quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Heterogênese X

Esses foram os ensinamentos que o décimo passou aos seus herdeiros que, mais do que antes, valorizaram toda a forma de arte. Vieram bem a tempo para equilibrar o lado nefando do Homem.

A influência da Arte no gênero humano fez-se sentir. Os sacerdotes iluminados, tomando isso como uma ameaça contra seu Deus, o seu poder e o seu templo de culto, começaram uma investida de infâmia, terror e assassinatos. Pela execução dos considerados infiéis, por julgamentos sumários e arbitrários, seja por confinamento ou por torturas atrozes. Em defesa dos seus atos e da sua Santa Cruzada, alegaram que se tratava de limpar o mundo das imundícies e do mal, algo aparente apenas aos olhos de censura destes. Chamavam, aos que praticavam a forma de duvidar e questionar dogmas de fé como arte, de bruxos. Estranhamente as mulheres foram as mais martirizadas, pois os sacerdotes, além de quererem satisfazer suas neuroses primitivas, queriam satisfação sexual. Mas como não podiam, por causa do celibato, então projetavam ao fogo, como consumação carnal dessas mulheres. Estes sacerdotes atingiam o clímax, diante de tanto poder fatal. Isso se repetiria, em outros tempos, com tantas outras religiões, que acham pregar o verdadeiro e único deus e que estão fazendo um favor à humanidade, exterminando esses pecadores. Estes sacerdotes fariam favor maior, se exterminassem a si mesmos.

Se um deus é tão fraco que necessita da crença dos homens e da força deles para vencer seus inimigos, então não é um deus verdadeiro. Se um homem utiliza um deus como desculpa aos seus assassinatos, então não é homem mas um animal da mais baixa forma de vida.

Não é para menos que as Trevas não tenha representantes, nem profetas, nem sacerdotes para falar em nome delas, muito menos obrigar o Homem a acreditar nelas. Os únicos com direito a cooperar, já foram eleitos e ocupam o Conselho das Trevas, o máximo que um homem pode fazer é seguir suas certezas, se estas forem razoáveis, se assim for seu desejo, terá seu lugar nas Trevas.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Em tudo, celebrai

Cronos retornou à Cidade dos Deuses e as três Deusas, Selene, Thetis e Phoebe, voltaram a seus lares e tentaram retomar suas vidas rotineiras, mas ninguém escapa incólume ao contato com o Deus das Florestas e das Feras. Na Cidade dos Deuses, a festa para Enki havia acabado deixando muito entulho e Deuses bêbados no chão. Os demais foram curar a ressaca, pois Anu tinha anunciado seus projetos mirabolantes.

Apesar da coragem e valentia de Cronos, ele não perguntou diretamente ao Deus desconhecido o que significava o sonho de Rhea, nem como ele poderia saber o pensamento que morava em seu coração. Mas Cronos não era muito inteligente, ele achou mesmo que pudesse enganar ou contornar o Destino. Quando o sol trouxe mais um dia à Gaia, à Cidade dos Deuses, Cronos não atendeu ao chamado, nem se prestou a ajudar seus irmãos e irmãs. Povo do mundo, saibais que servir aos Deuses é estar disposto a ajudar sua família, seus parentes e sua comunidade, mesmo com planos equivocados. Rejeitar, criticar, vos irá tornar desagradável, um ser rejeitado, renegado, abandonado em sua própria auto-comiseração, como Cronos. Nós somos nossos carcereiros e carrascos.

Os Deuses avançaram pela floresta, derrubaram árvores e levantaram casas, dando origem às novas colônias dos Deuses, que ganharam o nome dos setores dos patriarcas de cada família. Assim cresceram a colônia de Hélade, a colônia de Albion, a colônia de Canaan e a colônia de Kemet. Assim cresceram da mesma forma os ventres de Rhea, Selene, Thetis e Phoebe, devidamente preenchidas pelo Deus das Florestas.

Povo do mundo, vós podeis achar um escândalo que Deusas, jovens mulheres, tenham seus ventres ocupados por uma misteriosa concepção, uma forma de ocultar conjugações carnais, consumidas em um sacramento sagrado. Saibam vós que não há coisa alguma mais sagrada do que o desejo, o prazer, o amor, nem cerimônia mais sublime do que o sexo.

Neste ponto eu vos tenho de conduzir por três rotas. A primeira mostra Anu em júbilo por suas conquistas, que alimentam tanto a ilusão do poder quanto a iminente destruição. Ninmag despertou do sono induzido pelo pólen da planta bulbosa e seu despertar mostrou quão fácil ela tombou, a ausência de Enki e o roubo de seu báculo.

Cronos não sabia, mas Ninmag tinha controle das águas e das criaturas nela por intermédio desse báculo, que agora estava nas mãos de Typhon, um tirano que se aproveitou da ingenuidade e inocência de Cronos para ser o Senhor dos Mares. Pior, Cronos deu aos habitantes da Ilha Negra uma forma de restringir e controlar o poder de Ninmag que, pode-se dizer, era a mãe de todos eles e via, impotente, seus filhos se entregarem ao frenesi da rebeldia pueril. Povo do mundo, saibais que o poder de um Deus não está em um objeto, nem nos cultos e crenças que devotamos, apenas farsantes e vigaristas dependem de sacerdotes e livros sagrados.

Ninmag estava desarmada mas não desvalida, em grandes asas alçou voo e ganhou o firmamento, com uma direção certa, para a Cidade dos Deuses, para pegar seu amado Enki, para enfrentar o déspota Anu. Povo do mundo, saibais que não há Deus, entidade, espírito ou homem que seja senhor e dono do poder, nem pela palavra, nem pela espada, nem pela riqueza, nem pelo medo. Até um reinado de terror mantém-se somente com a anuência dos dominados. Onde há vontade, coragem e consciência, a coroa e a majestade pertencem a todos.

Anu havia esquecido das leis universais e realmente acreditava que repousava nele o poder e a autoridade. Assim que o vulto de Ninmag estava à sua vista, pairando no horizonte, entre as nuvens e as águas, Anu vestiu sua armadura, desembainhou sua espada, dispondo-se para enfrentar Ninmag, certo de sua superioridade e vitória. A preocupação de Anu não é proteger a Cidade dos Deuses ou seus irmãos e irmãs, mas a de demonstrar e reforçar seu papel como Senhor, Deus Pai, Deus do Firmamento.

Ninmag não tem interesse algum nessas demonstrações pueris de força e poder, um Deus ou Deusa legítimos e verdadeiros não são inseguros. Ela não tem interesse algum na figura patética de Anu, na gaiola dourada que ele construiu aos Deuses, nem na vida submissa que os Deuses se conformaram a levar debaixo da autoridade de Anu. Ninmag quer apenas Enki para ser seu consorte, por mais algum tempo ou até encontrar outro Deus mais interessante para brincar de cópula. Mas ao ver Anu, todo presunçoso, em sua brilhante armadura, com sua longa espada nas mãos, em cima do seu monte, em cima do seu castelo, em uma visível postura de desafio a ela, Ninmag não hesitou em atacar Anu com tudo.

As fundações da Cidade dos Deuses estremeceram, o firmamento tingiu-se de sangue, a montanha fendeu-se e jorrou pedras incandescentes, os canais e lagos artificiais feitos por Enki partiram, uma enorme onda retoma para as águas a orgulhosa Cidade dos Deuses. O corpo de Anu afunda em um torvelinho, junto com seu belo castelo, junto com sua preciosa armadura e longa espada. Não se vê Ninmag em lugar algum. Povo do mundo, esta é a paga e o resultado de todo conflito, toda luta, toda guerra. Não há vitória ou vitoriosos, apenas destruição, morte, horror. E assim termina o ciclo de Anu.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Apostolado profano IV

Por que toda Nação ou Estado tem-se a necessidade da existência de destacamentos de segurança interna e externa? Para proteger os cidadãos, por suposição. De onde vem o corpo destas tropas? Vêm destes cidadãos, que compõem o povo do País. A quem devem combater essas tropas? Inimigos do Estado e do País. Mas quem faz o Estado também não é o conjunto de cidadãos? Obviamente que sim.
Poderia dizer-me então por que o Estado, agora existente graças aos cidadãos, cria leis e instruem suas tropas para reprimir, prender e até matar a razão primeira da existência da Lei, do Estado e das tropas, os cidadãos?
Em nome dos princípios da Pátria. Por uma divisória e uma institucionalização do assassinato, eis a real verdade dessa ação, contra os próprios cidadãos, à revelia desses, contrariando muitas vezes a própria Lei que pretende defender.
E o que os cidadãos, desarmados e suspeitos, ilegais, podem agora fazer contra o monstro do Estado? Não ria de mim então se te falo que não existe Estado, já que este negou seu senhor. Não existe Lei, já que seu real legislador teve seus direitos cassados. Não existe razão, por mais argumentos que se faça, da formação dos destacamentos de segurança, sejam internos ou externos, pois um supõe o outro, já que em breve cuidarão estes mesmos que já não haja perigo contra a Pátria, pois todo suspeito morrerá ou será banido, sobrando apenas os eleitos, que se fizeram de poderosos e acabarão aos poucos os cidadãos, os que lhes dão e lhes justifica o poder que tem.
Fariam muito melhor se soubessem o quanto se permitem danar por esses mesquinhos a quem deram poderes, aceitando tais abusos, porque lhes escapam a percepção desse fato.
São muito raros os que como nós que, já tendo visto o fato, negam o fenômeno. E aqui estamos, infringindo a Lei, para executar outra tal que não tem existência física nem medida,basta estarmos juntos, é o instinto da Natureza a quem nos entregamos os nossos desejos, sem pudor ou remorso.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Heterogênese IX

Naquela noite, a lua estava oculta, era noite de lua nova. Mesmo nosso décimo homem não pretendendo ser um sacerdote das Trevas, uma vez que só as Luzes precisam deles, foi-lhe concedida paz, nessa paz pode afogar suas neuroses primitivas e, somente então, foi visitado por Lilith.
Envolta por seu fogo negro, tal qual veste cerimonial, trouxe uma solução muito interessante para o homem:

-Inquietação, tormenta e insatisfação diante das regras. Não é castigo, tão pouco vergonha, é um privilégio saber duvidar e criticar, apontar as falhas e os erros, procurando uma solução melhor e mais justa. Muitos dentre os homens fizeram isso, transformando e inovando o jeito de ser, estar, ver e agir no mundo de tantas formas sutis ou explícitas. Isso tem lógica e é venerável, visto que tudo foi feito do Verbo dos deuses, estes o torcem, invertem, pintam, modelam ou esculpem, refazendo o Verbo, refazendo todo um mundo a ser visto. Isto se chama Arte, são os feiticeiros do verbo e da forma, são poetas, pintores, saltimbancos, escultores e modeladores do barro que dão forma, como deuses, a criaturas. Mas os autores a deixam livre, para viver na cabeça dos admiradores de sua obra, de acordo com a compreensão individual.
Ao invés de responder e repreender o ceticismo, pergunte, questione e faça sua questão transformar-se em arte, que caiba a cada um que a vir, dar a resposta à sua dúvida. Quanto melhor for sua dúvida, sua arte, mais próximo de nós estará, sem precisar de leis, proteções ou sabedorias fajutas acerca de nós, do oculto, das Trevas.

Tal é como deve ser, o homem aberto às experiências e a experimentos, para ser distinto dos animais, para ser engrandecido por sua arte, para evoluir e realmente poder afirmar sua superioridade sobre os seres. Não pela força, pela loucura, pelo fanatismo, pela ganância. Até que compreenda isso, enquanto o Homem fica confuso diante de sua real função, cairá na desgraça causada por suas mãos. Crie quantas leis quiser, faça-se rei de seus semelhantes, extraia quantas riquezas quiser, sacrifique a terra e a vida, quantas vezes achar-se no direito. Depois não adiantará pedir a um poder divino superior para aliviar o castigo, pois tem a capacidade de ver e raciocinar, sabe que a ruína é consequência dos seus atos. Acha, sentado em seu opulento e portentoso trono, que está isento, mas qual carrasco escapa de cortar-se com o próprio machado? Seja digno de sua inteligência e capacidade de visão, não se deixe enganar mais por palavras bonitas e falseadas, não siga mais os profetas, não se submeta a reis. Tudo que aqui se encontra na terra, à terra pertence, sem divindade ou hierarquia, isso só existe enquanto se continuar cego e tolo, achando que isto o tornará forte e protegido das adversidades. Cabe à Arte e aos artistas, evitarem isso.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Apostolado profano III

Essas estão aqui feitas, quase tão perfeitas de um momento raro dessa minha vida miserável, desse mundo medíocre.

Foi pela ocasião de um noivado de casamento marcado de famílias aparentadas de mim e me vi então intimado a comparecer para que fosse eu o orador da celebração.
Cada qual parente do noivo e da noiva receberam seu quinhão do dote tendo em troca dado essas tais mercadorias que se dão a recém-casados.
Vendo-me tão afundado nesse suborno das consciências, necessário para que se perdoe o excesso de confiança entre os noivos e que por uma instituição, se lhes permitam desfrutar desses direitos matrimoniais, então recém-adquiridos, chego a uma idéia tal que vai encantá-los também.
No que me chegou a parte de receber meu quinhão, reservei-me um instante da noiva em lugar afastado e creio eu que ambos ficamos igualmente satisfeitos com o que nos demos e trocamos pela festa, roubando a dor primeira do noivo, que terá sua pequena e mesquinha vez de devorar estas carnes em precedência a mim. Só espero que minha parte não a tenha feito tão feliz que venha a sentir falta, mesmo em companhia de seu noivo e eu tenha de ensiná-la porque a fiz tão sacra neste momento profano a essas instituições da consciência.
Dessa noite guardo essas máximas que trocamos nos poucos minutos de descanso que nos dispusemos a nos oferecer tanto e tão caro desejo.
No que me resta em observação secundária, só lhes é dado saber que é nesses momentos em que se alcança sabedoria sublime e plena, de mente aberta e fluida. Não será muito surpreendente se viermos a aprender mais com nossa amante, uma mulher distante em ocasiões normais, por horas afinco, embora tenhamos a pretensão de sermos os mestres de uma ciência tão deliciosa e envolvente.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

O sonho de Rhea

A chegada de Cronos e Enki ao voltarem à Cidade dos Deuses foi um misto de incredulidade e maravilhamento. De improviso, os Deuses começaram a arrumar a festa de boas vindas. Para Enki, não para Cronos. Afinal, Cronos era um que havia preferido viver na periferia. Cronos tinha escolhido manter sua posição como rejeitado, renegado. Ele teve a oportunidade, mas preferiu se perder em seus sentimentos de rancor e mágoa. Ele simplesmente retornou ao seu lar para cuidar de suas feridas.

Em sua casa, Cronos foi recebido por Phoebe, Selene, Thetis e Rhea com cânticos de vitória, guirlanda de louros e muito vinho. Mesmo com essa recepção, carinho e amor devotado por quatro Deusas, Cronos não dissipou seu rancor e mágoa. Mesmo tendo três das mais belas Deusas dançando voluptuosamente em sua homenagem, mesmo estando nos braços de Rhea, sua esposa, Cronos tinha fechado seu coração ainda em mais trevas, em vinganças, em violência, em morte.

- O que houve, meu Rei? Por que teu coração está tão turvo?

- Minha amada, se eu pudesse te contar o que eu vi e vivi, teu coração também ficaria coberto com uma sombra.

- Eu sei como dissipar essa neblina que cobre teu coração, meu Rei.

Rhea apanhou o cetro de Cronos e o inseriu em seu mais sagrado templo, sendo efusivamente aplaudida por suas irmãs. Cronos sorriu com essa situação inusitada. Ele, tão acostumado a batalhas, ao enduro, à resistência, ao confronto que podia durar horas, não era capaz de travar esta batalha com Rhea por mais de meia hora. A tensão se esvai, esguicha como leite quente, vapor, espuma, sopa. Por alguns instantes Cronos compartilhou da felicidade ingênua e despreocupada tão comum entre os Deuses.

- Meu querido, meu Rei, enquanto estiveste longe eu tive um sonho estranho.

- Ora, querida, tu percebes uma sombra em meu coração mas não é capaz de ver uma no teu? Que truque é este?

- Não é truque, meu Rei, é um sonho, não é uma sombra. Um Deus que eu nunca tinha visto visitou-me em sonho e me mostrou o que havia de vir. Eu vi a ti, meu Rei, matando e devorando aos Deuses! Horrorizada, antes de despertar, o Deus desconhecido me disse que aquilo que desejardes e fizerdes a teu pai, sofrerá de teu próprio filho.

As trevas no coração de Cronos cresceram e apertaram seu coração. Ele levantou-se quase possesso. Quem poderia saber de seus planos? Ele não tinha contado a ninguém, nem para Rhea. Quem era esse Deus desconhecido? Como, com que poder, ele poderia ver o coração de Cronos?

- Diga-me, querida, como era esse Deus desconhecido?

- Eu não o vi muito claramente, pois ele parecia estar envolto pela floresta que nos rodeia. Mas ele era alto, tanto quanto Anu. Ele parecia ser tão jovem quanto tu, meu Rei, mas ao mesmo tempo mais antigo e mais sábio do que Anu.

- Por acaso era tão peludo quanto as bestas da floresta e de sua cabeça brotavam dois chifres, tão incandescentes quanto a lava?

- Meu querido Rei, conhece o Deus? Leve-nos até ele para que dancemos para ele.

A sugestão de Rhea conciliava com a intenção de Cronos que desejava questionar pessoalmente ao Deus da Floresta Negra. A dança das Deusas poderia propiciar o Deus ao favor de Cronos e para avisá-lo das torpes intenções de Anu. Caminhando por vias secundárias para evitar passar pelos demais Deuses que ainda estavam celebrando a volta de Enki, Cronos levou as quatro Deusas até o ponto na floresta onde havia encontrado o Deus.

- Meu Senhor! Eis aqui vosso servo! Eu vos peço que ouça o que tenho a vos contar.

Novamente houve um silêncio seguido de um intenso pulsar e a impressionante aparição do Deus da Floresta Negra. O comportamento das Deusas alterou-se de forma impressionante. Elas começaram a apalpar e a alisar suas partes macias, suas dobras, suas reentrâncias, entregando-se ao arrebatamento do êxtase.

- Meu filho! Vieste visitar-me agora com presentes para perfumar e adoçar o meu dia?

- Meu Senhor! Nós viemos para alertar-vos dos reais interesses de Anu.

- Meus queridos! Acham mesmo que Anu, vosso rei, tem efetivamente tal poder e autoridade que vós lhes atribui? Saibam vós, meus filhos e filhas amados, que a nenhum Deus foi ou será dado a coroa do universo. Nem mesmo o rei está acima das leis que este promulga. Nem mesmo um reinado de medo perpetua-se sem que haja vontade.

- Então, meu Senhor, eu posso desafiar o destino e ter uma sorte, uma fortuna diferente para meu futuro?

- Tenham respeito e reverência, não temor. Sonhos e oráculos são avisos, não sentenças. Useis vossa força e coragem, dificuldades e obstáculos virão, mas não esmoreceis, para merecerdes os louros.

- Meu Senhor! Eu vos agradeço pelas orientações. Partimos com sossego e tranquilidade no coração, mas antes vos pedimos que saibamos o vosso nome.

- Meu filho, para me conhecer é necessário conhecer os mistérios da vida e da fertilidade. Tu tens os mistérios da guerra e da irmandade. Um mistério não pode tomar o lugar de outro mistério.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Heterogênese VIII

Este décimo merecerá atenção, pois não se abatera diante das adversidades, permanecendo com grande interesse em saber então no que acreditar, a que seguir. Culpando-se por causa da ignorância de respostas que poderia dar ou arriscar, sentindo-se muito árido, irá ao único lugar onde alguém iria, quando precisa meditar. Longe, o máximo possível de tudo, andando enquanto suportasse, acabando por chegar em meio ao deserto que precedia um grande lago, bem próximo a um monte escarpado. Um lugar que, em outras eras foi o local onde Lilith, junto ao seu Conselho das Trevas, elevou-se pelo poder do fogo negro, o que tornou este lugar tal qual é. Logo a noite chega e com ela o frio, manda o bom senso que se procure abrigo, para proteger-se e dormir até o início do dia. Quis a coincidência que escolhesse justamente aquela caverna, onde Lilith e Samael passaram sua noite de glória.

Nas paredes da caverna, Lilith escreveu suas memórias, para nunca deixar que o fato fosse esquecido, para que sempre que ali passasse, pudesse alegrar-se em recordações gratificantes. Este homem citado, o décimo, vendo as inscrições, põe-se a tentar traduzi-las e compreendê-las, pois estavam na língua familiar de Lilith, uma língua original da qual muitas outras surgiram, como a deste homem. Muito do que havia lá foram transferidas aos seus herdeiros, memórias estas, uma parte encontra-se neste livro. Muita coisa foi esquecida e até escondida, por que algumas eram muito íntimas, não poderiam ser citadas a qualquer um, outras eram melhores para o gênero humano que fossem esquecidas, ou a sede de destruição que o homem tem, as subverteria para seus interesses escusos.

Uma vez traduzidos os escritos, suas mensagens trariam grande alegria e satisfação, não por responder a todas as questões, nem se pretendia tal presunção. Eram apenas opiniões de grande sabedoria que, como tais, podem ser de grande auxílio. Como um ensinamento básico do qual, cada um, segundo as possibilidades e necessidades que a razão tenha, pode ser melhorado e aperfeiçoado. Uma obra é isso, não é de forma alguma sagrada ou um dogma a ser conservado hermético à passagem do tempo, das gerações e das descobertas. Mesmo o mais privilegiado visionário jamais poderia supor até que grau evoluiria as gerações vindouras. Tais escritos, por tantas condições exigidas para seu entendimento, pediam um trato delicado, ensinando o recomendável e guardando o indizível pelos motivos já ditos anteriormente.