quarta-feira, 13 de abril de 2011

O fio da vida


Que mistério pode haver em algo tão comum e ordinário como o cabelo? Não obstante, o ocidente tremeu com o terro japonês, Ju-On [The Grudge, O Grito], onde o espírito/entidade manifestava-se por longo fios de cabelo negros. O folclore japonês tem diversas histórias onde espíritos e cabelos estão de alguma forma vinculados.
Na mitologia clássica, fios, linhas, cordas, pêlos e tecidos cumprem uma silenciosa tarefa simbólica.
O mito mais conhecido são as Parcas, ou Moiras.
"Em Roma, as Parcas (equivalentes às Moiras na mitologia grega) eram três deusas: Nona (Cloto), Décima (Láquesis) e Morta (Átropos).
Determinavam o curso da vida humana, decidindo questões como vida e morte, de maneira que nem Júpiter (Zeus) podia contestar suas decisões. Nona tecia o fio da vida, Décima cuidava de sua extensão e caminho, Morta cortava o fio. Eram também designadas fates, daí o termo fatalidade.
Interessante notar que em Roma se tinha a estrutura de calendário solar para os anos, e lunar para os atuais meses. A gravidez humana é de nove luas, não nove meses; portanto Nona tece o fio da vida no útero materno, até a nona lua; Décima representa o nascimento efetivo, o corte do cordão umbilical, o início da vida terrena, o individuo definido, a décima lua. Morta é a outra extremidade, o fim da vida terrena, que pode ocorrer a qualquer momento."[wikipédia]
Menos conhecido, eclipsado pelos personagens Teseu e Minotauro, tem o mito de Ariadne.
"Ariadne propôs ajudar Teseu, dizendo-lhe que, se a levasse do palácio com ele, ela lhe daria o segredo para sair do labirinto do qual ninguém escapava. Entregou a Teseu o famoso mithos, novelo antigo usado para preparar a lã, dizendo que o desenrolasse, conforme entrasse no labirinto.
[...]Ela é filha de Pasifae e, enquanto sua mãe gerou um monstro, representando um retorno ao primitivo, Ariadne fez exatamente o oposto, pois venceu o primitivo, ajudando Teseu a vencer o Minotauro.
[...]A simbologia do labirinto é fundamental, pois todos têm, em sua relação com o outro, o Minotauro pela frente e o labirinto a enfrentar, mas às vezes perde-se o fio da meada, ou seja, o fio da vida."[Mitologia Viva, Viktor Salis, pg. 109-112]
Ou seja, o sentido do mito de Ariadne é inverso ao do mito das Parcas, embora estejam correlacionados. Aqui, a linha, o fio, serve para conduzir Teseu ao auto-conhecimento, enfrentando o labirinto da alma que todo ser humano possui, tornando-se senhor de suas pulsões animais e então trazendo-o de volta como um iniciado. O fio de Ariadne ludibriou a Fatalidade que pesava sobre Teseu, pelo auto-conhecimento os homens podem ludibriar o Destino.
Assim nos cercamos ao mito/saga mais conhecida, A Odisséia, quando nos deparamos com Penélope, a esposa de Ulisses/Odisseu.
"Enquanto Ulisses guerreava em outras terras e seu destino era desconhecido, não se sabendo se estava vivo ou morto, o pai de Penélope sugeriu que sua filha se casasse novamente, mas ela, uma mulher apaixonada e fiel ao seu marido, recusou, dizendo que o esperaria até a sua volta. No entanto, diante da a insistência de seu pai, para não desagradá-lo, Penélope resolveu aceitar a corte dos pretendentes à sua mão. Para adiar o máximo possível o novo casamento, estabeleceu a condição de que se casaria somente após terminar de tecer uma peça em seu tear.
Durante o dia, aos olhos de todos, Penélope tecia, e à noite secretamente ela desmanchava."[wikipédia]
Em lendas associadas, Penélope tecia uma cena que revelava um mistério e um Deus ou Deusa vinha desfazer para ocultar o mistério. Ou então que suas bordaduras davam oráculos do que estava por vir e um nobre ou uma cortesã vinha desmanchar para escapar do vaticínio. Na maior parte das vezes, sem sucesso, pois com a volta de Ulisses/Odisseu a tecelagem foi terminada, tudo aconteceu como foi predito e o mistério foi desvelado.
Assim é o destino das coisas, mais como uma trama, onde múltipos destinos se entrecruzam, do que uma única linha tênue. O destino não é apenas uma ação dos Deuses, mas uma co-criação com os homens. Lendas onde homens antigos tomaram o destino nas mãos nos levam ao Velocino de Ouro.
"O Velo de Ouro é na mitologia grega a lã de ouro do carneiro alado Crisómalo. Conta-se que tal velo estava pendurado num carvalho sagrado na Cólquida. Segundo a lenda, Jasão precisava recuperar o velo para assumir o trono de Iolco na Tessália.
Atamas, rei da cidade de Orcomeno na Beócia, teve como primeira esposa a deusa das nuvens Nefele, com quem teve dois filhos, o menino Frixo e a menina Hele. Mais tarde, ele se apaixonou e casou-se com Ino, a filha de Cadmos. Ino tinha ciúmes de seus enteados e planejou matá-los.
Nefele, em espírito, enviou às crianças um carneiro alado cuja lã era feita de ouro. Com esse carneiro, as crianças poderiam escapar por sobre o mar. Entretanto, Hele caiu e se afogou no estreito que passou a carregar seu nome, o Helesponto. O carneiro pôde levar Frixo a salvo para a Cólquida, no extremo oeste do Mar Euxino. Frixo sacrificou então o carneiro e pendurou seu velo numa árvore guardada por um dragão, em um bosque consagrado a Ares."[wikipédia]
Aqui o mito adverte contra o maior erro humano, chamado pelos gregos antigos de hubris. Jasão adquiriu o velo de ouro, tornou-se rei de Iolco, mas sua dinastia teve uma curta duração, como conta a tragédia grega "Medéia". Ele, como muitos humanos, perseguiu o sucesso, a riqueza, o prestígio, sem se importar com as consequências, desafiando não o destino, mas a medida certa das coisas, chamada pelos gregos antigos de sofrósina.
Por último, mas não menos importante, é a prática da "vaecordia" ou "ligadura" no Ofício. O que mais amedrontava os nobres, feudatários, padres e bispos não eram os conjuros, mas a habilidade das bruxas de tornar um homem impotente com uma inocente e comum linha de costura. Não ter herdeiros em um mundo dominado por questões de cessões e posses de terras era mais do que uma questão econômica. Era uma questão de poder, de autoridade, de influência. Coroas e tiaras dependiam disso e, com um simples fio, a bruxa podia alterar o destino de reinos e dioceses.

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