sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A estética dos mitos

A noção de belo está presente nos mitos antigos. Este conceito varia conforme a cultura, a sociedade e a época. O que é belo sofre de variações dentro de uma mesma cultura conforme a idade de quem aprecia e de quem é apreciado.

Quando nos deparamos com os mitos clássicos, tal como herdamos de Hesíodo, devemos perceber que o mitógrafo reuniu os mitos conforme a concepção da época e refletiu a estética social e política da antiga Atenas. Chama a nossa atenção principalmente os mitos conturbadores e conflitantes dos Deuses anteriores aos Deuses Olimpianos, os Deuses Antigos, Deuses que chamamos Ctônicos.

Oriundos de Deuses ainda mais antigos e mais aterrorizantes e que geraram os Deuses do Olimpo, são Deuses abstratos, não tem uma definição, mas antes um fenômeno ou uma circunstância natural. Por sua essência e natureza obscura, são temidos e descritos muitas vezes como monstros. No entanto, sem a existência destes Deuses, sem que cumprissem com o que o Destino e a Fortuna lhes prescreveram, não surgiriam os Deuses dourados do Olimpo e não teria surgido a humanidade.

Um caso bem problemático e emblemático são as Górgonas, as Gréias e Equidna.

Fórcis é uma divindade marinha da mitologia grega. Filho de Pontos, deus do Mar e de Gaia, deusa da Terra. Casou-se com sua irmã Ceto, que engendrou filhos monstruosos: as Górgonas, Ladão, as Gréias e Equidna, a ninfa víbora. [Wikipédia]

Ceto é uma das divindades marinhas filhas de Pontos, Titã do Mar e de Gaia, a Mãe Terra. O nome Cetus, que significa "monstro", é como os antigos gregos denominavam as baleias, que para eles eram monstros marinhos.

Segundo Hesíodo, em sua Teogonia, Ceto era uma deusa extremamente bela que gerou filhas belas porém perigosas e odiadas pelos deuses.

Todavia, como é comum às divindades marinhas, Ceto possui um aspecto dual: enquanto era considerada dona de uma beleza divina, também eram vista com um monstro abissal capaz de gerar outros monstros iguais a si: as Górgonas, as Gréias e o dragão insone Ladão. Já Equidna, também sua filha, era uma criatura ambígua, com tronco de uma bela ninfa e cauda de serpente em lugar dos membros.

Ceto é então a personificação dos horrores e formas estranhas, coloridas e exuberantes que o mar pode produzir e revelar para os homens. [Wikipédia]

As primeiras gerações divinas tiveram diversas entidades monstruosas, porém em sua maioria eram apenas a personificação de alguns aspectos selvagens e violentos da natureza em seus instáveis primórdios. Os "monstros" propriamente ditos, por outro lado, eram somente feras violentas e perversas, nocivas à humanidade. Segundo a tradição, todos vieram da linhagem de Fórcis, gerados através de Equidna. [Grécia Antiga]

Górgonas eram divindades muito antigas e que já existiam quando Zeus assumiu o controle do Universo. Havia três Górgonas (Esteno, Euríale e Medusa) e três Gréias (Ênio, Pêfredo e Dino). [Grécia Antiga]

A Górgona é uma criatura da mitologia grega, representada como um monstro feroz, de aspecto feminino, e com grandes presas. Tinha o poder de transformar todos que olhassem para ela em pedra, o que fazia que, muitas vezes, imagens suas fossem utilizadas como uma forma de amuleto. A Górgona também vestia um cinto de serpentes entrelaçadas.

Na mitologia grega tardia, diziam-se que existiam três Górgonas: as três filhas de Fórcis e Ceto. Seus nomes eram Medusa, "a impetuosa", Esteno, "a que oprime" e Euríale, "a que está ao largo". Como a mãe, as Górgonas eram extremamente belas e seus cabelos eram invejáveis. [Wikipédia]

Medusa foi trazida para a Grécia da Líbia, onde as Amazonas líbias a adoravam como a Deusa Serpente. A Medusa (Metis) correspondia ao aspecto destruidor da Grande Deusa Tríplice Neith também chamada de Anath, Athene ou Athenna na África do Norte e Athana em1400 AC, em Minos, Creta.

A Medusa tinha originalmente o aspecto da deusa Atena da Líbia onde ela era a Deusa Serpente das Amazonas. Seu rosto era oculto e pavoroso. Estava escrito que nada nem ninguém poderia levantar seu véu, e todo aquele que se atravesse a fazê-lo morreria instantaneamente. Foram os gregos que separaram Medusa de Atena e as tornaram inimigas. [Alta Sacerdotisa]

Gréias: Mulheres velhas, nome de Dino, Ênio e Péfredo, filhas de Fórcis e Ceto e irmãs das Górgonas, com as quais eram frequentemente confundidas. Já nasceram velhas. Todas as três, em conjunto, possuíam um só dente e um só olho, dos quais se serviam alternadamente. [Wikipédia]

O mito dessas Deusas ctônicas apenas nos é conhecido devido o mito de Perseu, um mito olímpico que se tornou mito da origem e identidade da Atenas antiga. Para a orgulhosa e soberana urbe, era uma questão social e política confirmar a supremacia de Atenas, confirmando a supremacia dos Deuses olimpianos. Essa tarefa coube a Hesíodo que recolheu, dos mitos dos Deuses Ctônicos, aqueles que o ajudassem na tarefa.

Os Gregos antigos não foram os únicos povos que tiveram um enorme trabalho em reformar sua mitografia para agradar os poderosos da época. Em diversas culturas e épocas é comum ver Deusas Serpentes serem mortas por um herói predestinado, por ser descendente do Deus Regente [ligado por descendência aos patriarcas e fundadores da urbe], mas isto não resolve o enigma da origem destes mitos, mais antigos, anteriores e pertencentes a algum povo dominado ou vencido pelos novos senhores.

Essa Legenda Aurea foi imitada pelos mais diversos senhores que tomaram o poder ao longo da história da humanidade e os casos mais patológicos são as religiões oriundas do monoteísmo abraâmico. Controversos e desafiadores, os Deuses Ctônicos nos lembram que as estruturas de poder, de ordem, de sociedade são artificiais e humanas. Negamos ou tentamos reformar esses mitos para se adequarem a uma visão de mundo limitada, como se estas estruturas, essas ilusões que criamos e produzimos, nos deixassem mais seguros, mas mesmo os mitos clássicos nos mostra que nossa carne foi feita das cinzas destes Titans, ou seja, em nós habita a luz e a sombra. Nosso cosmo, nosso mundo, nossa natureza, nossa essência, são reflexos desta realidade divina. Assim como vemos o belo, vemos o mal apenas porque este está nos olhos de quem vê.

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