segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Apologia, certeza e crença

O que há em comum em um pagão, um cristão e um ateu? Todos vão defender seu ponto de vista. Todo ser humano faz isto. Nós temos que apoiar e sustentar nossos pontos de vista, nossas ideias e ideais. Nós somos apaixonados por nossos pensamentos e vamos lutar por eles, por mais que eles sejam incoerentes, contraditórios ou repugnantes.
Não faltam textos, páginas e comunidades na internet que demonstram a versatilidade e diversidade humana. E eu não estou falando da Deep Web, mas de páginas públicas. E eu não estou falando apenas de páginas cristã, mas de páginas de ateus e pagãos. Dependendo de quem escreve, o internauta consegue encontrar desde coisas rasas e estúpidas até grandes sacadas e epifanias.
Alhures eu disse que o ateu e o cristão têm em comum a necessidade da certeza. O ateu tem a ciência para endossar sua certeza da verdade, o cristão tem a crença para endossar sua certeza da verdade. Um evidente exagero, mas tanto o ateu quanto o cristão é um “crente da religião de livro”. Exagero, porque o conteúdo dos livros científicos pode ser comprovado, ao menos naquilo que expõem, mas costumam ser usados para emprestar certa “autoridade” à Ciência e ao Ateísmo em suas críticas a tudo que se refere a crenças e religiões.
E o pagão moderno? De onde ele tira sua “certeza”, de onde vem a nossa “verdade”? Quando nós expomos nossas práticas, crenças, visões, opiniões, teologias, nós temos que nos explicar, nos justificar? Quantos de nós precisamos colocar em sua página um aviso legal ou se vê tendo que fazer uma apologia?
Eu sei que eu tenho que constantemente escrever textos “apologéticos”, diante dos ataques e críticas, tanto de cristãos e ateus, mas também de pagãos. O que eu posso adiantar é que crença não é o mesmo que certeza. A obsessão pela certeza, pela possessão da Verdade, tem mais a ver com uma psicose do que com a busca da Sabedoria, da Verdade, do Conhecimento.
O pagão moderno sabe e admite que sua crença é um assunto particular. Ainda que existam grupos e comunidades que usem a internet para exporem suas crenças e práticas, cabe ao curioso, ao simpatizante e ao interessado pedir para fazer parte do grupo, da comunidade. Nenhum grupo ou comunidade do Paganismo Moderno irá fazer proselitismo.
John Beckett descreveu com exatidão como “funciona” a religião no Paganismo Moderno como sendo um resultado da interação entre prática, crença e experiência. Em outros termos, nós não somos uma “religião de livro”, nem presumimos que nossa crença contenha a mais absoluta Verdade porque é uma “revelação divina”. Eu creio que possa afirmar que o pagão moderno não irá contestar a ciência e a tecnologia. No máximo, podemos contestar aportes filosóficos e teosóficos sobre o divino, sua natureza e sua existência.
No meu caso, a experiência foi a primeira fonte ou base de minhas crenças. Aquilo que percebemos do mundo, de nossa vida, de nosso propósito de existir, não é algo que seja objeto da Ciência, mas sim da Filosofia e da Religião. Coloque um tempero de psicologia, pois como interpretamos e interagimos com essa percepção, com o outro e com o mundo influencia muito nossa compreensão. A experiência é sensorial, mental, subjetiva e errática. A experiência, ainda que seja controlada e feita em laboratório, ainda é apreendida por órgãos sensitivos falíveis e nenhuma observação pode ser inteiramente objetiva enquanto o observador e observado estiverem no mesmo contexto. Eu ouso ir mais longe e provoco ao apontar como a linguagem científica fica muito próxima da linguagem mística, esotérica e religiosa, quando tenta explicar teorias complexas para o público comum.
A minha conclusão é de que explicar a máquina não explica o fantasma que habita nela. E tecnologia é apenas “magia” com outro nome. A tecnologia aplica determinadas ferramentas que utilizam dos mesmos princípios e efeitos da magia, embora ela seja mais bem sucedida, então nós não vamos descartar a tecnologia porque acreditamos na manipulação de energias. O mesmo estudo e compreensão que podemos fazer em relação à tecnologia, podem ser feito em relação à magia. Foi isso que me levou a estudar as diversas práticas de magia. A prática é a segunda, mas a mais importante fonte de nossa crença. A prática reforça e sustenta a experiência e a crença. A prática é bem pragmática, algo é mantido ou sistematicamente reproduzido porque funciona. Quando não funciona, analisamos todos os eventos, elementos, ferramentas e procedimentos. Se a falha pode ser corrigida, a prática vai funcionar. Se não, a prática é descartada.
A prática mostra muito como e porque as coisas são como são, mostra como e porque as coisas funcionam como funcionam. Mas sem a sensibilidade, perde o sentido e sem um objetivo, torna-se fútil. A experiência é a sensibilidade, a crença é o motivo. A crença é a terceira fonte e geralmente a que mais dá trabalho e problema. Por causa do niilismo do mundo contemporâneo e pelo antropocentrismo, qualquer discurso espiritualizado soa como mera superstição.
O pagão moderno é bem diversificado, existem diversas visões e opiniões sobre o divino. O pagão moderno sabe que os Deuses existem, através de suas experiências e práticas. Quando acredita no divino, o pagão moderno geralmente diz que o divino é transcendente e imanente, os Deuses estão além do mundo físico ao mesmo tempo em que se manifestam no mundo físico. Os Deuses tanto podem ser e parecer com as partículas e ondas que foram nosso mundo físico como podem ser e parecer com uma pedra, uma árvore, uma montanha, um bicho, um quadro, um ser humano.
Isto é mais do que suficiente para fomentar diversas polemicas e controvérsias. Por exemplo, nós negamos a existência do pecado ao mesmo tempo em que descartamos o problema do “mal”. Nós negamos a existência do Inferno ao mesmo tempo em que refutamos os questionamentos morais humanos diante do sofrimento. Nós nos debatemos quanto à existência do divino, se é um, se é muitos. Nós nutrimos uma expectativa de aceitação e reconhecimento público de nossas crenças ao mesmo tempo em que tentamos lidar com nossos conflitos internos. Nós temos uma postura politica em defesa do ambiente e dos animais ao mesmo tempo em que vivemos no conforto que a civilização e a tecnologia nos provêm. Nós esperamos que sejamos respeitados por nossas práticas e crenças ao mesmo tempo em que permitimos a existência de vigaristas e farsantes em nosso meio. Nós defendemos a importância da tradição ao mesmo tempo em que damos espaço para práticas ecléticas. Nós nos esforçamos para dar algum respaldo teórico, histórico e sério ao mesmo tempo em que permitimos as mais diversas bobagens. A única certeza é que nós não temos certeza de coisa alguma. Nós apenas admitimos que nós somos humanos, limitados e falíveis. Não é muito difícil de um crente ou descrente sentir um impulso em refutar nossas crenças. Se você se sentir ofendido pelas práticas e crenças de algum pagão moderno, antes de fazer qualquer crítica, analise suas [pseudo] certezas com o mesmo peso. Mas se mesmo assim você sentir tal impulso, se mesmo assim você sentir que é seu dever defender e preservar a verdade, eu vou adiantando minhas desculpas e ressaltando o aviso legal que está bem visível neste blog.

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