-o ás chuvas, fertilidade e prosperidade. Dan Wedo é simbolizado pela serpente colorida e metamórfica, aquela que muda de cor e de tamanho, podendo também mudar de sexo, o que explicaria seus cultos serem ligados ora fêmea, ora macho. É assim que Dan Wedo faz seu trabalho no mundo, trazendo  as cores para que possam ser trabalhadas por vódun Yewá, as cores sofrem as mutações através da retina que absorvera a única cor que o objeto não absorve, então, fica assim: Frekwén é luz branca que contém todas as cores enquanto cabe à Dan Wedo separar essas cores e distrui-las, mas como Yewá é a vódun da visão, cabe à ela absorve e enxergar a cor que Dan Wedo separou, oque fará com que nossos olhos processe essa cor e seja reconhecida por nosso cerébro, assim conseguimos enxergar as cores. É dito que pessoas com problemas de distinguir cores como os daltônicos sofrem algum desliso com esse vódun e se é preciso cultua-lo para que se possa estar em axé com o vódun. Por isso pessoas desse vódun tem problemas de visão assim como as filhas de Yewá, pois são eles próprios a visão, aqueles que distorcem a realidade fazendo com que vejamos e entendamos o que se existe. É bem complicado até porque não se sabe bem o que realmente existe ou não. [Alaketu Ode]
Dambala ou Dangbalá é o reflexo do arco íris no mar calmo ou na lagoa, no vodu, Dambala é um dos mais importantes de todos os loa. Ela é tanto membro da família Rada como uma raiz, ou racine Loa. É representado como um serpente e associa-se estreitamente com cobras. Ela é considerado a mãe de todos os loa e, juntamente com seu esposo/companheiro Ayidà Weddo, considerado no Vodou haitiano o Loa de criação.
No vodu também, é considerado um vódun macho e que seria casado com Aido-Wedo, este seria fêmea para eles. Já no Brasil, este vódun é considerado fêmea e casada com o esposo Aido-Wedo. O que muda as visões de cultos já que Aido-Wedo e Dangbalá são vóduns que conseguem se radicalizar a qualquer momento e tornarem-se fêmea e macho, então Dagbalá quando se foi levada ao caribe teve para eles uma visão de que seria homem, mas para o Brasil de que seria fêmea. Essa definição varía também de casa para casa de axé. [Alaketu Ode]
Recentemente causou uma grande comoção nos EUA que a premiação do Oscar, onde atores afro-descendentes estão anunciando um boicote à premiação por ter poucos ou nenhum ator negro entre os indicados. Um protesto inócuo, diante do racismo e genocídio que acontece todos os dias nos EUA, na violência cometida pela Polícia contra afro-descendentes.
A Sétima Arte não tem apenas um preconceito contra atores negros, o cinema também possui preconceito contra as religiões da Diáspora Africana. O filme “A Maldição dos Mortos Vivos” é apenas um deles. Eu achei uma lista de filmes que difamam essas religiões: “A Chave Mestra”, “O Advogado do Diabo”, “Projeto Bruxa de Blair”, “Brinquedo Assassino”, “007 – Viva e Deixe Morrer” e eu incluiria “Coração Satânico”.
Os negros não são desprezados apenas profissionalmente ou religiosamente. Os meios de comunicação em massa em geral dão uma imagem nada favorável aos negros. Para a cultura ocidental, branca e cristã, a pigmentação da pele é um estigma social que resulta em racismo, xenofobia e exclusão social. Existem até pagãos modernos que arrotam as glórias da estirpe, sem se dar conta que nós todos somos mestiços e temos ancestrais em comuns com os primeiros seres humanos que saíram da África no Paleolítico.
Não custa lembrar que a divisão dos continentes e a definição da região de onde saíram nossos ancestrais em comum como “África” surgiu somente na Alta Idade Média. Não é porque temos ancestrais em comum com os atuais africanos que temos que ter a mesma espiritualidade, crença e religião. Nossa espécie se distinguiu em diversos troncos e etnias na “Revolução do Neolítico”, quando nossos antepassados começaram a desenvolver os primeiros sistemas religiosos, época quando os Deuses começaram a se revelar para a humanidade, cada qual com sua região e povo específico. Esta conexão é que nos dá o sentido de raiz, origem e ancestralidade. Os Deuses Antigos e nossos ancestrais tinham em comum a terra onde se estabeleceram, por isso que é necessário restabelecer esse vínculo ao que damos o nome de “tradição” e de “religião antiga”.
Ao contrário de outras tradições e caminhos do paganismo moderno, as religiões da Diáspora Africana continuam mantendo seus princípios, características, práticas e rituais, sem dar importância ao apelo comercial ou aos apelos da “religião inclusiva” ou à pressão pela massificação. Cada tradição da Diáspora Africana tem preservado seus mitos e Deuses que, por isso mesmo, são tão belos e devem ser estudados pelo pagão moderno.

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