domingo, 6 de setembro de 2009

Neopaganismo e sexualidade

Caro Beto Quintas, estou fazendo uma pesquisa sobre sexualidade nas diversas religiões e, ao mesmo tempo, aproveitando para escolher uma religião para minha vida.
Ao visitar seu blog Rascunhos de um Pagão, me deparei c/ alguns artigos sobre sexualidade que me fizeram refletir sobre a prática da religião pagã nos dias atuais.
Infelizmente, tenho observado em alguns grupos pagãos, a mesma atitude puritana em relação ao sexo encontrada entre os cristãos. Alguns são contra a homossexualidade, outros dizem que ter vários parceiros sexuais ou fazer sexo unicamente por prazer não passa de promiscuidade. O argumento é o mesmo usado pelos católicos: "o sexo é sagrado".
Acontece que, a meu ver, dizer simplesmente que o sexo é sagrado é apenas uma forma mais sofisticada de controle sobre o corpo. Se for assim, a masturbação também deveria ser proibida, pois no caso, as "sementes da vida" vão para o nada.
Eu sou totalmente a favor da liberdade sexual. Sexo com amor é bom, mas sexo sem amor também é bom. Por que deveriamos manter a dicotomia judaico-cristã de que tudo que é "terreno" é ruim? Em outras palavras, se no paganismo não há a noção de pecado, qual a justificativa para "punir ou demonizar o sexo"?
Qualquer tipo de repressão é um tipo de morte. Isto nada tem a ver com "incentivar as pessoas a fazerem orgias", mas significa respeitar as escolhas sexuais de cada um, seja a de ser "promiscuo", seja a de ser assexuado.
Ninguém deveria ser obrigado a coisa alguma. Muito menos ser julgado pela sua conduta sexual ("desequilibrado" e "pervertido" para os homens e "vagabunda" e"devassa" para a mulher). As preferências sexuais de uma pessoa dizem pouco ou nada sobre seu caráter, a menos que relacionemos sexo com discusões sobre moral(ismo).
Entretanto, nem tudo está perdido. Recentemente, encontrei um artigo muito interessante sobre o assunto no site paganismo que trata do amor-livre (que teria maior aceitação no meio pagão). O tema me interessa porque não tenho lá muito entusiasmo pelo casamento ou pela idéia de formar uma família nos moldes tradicionais. Enfim, escrevi este e-mail porque gostaria de saber a sua opinião a respeito disso tudo e o você tem visto nos circulos pagãos que frequenta. Obrigado e até mais (e não deixe de continuar atualizando o blog).
Fonte: email de Wesley.

Caro ZZ, seu email é um bom sinal e vem em bom tempo, afinal o tema sexo costuma a ser complicado e cheio de assuntos velados, especialmente quando se fala ao público geral, como no caso do meu blog.
A questão mais controversa, talvez, não é sobre sexo em si mesmo, mas a posição que cada um de nós tem diante desse instinto, necessidade e de como nós relacionamos tudo isso com nossa crença pessoal.
Pessoa que são Pagãs não são muito diferentes de pessoas que são Cristãs, visões pessoais, traumas, más experiências, recalques, frustrações, insegurança vão se mesclar e/ou se justificar com um discurso religioso.
Sim, o sexo é sagrado, mas para quem está celebrando uma cerimônia. Mas o sexo não deixa de ser sagrado, a despeito da coisificação da mulher, da banalização da pornografia, do sexismo, dos tabus, das proibições sociais. O sexo não deixa de ser sagrado fora dos ritos religiosos, não deixa de ser sagrado na masturbação, na fantasia sexual, no fetiche.
Nós estamos em um tempo de mudança e mudanças costumam a causar choque, espanto, resistência. A contestação dos cristãos contra leis que criminalizem a homofobia é apenas um aspecto mais barulhento, mas assuntos mais gritantes como o aborto, planejamento familiar, formas de prevenção à gravidez, formas de relacionamento alternativos ou mesmo o perigoso assunto da idade do consentimento mexem com velhos e antiquados conceitos sociais, em grande parte formados/impostos pela Igreja, portanto a reação não é sem razão.

De certa forma a Revolução Sexual nunca ocorreu, mas se ocorresse, abalaria sériamente as bases da Igreja e da sociedade instituida. Por exemplo: eu sou um pagão extremamente liberal, tanto que sou acusado de patrocinar a pedofilia. Mas ninguém quer ver/perceber que todos nós nascemos com uma sexualidade, o que difere é a forma como nós a manifestamos. O que ninguém se pergunta é o por que apenas agora se fala ou se preocupa tanto com a violência sexual contra crianças/adolescentes, por que apenas agora tem tantos casos assim e isso tem muito a ver com a falta de educação sexual, o acesso cada vez mais franqueado de materiais eróticos/pornográficos às idade tenras, a erotização da moda infanto-juvenil, etc.
Minha postura diante do sexo, de como eu gostaria que ele fosse, se manifestasse, se realizasse, é bastante polêmica e controversa, como minhas opiniões sobre tantos outros temas. Para mim, todos deveriam ser livres para se relacionar com quem quisesse, quando quisesse, da forma que quisesse. O poliamor é a forma mais próxima disso, mas ainda fica sem muita explicação como ficaria o sexo, digamos, entre parentes, entre familiares, entre pessoas com idades diferentes, como fica a fronteira entre fetiche e violência, como fica a fronteira entre consentimento e estupro.

Ah, sim, nossa conversa será colocada no meu blog, se você não se importa.
Fonte: minha resposta por email.

Caro Roberto Quinhas, obrigado pela resposta. Não há problema algum em publicar meu e-mail em seu blog. De fato a manifestação da sexualidade é diferente em cada pessoa e reflete, de certa forma, sua história individual e maneira de ver o mundo. Portanto, não vejo porquê respeitar ou aprovar certas preferências e outras não. Acho que tudo vale desde que feito "às claras" (ao contrário da traição) e não cause sofrimento a ninguém (que seja consensual). Realmente a revolução sexual foi "tímida", e transformada em mercadoria pelo capitalismo e seus mecanismos sutis de repressão. Só os mais conservadores pensam que hoje "se pode tudo". De um lado o discurso "científico" de normalidade e patologia (que a maioria das pessoas entende erroneamente), de outro as religiões tradicionais (e mesmo as orientais) chamando certas práticas sexuais de vício, pecado, imaturidade ou fruto de "problemas familiares" (pseudopsicologia). Teoria é o que não falta quando se trata de desqualificar as fantasias sexuais (dos outros). Bom saber que você não reprova o sexo carnal. Creio que ele nos humaniza. Até mais. Wesley.

Um comentário:

Adília disse...

Tema muito interessante este aqui abordado, pena ainda haver tantos tabus e tanto desconforto. Mesmo a experiêmncia orgíaca que se apressa a descartar( provavelmente com receio de ferir susceptibilidades) é uma experiência sexual interessante e plena de significado, veja o assunto abordado no meu blog: http://sexismoemisoginia.blogspot.com/2009/09/sexo-e-amor-em-erich-fromm-experiencia.htm