sábado, 25 de junho de 2011

Corpus Clupeidae

Na Espanha, sexta-feira não foi dia de Corpus Christi, mas dia de Corpus Clupeidae.
O desfile do "Enterro da Sardinha" encerrou neste sábado as festividades de Carnaval em diversas localidades da Espanha, no fim de semana seguinte ao domingo de Páscoa.
A festa pagã, que reúne de pessoas fantasiadas e desfile de carros alegóricos, remonta a meados do século XIX, quando um grupo de estudantes de Madri decidiu formar um cortejo liderado pela imagem de uma sardinha, representando o jejum e a abstinência durante na Quaresma - período no qual a fé católica recomenda não consumir carne.
Com o passar do tempo, a folia foi ganhando proporções nacionais. Uma das cidades espanholas que mais se destaca nas festividades do "Enterro da Sardinha" é Murcia - que este ano apresentou 23 carros alegóricos (liderados, como manda a tradição, pela imagem do peixe), reunindo uma multidão embalada por charangas e jogos nas ruas.
O ápice do "Enterro" em Murcia se deu à noite,com o desfile da "Dona Sardinha", encarnada por uma mulher eleita pelos foliões. No fim da brincadeira, a imagem de uma sardinha é queimada como ritual de purificação, seguido de queima de fogos de artifício.[Noticias Terra]
E de conjurar bruxas.
O fato de que alguns dos apóstolos de Jesus terem sido pescadores gerou lendas entorno dos pescadores de água doce, do lago de Tiberíades, que é associado até hoje a determinadas espécies que jamais nadaram nas águas do mar da Galiléia.
É o caso do peixe-galo ou peixe de São Pedro, cujas manchas laterais seriam as impressões digitais do primeiro dos santos; do xarroco, que teria um lado escuro e outro claro pela impaciência do próprio Pedro na hora de assá-lo...enfim, lendas.
Contudo, na Espanha há um peixe ligado intimamente não a um apóstolo propriamente dito, mas a seu precursor: João Batista, que também não conheceu nada além do Jordão, um rio que convém chegar psicologicamente preparado para não se decepcionar, já que é um pouco mais do que um riozinho.
Bem, dizem na Espanha que "por San João - 24 de junho - a sardinha besunta o pão", o que quer dizer que este peixe azul acumulou já suficiente quantidade de gordura para lambuzar o pão. De fato, essa noite (23-24 de junho), são consumidas toneladas de sardinhas assadas no litoral espanhol.
Em la Coruña, conhecida pelo farol que funciona desde os tempos de Trajano, e durante os maravilhosos anos do início deste século pelas proezas europeias de seu time de futebol, a noite de San João é celebrada nas praias urbanas.
Os habitantes aproveitam essa noite para se desfazer das velharias, um pouco como fazem os napolitanos na noite de São Silvestre; mas, em vez de atirá-las pela janela, as levam para praia e as queimam em fogueiras.
Depois de queimar tudo e de pular a fogueira, as brasas são aproveitadas para assar as sardinhas frescas que ficam de molho no sal grosso durante a festa toda até esse momento esperado. Sardinhas, pão e, claro, vinho, para conjurar às bruxas - as ''meigas'', como são chamadas na Galícia - a noite mais curta do ano.
Naturalmente, esta é uma maneira rústica de comer sardinhas, mas o verão é muito longo e aceita outras formas de preparo. Para começar, envolver cada sardinha em uma folha de parreira, para evitar que a gordura caia no fogo. E, se as querem imaculadas, é só limpar o peixe, empaná-lo e fritá-lo: fica ótimo.
Mas nada fica como as sardinhas de San Juan, na praia, em frente do Atlântico, banhados pelas rajadas de luz do velho farol romano. Noite mágica, herdeira de uma tradição que se perde nos mais velhos tempos. [Notícias Terra]

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