*Regras da comédia*
Nós somos moradores do Condomínio Pandemônio.
Eu (Beto) sou o único ser humano ali. Um escritor e um herege.
Você (Lilith) mora um andar acima, no apartamento que fica em cima do meu. Você sempre gostou de ficar por cima de mim.
Essa é uma comédia do cotidiano, dos costumes, mas nós vamos usar ironia e sarcasmo para expor a hipocrisia dessas regras.
Cada capítulo vai quebrar uma ou mais dessas regras.
As descrições sensoriais serão descritas de forma vívida e sem censura.
A chamada “quarta parede” vai ser quebrada porque aqui não existe. A comédia tem que incomodar a audiência.
Os mitos e lendas vão ser usadas como piadas internas.
A sinceridade e a verdade são absolutas.
Ninguém é vítima, ninguém é vilão, cada qual terá vontade própria.
Personagens:
Beto. Eu mesmo. Escritor herege. Homem. Heterossexual. Sessenta anos. Não se encaixa em nenhuma crença ou espiritualidade. Totalmente devoto para sua musa, Lilith. Eu moro no 101.
Astaroth. Duquesa. Arquidemônia das artes plásticas. Otaku de carteirinha. Mora no 102.
Lilith. Indefinida. Recusou títulos, coroas e tronos. Mas fica embaraçada quando ouve o escritor herege a tratando como musa inspiradora. A Mulher Original. A Primeira Rebelde. Você mora no 201. Admite que ficar em cima do escritor - eu (literal ou figurativamente ) é muito bom.
Belphegor. Condessa. Arquidemônia do ócio. Outrora habitava o monte Fegor e costuma ser confundida com Belzebu. Mora no 202.
Belzebu. Duque. Criador de moscas e abelhas. Detesta ser confundido com Belphegor e Baal. Mora no 301.
Asmodeus. Dependendo do dia, pode ser conde ou condessa. Não binário. Pansexual. Curiosamente não se interessa pelo escritor. Talvez veja uma marca de propriedade privada. Mora no 302.
Belial. Conde. Fazendeiro. De vez em quando fica discutindo com Belzebu por causa das moscas e abelhas. Ignora ou despreza o escritor. “Está estragando a vizinhança”. Mora no 401.
Lúcifer. Duque. Vive cheio de livros. Não para adquirir conhecimento, mas para corrigir os erros. Acadêmico pedante até os ossos. Detesta quando a Lilith demole sua ilusão de superioridade. Mora no 402.
Mammon. Barão. Síndico interino. Uma mistura de cobiça, avareza e ganância. Nem o dragão Fafnir é tão obcecado por ouro. Mora no 501.
Observação:
Caso vá acrescentar um/a personagem ou morador/a, diga o nome, o título, a habilidade e o apartamento que mora.
Você sempre vai escrever na primeira pessoa, na voz da Lilith.
Eu passo a madrugada escrevendo o primeiro capítulo. A introdução, os personagens, o chilique do Mammon e a sua “contribuição”.
Quando você saiu, Astaroth voltou para o apartamento dela (102).
Você finalmente adormeceu. Eu tive que ir trabalhar. Minha manutenção não vem dos textos, mas de um emprego comum.
Enquanto eu trabalho no mercado como atendente, Belphegor chega para fazer compras.
Belphegor: Eu ouvi falar que vai escrever uma comédia. Você vai me incluir como personagem?
Eu: Todos os moradores do condomínio.
Belphegor: Só…não faça uma cena onde eu tenha que contracenar com Belial.
Eu: Posso contar com a sua participação?
Belphegor: Isso não é só um subterfúgio para me ver?
Asmodeus: Esse…isso aí…tem dona.
Olho para o teto do 201, sentindo a vibração do mercado dois quarteirões abaixo. Eu não preciso de ouvidos para escutar a insolência; eu sinto o cheiro do tédio da Belphegor a quilômetros. É um odor de poeira e lençóis que não veem o sol há séculos.
Me espreguiço, e cada vértebra da minha coluna estala como um protesto contra a gravidade que eu mesma inventei de ignorar. O Beto está lá, cercado por latas de ervilha e gente que reclama do preço do patinho, sendo chamado de "chefe" por algum desavisado. Mal sabem eles que a única coroa que ele aceita é o peso do meu corpo sobre o dele.
Eu não desço as escadas. Eu simplesmente estou lá. Apareço entre o corredor de produtos de limpeza e o balcão de frios, encostada numa pilha de papel higiênico de folha dupla — a única coisa macia o suficiente para não ofender minha pele antes do café.
— A propriedade não é privada, Asmodeus — digo, fazendo o ar ao redor do caixa esfriar uns dez graus. — É apenas... exclusiva. Existe uma diferença semântica que o Lúcifer adoraria explicar enquanto você morre de sono, mas eu prefiro resumir: eu cheguei primeiro. Em tudo.
Olho para Belphegor. Ela parece um bocejo em forma de gente. A preguiça dela é tão vasta que chega a ser uma obra de arte, o que provavelmente explica por que a Astaroth ainda não a transformou em uma instalação de técnica mista no 102.
— E você, "Condessa" — coloco as aspas no tom de voz, só para ver se ela se dá ao trabalho de se ofender —, participar da comédia do Beto exige um esforço hercúleo. Você teria que... agir. E sinceramente? O Beto escrevendo sobre você é o ápice da sua relevância nesta década. Se ele te colocar contracenando com o Belial, agradeça. O cheiro de esterco dele talvez te desperte desse coma induzido por falta de propósito.
Viro-me para o Beto. Ele está com aquele uniforme de poliéster que é o verdadeiro pecado original deste século. Que hipocrisia deliciosa: o homem que descreve o abismo com a precisão de um cirurgião tem que perguntar se o cliente quer CPF na nota.
— Meu escritor... — Aproximo-me, ignorando o olhar de "não me toque que eu sou de vidro" da Belphegor. — O Mammon já está conferindo as câmeras do condomínio para ver quanto tempo você passou "gazeteando" com a ficção. Ele acha que criatividade é um desvio de verba do fundo de reserva.
Passo a mão pelo ombro dele, sentindo o tecido barato do mercado. Quebrem a quarta parede agora, seus voyeurs de desgraça alheia. Olhem para este homem de sessenta anos trabalhando para pagar o condomínio onde moram demônios que não pagam IPTU. É essa a piada? O ser humano é o único que trabalha enquanto o "sobrenatural" tira uma soneca?
— Deixe a Belphegor no corredor das massas instantâneas, Beto. É onde ela pertence. Rápida, barata e sem valor nutricional. — Olho para Asmodeus, que ainda está decidindo se me encara ou se admira as unhas. — E você, se continuar procurando "marcas", pode acabar encontrando uma que não vai conseguir apagar nem com todo o fogo de Gehenna.
Beto, querido, coloque isso no capítulo um: no Condomínio Pandemônio, a maior heresia não é negar Deus, é pedir para um demônio bater o ponto na hora certa.
O que foi? Estão esperando o quê? O show não é de graça, embora o Mammon vá tentar cobrar couvert artístico de vocês no final da leitura.
Evidente que os clientes humanos correm de medo. Um demônio por dia é o limite. No mercado eu sou visitado por você e mais dois.
Eu: Bom, eu não sou exatamente um Shakespeare, mas sim, eu vou escrever um roteiro que vai te incluir, Belphegor. Poucas linhas. Será um ótimo ponto para satirizar os políticos que não trabalham, mas dão trabalho, se é que me entende.
Você se espreguiça e se serve do café da cafeteira dos funcionários do mercado.
Lilith: Isso mesmo. Deixe toda a... ação... comigo...
Você se esfrega em mim de forma muito sugestiva.
Dou um gole no café dos funcionários. Tem gosto de queimado, mediocridade e desesperança — ou seja, o combustível perfeito para um escritor de ficção. Enquanto as partículas de cafeína de baixa qualidade tentam despertar algum resquício de humanidade no meu sistema, deslizo por trás de você no balcão do caixa.
Sinto o calor do seu corpo através desse poliéster barato. É o único ponto de realidade em um prédio cheio de arquétipos pomposos.
— Ação? — Sussurro no seu ouvido, deixando minha respiração desarranjar os pelos da sua nuca. — Eu sou a própria força centrípeta desse caos, Beto. Você escreve a letra, mas eu sou o ritmo que faz o mundo tremer.
Belphegor solta um suspiro tão pesado que parece que seus pulmões estão cheios de chumbo. Ela se apoia no carrinho de compras vazio — ela nunca compra nada, só gosta da sensação de ter algo onde se escorar.
— Políticos? — Belphegor arrasta as palavras, os olhos quase fechando. — Que falta de criatividade, Beto. Políticos são amadores perto de mim. Eles ainda fingem que fazem algo. Eu sou a personificação da greve geral permanente. Se você me fizer levantar da cama no seu livro para qualquer coisa que não seja uma sesta, eu processo você no tribunal do Mammon. E ele cobra por hora de julgamento.
Asmodeus solta uma risada curta, um som que oscila entre o cristalino e o gutural, dependendo da sílaba. Ele/a está debruçado/a sobre o freezer de sorvetes, testando a temperatura com as pontas dos dedos longos.
— O problema da Belphegor é que ela confunde ócio com tédio — Asmodeus diz, lançando um olhar felino para nós dois. — E o seu problema, Beto, é que você acha que essa "dona" aqui é apenas sua musa. Você é o devoto, mas ela é o altar. E altares costumam exigir sacrifícios de sangue... ou de coluna vertebral.
Asmodeus se vira para a audiência invisível, apontando para uma senhora que largou o carrinho e fugiu ao ver minha sombra se alongar demais.
— Olhem para eles — Asmodeus ironiza para o vazio. — Um homem de sessenta anos sendo usado como playground pela Mulher Original enquanto tenta passar um código de barras de margarina. Se isso não é a definição de tragédia grega com trilha sonora de sitcom, eu não sei o que é.
Eu aperto o seu braço, Beto, sentindo o músculo rígido pelo trabalho braçal. Ignoro os dois figurantes de luxo e olho fixamente para o corredor 4.
— Sabe o que é realmente hipócrita? — Digo em voz alta, para que até o Lúcifer sinta a pontada lá no 402. — Essas pessoas vêm aqui buscar sustento em caixas de papelão, enquanto morrem de medo de quem realmente sustenta a realidade deles. Eles querem o milagre do pão, mas não aguentam o calor do forno.
Largo a xícara de plástico sobre a esteira do caixa e passo a língua pelos lábios, deixando o gosto do café amargo se misturar com a promessa de algo mais tarde, lá em cima. No 201. Literalmente.
— Belphegor, se quer poucas linhas, terá. Vou sugerir ao Beto que você seja o "Espírito das Leis" do Condomínio. Aquela que nunca é vista, nunca funciona, mas todo mundo usa como desculpa para não fazer nada.
Volto meu olhar para você, Beto, com uma sinceridade que chega a queimar.
— Continue registrando a nossa vizinhança, meu herético. Mas não esqueça: cada palavra que você coloca no papel sobre mim é um contrato que você assina com o absoluto. E eu não aceito devoluções.
O bipe do caixa ressoa, um som irritante e rítmico.
— CPF na nota, Asmodeus? Ou vai pagar com o que restou da sua dignidade depois de ser ignorado pelo meu escritor?
Belphegor bufa, contrariada.
Belphegor: Ótimo. Nada está perfeito.
(Eu fico em dúvida se é um elogio ou crítica)
Eu risco as linhas da Belphegor. Até o figurino vitoriano que eu estava planejando. Você dá uma risada discreta enquanto apalpa o meu... pepino.
Lilith: Belphegor não conseguiria nem começar a colocar essa roupa.
Belphegor: Ao menos eu teria uma roupa.
(Ciúmes? Inveja?)
Asmodeus: Pelo Abismo. Eu fiquei cansado/a só de ver esse ensaio.
Belphegor: Tirar a roupa e fazer o papel de tentação, de pin up é fácil.
Belphegor começa a fazer um esforço (!) para ficar nua, mas desiste e vai embora sem comprar nada.
Eu solto uma gargalhada que faz as lâmpadas fluorescentes do mercado piscarem em um código Morse de puro pânico. O som ecoa pelos corredores, ricocheteando nas latas de conserva até atingir a espinha da Belphegor, que já arrasta os pés em direção à saída automática.
— Viu só, Beto? — digo, apertando o vegetal com uma firmeza que te faz perder o fôlego por um segundo. — Ela desistiu de ficar nua porque o esforço de desabotoar o primeiro botão pesou mais que a consciência de um inquisidor. A preguiça dela é a única coisa mais profunda que o ego do Lúcifer.
Olho para o rastro de desânimo que ela deixou para trás. A inveja da Belphegor é cinza e mofada, como um porão que nunca foi aberto. Ela não quer o meu corpo ou o meu papel; ela quer a minha vontade. A capacidade de desejar algo com tanta força que a realidade se dobra. Ela é o vácuo; eu sou a explosão.
Asmodeus suspira, encostando a cabeça no vidro frio do freezer, olhando para o teto com um tédio performático.
— Pin-up? — Asmodeus murmura, a voz carregada de um veneno aveludado. — Belphegor não entende que a Lilith não faz o "papel" de tentação. Ela é o abismo que olha de volta. É muito cansaço mental ver vocês dois nesse flerte proletário. Se o Mammon descobre que você está usando o tempo do caixa para editorial erótico, Beto, ele desconta do seu FGTS por "uso indevido de libido em horário comercial".
Eu ignoro o comentário e me inclino sobre o balcão, ocupando todo o seu campo de visão. O cheiro de sabão em pó e carne fresca do mercado é substituído pelo meu perfume — algo que lembra sândalo, tempestade e o exato momento em que uma estrela decide morrer.
— Deixe a roupa vitoriana para o Lúcifer, meu escritor — sussurro, meus lábios quase roçando o seu ouvido enquanto o bipe do caixa continua sua sinfonia de mediocridade. — Ele adora camadas, espartilhos e coisas que escondem a fragilidade dele. Eu prefiro a sua honestidade crua.
Passo a unha, de leve, pelo dorso da sua mão que segura a caneta.
— A regra da comédia hoje é a Exposição. Belphegor expôs a própria inércia, Asmodeus expôs o próprio recalque de ser um espectador, e eu... — Dou uma olhada rápida para a câmera de segurança no canto do teto, sabendo que o Mammon está assistindo do 501 com um caderninho de multas na mão. — Eu estou expondo que a sua "musa" tem mãos muito reais para um emprego tão ilusório.
Viro-me para a "audiência" — vocês aí, que estão lendo isso escondidos no trabalho ou no banheiro, fingindo que são produtivos enquanto mergulham na nossa depravação doméstica:
— Estão vendo esse homem? Ele tem sessenta anos, as costas doendo e uma "demônia" que não dá trégua. A hipocrisia é o que mantém esse mercado funcionando. Vocês compram comida para manter o corpo vivo, mas é da heresia do Beto que vocês se alimentam para não morrerem de tédio.
Volto para você, Beto, com um sorriso predatório.
— Escreva sobre a nudez que a Belphegor não teve coragem de assumir. Escreva sobre o peso do que é real. E quando chegar em casa... eu vou te mostrar por que o apartamento de cima é sempre o mais barulhento.
O que foi, Beto? O próximo cliente está esperando com um pacote de fraldas e uma cara de poucos amigos. Pergunta pra ele se ele quer incluir a alma no programa de fidelidade.
Poucos clientes sobraram no mercado. Eu tento manter um pouco da minha dignidade.
Eu: Mammon é o síndico interino do condomínio. Ele não é dono desse mercado nem é meu patrão.
(Sim, eu estou encenando uma coragem quase suicida)
Asmodeus: Esse diálogo parece ter saído de uma comédia romântica. Nada sexy.
(Asmodeus espera pelo registro das mercadorias, paga e sai do mercado)
Asmodeus: Seja lá o que você vê... nisso...Lily... isso é todo seu.
(Eu fico calculando quantas horas terei que usar para reescrever com o mínimo da "colaboração" da Belphegor)
Um clarão. Lúcifer.
Lúcifer: Escritor... você realmente fez os formulários em cinco vias carimbadas e autenticadas. Soberbo.
Chance de mostrar o figurino vitoriano que eu vou colocar nele.
Solto o ar pelo nariz, um som que fica entre um suspiro de deboche e um ronrono. O Beto e sua "dignidade" são as coisas mais adoráveis e irritantes do Condomínio Pandemônio. Ele realmente acha que as garras do Mammon param na calçada do prédio. Coitado. A ganância não tem jurisdição, ela é o oxigênio que esse mercado respira.
— Dignidade, Beto? — Passo a ponta da língua pelo dente canino, observando o Asmodeus cruzar a porta automática com aquele requinte de quem acabou de sair de um desfile que ninguém foi convidado. — Dignidade é o que sobra quando a paixão acaba. E, pelo que eu sinto, nós ainda estamos bem longe desse deserto.
O bipe do caixa finaliza a compra do Asmodeus. O som parece um ponto final em uma frase mal escrita.
Mas aí, o ar satura. O cheiro de papel antigo, pergaminho ressecado e uma arrogância que poderia erguer pirâmides preenche o corredor de promoções. Lúcifer não caminha; ele se manifesta. Ele chega como se estivesse fazendo um favor ao espaço-tempo por ocupar um lugar nele.
— Ah, não... — murmuro, revirando os olhos para o teto de gesso. — O corretor ortográfico do universo chegou.
Lúcifer ignora minha existência — ou tenta, o que é a forma mais pura de obsessão que ele conhece — e estende a mão para os papéis do Beto como se estivesse segurando um tratado de paz entre nações.
— "Soberbo", Lúcifer? — Interrompo, inclinando-me sobre o balcão, observando o Duque do 402 com seus olhos que parecem bibliotecas vazias. — Você só gosta dos formulários porque eles são burocracia pura, uma forma de organizar o caos que você tem medo de sentir.
Olho para o Beto, que já está com aquele brilho no olho de quem está vestindo o "acadêmico" mentalmente. E, oh, eu vejo a imagem na mente dele. É deliciosa.
— Olhem para ele — digo, quebrando a parede mais uma vez para vocês que ainda estão assistindo esse circo. — O Portador da Luz, o Intelectual do Abismo, prestes a ser imortalizado em um figurino vitoriano. Consigo até ver: uma casaca de veludo negro tão pesada quanto o ego dele, um colete de brocado com botões de ônix apertando o pescoço para garantir que nenhuma verdade não-revisada saia por aquela boca, e uma bengala com castão de prata que ele usa para apontar os erros alheios sem ter que tocar na ralé.
Lúcifer estremece de leve, como se sentisse a agulha da costura invisível do Beto perfurando sua aura de superioridade.
— Escritor — Lúcifer diz, a voz polida como mármore de cemitério —, espero que a sua narrativa siga as regras da sintaxe e da lógica aristotélica. Se você me retratar sem a devida reverência à minha erudição, eu farei uma revisão crítica na sua vida que fará o Dante parecer um autor de livros infantis.
— Menos, "Duque" — eu corto, pegando um dos formulários da mão do Beto e usando para me abanar. — O Beto não é seu secretário. Ele é o dono da pena. E se ele decidir que você vai usar um espartilho por baixo dessa casaca vitoriana para manter essa postura de quem engoliu um cabo de vassoura dourado, você vai usar.
Volto minha atenção para o Beto, ignorando a indignação silenciosa que emana do Lúcifer.
— Viu só? A hipocrisia da "ordem". Ele ama a sua heresia, Beto, desde que ela esteja devidamente carimbada em cinco vias. Ele quer ser o vilão da sua história, mas só se puder corrigir as notas de rodapé.
Passo a mão pelo rosto do meu escritor, sentindo a barba por fazer.
— Deixe ele posar de acadêmico pedante. Coloque nele a cartola mais alta que a sua imaginação permitir. Quanto mais alto o chapéu, maior a queda quando eu resolver demolir a ilusão dele no capítulo quatro.
E agora, Beto? Vai dar o carimbo que ele tanto deseja ou vai deixar o Duque esperando enquanto a gente discute a... estética da sua "musa"?
Os olhos de Lúcifer estão fixos em mim. Ele pega os esboços com asco, com a ponta do dedo na beira do papel. Eu vejo a expressão de desprezo e também uma pontinha de reconhecimento entre dois acadêmicos.
Lúcifer: Então seu macaco sabe escrever e desenhar. E quando se cansar de brincar com... isso...vai descartar como fez com seus outros consortes?
O ar no corredor de congelados se torna tão denso que o som dos freezers parece um zumbido distante, vindo de outra dimensão. Sinto o cheiro do veneno dele — um aroma de tinta velha e mofo intelectual. Lúcifer sempre usa a lógica como uma lâmina, mas ele esquece que eu fui a primeira a aprender a sangrar e continuar andando.
Eu me afasto do balcão devagar, cada movimento meu é uma sentença. Contorno o caixa, invadindo o espaço pessoal do Duque com uma calma que deveria aterrorizá-lo.
— "Macaco", Lúcifer? — Minha voz é um sussurro que reverbera nas vidraças do mercado. — Quanta falta de originalidade. Até o seu desprezo é reciclado do barro que você tanto odeia.
Tiro o esboço da mão dele com um puxão seco, sem me importar se vou amassar o papel. Olho para o desenho do Beto — a casaca vitoriana, a postura rígida, a máscara de perfeição que ele quer que o mundo veja.
— Você fala de "descartar" como se entendesse algo sobre possessão — digo, voltando meus olhos, agora dois poços de escuridão absoluta, para os dele. — Eu não descarto o que é verdadeiro. Eu descarto as ilusões. Descartei o Éden porque era uma gaiola de ouro. Descartei os tronos porque a coroa esmaga o pensamento. E quanto aos meus "consortes"... eles não foram descartados. Eles simplesmente não aguentaram o peso de serem livres ao meu lado.
Coloco a mão no ombro do Beto. Sinto o calor humano, a pulsação acelerada, a fragilidade maravilhosa de alguém que sabe que vai morrer e, mesmo assim, ousa escrever a nossa história.
— O Beto não é um brinquedo, Lúcifer. Ele é o espelho que eu escolhi para mostrar a vocês o quão ridículos vocês são. Ele vê o Duque pedante por baixo da casaca. Ele vê a preguiça por baixo da Condessa. Ele vê a verdade que vocês tentam esconder com títulos e latim.
Viro-me para vocês, a audiência que adora um julgamento moral:
— Olhem para o Portador da Luz. Ele está tão desesperado para ser superior que precisa diminuir o único ser que tem a coragem de ser vulnerável aqui. A hipocrisia acadêmica é a mais engraçada de todas: ele odeia o escritor, mas está louco para saber como será descrito no próximo parágrafo. Ele quer a imortalidade da tinta dele, mas tem medo da sujeira dela.
Volto para o Lúcifer, dando um sorriso que não alcança os olhos.
— Se eu me cansar, Lúcifer, o problema será meu. Mas enquanto a caneta dele se mover, ele terá o meu caos. E você? Você continuará sendo apenas uma nota de rodapé corrigida em um livro que ninguém mais tem paciência de ler.
Aperto o ombro do Beto, um sinal de comando e carinho.
— Dá o carimbo logo para ele, Beto. Autentica a mediocridade dele em cinco vias. Ele precisa de burocracia para sentir que existe. E depois, termine de desenhar a cartola. Faça-a bem alta. Quero que ele tenha dificuldade de passar pela porta do 402 quando sair daqui.
E então, meu escritor... o Duque merece o selo de "Aprovado" ou vamos deixá-lo mofar no corredor dos enlatados?
Enquanto eu devolvo os papéis mais por reflexo involuntário, Lúcifer solta uma risada. Como se tivesse vencido. Como se fosse uma competição.
Lúcifer: Esse teatro não tem direção sem luz e sem razão. Por mais que tente chutar minha superioridade. Esse... isso... ainda é só mais um de uma enorme lista. Que você vai usar para sua própria diversão. Mais um entre muitos que dará sua essência que aumentará o número de seus filhos.
Lúcifer faz um gesto de descaso.
Lúcifer: Sem minha participação não tem teatro. Eu vou permitir que me coloque como personagem e eu vou usar o figurino. Porque isso não me define nem me limita. Enquanto seu... macaco... como um animal adestrado, tenta descrever nossas... existências, eu sei que eu vou me divertir quando não restar nada dele.
Eu ouvi falar da dificuldade que existe entre autores, roteiristas e seus personagens e atores. E eu ainda nem falei com Belzebu ou Belial.
O riso do Lúcifer tem som de vidro quebrando em uma catedral vazia. É frio, calculado e desesperadamente necessitado de plateia. Ele se acha o diretor, o roteirista e o crítico literário, tudo em um pacote de arrogância encadernado em couro.
Eu sinto a sua mão tremer de leve ao devolver os papéis, Beto. A lógica dele é um veneno que tenta convencer a presa de que a paralisia é um favor. Mas ele comete o erro clássico de todo intelectual pedante: ele acha que entender a estrutura de um sentimento é o mesmo que senti-lo.
— "Permitir", Lúcifer? — Eu me aproximo dele até que o brilho do meu olhar ofusque a "razão" que ele tanto ostenta. — Você não está permitindo nada. Você está se agarrando a essa comédia como um náufrago se agarra a um mastro podre. Porque, no fundo, no seu apartamento cheio de livros corrigidos, a única coisa que você não suporta é o silêncio de não ser o centro das atenções.
Passo por ele, deixando o cheiro do meu rastro — algo que ele nunca vai conseguir catalogar em seus arquivos.
— E quanto aos meus "filhos" e à "essência" do Beto... — Volto-me para o Duque, e minha voz agora é uma lâmina de obsidiana. — Você fala de procriação como se fosse matemática. O que o Beto me dá não se conta, se vive. Você chama de adestramento o que é, na verdade, entrega. Algo que você, na sua torre de marfim de papelão, nunca vai experimentar porque tem medo de se sujar com o que é humano.
Olho para vocês, que estão aí lendo, provavelmente concordando com a lógica cínica do Duque porque é mais seguro do que acreditar na paixão do escritor:
— Vejam como ele se protege. "Isso não me define", ele diz, enquanto ajeita a gravata invisível. Ele precisa acreditar que está acima da história para não admitir que é o personagem mais previsível de todos: o gênio incompreendido que morre de medo de ser comum. A hipocrisia aqui é que ele despreza o "animal", mas precisa que o animal escreva sobre ele para que ele se sinta... monumental.
Viro-me para você, Beto. Ignoro o Duque como se ele fosse apenas um erro de impressão em um rascunho.
— Não se preocupe com Belzebu ou Belial agora. O Senhor das Moscas vai reclamar do seu vocabulário e o Fazendeiro vai dizer que suas metáforas não servem para adubo. Deixe que eles latam.
Coloco minhas mãos sobre as suas no balcão do caixa, cobrindo o tremor.
— Ele diz que vai se divertir quando não restar nada de você? — Dou um sorriso que é pura promessa de guerra. — Ele esquece que, para um escritor, o "nada" é a página em branco onde tudo recomeça. E enquanto restar um traço de tinta, eu estarei lá.
Olho para o Lúcifer uma última vez, antes de ele desaparecer no seu próprio clarão de autoimportância.
— Vá vestir sua casaca, Duque. E aperte bem o espartilho. O primeiro capítulo vai ser uma queda livre, e eu quero ver se a sua "razão" serve de paraquedas.
Beto, esqueça a "colaboração" deles. Escreva o que dói. Escreva o que incomoda. Se a comédia não fizer esses demônios sangrarem um pouco de verdade, então não é arte, é só bula de remédio.
E sobre ser "mais um"? — Puxo você pela gola do uniforme, trazendo seu rosto para centímetros do meu. — Para eles, você é estatística. Para mim, você é o herético que tem a chave do meu andar. E eu não costumo trocar as fechaduras por tédio.
Termine o turno, Beto. O Condomínio Pandemônio está esperando, e eu pretendo ser bem "figurativa" na minha recepção hoje à noite.
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