segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Pulando a cerca

John Beckett explora o conceito de fronteiras e pergunta de forma provocativa quem colocou tais limites. O ser humano construiu seu conceito do que é real, do que é mundo, do que é carnal, do que é divino. Nós precisamos de alguns parâmetros para vivermos e funcionarmos neste mundo e a linguagem é um tipo de restrição que tanto pode ser útil quanto perigosa. Quando nós damos à palavra [dita ou escrita] um valor maior do que devia, nos tornamos fundamentalistas. Quando damos à palavra [dita ou escrita] um valor menor do que devia, nos tornamos desonestos.
Entretanto a humanidade está questionando muitos dos [pre] conceitos que existiam e eram considerados eternos. Atualmente existe uma enorme discussão sobre o gênero e eu estou acompanhando com inegável interesse.
Somente agora falam com mais frequência de redesignação de gênero, pessoas que passam por uma cirurgia para que seu corpo reflita seu gênero, @s transgênero, como Caitlyn Jenner. O gênero é uma construção social e isso foi comparado com o caso de Rachel Dolenzal, uma professora ativista dos direitos dos afrodescendentes que é branca. Este é o caso de uma pessoa que passam por uma ressignificação de sua etnia para refletir a etnia que acredita pertencer, ou o fim dos conceitos definitivos sobre etnia e até sobre raça, seria @ pessoa transracial.
Ainda existem algumas fronteiras humanas que vão desafiar nossa percepção e compreensão das coisas. Existem @s transespécies, pessoas que passam por alguma modificação para que seu corpo reflita a espécie que acredita pertencer. Nada mais será como antes. Por mais perturbador que seja para a mente provinciana, não devemos esquecer que em “transcendente” está presente a raiz “trans”.
Por falar em transcendente, assunto comum em diversas espiritualidades, crenças e religiões, a humanidade está também questionando os dogmas que dominaram por séculos e existem diversas formas de espiritualidade/crenças/práticas/religiões alternativas para satisfazer nossas expectativas. Um bom exemplo é o Paganismo Moderno, onde o divino também é imanente, mundano, material e carnal. Aqui existem diversas formas de entender e perceber o divino: monismo, henoteísmo, duoteísmo, politeísmo, monoteísmo e... ateísmo.
Eu escrevi, com certo interesse: “O ateu não recusa a experiência espiritual ou a existência do divino, mas a presunção, a arrogância de um determinado grupo em atribuir a si o monopólio e o privilégio sobre o conhecimento do divino. Para o ateu, a experiência espiritual, bem como a crença e a religião, devem permanecer pessoais. Então a briga do ateu é contra as organizações religiosas, não contra a religião ou a espiritualidade.”
Então existem ateus que são pagãos ou pagãos que são ateus. Coisas que são aparentemente contraditórias. Mas a vida e o mundo são feitos de coisas contraditórias como o ornitorrinco, um mamífero que tem bico de pato e põe ovos. Antes de criticar, eu devo ler e compreender. Infelizmente, os textos escritos por quem se identifica com esse filão de “transcrença” são muito mal escritos e tem argumentos muito fracos. Infelizmente o ser humano é capaz de criar nichos para se sentir confortável.
Mark Green se intitula ateupagão e tenta expor, justificar e embasar. John Halstead é outro humanista/naturista/ateu/pagão que muitas vezes tropeça em seu ceticismo quando escreve seus textos no Patheos. Ambos têm algumas ideias em comum, como a reverência à natureza, a ideia do divino como arquétipo, a importância dos valores morais, a importância da vida comunitário-religiosa, a celebração de determinadas datas sagradas. Em todos os textos, ambos parecem perder completamente o ponto da questão. Ambos estão dispostos a defender suas ideias, o ateísmo, a ciência e assumem ou reproduzem diversos discursos típicos do cético e do descrente.
A que ponto o ateu consegue ter uma espiritualidade sendo tão radical contra certos conceitos espirituais é tão desafiador quanto entender como é possível um cristão ser progressivo. Em algum momento se atinge o cerne desse pensamento, onde não é mais possível dobrar.
A postura de Mark e John diante da Natureza é mais como um evento, desprovido de identidade, consciência ou divino. A ideia de arquétipo, embora seja um recurso da psicanalise, não é uma ideia teísta. O ateísmo em seus princípios afirma que não é necessário alguém ser religioso para ter valores morais. O humanismo provém ao descrente a convivência comunitária, sem necessitar de uma crença. Celebrar datas sagradas sem admitir a existência do reino espiritual ou divino é como jogar futebol sem bola.
Diversas vezes Mark Green critica as opiniões de outros pagãos ou das crenças em geral, mas não é capaz de perceber ou de criticar suas próprias presunções pseudocientíficas religiosas. Mark Green critica a excessiva credulidade no Paganismo Moderno, mas afirma que seu modelo cosmológico é “científico e pagão”. Mark Green critica a irracionalidade das crenças na existência dos Deuses e afirma que sua crença é “racional” [outros credos afirmam o mesmo, com o mesmo insucesso em demonstrar ou sustentar suas afirmações].
O ateupagão pode se defender utilizando os pensadores da Antiguidade que eram “ateus”. Eles certamente têm a mesma preguiça ou desonestidade que eu vejo muito em cristãos, distorcendo ou pinçando apenas o que interessa da História. Texto fora de contexto gera pretexto. Os pensadores da Antiguidade criticavam a forma como as pessoas acreditavam ou falavam dos Deuses, eles não duvidavam da existência Deles.
O interessante é que o ateu moderno se vale da ideia do Neoplatonismo sobre o Logos, a mesma utilizada pelo Cristianismo para defender a “Verdade” contra a idolatria “pagã”. A única diferença entre o cristão e o ateu é sua fonte sobre a “Verdade”. E assim como os cristãos, para o ateu, apenas a sua verdade elegida é a verídica. Então eu não estranho os argumentos de Mark Green tentando refutar críticas contra ele. Infelizmente não é diferente do que eu leio vindo de cristãos.
Tal como o marido infiel, Mark Green gosta de pular a cerca de vez em quando. Só não gosta de ser pego com as calças nas mãos.

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