quinta-feira, 12 de março de 2015

O tiro da bruxa

“A magia é uma linguagem que traduz fenômenos cuja natureza é inteligível para o grupo, o doente e o feiticeiro” – Levi Strauss.

Este texto é uma resenha e uma reflexão, tendo como base o livro “O Tiro da Bruxa”, de Joana Bahia, Editora Garamond.

A palavra tem poder, os antigos o diziam. Muitos são os grimórios que atestam que a palavra, tanto a dita quanto a escrita, tem poder. O que espíritos, entidades e demônios mais temem é que conheçam seus nomes. A palavra não apenas define algo ou alguém, mas estabelece um papel, uma função e um limite. A palavra é construída dentro da cultura de um povo que, através dela, codifica, organiza e explica o mundo.

O livro de Joana Bahia expõe o drama e a saga dos imigrantes alemães no Brasil. Ele mostra o quanto o folclore, enquanto linguagem, nos define, nos aponta e nos situa diante do personagem/signo “bruxa” que, na língua pomerana, tanto pode ser uma mariposa [botarhejs] quanto uma bruxa [hex] e seus desdobramentos, como bruxaria [hexarich] e embruxar/enfeitiçar [farhexa].

“Para muitos, halwnacht is dai unruichst stund (meia noite é a hora mais agitada), pois os rituais de bruxaria são realizados, de preferência, nesse momento, tendo em vista que a vitima se encontra dormindo, totalmente indefesa” [pg. 317].

O choque e o conflito social são traduzidos na dicotomia da cultura urbana versus rural, da religião oficial versus popular. Na instancia pessoal, o conflito é particular e coletivo. Ora suscita orgulho, quando a crença é mantida como tradição; ora suscita vergonha, quando a crença é qualificada como superstição.

Este conflito social e cultural é irreconciliável, se levarmos em conta que a noção de Bruxaria se origina tanto da preservação da religião popular quanto da folclorização do Cristianismo. Quando a conjuntura pressiona uma sociedade, suas crises internas irrompem com força, atingindo sempre os mais fracos, os excluídos, os segregados. A despeito disso, o homem do campo [o colono] mantém seu Flusterbauk, o Livro do Segredo, contendo fórmulas, rezas e benzeduras que sustentam, não apenas o produto da terra, mas também sua identidade e origem.

Podemos então afirmar que a Bruxaria possui sua linguagem, feita de atos, palavras, objetos e circunstâncias. Uma linguagem com uma ortografia e gramática que ganham sentido dentro do folclore, dentro da religião popular. Assim podemos entender a Bruxaria tanto como unidade como diversidade: unidade enquanto pertencendo a um determinada região, povo, família; diversidade enquanto pertencendo a um determinado tempo, histórico, artifício.

Enquanto linguagem, a Bruxaria define e estabelece os papéis, as funções e os limites dos atos, das ferramentas e de seus sujeitos. Enquanto palavra, a Bruxaria ora cede uma identidade a algo ou alguém, ora é apropriada como discurso de poder.

quarta-feira, 11 de março de 2015

O arcano do carro

Depois de receber a noticia do administrador do Google/Blogger de que haveria alterações na política de conteúdo, eu repassei meu blog para retirar qualquer imagem de nudez, apenas para adequar o blog e para ele continuar a ser público, eu percebi que não escrevi sobre todos os arcanos do tarô.
Eu escolhi retomar esse projeto a partir do arcano do carro, que faz parte de um exercício que eu fiz e é perfeito, pois tem muito a ver com o meu histórico, minha jornada e o espírito deste blog. Especialmente depois da tentativa frustrada de uma querida bruxa em tentar me resgatar de mim mesmo. Especialmente depois de eu ter perdido a benção de estar em um treinamento. Especialmente depois de eu ter mais uma vez arrumado confusão com celebridades do mundo pagão. Especialmente depois de eu perceber que minha fama de mau está bem sólida.
O caminho iniciático não serve para morais pequenas, nem para quem tem síndrome de vitima. O caminho iniciático exige apenas que sejamos responsáveis por nossos atos e palavras.
O arcano do carro mostra que a carruagem é impelida por dois cavalos, cada qual vai a uma direção e tem cores distintas, quando não antagônicas. Isso resume bem nossa vida, pois somos constantemente impelidos a direções diferentes, por cobranças sociais, familiares ou legais.
Os cavalos que dão força ao nosso carro são o querer e o ser. Mas podem ser destino e fortuna, ou vontade e amor.

O arcano do carro mostra ao peregrino que seu destino, sua vida, é como o carro de uma carruagem. Ou você conduz seu carro, ou você será conduzido. O caminho iniciático nos conduz para a maestria de nós mesmos.

sábado, 7 de março de 2015

A bruxa de Evora

A feiticeira ou bruxa de Évora é uma das personagens mais populares e misteriosas do folclore português e das lendas de magia, especialmente na esfera da cultura popular. Sua biografia é dispersa, incerta, cheia de contradições. Até onde conduzem as pesquisas, não pode ser considerada figura histórica; no entanto, a sua fama é o suficiente para a considerar como um arquétipo mítico de um certo tipo de bruxa, de feiticeira.
São três as versões existentes, diferentes entre si, para a referida bruxa. Sendo a última a mais completa e mais bem documentada. No entanto se prestar bem atenção, verá que todas elas se tocam em vários pontos, podendo mesmo ser três versões de uma só história.

1ª Versão
Nanaime, a bruxa que habitou Évora


Évora foi um dos corpos habitados por Nanaime. Este nome ficou conhecido por se tratar da cidade onde ela viveu, entre 1700 e 1800.

Tratava-se de uma bela mulher, conhecedora da magia, alquimista da natureza. Embora temida, era muito requisitada por sua fama de resolver as aflições de todos. Usando ervas, flores, realizava banhos, feitiços, amarrações, sempre no intuito de ofertar cura, sucesso e protecção, na vida e no amor. Famosa por resolver tantas questões amorosas, foi justamente o amor que trouxe o seu fim.

O desejo de Nanaime era o de se unir a um semideus para garantir a eternidade de sua prole. E, assim ela o fez, apaixonou-se por um semideus, contudo, ela não conseguia engravidar. Como seu esposo viajava desbravando mares longínquos, ela decidiu retirar uma amostra de seu sangue para ofertar a uma deidade, a fim de conseguir o filho tão sonhado. A magia faz com que ela engravide durante a ausência do marido que ao retornar a condenou à morte por adultério. Ele a mata, esquarteja seu corpo em muitas partes e o  lança ao mar. Até completar a idade de 14 anos, a sua filha é banida e depois morta e enterrada aos pés de uma sagrada árvore, para que a sua alma ficasse ali retida.

2ª Versão
A Moura

A Bruxa de Évora era uma moura, criada na Ibéria, falava bem o árabe, o português e o latim. Foi criada por umas velhas tias que lhe ensinaram as artes mágicas, dando-lhe como talismãs sete moedas de ouro do califa Omir, uma pedra ágata com inscrições árabes e uma chapa de prata com o nome do profeta.

A bruxa era chamada de Moura Torta, usava trapos, mas no seu peito brilhava um amuleto de âmbar. Ela lia o Alcorão e escrevia, sabia matemática, e olhando o céu reconhecia as estrelas, lia a sorte nas areias, nas estrelas e fazia feitiços e curas. Conhecia a magia dos seus ancestrais muçulmanos, mas vivendo no século XIII, também sabia a dos celtas.

A bruxa voava montada em cães, lobos, camelos, carneiros e em vassouras, mas sempre era vista voando no seu bode preto. O bode sempre foi um animal de feiticeiros, talvez por ser muito sensual; sugere pactos com demónios, feiticeiras, seres parte homem e parte animal, força de grande magia. O bode da era pagã emprestou sua forma para o diabo. As bruxas também eram companheiras dos dragões, deram a eles muitos nomes: o terrível, o magnífico, o senhor do mundo, o guardião.

Há muitos demónios companheiros fiéis da bruxa de Évora, os principais são: Abalan (príncipe dos infernos), Abigor (demónio de hierarquia superior), Abrahel (súcubo), Asmodeu (um dos chefes), Adramelech (grande chanceler do inferno), Hecate (deusa infernal), Lúcifer (o maioral), Marbas (presidente infernal), Rowe, (conde infernal), Satã (rei dos infernos) e inúmeros outros.

A Bruxa de Évora tinha um gato preto chamado Lusbel. Apesar de a temerem, os alentejanos buscavam os poderes dessa bruxa: feitiços, sortilégios, banhos, amarração, conjuros, etc..., com a finalidade de obter cura, protecção e sucesso no amor e na vida.

3ª Versão
A Bruxa de Évora e São Cipriano

É difícil até mesmo determinar a época em que viveu. A maioria dos textos/livros sobre uma Bruxa de Évora afirma que ela viveu no século... Outros, dizem que viveu em meados da Idade Média. Todavia, um único de texto de referência permite supor que, na verdade, essa Bruxa é mais antiga, e que poderia perfeitamente ter vivido em pleno século III d.C.

Mítica, é possível que a primeira bruxa de Évora tenha sido tão poderosa e influente que seu nome tornou-se sinónimo para praticantes da bruxaria que vieram muito depois e também fizeram fama desde o antigo oriente Médio, Ásia Menor. Uma ideia de bruxa que alcançou não somente a Península Ibérica mas também toda a região costeira do Mar Mediterrâneo, os Balcãs, as ilhas do mar Mediterrâneo: ao longo de séculos, a expressão "Bruxa de Évora", tornou-se algo como um título.

As pesquisas sobre esta feiticeira indicam que boa parte de sua fama nasce junto com a fama de um outro mago negro controverso: CIPRIANO DE ANTIOQUIA que viveu no século III da Era cristã (anos 200). Este, depois de uma vida dedicada à magia negra, converteu-se ao Cristianismo e foi até canonizado passando fazer parte da história Cristã como São Cipriano.

Segundo as lendas, pois as biografias desses personagens não têm registros históricos precisos, o nome "Bruxa de Évora" [ou Bruxa de Yeborath – Iebora, em árabe يعبرهsignificando Cruzado, cruzamento, encruzilhada] aparece pela primeira vez, no contexto do estudo da História da Bruxaria, ligado ao nome do Santo feiticeiro. Ela teria sido uma das mestras do mago e ele, seu discípulo mais prestigiado, herdeiro de seus feitiços.

Porém, esse encontro NÃO ACONTECEU na península Ibérica, como sugere o termo designativo, distintivo da Bruxa, Évora que é uma cidade histórica de Portugal.
Segundo a biografia do feiticeiro Cipriano, seu encontro com a Bruxa aconteceu na Mesopotâmia, na Babilónia, [actual Iraque] onde se reuniam os ocultistas que estudavam a magia dos antigos Caldeus [sobretudo Astrologia].

Os dois personagens, já legendários: Cipriano, o Feiticeiro e supostamente, um de seus Mestres, sendo uma certa Bruxa de Évora, parecem ser um caso de migração de mitos e sincretismo cultural.

Cipriano e a Bruxa, originalmente, parecem pertencer ao acervo das crenças e figuras mitológicas que chegaram à península Ibérica em diferentes períodos históricos mas que combinaram-se perfeitamente no universo da mítica do sobrenatural: primeiro, chega a lenda Cipriano, já difundida no Martirológio cristão: o caso do Feiticeiro e sua misteriosa mestra de Yeborath. O Bruxo que virou Santo.

Mais tarde, o juntamente com os Mouros sarracenos que invadiram e dominaram o território a partir de 715 d.C., vieram as bruxas misteriosas do Oriente, quase ciganas, as bruxas das Yeborath ou Iebora, das encruzilhadas, das agulhas.

Como foi dito, Cipriano – o Feiticeiro não somente encontrou uma certa Bruxa de Evora em sua passagem pela Babilónia como dela teria herdado os livros, as poções, os segredos do poderes de sua Mestra.
Considerando essa informação como fato possível, uma Bruxa ou feiticeira na/ou da Babilónia seria, naturalmente, versada naquele tipo magia característica da cultura Mesopotâmica, aquela normalmente classificada como magia das trevas, da mão esquerda, magia negra: Goecia, necromancia, vidência, evocações, parcerias com demónios, envultamentos [encantamento à distância: os bonecos de cera e as agulhas], oráculos.

Essas bruxas e bruxos foram aqueles que preservaram alguma coisa das tradições da magia das tribos nômades e reino antigos de tempos ainda mais arcaicos entre os quais destacam-se os Caldeus e os Assírios. Era uma Magia de sombras, frequentemente desprovida de escrúpulos, sem critérios éticos, que livremente associava-se com entidades não humanas e pouco confiáveis: demónios, génios, formas-pensamento, elementais, espíritos de pessoas mortas.

Uma bruxa assim poderia, mesmo ter existido. E não somente uma, mas várias. As bruxas de Évora seriam algo como uma categoria de feiticeiras. Voltando à etimologia da palavra Évora, embora sejam encontradas raízes em solo europeu, não se pode desconsiderar a Yeborath dos árabes que, como foi explicado tem como significado: Cruzado, cruzamento, encruzilhada.

Uma etimologia que sugere a tradução do termo Bruxa de Évora para Bruxa de Encruzilhada ou, bruxa que faz seus trabalhos em encruzilhadas, lugar de Pactos. [Lembrando uma característica que lembra a divindade grega Hécate, senhora dos encantamentos e do mundo dos mortos.]

Com uma pequena mudança gráfica e fonética, se Yeborath é dito Iebora, então o significado muda para Agulha, agulhas e assim resulta, Bruxa das Agulhas. Ou seja, uma bruxa que trabalha com agulhas [supõe este pesquisador, agulhas e bonequinho de cera. Meditemos]...

Investigando a Bruxa pela Raíz

Investigar a trajectória geográfica da figura da Bruxa de Évora ao longo dos séculos passa, necessariamente pelo conhecimento do histórico da localidade de Évora até porque, se o folclore em torno desta personagem começa na Babilônia do século III d.C., a crença se perpetua além Oriente-médio, alcança com toda força mítica a vasta região da península Ibérica e, atravessando o Atlântico junto com os grandes navegadores portugueses e espanhóis, encontrou seu lugar no imaginário dos povos latinos-nativos-afro-americanos.
Se, de fato, existiu uma bruxa de Évora cuja vida se cruza com a vida de São Cipriano, esta personagem viveu [ou teria vivido] no século III, os anos 200 depois de Cristo. Nesta época, Évora era uma cidade romana, a Libetalitas Julia, conquistada em 57 d.C..
Contudo, a palavra Évora, ao que tudo indica é a denominação popular da localidade, antes e depois do domínio romano e, ainda, são várias as explicações para a origem deste nome. Plínio, o Velho (23–79 d.C.) – filósofo e naturalista, cronista romano, em seu livro Naturalis Historia, chama o lugar de Ebora Cerealis, por causa dos campos de trigo que dominavam a paisagem.

Os Celtíberos

Os povoamentos na região, cujo centro, hoje, é a cidade Évora, abriga sítios arqueológicos que datam da Idade do Bronze [1.800 a.C.] e outros ainda mais antigos, do Paleolítico, Neolítico, Calcolítico [Idade do Cobre, cerca de 3.000 a.C]; de muito antes da Era Cristã. Sobre o passado remoto de Évora escreve J. Saramago:
Chamaram-lhe Ebora os celtiberos, e como Ebora Cerealis a tem nomeado Plínio, o Velho, na sua História Natural, o que servirá para dar testemunho de que as planuras transtaganas já davam pão pelo menos dez séculos antes que os "alentejanos" (os que viveram e vivem além do Tejo...) se tornassem portugueses (SARAMAGO, 2001).
Mitologia-folclore cristão-pagão e sarraceno [mouros] são apenas dois dos elementos que se misturam na composição da lenda e das imagens relacionadas à Bruxa de Évora. Uma influência ainda mais recuada repousa na história dos fascínios e medos dos povos que habitaram a Península antes de romanos ou mouros.
São os bárbaros celtiberos, dos quais fala Saramago no texto acima e outras nações várias que se miscigenaram com os supostos autóctones [nativos do local] lusitanos oulusitani [em latim] a maior das tribos ibéricas. Os lusitanos propriamente ditos são, geralmente, considerados como proto-celtas, celtas primitivos, migrantes, provenientes do norte europeu, mais especificamente os Célticos.

A Magia dos Celtíberos

Uma xamã, ou feiticeira ibérica, [ou um xamã, o gênero é incerto] figura central no culto da Fertilidade, no Ocidente. É uma sacerdotisa. No peitoral, sete símbolos do sol. British Museum.
Estes primeiros habitantes organizados em aldeias e tribos da região, os celtiberos praticavam a magia européia ocidental mais primitiva, ainda eivada de crenças e práticas pré-históricas, como os sacrifícios humanos, por exemplo.
Também o pesquisador Antônio Alvarez, de língua espanhola, reconhece como primeiros povos históricos da Península Ibérica: Iberos, Tartésios, Celtas e os Celtíberos, como indica o nome, mistura de celtas e iberos.
A maioria dos historiadores concorda que esses povos viviam conflitos constantes e guerreavam entre si com certa freqüência. Viviam em tribos. Eram caçadores, pescadores mas também agricultores e pastores.
No âmbito do religioso e sobrenatural, os Celtíberos eram politeístas, adoradores do Sol, da Lua e das estrelas. Rendiam culto a espíritos de forças da Natureza que, acreditavam, habitavam as montanhas, os bosques, as águas.
Porém, acima de todas a divindades, adoravam um Deus Único Supremo: o Desconhecido, que festejavam nas noites de lua cheia, dançando nas portas das casas e sacrificando vítimas humanas. (ALVAREZ, 1998 – p 404).
Nesse contexto, o papel das mulheres tinha grande relevância posto que exerciam o papel de Xamãs, curandeiras que se utilizavam do conhecimento das virtudes e das peçonhas fornecidos pela Natureza, poções para o bem e para o mal extraídas de vegetais, animais e minerais. No alvorecer da História, as bruxas eram como médicas: do corpo, da alma; intermediárias entre os homens e as forças da Natureza.
Foi essa magia primitiva que, aos poucos, transformou-se na Bruxaria da península Ibérica, resultado da interação com saberes de outras nações: romanos pagãos, romanos cristãos, bárbaros outros, pagãos originais ou romanizados; bárbaros cristianizados, Mouros (muçulmanos, Sarracenos).
Sobre a relação entre Évora e os celtíberos, estudos indicam que, a palavra e o lugar podem estar ligados a uma antiga divindade celta cultuada na região: Eburianus cujo símbolo é a árvore do Teixo. Houve tempo em que os lusitanos chamavam a atual localidade de Évora de Eburobrittium.

Segundo o Livro de São Cipriano

Segundo o livro de São Cipriano [o feiticeiro, século III d.C. anos 200], capa de Aço, no tempo em que os mouros viviam na região portuguesa de Évora, o rei mouro Praxadopel ali construiu um castelo, em Montemur.
"Nesse lugar, hoje chamado Castelo de Giraldo [referência a Geraldo, o Sem Pavor – ... -1173? herói da reconquista da terra lusa ocupada pelos mouros], transformado em ruínas pelo passar dos séculos, em meio às pedras, louvado nas noites escuras pelo uivo de lobos e chacais, no fundo da propriedade, ocultos embaixo de montes de pedras, no Túmulo de Montemur, foram encontrados os restos mortais de sete pessoas e pergaminhos escritos por Lagarrona, a Feiticeira de Évora (também chamada Lagardona ou La Guardona)."
Os mouros, povos do oriente médio, somente poderiam ter ocupado a região depois período de expansão dos domínios árabes em suas incursões em território europeu, em uma época, portanto, pós-fundação do Islamismo. Porém as referências à uma bruxa de Évora remontam aos primeiros séculos do Cristianismo, por volta do século III, coincidindo com o período de vida de do bruxo Cipriano. Eis uma prova da dificuldade de identificar a historicidade dessa feiticeira tão famosa.

Folclore da Bruxa de Évora em Portugal

No tempo em que os mouros viviam na região portuguesa de Évora [e os mouros chamavam a cidade de Yeborath a Liberalitas Julia da época da dominação romana], o rei mouro Praxadopel ali construiu um castelo em Montemur [região vizinha de Évora cujo centro é a cidade de Montemor].
Nesse castelo, hoje chamado Castelo de Giraldo, transformado em ruínas pelo passar dos séculos, em meio às pedras, louvado nas noites escuras pelo uivo de lobos e chacais, que, no fundo da propriedade, enterrada entre montes de pedras, está o Túmulo de Montemur. Nele foram encontrados os restos mortais de sete pessoas e pergaminhos [supostamente] escritos por LAGARRONA, a feiticeira de Évora.
Frei Antão de Sis, estudioso dos fenômenos mágicos e da feitiçaria, através dos pergaminhos, encontrou a casa da bruxa, ainda em pé, apesar do tempo. Descreveu-a como uma casa diabólica... No meio dela havia uma cova da altura de um homem. As paredes internas estavam repletas de desenhos representando lagartos, cobras, lagartixas caracóis, rãs, escaravelhos, símbolos egípcios, vespas, baratas e outros bichos peçonhentos.
Do lado de fora, havia quatro sapos e várias figuras de meninos tendo nas mãos molhos de varinhas de ervas com os quais ameaçavam os sapos. Ainda dentro da casa, em dos cantos dessa casa mal-assombrada havia a escultura de pedra de um cavalo-homem, como um centauro. Noutro lugar, outra estátua, esta, a de uma mulher-serpente. Em certo ponto do chão ladrilhado com cerâmica negra, uma inscrição:

O primeiro a abrir esta cova
Verá coisas jamais vistas
Cava por diante para que resistas [enfrentes]
ao grande temor que seu peito prova
Verás sortilégios mágicos que prendem os homens,
o filtro do amor que amarra as mulheres.
Não temas, não temas. Não mostres temor:
acharás sucessos, magia e amor
e, por certo, em tudo será vencedor.

Gran libro de San Cipriano o los tesoros del hechicero, 1985

A bruxa de Évora Nos Livros

Em Portugal a Bruxa de Évora é o modelo de bruxa. Mas não somente em Portugal: este modelo de bruxa está na fantasia de toda a Península Ibérica e nos territórios que foram descobertos e conquistados pelos grandes navegadores ibéricos da Idade Moderna.

No primeiro, no que se refere à biografia da Bruxa, o que se encontra, logo no primeiro capítulo é uma reprodução e/ou tradução de outro texto de autor praticamente desconhecido: capítulo do Livro de São Cipriano, sabe-se lá em qual de suas repetitivas versões mas, muito possivelmente da edição em espanholGran Libro de San Cipriano o los tesoros del hechicero.

O capítulo, intitulado La Hechicera de Evora o Historia de La Siempre Novia (Siempre Novia, referência uma das lendas mais difundidas sobre a Bruxa) teria sido, supostamente, extraído [todo o capítulo] de um manuscrito cujo autor é um certo [ou incerto] Amador Patrício.

Outro supostamente episódio biográfico sobre a Bruxa relata o paradoxal encontro da Feiticeira com o Bruxo Cipriano, já cristianizado mas ainda especialista em bruxedos. O caso é conhecido com O Encontro de São Cipriano com a Bruxa de Évora. Neste encontro, Cipriano não parece um discípulo diante de uma antiga mestra. Ao contrário, é a bruxa, já em avançada idade que recorre ao novo cristão para realizar um feitiço que lhe renderia [a ela, bruxa] bom dinheiro. Trata-se dofeitiço da cobra grávida, para segurar marido.

O ex-bruxo propõe uma barganha: a conversão da bruxa ao Cristianismo em troca da fórmula mágica. A bruxa aceita e eis a feiticeira de Évora transformada em penitente velhinha cristã. Ao final, a receita profana, destinada a recuperar o marido da contratante, uma jovem senhora da nobreza, pede o favor para a réptil gestante [a cobra grávida!] mas, isso em nome de Deus e da Virgem Maria! Uma combinação extravagante de feitiço pagão e reza cristã.

Santander, autor deste livro, O Livro da Bruxa ou Feiticeira de Évora, este autor é tão difícil de identificar e datar quanto a própria Bruxa de Évora. Ele começa sua obra sem qualquer introdução, identificando o período de vida da personagem que dá nome ao livro com o tempo da dominação Sarracena na península Ibérica, ou seja entre o século VIII e começo do século XII.

Escreve Santander: No tempo em que os mouros viviam na região portuguesa de Évora... E ao longo do capítulo descreve o que seriam os últimos anos de vida da Bruxa, claramente qualificada como Moura, muçulmana. No relato, a feiticeira tem um filho adulto e mau. Chamado Candabul, desejou possuir uma jovem donzela cristã. A bruxa ajuda no rapto da moça, providencia a morte por enfeitiçamento todos os pretendentes dela. Mas o mal-feitor é preso e condenado à morte. Mais uma vez a bruxa interfere e se empenha em produzir mágicos meios de fuga para Candabul.

O fantasma da Bruxa

Caçada pelos agentes da Lei, depois de várias peripécias, ela acaba morrendo durante um acidente na realização de um de seus feitiços, que fazia em uma tentativa desesperada de escapar da Justiça. Quando chegaram os soldados, encontraram-na morta. Não foi sepultada. Como punição post-mortem, foi pendurada na porta da própria casa e ali ficou apodrecendo e sendo devorada pelos abutres e vermes. O cadáver, lentamente virando ossada, oscilando ao sabor das ventanias, era uma visão macabra que parecia vigiar o lugar e a bruxa morta passou a ser chamada de La Guardona [ou, as corruptelas, Lagarrona e Lagardona], algo como A Guardiã... da casa, de suas ruínas e arredores. O local, naturalmente, passou a ser temido e considerado como assombrado [Gran Libro de San Cipriano o los tesoros del hechicero, 1985].

Lendas, Fórmulas e Segredos

Torna-se claro que os relatos sobre a bruxa de Évora são de fato, um conjunto de lendas e seus supostos escritos são de origem desconhecida, excertos de Grimórios mais antigos de autoria igualmente duvidosa. Alguns são atribuídos a este ou aquele mestre mais conhecido na esfera do folclore, da cultura popular, como Alberto, o Grande, Papa Honório, bruxo Atanásio e o próprio Cipriano, o feiticeiro.
Muitas das receitas dos Grimórios são fórmulas de remédios caseiros, acervo de um saber muito útil em uma época em que a medicina dispunha de toscos recursos e médicos com estudo eram poucos e para ricos. Muitos dos Segredos da Bruxa revelados no livro de Amadeo de Santander fazem parte da sabedoria popular dos curandeiros e curandeiras de linhagem imemorial, uma herança que durante muito tempo foi preservada e transmitida através da cultura oral.
A própria Bruxa apresentada por A. de Santander em sua pretensa-original tradução-reprodução do Único e autêntico manuscrito comprovado pelos sábios da Galícia extraído do Flor Sanctorum, datado dos tempos dos mouros de Évora, a feiticeira comenta revelando algo possivelmente verídico na vida de muitasBruxas de Évora: que seus conhecimentos foram-lhe ensinados pela mãe, segredos passados de geração em geração. Explicando a Cipriano em que consiste o seu [dela] feitiço da Cobra Grávida Para Prender Marido ela revela algo de recorrente na biografia dessas bruxas de Encruzilhadas:
É pele de cobra com flor de suage [ou sage, Artemisia vulgaris ou, ainda, flor-de-são-joão, erva-de-são-joão, artemísia-verdadeira, losna, absinto.L.C.] e raiz de urze [Erica Lusitanica ou torga e/ou Calluna vulgaris] que estou queimando em nome de Satanás, para defumar as roupas do duque [o Grão Duque de Terrara] e ver se o desligo daquela mulher [uma amante]. Esta mágica foi sempre infalível quando minha mãe a praticava debaixo dessas abóbodas em que as mãos dos homens não tomaram parte. Minha mãe desligou com ela [a tal magia] mancebais[relações extraconjugais] de nobres e monarcas...
(SANTANDER, p 13)
Compilados em manuscritos medievais, organizados em volumes raros, artesanais, ornados com finas iluminuras, a grande enciclopédia dos saberes populares, pagãos, curiosamente, começou a ser organizada, não raro, pelo monges escribas das grandes escolas e bibliotecas de mosteiros da Cristandade medieval. Provavelmente foi da pena dos monges que surgiram os primeiros Grimórios e/ou Engrimanços. Com o advento e evolução da imprensa, ou seja, depois de Johannes Gutenberg [Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutenberg, 1398-1468 – alemão, considerado inventor/introdutor da imprensa no Ocidente], esses conhecimentos documentados em registros escritos tornaram-se disponíveis em numerosas cópias que ganharam o mundo em letras de forma, em publicações variadas, de folhetos baratos, almanaques de curiosidades até custosas e exclusivas edições.

A Bruxa de Évora por Maria Helena Farelli

Em A Bruxa de Évora, Maria Helena Farelli (2006) apresenta a personagem como arquétipo folclórico luso-hispano-brasileiro, com ênfase nas raízes portuguesas da lenda, já devidamente hibridizadas entre: 1. o druidismo celtíbero doméstico; 2. o culto romano à deusa Diana [correspondente à grega Artemis], cujas ruínas do templo ainda podem ser visitadas em Évora; 3. a figura mítica da moura feiticeira, freqüentemente apresentada, simplesmente e depreciativamente como aMoura Torta, um modelo de bruxa, tudo isso misturado ao – 4. ritualismo cristão das orações e adoração dos santos e das relíquias e nome sagrados.

Em Farelli (2006), a narrativa passa, como é necessário, pela história da nação lusitana, detendo-se em período em que a cultura popular mística-religiosa já tinha absorvido elementos que ficaram como herança do tempo da dominação islâmica-sarracena em toda a península Ibérica. Boa parte dessa herança consiste no universo misterioso na magia semita, caldaica, mesopotâmica: dos magos-alquimistas, astrólogos, videntes, quiromantes, necromantes – invocadores de gênios e espíritos dos mortos, magia-negra, também, sim, da mais antiga tradição árabe, pré-Islã. Segundo Farelli a Bruxa de Évora era a ...guardadora dos segredos dos feitiços do Oriente, a que voava em camelos alados... (FARELLI, 2006 – p 15).

Sobre o sincretismo no qual foi forjada a Bruxa de Évora, a autora escreve: ...o português sempre acendeu uma vela para Deus e uma para o outro. Até na Igreja ele fazia mirongas... Até os padres eram acusados desses feitos. Mas os considerados grandes bruxos eram os mouros e os judeus... (Idem, p 29). E mais: ...segundo a lenda, a Bruxa de Évora era moura... árabe ou mourisca... morena... (Ibid., p 29).  

Bruxa Erudita

Em relação à aparência, A Bruxa de Évora (FARELLI, 2006) apresenta o arquétipo folclórico da personagem em sua velhice. Esta esta é uma daquelas bruxas velhas e esquivas dos contos infantis. Mas, ao contrário do modelo da curandeira intuitiva, analfabeta, camponesa ignorante cujo conhecimento é todo proveniente de experiência pessoal e herança de tradições orais, em Farelli (Idem) a bruxa de Évora é praticamente uma erudita. Alfabetizada, poliglota, ela fala, lê e escreve em português [o gentílico da época], árabe e latim.
Sem citar sua fonte de informação, a autora enfatiza: Sabia matemática... reconhecia as estrelas,... sabia ler a sorte nas areias... Ela conhecia a magia de seus ancestrais muçulmanos* mas, vivendo no século XIII [anos 1200], também sabia [da magia] dos celtas... (FARELLI, 2006 – p 33). Todavia, a moura pagã era, ao mesmo tempo, devota cristã: ...a velha bruxa já tinha feito a peregrinação a Santiago de Compostela [tradição cristã]... Já tinha ido à Sé de Braga, muitas vezes, pagar promessas... (Idem) ...E, ainda: ...a bruxa de Évora não era uma herética. Era uma mulher que conhecia as rezas (Ibid., p 41).
Além disso, essa Bruxa de Évora era uma senhora em situação social e de comportamento atípicos para sua época. Vivia bem [ou seja, não passava dificuldades financeiras, materiais]. Tinha dinheiro proveniente da prestação de seus serviços mágicos e/ou técnicos-científicos. Porém, consciente do espírito dos tempos medievais, não ostentava riqueza ou poder. Era discreta, sabiamente. Andava pobremente vestida, Era seu jeito de ficar invisível e evitar confrontos com as autoridades religiosas.

Flos Sanctorium ou Flos-Santorio: Flor dos Santos

Como todo ocultista, seja leigo ou erudito, considerando uma figura histórica da Bruxa como precursora ou símbolo de um mito, a Bruxa de Évora, alfabetizada que era possuía ou devia possuir seu próprio Livro [ou livros] de estudos e anotações contendo fórmulas de elixires, ungüentos, poções, rezas, rituais e outros saberes. Nos meios exotéricos, o livro de registros pessoais de uma bruxa é chamado Livro das Sombras.

Um possível Livro da Bruxa de Évora seria – ou foi e é, um objeto que, se autêntico, atraiu e atrai curiosidade e cobiça proporcional à força lendária de sua suposta autora. Um objeto digno de um Museu de história da cultura ocidental. De fato, este Livro é um dos elementos mais explorados do folclore em torno da Bruxa; explorado, inclusive, no mercado editorial.

Porém, o texto que tem atravessado séculos e que Amadeo Santander reproduz em seu Livro da Bruxa (s/data), este texto é uma mutação de autoria desconhecida o suficiente para ser considerado de domínio público. Na folha de rosto de uma edição recente Santander e/ou a editora [seja lá quem for este autor] declara que a obra reproduz o único e autêntico manuscrito... [cópia] do original extraído dos Flos Sanctorum, datado do tempo dos mouros de Évora.

Esta informação é uma encruzilhada na pesquisa: ocorre que o Flos Sanctorum [ou Florilégio dos Santos, Flor dos Santos] a princípio, é Hagiografia: um livro que reúne biografias de santos [?!]. E a situação se complica posto que o Flos Sanctorum, segundo estudos é, por sua vez, reedição de um livro mais antigo, A Lenda Áurea ou A Legenda Áurea que também é, essencialmente, coletânea de vidas de santos, escrito-compilado por Jacobus de Voragine [1230-1298, italiano, religioso dominicano, arcebispo de Gênova], datado em em torno do ano de 1260.

A questão é: como pode, o Livro da Bruxa apresentado por A. Santander ser extrato, derivação de um Flos Sanctorum de qualquer século? Tudo indica que o Livro da Bruxa não é, de modo algum derivado de manuscritos de uma Bruxa de Évora. O nome da Bruxa, nesse caso, tal como no caso do penitente Bruxo Cipriano é usado como atrativo de mercado. Caso simples de propaganda enganosa. Em ambos os casos, os Livros atribuídos aos lendários autores são coletâneas de simpatias e receitas populares, tradicionais, resgatadas do acervo da cultura oral, misturadas com rezas e saberes práticos destinados a solucionar os problemas do corpo e da alma do Homem medieval.

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terça-feira, 3 de março de 2015

O mito de Ulisses na formação de Portugal

Ulisses

O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo –
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.

Fernando Pessoa

O poema “Ulisses” encontra-se na primeira parte, “Brasão”, da “Mensagem” de Fernando Pessoa e integra-se no segundo capítulo: “Os Castelos”. O facto de ser o primeiro poema dessa parte, justifica-se por Ulisses ser o mais antigo dos heróis associado à história de Portugal  De facto, neste capítulo, como acontece noutros, o autor segue uma organização cronológica dos heróis.


O título “Ulisses” remete-nos para a origem de Portugal, atribuindo a Ulisses, navegador errante, que depois da guerra de Tróia se perdeu, a fundação de “Olissipo”, futura Lisboa. Não havendo provas históricas dessa fundação, na sua origem está, portanto, um mito.

O povo português nasceu de figuras lendárias (uma delas Ulisses) por isso ficamos predestinados a continuar ou seguir os feitos grandiosos dos nossos antepassados, mantendo Portugal sempre no seu auge. Hoje em dia Portugal encontra-se em decadência.

Para chegarmos ao quinto Império devemos seguir, acreditar e imitar os feitos dos nossos antepassados, não através da força, mas sim através da cultura, do conhecimento, como previu Fernando Pessoa. Para este autor os Descobrimentos, apesar da sua grandiosidade, foram apenas uma pequena amostra do que os Portugueses são capazes fazer e daquilo que Portugal será: afirmar-se-á mundialmente através da cultura.

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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Mitologia basca

A mitologia basca é o conjunto dos mitos, lendas e folclore do povo dos Pirenéus espanhóis e franceses que fala o basco ou êuscaro, língua não indo-europeia do tipo aglutinante.

Há fortes evidências de religião anterior à Era Cristã, refletidas em incontáveis lendas e tradições duradouras. Essa religião pré-cristã era aparentemente centralizada em um espírito feminino superior: Mari. Seu consorte Sugaar também parece ter alguma importância. Esse casal de deuses parece manter um poder étnico superior e também o poder da criação e destruição. Diz-se que quando eles se recolhiam nas cavernas dos altos picos sagrados, eles produziam as tempestades. Esses encontros tipicamente aconteciam nas noites de sexta-feira, o dia histórico do encontro das bruxas. Dizia-se que Mari residia no monte Anboto, e periodicamente ela cruzava os céus como uma luz brilhante para alcanças seu outro lar no monte Txindoki.
Outra divindade parece ser Urtzi (também Ost, Ortzi: "céu"), mas também parece que ele foi importado, porque as lendas não falam dele. Porém seu nome aparece como um dia da semana, nome de mês e eventos meteorológicos. Na Idade Média, Aymeric Picaud, um perergino francês, escreveu sobre os bascos, dizendo: et Deus vocant Urcia ("e o nome de seu deus é Urci-a", sendo o -a o nominativo basco ou artigo sufixado).
As lendas também falam de diversos espíritos ou gênios, como jentilak (equivalente aos gigantes mitológicos), lamiak (equivalente às ninfas), mairuak (construtores dos círculos de pedra, literalmente "mouros"), iratxoak (demônios), sorginak (bruxas, sacerdotisas de Mari), etc. Basajaun é uma versão basca para o homem selvagem. Há um trapaceiro chamado San Martin Txiki ("San Martin Pequeno").

Mari

Mari foi, originalmente, a deidade suprema na mitologia basca. O nome significa simplesmente "rainha". Ela aparece como uma dama ricamente adornada de jóias e freqüentemente voa pelos céus envolvida em fogo. Em outras ocasiões, viaja sobre um carneiro. Pode atravessar os céus em uma carruagem puxada por quatro cavalos e também pode aparecer como uma nuvem branca ou como um arco-íris. Seu marido é Maju, um deus-serpente.
Em Oñate, dizem ter visto Mari em forma de árvore que passa veloz pelo céu lançando chamas, dirigindo-se à caverna de Gaiztozulo e fazendo um ruído ensurdecedor ao ocultar-se nela. Relatos de Ataun e Cegama a descrevem como uma foice ou meia-lua de fogo cruzando velozmente o céu. Em Zaldivia, diz-se que voa horizontalmente, envolvida em fogo.

Mari envia a chuva ou a seca. Sua residência situa-se no interior da terra e acredita-se que guarda grandes riquezas. Dizem em Cegama que, na caverna de Aketegi, até as camas são de ouro. Atraídos pela riqueza ou pelo mistério, muitos entraram na gruta levando velas, mas Mari aparece em forma de corvo e as apaga com o vento de suas asas, a menos que as velas tenham sido benzidas.

Desde a adoção do cristianismo pelos bascos, tanto Mari quanto Maju passaram a ser considerados simples espíritos. Permaneceu, porém, a crença de que se pode afastar os raios colocando uma foice (símbolo de Mari) diante da casa.

Em Zumaia, se conta que uma mulher casada desejava tanto uma filha que dizia que a queria "mesmo que o diabo a levasse quando fizesse vinte anos". Um dia, nasceu-lhe, por fim, uma bela menina de cabelos dourados. Quando a filha estava para fazer vinte anos, a mãe a encerrou numa caixa de cristal e ficou a vigiá-la dia e noite, mas foi inútil: no momento em que a moça completou vinte anos, o diabo quebrou a caixa e a levou para o monte Amboto, onde ela se tornou Mari.

Outra lenda diz que em Beasain, Guipúzcoa, "uma mulher muito má" casou-se com um bom cristão e tornou-se mãe de cinco filhos. Como ela não queria que os filhos fossem baptizados  o pai os pôs em uma carroça, junto com a mãe amarrada e os levou à igreja em busca de batismo para os pequenos. No caminho, porém, a mulher se envolveu em chamas, queimou as ligaduras que a atavam à carroça e voando pelos ares, gritou: "Meus filhos para o céu e eu, agora, para o Muru". E ao monte Murumendi Mari se dirigiu e ainda vive. Em várias ocasiões foi vista em uma gruta do monte, penteando a cabeleira loura com um pente de ouro.

Maju
Maju, chamado também Suarra, Sugaar ("serpente macho", de suge, "serpente" e ar, macho; ou talvez "chama de fogo", de su, "fogo" e gar, "chama"), ou ainda Sugoi ("velha serpente", de suge, "serpente" e o(h)i, "precedente"; ou talvez "fogo alto", de su, "fogo" e goi, "alto"), é uma divindade basca, marido da deusa suprema Mari. Tende a aparecer na forma de uma serpente de fogo.

É tido como origem mitológica da linhagem dos senhores de Vizcaya. Segundo a lenda, una princesa escocesa refugiada em Mundaca teve um encontro erótico con Sugar, do qual nasceria Jaun Zuria, legendário primeiro senhor de Vizcaya.

Em Ataun, diz-se que Sugaar tem duas casas, nas cavernas de Amunda e Atarreta. Pode-se vê-lo atravessar os céus na forma de uma meia-lua de fogo, considerada presságio de tempestade. Nessa área, diz-se também que Sugaar pune os filhos que desobedecem aos pais e mães.

Em Azkoitia, é conhecido apenas como Maju. Encontra Mari toda sexta-feita, dia do sabá, e diz-se que no lugar onde os dois se encontram, cria-se uma grande tormenta.

Em Betelu é conhecido como Suarra e considerado um demônio. Dizem também que ele viaja no céu na forma de um relâmpago globular, entre as montanhas Balerdi e Elortalde.

Basajaun
No folclore basco, os basajauns ou basajuns (do basco basajaunak, "senhores da floresta", singular basajaun) são gigantes que habitam os bosques ou as cavernas situadas no alto das colinas. São imaginados com dois a três metros de altura e longos cabelos ruivos, que lhes chegam até os joelhos. Um de seus pés é semelhante ao dos humanos, o outro é redondo. São também conhecidos no folclore de Aragão, nos vales de Tena, Ansó, e Broto, com o nome de basajaraus, bonjaraus ou bosneraus. Protegem os rebanhos dos lobos e, quando se aproxima uma tempestade, um basajaun grita avisos aos pastores.

A essas entidades é atribuída a construção dos monumentos megalíticos (dólmens e menires) encontrados no País Basco e a invenção da forja do ferro. Foram também os primeiros a cultivar a terra e moer o grão. Os humanos obtiveram esses conhecimentos quando um basco chamado San Martiniko enganou os basajauns.

Os basajauns cultivavam trigo em Ataun, na montaña de Muskia. Chegando com sapatos frouxos, grandes demais, que os gigantes ridicularizaram, Martiniko desafiou-os, afirmando que conseguiria saltar sobre seus montes de trigo recém-colhidos, enquanto eles não conseguiriam fazer o mesmo. Os basajauns aceitaram o desafio e saltaram facilmente sobre os montes, enquanto o basco caiu bem sobre o monte. Os basajauns riram, mas Martiniko foi-se embora com os sapatos cheios de sementes. De repente, os gigantes deram-se conta de que haviam sido enganados, mas, lentos na corrida, não conseguiram alcançar o humano. Um deles lhe jogou um machado, mas o basco abaixou-se a tempo e o machado atingiu uma árvore, partindo-a ao meio.

Martiniko ainda não sabia, porém, quando devia plantar as sementes. Mas voltou à caverna onde moravam os basajauns e ouviu-os cantar:

Si los hombres supieran esta canción
Bien se aprovecharían de ella:
Al brotar la hoja, siémbrase el maíz;
Al caer la hoja, siémbrase el trigo;
Por San Lorenzo, siémbrase el nabo
San Martiniko contou o que ouvira a todos os humanos e a agricultura espalhou-se pelo mundo.
Mais tarde, Martiniko tirou dos basajauns o segredo da fabricação de serras, que produziam em Oiartzun. Mandou seu criado anunciar que já havia fabricado uma serra. Ao ouvir isso, o basajaun lhe perguntou se seu amo havia visto a folha da castanheira. "Não a viu mas a verá", respondeu o criado. San Martiniko viu a folha dentada do castanheiro e lavrou uma lâmina de ferro com o mesmo formato. À noite, o basajaun foi à sua forja ver se ele havia conseguido fazer a serra. Ao encontrá-la, torceu-a de um lado para os outros com os dentes, tentando inutilizá-la, mas, pelo contrário, melhorou a ferramenta, que Martiniko espalhou entre seu povo.

De maneira semelhante, Martiniko averiguou, em Kortezubi, como se soldavam duas peças de ferro. Espalhou que havia conseguido o feito e o basajaun perguntou ao humano que lhe contara a novidade se Martiniko havia espargido água argilosa em ambas as peças. O homem respondeu: "não o fez, mas o fará". Assim, San Martiniko descobriu a técnica e a difundiu pelo mundo.

Lamiak

No folclore basco, as lamiak (singular, lamia) são descritas como belas mulheres de pés de pato, garras de ave ou rabo de peixe. Moram nos ríos e fontes, onde costumam pentear suas longas cabeleiras com cobiçados pentes de ouro. Às vezes, têm filhos com eles. Algumas lendas dizem que são a deusa Mari.

O nome parece estar relacionado ao das vampirescas lâmias gregas, mas as lamiak bascas são entidades relativamente benignas, mais semelhantes às ninfas gregas ou às janas do folclore mediterrâneo. Normalmente amáveis, diz-se que ajudaram os homens a construir dólmens e pontes, mas enfurecem-se se lhes são roubados os pentes. Diz uma lenda que uma mulher roubou o pente de uma lâmia e esta começou a amaldiçoá-la, mas não o conseguiu porque o soar dos sinos da igreja salvou a mulher.

Outra lenda fala de um pastor que ouviu um canto maravilhoso e, ao segui-lo, encontrou um bela jovem sentada sobre uma rocha, que passava um pente de ouro sobre seus cabelos loiros, que lhe chegavam aos pés. Ao ver o rapaz, mergulhou n'água, mas depois reapareceu.

O pastor apaixonou-se pela jovem e a visitou dias seguidos, até que ela o pediu em casamento. O rapaz aceitou e ela lhe deu um anel. Ao chegar em casa, porém, não sabia dizer como se chamava a noiva ou quem eram seus pais, apenas que era formosa, formosa...

A mãe suspeitou de que o filho estava enfeitiçado e pediu conselhos a parentes e vizinhos, que lhe disseram que se fosse estrangeira tal coisa, se fosse bruxa outra... E o mais velho da aldeia disse que, se fosse uma lâmia teria pés de pato.

A mãe fez o filho prometer que prestaria atenção nos pés da moça. Ele imediatamente foi vê-la e a encontrou n'água, mergulhando e brincando com os peixes, mas desta vez reparou nos pés, e eram pés de pato.

Voltou para casa de coração partido, pois humanos não se casavam com lâmias. Adoeceu e delirou com a febre, vendo o rosto da amada e ouvindo sua voz chamando-o :”Zatoz,maitea,zatoz” (”Vem, querido, vem”).

O rapaz acabou morrendo. No dia de seu enterro, a lâmia apareceu em sua casa, cobriu-lhe o corpo com um lençol de ouro e beijou-lhe os lábios. Seguiu o cortejo até a porta da igreja, onde não podia entrar por ser solo consagrado. Retornou então às montanhas e tanto chorou por seu amor perdido que brotou ali um manancial que recorda o amor impossível entre a lâmia e o pastor.

Fontes:
http://pt.fantasia.wikia.com/wiki/Categoria:Mitologia_basca
http://it.wikipedia.org/wiki/Mitologia_basca
http://brujeriatradicional.blogspot.pt/2012/05/religiao-pre-crista-basca-e-mitologia.html
Publicado em: Lusitaniae Castrum

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

O fim do Paganismo na Hispânia

O ano de 399 D.C. é considerado como o ano do fim do paganismo na Ibéria. Nesse ano foi dirigida a Macróbio a lei "vicario hispaniarum", que começa da seguinte forma: “Sicut sacrificia prohibemus, ita volumus publicorum operum ornamenta servari...”.
Apesar de todos os esforços das autoridades cristãs para reprimir quaisquer manifestações pagãs, os cultos politeístas, na nossa península, mantiveram-se muito tempo depois da queda de Roma e das invasões Germânicas, durante o séc.V.
Nas grandes áreas rurais da Ibéria, principalmente na zona norte da nossa península, continuaram a fazer culto aos deuses ancestrais, por vezes misturados com o politeísmo romano e outras com o paganismo dos suevos, vândalos, etc. Daí o termo "pagão", forma depreciativa para se referirem aos camponeses que permaneciam fieis aos deuses ancestrais, rejeitando a imposição cristã. Este cenário manteve-se durante a monarquia visigótica, apesar das grandes cidades estarem completamente cristianizadas. Mesmo estes, voltavam a praticar os rituais ao menor deslize do controlo da Igreja.
Martin de Braga lamenta no seu "De correctione rusticorum" que apesar de cristianizados, "fazem mais culto de adoração a demónios que a Deus".
"Demónios" era o termo pejorativo usado pelos cristãos quando se referiam aos deuses ancestrais.

Prisciliano, bispo de Ávila, também condenou o politeísmo:
“Sea anatema quienquiera que llame dioses al Sol, a la Luna, Júpiter, Marte, Mercurio, Venus o Saturno...”“...en el mar invocan a Neptuno, en los ríos a las Lamias, en las fuentes a las Ninfas, en los bosques a las Dianas, QUE SON TODOS DEMONIOS Y ESPÍRITUS MALIGNOS...”

No início do século IV D.C. quando o cristianismo contava com o apoio do estado romano, o cânon XLI do concílio de Iliberris (Granada), obrigava os grandes proprietários cristãos a destruir os "ídolos" (representações dos deuses) e a proibirem o culto aos mesmos pelos seus servos.
No cânon LXXII do segundo concílio de Braga, celebrado no ano 572, proibiu-se a manutenção das tradições dos "gentios" ou a sua celebração. Proibiu-se também o culto aos elementos, ao curso da lua ou estrelas, a sementeira ou plantação de árvores. No cânon LXXIII, proibiu-se a celebração das Calendas (primeiro dia do mês, principalmente do mês de Janeiro), assim como os enfeites das casas com louro, coroas de flores, etc...
O cânon LXXIV proibiu a apanha de ervas medicinais.

No ano 675, na celebração do concelho de Reis de Toledo, os bispos reunidos renovaram a repressão aos pagãos ou politeístas nestes termos:

Cânon XI
“No para castigo de los delincuentes, sino para TERROR no imponemos por este nuestro decreto la pena de muerte, sino que avisamos a los adoradores de los ídolos, a los que veneran las piedras, a los que encienden antorchas, y adoran las fuentes y los árboles, que reconozcan como SE CONDENAN ESPONTÁNEAMENTE A MUERTE A AQUELLOS QUE HACEN SACRIFICIOS AL DIABLO(...)y CASTIGUEN CON AZOTES a todos aquellos que concurren a un horror de esta naturaleza, y CARGÁDOLOS CON CADENAS, los entreguen a sus señores, siempre que sus dueños prometan, mediante juramento, que ellos les vigilarán tan cuidadosamente que no les sea posible en adelante cometer tal crimen(...) y si fueran personas libres las que estuvieran complicadas en estos errores, serán castigados a la pena de excomunión perpetua y ENVIADOS A UN SEVERO DESTIERRO”.

“No te harás obra de escultura, ni figura alguna de lo que hay arriba en el cielo, ni de lo de abajo en la tierra; NO LOS ADORARÁS NI LES DARÁS CULTO. Además , EL QUE SACRIFICA A LOS DIOSES EXCEPTO SÓLO AL SEÑOR, SERÁ MUERTO.”

Exemplos como estes foram muito frequentes durante aqueles séculos sombrios onde os nossos antepassados não tinham escolha a não ser converter-se ao cristianismo ou à morte. No entanto, a força ancestral do politeísmo sobreviveu e conseguiu manifestar-se de várias formas ao longo dos séculos, apesar da repressão brutal judaico-cristã e dos ditames do monoteísmo bíblico.

Publicado em: Lusitaniae Castrum

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

O Ano do Bode

2015, de acordo com o Calendário Chinês, é o Ano da Cabra ou o Ano do Carneiro. Para os fins deste blog, está decretado que o ano de 2105 é o Ano do Bode.
Este é o Ano de nosso Senhor e Deus, tão esquecido, vilipendiado, omitido e negado pelas religiões da Deusa e pelo Dianismo. O Deus das Bruxas, ou o Deus Touro, chamado de Cernunnos e Pan, chamado de Diabo pela Igreja, Zul Karnain pelo Corão.
Sem Ele os campos e o gado não podem ser férteis. Não há vida, tal como conhecemos, o mundo não existiria. Sem Ele nós não podemos entrar no Grande Mistério da Deusa.
O ano de 2014 foi um ano complicado. Tivemos o ano eleitoral mais disputado e com mais baixaria. Projetos como o Plebiscito Constituinte, a Reforma Política e a Lei de Mídia ficaram no forno. Nunca vimos tantos movimentos reacionários, tantos grupos praticamente pleiteando por Intervenção Militar, por Impeachment, nunca vimos um partido politico e a Mídia praticamente ensaiar um golpe de Estado, dando ensejo a uma crise institucional.
Nunca se viu tanta baixaria e troca de farpas na Comunidade Pagã Brasileira. Eu vejo gente que me expulsou de comunidades ditas pagãs e wiccanas desfraldarem a bandeira da "legitimidade", da "representatividade". Se formos por este caminho, podemos colocar a UWB, IBWB, a CTB, e a TDN na hash tag #naomerepresenta. Sem falar em figurinhas como Eddie Van Feu. Infelizmente o Paganismo, a Wicca e a Bruxaria no Brasil sofrem com a falta de informação e com o excesso de "celebridades" desinformando o público.
Nosso Senhor e Deus é como Hermes e Herne, nada fica parado ou imutável, tal como Shiva, Ele anuncia o começo da mesma forma que anuncia o fim. Sendo 2015 o Ano do Bode, o mundo passará por uma transformação, uma mutação, tudo aquilo que era considerado como indubitável, imutável, ficará esfacelado, a humanidade redescobrirá a essência das coisas, a realidade última que é a divina. A humanidade dará um basta naqueles que se fazem de senhores da sociedade, da riqueza, do trabalho. A humanidade reconquistará a real liberdade e autonomia. Todos os Falsos Deuses tornar-se-ão cinzas, para o vexame de seus sacerdotes. O mundo irá reconhecer seu verdadeiro Deus e Senhor.
Ave, Pan!