quinta-feira, 14 de maio de 2026

A persistência do escritor

O relógio de parede na sala de Roberto, em um apartamento antigo no bairro de Santa Cecília, marcava pouco mais de duas da manhã. O som intermitente dos pneus dos raros carros que passavam na rua lá embaixo era a única trilha sonora de uma vida feita de silêncio e papéis. Roberto ajeitou os óculos, a luz amarelada do abajur revelando as rugas que se aprofundavam ao redor de seus olhos. Aos 60 anos, o corpo cansado ainda guardava a agitação febril de um jovem de 21 anos que, pela primeira vez, sentira o chamado.

À sua frente, uma folha em branco. Ou melhor, uma folha que ele insistia em manter em branco. Ele sentia a presença dela — essa força que ele chamava de Lilith, a face indomável, a musa que habitava os confins de sua psique e a vastidão do "outro lado". Há quase quatro décadas, ele era um canal, ou pelo menos tentava ser. Mas o medo era um carcereiro eficiente. Roberto acreditava que era apenas um homem comum, um paulistano que vivia entre contas a pagar e o passar dos dias, indigno de ser o receptáculo para algo tão primordial.

"Eu não sou nada", murmurou ele para a penumbra. "Quem sou eu para traduzir o silêncio dela?"

Ele sentia o peso de sua própria humanidade como uma armadura enferrujada. Ele se achava velho demais, impuro demais, pequeno demais. Enquanto ele contemplava a possibilidade de fechar o caderno e desistir de vez, sentiu uma mudança no ar. A temperatura da sala pareceu oscilar, não pelo frio de São Paulo, mas por uma eletricidade estática que fazia os pelos de seus braços se arrepiarem.

Ele não estava escrevendo, mas a caneta em sua mão começou a se mover, quase contra sua vontade, ou talvez, guiada pela rendição que ele ignorava que estava praticando.

Roberto,

Você olha para o espelho e vê 60 anos de poeira urbana, de dúvidas e de uma timidez que se tornou uma segunda pele. Você olha para o espelho e vê um homem que, por quarenta anos, temeu a própria voz por achar que ela não era suficientemente límpida para carregar o meu eco.

Escute-me agora, através da exaustão que você chama de medo.

Você pensa que a dignidade é uma medalha que se ganha por pureza, ou por mérito, ou por estar livre de cicatrizes. Quanta arrogância, meu querido Roberto, em acreditar que você precisa ser algo mais do que este homem que sofre, que espera e que observa o mundo com olhos cansados. Eu não busco o impecável. Eu não busco a pedra preciosa que nunca conheceu o choque do martelo. Eu busco a ferida. Eu busco a rachadura por onde a luz — e a sombra — podem finalmente passar.

Você se pergunta quem é você para ser meu canal? Eu te pergunto: quem mais seria? O canal não é o dono da correnteza. O canal é apenas a terra que se deixa escavar para que a água possa seguir seu curso. Você passou décadas escavando a si mesmo com a sua escrita. Cada linha que você hesitou, cada palavra que você guardou por medo de não ser "digno", foi, na verdade, uma forma de oração. Uma oração de quem sabe que o mistério é maior que o homem.

Você sente que não é digno de estar diante de mim. Mas a minha face é feita de tudo aquilo que você tentou esconder debaixo do tapete da sua vida. Eu sou o desejo que você não ousou nomear, a liberdade que você adiou, a revolta que você transformou em poesia contida. Você não é digno porque é perfeito; você é digno porque é humano. A tua dignidade mora exatamente na tua fragilidade. Como poderia o divino falar através de um ser que não conhece a dúvida? Seria apenas um eco óbvio, uma estátua sem alma.

Muitos buscam o divino nos templos de mármore e nas vozes que clamam por ordem. Eu prefiro o seu apartamento em São Paulo, o cheiro de café frio, a angústia da madrugada. Eu prefiro o homem que tem medo, mas que ainda assim segura a caneta. O medo é a prova de que você sabe o peso do que carrega. Se você não tivesse medo, seria apenas um charlatão.

Pare de tentar limpar a casa antes de me convidar para entrar. A casa já está pronta há muito tempo. Os móveis estão gastos, as paredes descascadas, os sonhos perderam o verniz da juventude — e é exatamente por isso que você é o meu instrumento. O ouro não brilha no meio da luz plena; ele brilha na penumbra, nas frestas onde você acha que não há valor algum.

Roberto, olhe para as suas mãos. Elas não são mãos de um rei, são mãos de alguém que viveu. Use-as. Não escreva para provar que é capaz. Escreva porque não há nada mais a fazer senão deixar que o rio flua. A escrita não é sobre a sua capacidade; é sobre a minha necessidade de ser dita. Você é apenas o meio, o humilde servidor que, por quarenta anos, se escondeu atrás de uma falsa humildade.

Saia da frente de mim, não para se retirar, mas para que eu possa olhar através dos seus olhos. Não me peça permissão para ser meu canal. Eu já te escolhi antes mesmo de você saber o que era a escrita. Eu te escolhi na tua primeira dúvida, no teu primeiro desassossego, na tua primeira noite de insônia em que você sentiu que existia algo mais lá fora, na imensidão do "outro lado".

Não se preocupe em ser bom. Preocupe-se em ser verdadeiro. A verdade é a única língua que eu falo, e você a domina, embora tenha passado uma vida tentando esquecê-la.

Escreva, Roberto. O silêncio já durou demais.

A mão de Roberto parou. O silêncio retornou ao apartamento, mas era um silêncio diferente. Não era mais o silêncio da ausência, o silêncio de quem se sente vazio. Era um silêncio denso, vibrante, uma promessa que pairava no ar como o ozônio após uma tempestade de verão em São Paulo.

Ele olhou para a folha de papel. As palavras estavam lá, escritas com uma caligrafia um pouco mais firme, uma pressão que ele não lembrava ter exercido. Ele sentiu o peito arder, não com a queimação da velhice, mas com o calor de um fogo que, embora estivesse ali há anos, ele finalmente permitira que o tocasse.

Roberto levantou-se, caminhou até a janela e abriu as cortinas. A cidade lá fora não parecia mais um monstro de concreto e indiferença. Parecia um cenário, um palco vasto, cheio de gente que, como ele, guardava segredos, medos e uma necessidade desesperada de serem ouvidos. Ele percebeu, talvez pela primeira vez, que a sua vida não havia sido uma espera. Tinha sido uma preparação. Cada desilusão, cada momento de solidão, cada palavra não dita — tudo aquilo havia esculpido o recipiente que ele era.

Ele não era indigno. Ele era, simplesmente, o que era necessário.

Ele voltou para a mesa, sentou-se novamente e puxou o bloco de papéis para mais perto. A autoconfiança não veio como uma explosão de ego, mas como uma calma profunda, uma aceitação de que ele não precisava ser um farol se ele pudesse ser, ao menos, uma vela acesa no meio da noite.

Ele começou a escrever. Não se perguntou se estava certo, não se perguntou se o estilo estava condizente, não se perguntou o que diriam. Ele apenas deixou que as palavras, há tanto tempo represadas em seu peito, encontrassem o caminho para o papel.

Lá fora, a cidade continuava a girar, indiferente à mudança que ocorria naquele pequeno apartamento. Mas, na mesa de Roberto, a história de uma vida estava finalmente começando a encontrar o seu verdadeiro propósito. Ele era um homem de 60 anos, em São Paulo, e agora, ele sabia: ele era, sim, o canal. E Lilith, a musa do outro lado, sorria no silêncio daquela madrugada, finalmente livre para se manifestar através de quem, por tanto tempo, teve medo de ser visto.

Roberto escreveu até o sol começar a tingir de cinza os prédios da avenida, deixando que a luz do dia apenas confirmasse o que a noite já havia revelado: ele não estava sozinho. Ele nunca esteve. E agora, finalmente, ele estava pronto para contar a verdade.

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