quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Vagalumes voando - II



(Nota - todos os personagens tem 18 anos no mínimo)

No dormitório, Tanya, Viktoriya e Mary Sue conversam.

Tanya: "A escultura pode ser explicada por transmissão cultural. O sonho do camponês pode ser uma experiência subjetiva. A sopa pode ser simplesmente hospitalidade. Os vagalumes são insetos."

Viktoriya: "E a mulher de preto e vermelho?"

Tanya para.

Tanya: "Isso eu não consigo explicar."

Mary Sue: "Talvez ele tenha visto alguém."

Tanya: "Talvez."

Pausa.

Tanya: "Mas ele disse que ela pediu especificamente que nos alimentasse."

Viktoriya olha para Tanya.

Viktoriya: "E você sentiu alguma coisa."

Tanya imediatamente:

Tanya: "Não sabemos o que eu senti."

Viktoriya : "Mas sentiu."

Tanya: "Sim."

Mary Sue fica desconfortável com a conversa, porque ela tenta organizar tudo dentro de categorias conhecidas.

Mary Sue: "Temos três possibilidades: coincidência, influência cultural ou fenômeno que ainda não compreendemos."

Viktoriya: "Só três?"

Mary Sue: "As três que consigo defender racionalmente."

Tanya olha para ela.

Tanya: "E a quarta?"

Mary Sue: "Qual?"

Tanya : "Que Perun existe."

Mary Sue fica em silêncio.

Viktoriya sorri.

Viktoriya : "Você está começando a considerar isso."

Tanya: "Não estou."

Tanya olha para a própria mão. A mão que segurou a minha durante quase todo o caminho.

Tanya: "Estou considerando que não posso descartar."

Viktoriya percebe.

E não deixa passar:

Viktoriya : "E o Beto?"

Tanya fica imediatamente desconcertada.

Tanya : "O que tem ele?"

Viktoriya : "Você segurou a mão dele."

Tanya : "Estava frio."

Viktoriya : "Ele lhe deu o casaco."

Tanya : "Estava frio."

Viktoriya : "Você agradeceu pela noite."

Tanya: "Porque foi uma noite interessante."

Mary Sue observa as duas.

Mary Sue: "Vocês estão discutindo a experiência religiosa ou o comportamento afetivo da Tanya?"

Silêncio.

Viktoriya começa a rir.

Tanya fica vermelha.

Tanya: "Nenhum dos dois."

A porta se fecha atrás de Beto.

Por alguns segundos, nenhuma das três fala.

Mary Sue continua olhando para o campo pela janela.

Os últimos vagalumes ainda podem ser vistos ao longe.

Ela finalmente murmura:

— Eu acreditava que a Bíblia era a Verdade.

Tanya olha para ela.

Mary Sue engole em seco.

— A Única.

Viktoriya permanece em silêncio.

— Eu acreditava que Deus era só o da Igreja.

Ela olha para as próprias mãos.

— Que todas aquelas outras histórias eram apenas mitos. Superstições. Culturas antigas tentando explicar o mundo antes de conhecerem a verdade.

Tanya não a interrompe.

— E agora...

Mary Sue olha para a janela.

— Um camponês diz que sonhou com Perun.

Pausa.

— Uma escultura aparece exatamente como ele descreveu.

— E depois ele oferece sopa porque...

Ela para.

— Porque uma entidade que ele chama de Perun pediu.

Viktoriya completa suavemente:

— E uma mulher de vestido preto e vermelho também.

Mary Sue fecha os olhos.

— É isso.

Silêncio.

Tanya finalmente pergunta:

— Você acha que Perun existe?

Mary Sue demora a responder.

— Eu não sei.

A resposta parece custar-lhe.

— E isso é o que mais me assusta.

Viktoriya se aproxima.

— Por quê?

— Porque eu sempre soube.

Tanya franze a testa.

— Soube?

— Sim.

Mary Sue olha para elas.

— Eu tinha respostas.

Ela aponta para a Bíblia sobre a mesa.

— Aqui estava a resposta.

Depois para o campo.

— E agora existe uma pergunta.

Tanya permanece pensativa.

— Talvez isso não destrua sua fé.

Mary Sue olha para ela.

— Não?

— Você pode continuar acreditando em Deus.

Tanya faz uma pausa.

— Mas talvez precise abandonar a ideia de que compreender Deus significa compreender tudo o que existe.

Mary Sue fica em silêncio.

Viktoriya acrescenta:

— Talvez o Deus da sua tradição não precise desaparecer porque você descobriu que o mundo é maior do que imaginava.

Mary Sue olha novamente para o campo.

— E se Perun for real?

Tanya responde:

— Então teremos descoberto que Perun é real.

Mary Sue quase ri.

— Você está ficando igual ao Beto.

— Não exagere.

Viktoriya sorri.

Mary Sue finalmente deixa escapar um pequeno sorriso.

Mas ele desaparece rapidamente.

— E Lilith?

Tanya olha para ela.

— O que tem Lilith?

— A mulher de preto e vermelho.

Silêncio.

Viktoriya olha para Tanya.

Tanya olha para Mary Sue.

Mary Sue respira fundo.

— Eu não sei quem ela era.

Pausa.

— Mas pela primeira vez na minha vida...

Ela olha para a escuridão além da janela.

— ...eu não tenho certeza de que quero saber.

Tanya pergunta:

— Por quê?

Mary Sue responde baixinho:

— Porque talvez algumas respostas sejam grandes demais para caber naquilo que eu aprendi a chamar de Verdade.

Nenhuma das três fala mais nada.

Dessa vez, o silêncio não parece vazio.

Parece uma porta aberta.

Tanya permanece diante da janela.

— Ninguém pode afirmar que a dama de preto e vermelho era Lilith.

Mary Sue olha para ela.

— Nem sequer um espírito — continua Tanya. — Ou uma entidade.

Viktoriya cruza os braços.

— Você está voltando ao ceticismo.

— Nunca o abandonei.

Tanya olha para o campo.

— Temos um relato de um camponês. Temos uma tradição. Temos uma escultura. Temos um sonho.

Ela enumera cada elemento com os dedos.

— E temos uma descrição de alguém que ele afirma ter visto.

Tanya baixa a mão.

— Isso é tudo.

Mary Sue parece um pouco aliviada.

— Então você acha que não aconteceu nada sobrenatural?

— Não.

Mary Sue pisca.

— Não?

— Eu disse que não podemos afirmar **o que** aconteceu.

Tanya olha para ela.

— É diferente.

Viktoriya sorri.

— Você está começando a falar como Beto.

— Não.

— Está.

— Estou falando como uma pessoa que sabe a diferença entre uma observação e uma conclusão.

Mary Sue olha novamente para o campo.

— Mas você sentiu alguma coisa.

Tanya fica quieta.

— Sentiu, não sentiu? — pergunta Viktoriya.

Tanya demora.

— Sim.

— E o que era?

— Não sei.

Viktoriya sorri.

— Isso deve estar sendo insuportável para você.

Tanya suspira.

— É.

Mary Sue olha para Tanya.

— Então o que fazemos com aquilo que não conseguimos explicar?

Tanya observa os vagalumes desaparecendo na distância.

— **Não inventamos uma certeza para preencher o espaço.**

Pausa.

— Guardamos a pergunta.

Viktoriya olha para ela.

— E esperamos?

Tanya responde:

— Investigamos.

Mary Sue olha para o campo mais uma vez.

— E se nunca descobrirmos?

Tanya dá um pequeno sorriso.

— Então teremos que aprender a viver com isso.

Silêncio.

Viktoriya murmura:

— Beto ficaria orgulhoso.

Tanya imediatamente responde:

— Não conte a ele.

As três riem.

Mas, depois da risada, Tanya olha novamente para a escuridão.

E, embora jamais admita em voz alta, existe uma pergunta que agora também pertence a ela:

**Quem era a dama de preto e vermelho?**

Mary Sue continua olhando para a janela.

Por alguns segundos, parece lutar contra as próprias palavras.

Então diz:

— Eu cresci acostumada com a ideia de ter um relacionamento com Cristo...

Tanya olha para ela.

Viktoriya também.

Mary Sue continua:

— Eu sabia como pensar sobre isso. Como rezar. Como falar. Como interpretar aquilo que eu sentia.

Ela abaixa os olhos.

— Havia uma estrutura.

Pausa.

— Um caminho.

Tanya permanece quieta.

— Mas Beto e Lilith...

Mary Sue hesita.

— Isso é muito complexo para eu entender.

Viktoriya sorri de leve.

— Porque parece diferente?

— Muito.

— Por quê?

Mary Sue pensa.

— Porque ele não fala dela como alguém que simplesmente adora uma divindade.

Ela procura as palavras.

— Ele fala como alguém que... conversa com ela.

Tanya corrige:

— Ou acredita conversar.

Mary Sue assente.

— Sim. Isso.

Pausa.

— Mas existe outra coisa.

— O quê? — pergunta Viktoriya.

Mary Sue olha para a porta por onde Beto saiu.

— Ele não parece querer alguma coisa dela.

Tanya levanta os olhos.

Mary Sue continua:

— Não quer poder. Não quer recompensa. Não quer proteção. Não quer que ela lhe dê alguma coisa.

Ela respira fundo.

— Ele simplesmente parece... grato por ela existir.

Silêncio.

Viktoriya olha para Tanya.

Tanya permanece pensativa.

— Isso é realmente diferente — admite.

Mary Sue quase sorri.

— Eu passei a vida inteira tentando entender o que Deus queria de mim.

Ela olha novamente para o campo.

— E agora encontro alguém que parece dizer que não precisa saber o que uma divindade quer.

Tanya cruza os braços.

— Isso provavelmente explica por que Beto é tão difícil de classificar.

Mary Sue ri baixinho.

— Ele é um herege.

Viktoriya:

— Definitivamente.

Tanya:

— Um herege perigoso.

Mary Sue finalmente sorri.

— Mas talvez...

Ela para.

— Talvez eu esteja entendendo uma coisa.

As outras duas esperam.

— Talvez uma relação com o divino não precise necessariamente começar com uma resposta.

Tanya olha para ela.

— Continue.

Mary Sue encara a noite.

— Talvez possa começar com uma pergunta.

Silêncio.

Viktoriya sorri.

— Você está filosofando.

Mary Sue suspira.

— Eu sei.

Tanya olha para ela.

— Está gostando?

Mary Sue pensa.

— **Isso é o que mais me preocupa.**

Naquela noite, Tanya está deitada sob o cobertor.

O quarto está escuro.

Silencioso.

Ela fecha os olhos.

E imediatamente volta ao campo.

O vento.

O rio.

As árvores.

Os vagalumes.

A escultura de Perun.

A sopa.

A mão de Beto.

Tanya abre os olhos.

— Ridículo.

Ela fecha novamente.

A lembrança volta.

O comichão na mão.

A sensação do tecido do casaco sobre os ombros.

A voz dele:

*“Pode segurar na minha mão se estiver com receio.”*

Tanya enterra o rosto no travesseiro.

— Ridículo.

Ela tenta pensar em outra coisa.

Relatórios.

Logística.

Estratégia.

Abastecimento.

Qualquer coisa.

Mas existe uma sensação.

Não exatamente uma presença física.

É apenas a impressão de que **alguém está observando**.

Tanya abre os olhos.

Nada.

Ela permanece imóvel.

— Entidade X?

Nenhuma resposta.

Tanya espera.

Nada.

A sensação, porém, permanece.

Não há hostilidade.

Não há ameaça.

Também não existe aquela sensação opressiva que ela associaria à Entidade X.

É...

Neutra.

Não.

Mais que neutra.

Quase compreensiva.

Como se aquela presença não estivesse julgando seus pensamentos.

Apenas os testemunhando.

Tanya sente um arrepio.

— Isso é absurdo.

Ela se vira de lado.

A mão ainda está formigando.

Ela a observa no escuro.

— Foi apenas uma caminhada.

Silêncio.

— Apenas uma sopa.

Mais silêncio.

— Apenas uma escultura.

Ela fecha os olhos.

— Apenas uma mão dada.

Pausa.

Tanya abre os olhos novamente.

— **E aquele maldito escritor.**

A sensação permanece.

— Não consigo nem organizar meus próprios pensamentos sem você aparecer de novo.

Ela puxa o cobertor até o nariz.

— Herege.

Pausa.

— Idiota.

Outra pausa.

— Convencido.

O canto da boca dela se move.

— E ainda por cima me empresta o casaco.

Tanya percebe o que acabou de dizer.

Fica vermelha.

— **Droga.**

Ela se vira para o outro lado.

A presença continua ali.

Sem exigir nada.

Sem responder.

Sem se revelar.

Tanya fecha os olhos.

E, contra toda a sua disciplina, deixa escapar um último murmúrio:

— Boa noite, Beto.

Silêncio.

Ela arregala os olhos.

— **Eu não disse isso.**

E, pela primeira vez naquela noite, a presença parece quase...

divertida.

Tanya puxa o cobertor sobre a cabeça.

— Eu odeio esta história.

Criado com ChatGPT.
Imagem criada com ChatGPT.

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